Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 11 de Junho de 2012, aworldtowinns.co.uk

PCI(MLM): Sobre a morte da camarada Azar

Camarada Azar

Mehri Ali Malayeri, conhecida como camarada Azar Derakhshan, militante do Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista) e uma das fundadoras da Organização de Mulheres 8 de Março (Irão-Afeganistão), morreu a 26 de Maio com 53 anos, após um combate contra o cancro que durou quase 11 anos.

Centenas de pessoas vindas de toda a Europa e de fora dela juntaram-se a 8 de Junho no cemitério Père Lachaise em Paris para participarem no funeral dela. O grupo diversificado incluía a família, amigos e muitas apoiantes da Organização 8 de Março, bem como activistas e outras pessoas de muitas nacionalidades. Caminharam até ao Muro dos Comunardos, o local onde foram executados os últimos combatentes da Comuna de Paris, para prestarem homenagem a esses homens e mulheres que resistiram até ao fim na primeira revolução proletária, e prosseguiram depois para o crematório.

À noite houve um programa cultural para celebrar a vida da camarada Azar, com canto, dança, poesia e um pequeno filme sobre esta conhecida camarada, o qual incluía entrevistas a ela e excertos de intervenções públicas dela. Vários grupos e pessoas individuais, incluindo alguns do Irão, enviaram declarações de condolências e solidariedade. Também foi lida em voz alta uma mensagem sobre a camarada Azar escrita por jovens mulheres estudantes do Irão.

Publicamos a seguir um comunicado do Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista).

Partiu uma das estrelas dos movimentos comunista e de mulheres que deixou um doloroso vazio nos nossos corações. Perder aqueles que se mantém de pé perante a tempestade e que iluminam os céus é particularmente difícil e grave.

Do fundo dos nossos corações, queremos exprimir a nossa profunda apreciação e agradecer aos nossos queridos amigos e camaradas, aos partidos e organizações do movimento de esquerda do Irão e de outros países, aos nossos companheiros combatentes e camaradas de armas em todo o mundo que nos estenderam a sua solidariedade a nós e à família da camarada Azar.

Nenhuma palavra consegue descrever plenamente a beleza desta solidariedade. Ela é a expressão de seres humanos que sonham em construir uma sociedade onde as pessoas possam viver a sua existência social directamente e sem barreiras.

Todos nós partilhamos a dor de alguém que morre muito cedo, não só porque ela tinha apenas 53 anos, e não só porque muitos de vós, queridos amigos, tinham acabado de estabelecer laços de amizade com ela, mas fundamentalmente porque cada um de nós, à nossa própria maneira, sente que as capacidades intelectuais revolucionárias dela ainda se estavam a desenvolver, ainda estavam a florescer, ainda constantemente nasciam de novo.

Ao mesmo tempo, os nossos profundos sentimentos comuns de amor para com a camarada Azar são uma reacção à nossa experiência comum no caminho revolucionário para eliminar a sociedade de classes. Todos nós, que sonhamos em transformar radicalmente a nossa sociedade, temos enfrentado questões perturbadoras semelhantes e temos sido influenciados pelas nossas derrotas e avanços neste caminho. Nele, temos feito grandes sacrifícios, bem como cometido grandes erros.

Camarada Azar

Repensar esta experiência era uma preocupação da camarada Azar. Ela reconheceu as contradições, deu explicações para elas e apontou para um caminho de emancipação com todas as suas complexidades. As palavras dela tinham uma força poderosa que fazia estremecer a consciência dos que ela tocava. Ela viveu aquilo em que acreditava.

A camarada Azar aderiu à União de Comunistas do Irão (UCI) pela primeira vez em 1979, numa altura em que as chamas da revolução se elevavam e a luta das massas se ampliava a cada dia que passava. Mas a camarada Azar que nós conhecemos e o partido de que ela era militante foram fundamentalmente produtos do período em que a UCI se ergueu das suas cinzas e progrediu ao longo de caminhos tortuosos. Como escreveu o poeta Ahmad Shamlou, só a tempestade pode dar à luz crianças inesperadas.

Ela deixou o Irão em meados dos anos 1980 com os seus dois filhos pequenos e juntou-se novamente à UCI. Foi um período em que os sobreviventes desta corrente política, que eram sobretudo pessoas nos seus 30 anos, haviam enterrado os seus camaradas desaparecidos e sarado as suas feridas, e estavam a batalhar com as ardentes questões colocadas pela derrota. Não só a derrota da revolução no Irão mas também os reveses históricos a nível mundial, a restauração do capitalismo nos países que tinham sido socialistas e o aparecimento de regimes opressores a partir do que tinham sido várias décadas de movimentos de libertação nacional em três continentes.

Sob o fardo da derrota da revolução no Irão e da destruição das organizações comunistas, muitas pessoas perderam o seu rumo, enquanto outras recuaram e mantiveram-se na via revolucionária. A camarada Azar foi uma das mais firmes entre as segundas.

