Da edição n.º 537, de 2 de abril de 2018, do jornal Revolution/Revolución, voz do Partido Comunista Revolucionário, EUA (http://revcom.us/a/537/april-1968-black-rebellion-that-shook-the-world-en.html em inglês ou http://revcom.us/a/537/abril-de-1968-rebelion-de-los-negros-que-estremecio-al-mundo-es.html em castelhano).

Abril de 1968:
A revolta dos negros que fez estremecer os Estados Unidos e o mundo

Há cinquenta anos, a 4 de abril de 1968, Martin Luther King Jr. foi morto por um assassino em Memphis, Tennessee. King tinha 39 anos e era o principal líder do movimento pelos direitos civis.

King pregava e lutava pela mudança dentro do quadro do atual sistema, sobretudo contra a pobreza e a discriminação que esmagam o povo negro. Antes de ser morto, ele tinha vindo a denunciar cada vez mais a escalada norte-americana da guerra no Vietname. E, como se viria a saber mais tarde, o FBI estava a fazer uma insidiosa campanha contra ele, não só espiando-o como também tentando desacreditá-lo através da propagação de rumores maliciosos, tendo chegado mesmo a enviar-lhe uma carta “anónima” em que o ameaçava de revelar detalhes sobre a vida privada dele e sugerindo que ele cometesse suicídio para evitar um escândalo. Embora muitas pessoas admirassem King, outras, como o emergente Partido Pantera Negra, estavam a procurar e a promover soluções mais radicais e revolucionárias. Estas forças tinham rompido com a via de King de trabalhar dentro do sistema e estavam a enfrentá-lo diretamente.

Mas todos ficaram profundamente afetados com o assassinato de Martin Luther King Jr. e começaram a encarar questões muito profundas. Como cantou Nina Simone três dias depois do assassinato na música “Why? (The King of Love Is Dead)” [“Porquê? (O rei [king] do amor está morto)”]: “Não era um homem violento. / O fanatismo tinha selado o destino dele. / Minha gente, é melhor que parem e pensem. / Todos sabem que estamos à beira. / Que irá acontecer, agora que o rei está morto?” E depois, numa ardente passagem improvisada, ela cantou:

Que irá acontecer agora, em todas as nossas cidades?
O meu povo está a erguer-se...
Se tens de morrer, está bem
Porque sabes o que é a vida.
Sabes o que é a liberdade, por um momento na tua vida.

A repressão violenta, o racismo degradante, a pobreza que rouba vidas... era isto que milhões de negros tinham enfrentado durante tanto tempo e que continuavam a enfrentar diariamente. E depois, ao verem Martin Luther King Jr. ser assassinado, isso foi simplesmente demasiado.

Levantamentos em cidade atrás de cidade

A palavra propagou-se como o fogo: “Eles mataram o Dr. King!” De pessoa para pessoa, de bairro para bairro. Um jornalista que estava com as tropas norte-americanas numa base da Marinha norte-americana no Vietname, entre as quais estavam GIs negros, recordaria mais tarde: “A morte de Martin Luther King entrou pela guerra dentro de uma maneira que nenhum outro evento externo alguma vez tinha feito.”

Houve lágrimas... e uma imensa indignação. Poucas horas depois do assassinato de King, naquela noite de quinta-feira, as chamas iniciais da revolta atearam-se em grandes cidades como Washington DC, Chicago e Baltimore, bem como em cidades de menor dimensão como Flint, no Michigan; Hartford, no Connecticut; Jackson, no Mississípi; e em muitas outras. Durante os dias e noites seguintes e até à semana seguinte, os negros ergueram-se numa revolta nacional sem precedentes que se propagou a mais de 120 cidades em 28 estados norte-americanos.

À medida que as pessoas se punham de pé, o poder foi perdendo o controlo de grandes setores dos bairros negros das zonas urbanas pobres. Os odiados porcos policiais foram expulsos por jovens que atiravam pedras e por pessoas que usavam espingardas a partir dos telhados em autodefesa contra os polícias que disparavam sobre qualquer negro à vista. Em Baltimore, dois dias após o assassinato de King, multidões de mil ou mais homens e mulheres avançaram pelas ruas. As lojas odiadas por enganarem os pobres nos guetos foram completamente incendiadas e as pessoas retiraram os artigos de que tinham estado privadas. Foram reportados mais de mil incêndios só em Washington DC, onde o presidente e outros responsáveis da Casa Branca podiam ver das suas janelas o fumo que se elevava sobre a cidade e havia tropas com metralhadoras a guardar o edifício do Capitólio. Em várias cidades, a abertura da temporada da Liga Principal de Beisebol teve de ser adiada.

Os estudantes da Universidade de Shaw em Raleigh, na Carolina do Norte, da Universidade de Fisk em Nashville, no Tennessee, e de outras universidades afro-americanas juntaram-se à insurreição. Na Cidade do Kansas, no Missouri, as coisas estiveram sossegadas até ao dia do funeral de King na terça-feira a seguir ao assassinato, altura em que um ataque policial com gás lacrimogéneo contra centenas de estudantes que se manifestavam para exigirem que a cidade encerrasse as escolas desencadeou uma insurreição que durou dois dias.

