Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 8 de Janeiro de 2007, aworldtowinns.co.uk

A pressa por trás do linchamento: Atirar carne aos cães

É irónico e exasperante ouvir os responsáveis norte-americanos alegar que não devem ser considerados responsáveis pela precipitação da execução de Saddam, porque tiveram que se render à “soberania” do governo do primeiro-ministro Nouri al-Maliki. Foi um helicóptero Blackhawk dos EUA que trouxe Saddam de uma base norte-americana para a execução e que depois removeu o seu corpo. Mais basicamente, logo após a execução, os funcionários de Bush ignoraram Maliki e a “soberania” iraquiana quando começaram a planear um “reforço” de tropas norte-americanas apesar de o primeiro-ministro ter expressado publicamente o seu “desconforto” com esse plano.

Na realidade, a pressa de Maliki pode ter vindo do seu conhecimento de que nenhum iraquiano tem a última palavra sobre o que acontece no Iraque. Alguns observadores interpretaram a crítica dos EUA (e eventualmente da Grã-Bretanha) a Maliki como um indício de que os ocupantes também estão a preparar o seu linchamento político. Relembremos que os EUA compuseram a constituição iraquiana e organizaram as eleições em que, pela primeira vez no Iraque, o poder político foi repartido segundo critérios religiosos e étnicos. Washington espalha agora a ideia de que o produto das suas maquinações, o primeiro-ministro Maliki, não tem no seu governo a “vontade” (como diz Bush) necessária para lidar com os “sectários esquadrões da morte”. Contudo, apenas algumas semanas antes da execução de Saddam, Bush convidou Abdul Aziz al-Hakim, líder do Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque (CSRII), para uma confortável reunião. O CSRII está pelo menos tão envolvido nos assassinatos sectários de sunitas como qualquer outro grupo no Iraque.

Os EUA estão a pressionar Maliki para que abandone a sua aliança parlamentar com Moqtada al-Sadr, que deixou de estar nas graças dos EUA. Embora os ataques norte-americanos ao Exército do Mahdi, de Sadr, tenham resultado em enfrentamentos, Sadr tem impedido os seus seguidores xiitas de se envolverem numa guerra contra os ocupantes. Há algumas diferenças doutrinais e talvez sociais entre as três principais organizações xiitas, o Dawa de Maliki, o CSRII de Hakim e o Exército do Mahdi de Sadr, mas a única diferença com que os EUA se preocupam, no que diz respeito a estes reaccionários religiosos sanguinários e famintos de poder, é saber quem parece ajustar-se melhor aos interesses da ocupação. Porém, todos os fundamentalistas xiitas e os EUA têm objectivos de longo prazo e ideologias divergentes. Embora com a execução de Saddam os EUA tenham atirado um pouco de carne crua a esses cães de caça, alguns apoiantes de Bush defendem agora abertamente que, com a saída de Saddam, poderia ser de facto mais fácil para os EUA fazerem regressar os líderes e quadros do partido Baath de Saddam se se tornarem úteis.

Tendo em conta tudo isto, pode-se imaginar que Maliki teve pressa em usar a morte de Saddam para projectar uma imagem de homem forte antes que ele próprio enfrente o fim da sua corda, pelo menos politicamente. Os EUA são conhecidos pelo seu tratamento de “usar uma vez e deitar fora” os seus cães de caça, lacaios e parceiros. Afinal de contas, o próprio Saddam também foi um deles. Maliki pode ter ouvido falar no governante sul-vietnamita Ngo Dinh Diem. Primeiro, os EUA fizeram-no convidá-los a invadir o país e depois fizeram-no assassinar quando ele deixou de lhes ser útil.

Outro ponto revelador sobre o quanto os EUA respeitam a chamada “soberania” iraquiana: em Dezembro, soldados norte-americanos prenderam funcionários iranianos que tinham sido convidados pelo Presidente iraquiano Jalal Talabani. O ataque teve lugar no complexo residencial do líder do CSRII, Hakim. Fontes dos EUA disseram à comunicação social que os homens eram suspeitos de fornecerem armas que iriam ser usadas contra os ocupantes, mas nenhum observador informado acredita nisso. Os serviços secretos britânicos relataram que os iranianos estavam aí para discutir futuras possíveis coligações governamentais, e não para desenvolverem a luta armada contra a ocupação, que o Irão acha estar a correr actualmente a seu favor. Uma vez mais, a ironia é simultaneamente surpreendente e repugnante: o CSRII foi fundado no Irão e as suas milícias armadas foram treinadas pela República Islâmica dos Guardas Revolucionários do Irão. Contudo, esse é o partido iraquiano que, pelo menos por enquanto, o governo Bush parece favorecer mais. O ataque ao complexo de Hakim – ocorrido apenas dias depois de Bush ter abraçado Hakim pessoalmente – pode ter sido uma forma de os EUA lidarem com essa contradição ao melhor estilo dos gângsteres, avisando-o que seria melhor ele cortar com ligações que o possam tornar inconveniente.

Os EUA esperavam, ao invadirem o Iraque, derrubar Saddam e estabelecer um regime mais flexível, virem a ganhar uma maior liberdade para defenderem os seus interesses na região e no mundo. Como mostraram os acontecimentos, a ocupação trouxe maiores carências e constrangimentos e não mais liberdade aos EUA e ao seu comandante-chefe para fazerem o que querem. Os EUA não podem “sair” sem dizerem adeus ao seu estatuto de única superpotência do mundo. A sua política face às forças reaccionárias iraquianas rivais pode mudar do dia para a noite – e de facto isso já aconteceu várias vezes. Mas não tem nenhuma “boa” alternativa que sirva os seus interesses imperiais numa situação que está a ficar fora de controlo devido, em grande parte, às consequências do que os EUA já fizeram no Iraque, incluindo o alimentar da guerra civil.

O linchamento de Saddam foi uma expressão de frustração e de desespero de Bush, dos governantes imperialistas norte-americanos em geral e dos seus actuais parceiros – e todos devem sentir por vezes que estão pendurados no vazio.