Os que se mantiveram neste caminho difícil durante o período de crise ainda conseguiram ir buscar uma grande energia à insurreição de Sarbedaren em 1981, que tentou derrubar a República Islâmica do Irão. Mas sem fornecer respostas às questões colocadas pelas grandes derrotas, a perseverança neste caminho era impossível. Nós estávamos imbuídos do mesmo espírito que levou Eugene Pottier a escrever as palavras da Internacional após a derrota da Comuna de Paris, mas também precisávamos do que Marx fez com a sua análise dessa experiência histórica.

Reconhecer o que estava correcto e o que estava errado, defender o correcto e romper com o incorrecto, era uma tarefa muito difícil. A camarada Azar esteve entre os camaradas que tiveram a coragem de romper com velhas ideias, bem como defender os êxitos do passado.

O exílio forneceu uma excepcional oportunidade para o restabelecimento de laços com os revolucionários comunistas do resto do mundo. Redescobrimos o internacionalismo proletário ao mais alto nível e com um âmbito mais vasto. A camarada Azar bebeu constantemente da fonte deste internacionalismo e cresceu. Ela tinha um coração grande e horizontes largos. Ela via-se a si própria como pertencendo a todas as partes do mundo. O coração dela batia com todas as lutas contra a opressão e a injustiça em qualquer canto do mundo, da Palestina, Índia, Bangladesh e Nepal ao Peru, Colômbia e Estados Unidos. Ela seguia cuidadosamente os debates teóricos no movimento comunista internacional. Ela devorou avidamente os saltos teóricos no comunismo científico. Qualquer conhecimento que tivesse o poder de explicar os problemas trazia-lhe imensa alegria. Ela estava aberta a qualquer teoria que pudesse explicar os problemas de uma forma mais correcta.

Os laços inquebráveis dela com as massas oprimidas e exploradas tornaram-na ainda mais ávida no absorver desse conhecimento, porque sabia que as massas estão condenadas à escravidão eterna sem esta ciência da revolução. Há muitos anos, ela tinha feito a paginação para um livro intitulou A Ciência da Revolução. A frase no verso do livro era uma das que ela repetia sempre perante as rebeliões das massas: Irão eles romper as suas grilhetas ou apenas sacudi-las?

Camarada Azar

O período de reconstrução da UCI centrou-se na análise de questões de linha e em romper com pontos de vista errados e desenvolver perspectivas correctas. Um dos passos decisivos foi a corajosa rotura da UCI com os pontos de vista dominantes em relação à opressão da mulher. Esse passo em frente representou um importante papel no florescimento de Azar. Ela tornou-se uma comunicadora hábil e conhecedora dessa linha e ajudou a aprofundá-la. Ela compreendia cada vez mais o significado de se ser mulher neste mundo, em todos os seus aspectos. Ela compreendeu que as relações de opressão de género se impõem numa grande variedade de formas complexas, não só na sociedade e na família mas também no interior de uma organização comunista cujo objectivo é construir um mundo sem classes e sem “homem” e “mulher”, e que é necessário rebelarmo-nos constantemente contra essas relações que irão marcar a sociedade humana até à instauração do comunismo.

Desde 1998 que as actividades partidárias da camarada Azar se centraram em forjar um pólo revolucionário dentro do movimento das mulheres do Irão. A perseverança dela no desenvolvimento da Organização de Mulheres 8 de Março e o papel global dela em ajudar a estabelecer um pólo revolucionário na luta contra o pólo reformista tornou-a muito conhecida. A camarada Azar tornou-se na distinta porta-voz deste pólo.

A República Islâmica, sabendo que as mulheres iranianas são um vulcão prestes a explodir, iniciou um esquema político que visou neutralizá-las e mobilizou os seus “soldados feministas islâmicos”. A camarada Azar declarou que nunca deveremos permitir que as mulheres fiquem apanhadas nos projectos políticos de uma facção do regime. Ela lutou contra eles e apontou um outro caminho, chamando outros a tomarem-no e insistindo apaixonadamente num futuro diferente.

Ela criticou duramente os que persistem em alinhar com um ou outro dos lados em contenda na disputa entre o imperialismo e o fundamentalismo islâmico. Ela considerava que sistemas políticos como a República Islâmica, o baathismo iraquiano, a república turca e sistemas semelhantes, bem como as democracias ocidentais, estavam podres e obsoletos, baseados na exploração de seres humanos por outros seres humanos e na opressão de género. Ela compreendeu que todos esses sistemas políticos e os seus governantes têm de ser derrubados.