Neste país nunca haverá um movimento revolucionário a não ser que liberte completamente e dê expressão plena ao desejo – por vezes expresso abertamente, por vezes expresso de maneiras parciais, por vezes expresso de maneiras erradas, mas muito profundamente sentido – de [os negros] se libertarem destes longos séculos de opressão. Neste país nunca haverá, e nunca deveria haver, uma revolução que não faça disso um elemento fundamental dessa revolução.

Bob Avakian, BAsics [O BÁsico] 3:19

Houve debates, luta e desafio entre um grande número de pessoas. Carl Dix, do Partido Comunista Revolucionário, EUA, recorda: “Recebi o primeiro aviso de que tinha sido incorporado na tropa em abril de 1968, um par de dias depois de Martin Luther King ter sido assassinado e de a revolta se ter começado a propagar nas cidades. Eu não estava com nenhuma vontade de me apresentar ao Exército. Enviei-lhes um aviso de volta em que dizia que estava demasiado ocupado nesse momento.” Dix acabou por ser incorporado, mas recusou-se a ser enviado para o Vietname e foi encarcerado devido à resistência dele.

Um jornalista negro em Chicago descreveu um acontecimento num bairro negro da cidade: “No Domingo de Ramos, a Rua 63 era um desfiladeiro sinistro, apinhada de pessoas, agitada pela raiva, varrida pelo vento, coberta de vidros e detritos. Enquanto os homens do 4º Batalhão do 46º de Infantaria se mantinham parados à frente das lojas fechadas do quarteirão 100 Leste, 50 adolescentes manifestaram-se frente aos soldados gritando ordens fingidas e insultos. As cabeças dos soldados giravam de leste para oeste, assistindo cautelosamente ao esfarrapado exército adolescente que os passava em revista.”

Reverberações em todo o globo

As notícias e imagens da revolta de abril de 1968 eletrificaram as pessoas em todo o mundo. Subitamente, tornou-se claro para todos que havia profundas divisões e agudos conflitos nas próprias entranhas da odiada besta imperialista.

Mao Tsétung, o líder da China, então um país socialista revolucionário, emitiu a 16 de abril um comunicado em que assinalava que Martin Luther King era “um expoente da não-violência” mas que, “nesse momento, os imperialistas norte-americanos não mostraram nenhuma piedade para com ele, antes usaram uma violência contrarrevolucionária e assassinaram-no a sangue-frio.” E continuava: “A luta afro-americana não é apenas uma luta pela liberdade e a emancipação dos negros explorados e oprimidos, também é um novo toque de clarim para todas as pessoas exploradas e oprimidas nos Estados Unidos lutarem contra a bárbara dominação da classe capitalista monopolista. Ela constitui um imenso apoio e inspiração para a luta de todos os povos do mundo contra o imperialismo norte-americano e para a luta do povo vietnamita contra o imperialismo norte-americano. Em nome do povo chinês, exprimo o nosso apoio resoluto a esta justa luta do povo negro nos Estados Unidos.”

As revoltas de abril de 1968 – e a grande agitação dos anos 1960 ao início dos anos 1970 que atraiu setores muito amplos da sociedade norte-americana fora dos guetos negros – não levaram a uma revolução que de facto derrotasse a classe dominante e o seu sistema. Mas foi possível retirar importantes lições. Por muito cruéis e poderosos que sejam, os imperialistas norte-americanos não são todo-poderosos, mesmo no seu próprio “quintal”. E há um setor da população dos Estados Unidos que é potencialmente uma poderosa força revolucionária, que não tem nada a perder sob este sistema e que, quando as condições estiverem maduras, estará disposto a arriscar tudo para ir até ao fim pela revolução.

Como insistiu poderosamente Bob Avakian alguns anos mais tarde:

Neste país nunca haverá um movimento revolucionário a não ser que liberte completamente e dê expressão plena ao desejo – por vezes expresso abertamente, por vezes expresso de maneiras parciais, por vezes expresso de maneiras erradas, mas muito profundamente sentido – de [os negros] se libertarem destes longos séculos de opressão. Neste país nunca haverá, e nunca deveria haver, uma revolução que não faça disso um elemento fundamental dessa revolução. (BAsics [O BÁsico] 3:19)

Uma violenta repressão total

Quando rapidamente se tornou claro que as forças policiais locais não eram capazes de sufocar as insurreições, foram mobilizadas forças da Guarda Nacional para muitas cidades. E quando mesmo essas forças combinadas pareceram incapazes de conter as revoltas em cidades chave, o presidente norte-americano Lyndon Johnson ordenou a colocação de tropas do exército em Washington DC, Baltimore e Chicago. No total, mais de 50 mil tropas do exército e da Guarda Nacional foram colocadas em dezenas de cidades.

Foi estabelecido um quartel-general de “controlo de motins” dirigido por um general do Pentágono, bem como uma equipa especial de alto nível na Casa Branca. Esta foi a primeira vez desde a guerra civil norte-americana que foram mobilizadas tropas para guardar as cadeiras do poder nacional.