A camarada Azar era uma boa unificadora. Nos seus esforços para forjar uma grande unidade revolucionária dentro do movimento das mulheres, ela insistiu nos princípios, ao mesmo tempo que mostrava a flexibilidade necessária para com aqueles com quem ela se estava a tentar unir. Ela ligava-se facilmente a camaradas de outros partidos e tendências e estabelecia o diálogo intelectual com eles sem fazer compromissos ou tentar um denominador comum, mas através da argumentação. Ela era muito eficiente a ensinar, bem como a aprender. Recolhia alegremente todos os pingos de conhecimento e todas as centelhas de consciência e transmitia-as cuidadosamente aos seus camaradas.

Ela tinha um profundo respeito pela arte e pelos artistas progressistas. Ela compreendeu o importante papel da arte e da literatura na história, tanto na reprodução de sistemas de opressão e exploração como na luta contra eles. Ela tinha um conhecimento muito desenvolvido dessa esfera, o qual a ajudou a aguçar os seus pensamentos, tornou a sua linguagem mais bonita e fê-la voar mais alto nos seus esforços para mudar o mundo.

Ela sempre disse às camaradas mulheres que desenvolvessem as suas capacidades estudando a teoria, pensando e escrevendo e desenvolvendo as ideias. Ela dizia que essas capacidades não podem ser desenvolvidas simplesmente por se ter sofrido a opressão. Dizia-lhes que sem estudarmos e sem compreendermos as teorias comunistas, estaremos impossibilitados de distinguir entre os caminhos correctos e os falsos, e impossibilitados de persistir na luta pela libertação da mulher como objectivo final.

Ela estudou e propagou novos pontos de vista comunistas durante o último período da vida dela. Ela costumava dizer que tinha tentado diferentes formas de atrair as pessoas para estas teorias, sobretudo em relação à libertação da mulher. Dizia que sem estas teorias o nosso movimento morrerá. Dizia que os outros podem pensar que estas teorias são nossas, mas elas pertencem a toda a gente. Quando alguma coisa é verdadeira não pode permanecer apenas nas mãos de um partido ou um grupo. Estas verdades servem para preservar e fortalecer um movimento sem o qual não pode haver nenhuma emancipação da opressão e da exploração.

A mente activa e o espírito militante dela também vieram em ajuda dela na sua luta contra o cancro. Ela sabia que estava envolvida numa batalha em que o fim era claro. E mesmo nessa batalha, ela inspirou toda a gente.

Camarada Azar

Qual destas qualidades mais define a camarada Azar? A rebeldia, a consciência e o conhecimento, a inflexível oposição às velhas ideias e tradições, a imensa energia, a perseverança, o trabalho árduo para fazer o impossível acontecer.

A camarada Azar era uma comunista. Foi uma comunista num período em que por inúmeras vezes foi declarada a morte do comunismo. Ela considerava-se uma activista a tempo inteiro neste caminho. Ela lutou com todo o seu ser para criar uma nova geração de comunistas revolucionários. A mensagem dela à nova geração foi esta: Absorvam a experiência das gerações anteriores, mantenham-se de pé para verem os horizontes longínquos, vejam de uma forma muito melhor o que nós fizemos e conquistem novas alturas. Quando via os jovens que absorviam a sua mensagem, os olhos dela reluziam.

Quando os povos oprimidos produzem alguém como a camarada Azar, começam a acreditar realmente na sua própria capacidade de mudar o mundo. A camarada Azar tornou-se num papel modelo para a luta. Tornou-se numa poderosa proclamação contra os sistemas sociais reaccionários dominantes no mundo. Uma nova sensação de confiança brota dos corações deles, a de que podemos e temos de derrubar o sistema de opressão e exploração e criar um mundo novo.

A camarada Azar não sobreviveu para caminhar no meio de uma verdadeira tempestade revolucionária que irá enterrar a odiada República Islâmica do Irão.

Ela não sobreviveu para ver a ascensão de uma nova vaga da revolução proletária e o estabelecimento de uma nova sociedade socialista, do tipo de socialismo que deve ser mil vezes melhor que antes. Mas ela sonhou com as suas formas e nos sonhos dela erguia-se um andaime.

Quando as novas vagas revolucionárias surgirem no Irão e em todo o mundo, o rosto da camarada Azar e de muitos como ela brilharão como uma estrela vermelha no topo dessas vagas.

Querida camarada Azar, escrevamos uma vez mais a música da libertação e da revolução. Mas quão doloroso é estarmos a fazê-lo sem ti. Prometemos que iremos perseverar até ao fim para concretizarmos os nossos sonhos e objectivos comuns e para transformarmos a nossa dor em persistência na luta pelo derrube da República Islâmica e do sistema capitalista e chegarmos a um mundo comunista. Neste grandioso caminho, a tua memória estará sempre viva e alimentará a nossa luta. Adeus, camarada inesquecível.

A camarada Azar Derakhshan num programa televisivo em 2008

Intervenção da camarada Azar Derakhshan numa sessão do Comité de Mulheres Contra a Lapidação,
a 8 de Março de 2009 em Paris

Imagens do funeral da camarada Azar Derakhshan