Houve relatos de debates entre os soldados negros na base militar de Fort Meade, no Maryland, quando chegaram as ordens para o 6º Regimento de Cavalaria ocupar Washington DC. Os oficiais receberam ordens para estarem em alerta contra “conspirações” entre os soldados negros, incluindo entre as forças norte-americanas no Vietname.

Em Chicago, ocupada por 11 mil tropas federais, vários negros foram assassinados a tiro – provavelmente pela polícia, ainda que nenhum porco policial jamais tenha sido identificado como assassino, já para não falar em ser acusado. Pouco depois de as autoridades terem restabelecido a “ordem” na cidade, o Presidente da Câmara [Prefeito] Richard Daley deixou claro que tinha dado carta-branca aos porcos policiais para assassinarem: ele mandou o chefe da polícia dar ordens aos polícias dele para “atirarem a matar” sobre qualquer pessoa suspeita de atear um incêndio. Mais tarde, os relatos noticiosos disseram que tinham morrido 46 pessoas a nível nacional nas revoltas de abril de 1968, 41 delas negras, incluindo 14 adolescentes. Mas ninguém sabe realmente quantas pessoas foram de facto mortas pela polícia e pelas tropas. Mais de 20 mil pessoas foram detidas.

Isto foi uma clara exibição, feita pelas instituições e órgãos do poder, da repressão violenta exercida pelos governantes deste sistema capitalista-imperialista que explora as massas populares nos Estados Unidos e em todo o mundo. Os governantes conseguiram voltar a impor a “ordem” deles após vários dias de revolta. Mas as pessoas em geral viram a verdadeira natureza da ditadura da burguesia nos Estados Unidos, mesmo que não tivessem uma total compreensão científica disso. Em vez de ficarem intimidadas, muitas pessoas, negras e outras em geral, ficaram ainda mais enfurecidas com isto e foram impelidas para a oposição e a luta contra o sistema.

Enquanto os governantes reprimiam violentamente as insurreições, a 10 de abril o Congresso norte-americano apressou-se a aprovar uma nova Lei de Direitos Civis que proibia oficialmente a discriminação nas habitações. Eles tinham a esperança que as pessoas acreditassem que o sistema estava aberto à reforma. Mas a lei também continha novas medidas repressivas – como a que faz com que seja um delito grave atravessar as fronteiras estaduais para “incitar um motim”, a qual foi usada contra os revolucionários negros e outros.

Um ponto de viragem

O mês de abril de 1968 marcou um ponto de viragem na luta nos Estados Unidos. Muitas e muitas mais pessoas tiveram de encarar o facto de que enfrentavam um inimigo brutal e implacável – mesmo contra aqueles que resistiam de uma maneira pacífica. Mais pessoas começaram a encarar abraçarem ideias e estratégias radicais e revolucionárias. Elas queriam combater – e vencer – os governantes e o sistema deles.

As pessoas estavam a ver cada vez mais os limites do movimento pelos direitos civis iniciado no início dos anos 1960 e o Movimento de Libertação Negra começou a crescer de uma maneira explosiva. No período que se seguiu às revoltas, organizações como o Partido Pantera Negra e a União Revolucionária, precursora do Partido Comunista Revolucionário e liderada por Bob Avakian, atraíram novos combatentes. Havia um sentimento generalizado de que eram necessárias grandes mudanças fundamentais; e muitas pessoas de diversos setores da população colocaram, confrontaram e debateram importantes questões decisivas: Que mudanças reais são necessárias na sociedade e no mundo? Como se farão essas mudanças? Que tipo de ideologia e que tipo de liderança são necessários? Como se deve mobilizar e organizar as massas populares? Que é necessário para de facto derrotar o inimigo?

Este monstro opressor, o sistema do capitalismo-imperialismo norte-americano, ainda hoje domina – e agora de uma maneira ainda mais grotesca e perigosa sob a forma do regime fascista de Trump e Pence. Mais que nunca, há uma gritante necessidade urgente de uma verdadeira revolução que possa pôr fim a este sistema e abrir a porta a um sistema radicalmente novo e libertador que tenha como objetivo a emancipação da humanidade. A luta do povo negro para se libertar da sua opressão é uma parte chave desta revolução. E um importante setor do povo negro pode vir a reconhecer a grande necessidade social de dar um passo em frente para ajudar a fornecer uma liderança a esta revolução. Como salientou Bob Avakian:

Há o potencial de que algo de uma beleza sem precedentes emerja desta indescritível fealdade: de que os negros desempenhem um papel crucial para pôr um fim, há muito necessário, a este sistema que os tem não só explorado mas também desumanizado, aterrorizado e atormentado, há muito tempo e de mil e uma maneiras – eliminando este sistema da única maneira que isso pode ser feito – através da luta para emancipar a humanidade, para pôr fim à longa noite em que a humanidade tem estado dividida em amos e escravos e em que as massas da humanidade têm sido flageladas, espancadas, estupradas, massacradas, algemadas e amortalhadas na ignorância e na miséria.