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Esta entrevista e a linha temporal anexa “A VERDADEIRA história da revolução comunista” foram traduzidas para português (com algumas notas adicionais) pela paginavermelha.org a partir da edição especial n.º 323, de 24 de novembro de 2013, com uma atualização de 30 de abril de 2014, do jornal Revolution/Revolución, voz do Partido Comunista Revolucionário, EUA. Está disponível em inglês em http://revcom.us/a/323/you-dont-know-what-you-think-you-know-en.html e em castelhano em http://revcom.us/a/323/no-sabes-lo-que-crees-que-sabes-es.html. Uma versão integral está disponível em formato eBook em inglês na editora Insight Press, na Amazon.com, na Apple/iTunes e na livraria Barnes & Noble. Uma versão em formato PDF em inglês está disponível através do Independent Publishers Group (IPG), ipgbook.com, e em castelhano em http://aurora-roja.blogspot.pt/2015/11/no-sabes-lo-que-crees-que-sabes-sobre.html.

Raymond Lotta é um promotor da nova síntese do comunismo de Bob Avakian. É um economista político, autor do livro América em Declínio e colunista do jornal Revolution/Revolución. Dirige o “Projeto Repor a Verdade” (“Set the Record Straight”) que expõe a verdade sobre as revoluções soviética e chinesa e disponibiliza recursos na internet.

 

Não sabes o que crês que “sabes” sobre...

A revolução comunista e o VERDADEIRO caminho para a emancipação: A sua história e o nosso futuro

Uma entrevista a Raymond Lotta

 

Índice

1º Capítulo: Introdução

As mentiras da visão convencional

Precisamos da revolução e de um mundo inteiramente novo

2º Capítulo: A primeira alvorada – A Comuna de Paris

Marx retira a lição essencial da Comuna: Precisamos de um novo poder de estado

3º Capítulo: 1917 – A revolução abre caminho na Rússia

Lenine e o papel vital da liderança comunista

Um novo tipo de poder

Mudanças radicais: As mulheres

Mudanças radicais: As nacionalidades minoritárias

As artes

José Estaline

A construção de uma economia socialista

A luta nas zonas rurais

Mudar as circunstâncias e mudar a maneira de pensar

Um ponto de viragem: A revolução é esmagada na Alemanha e os nazis chegam ao poder

Erros e reveses

Um ponto de orientação

Dois tipos diferentes de contradições

Uma relação crucial: Fazer avançar a revolução mundial, defender o estado socialista

4º Capítulo: China – Um quarto da humanidade escalou novas alturas de emancipação

Nasce uma revolução

A China nas vésperas da revolução

Mobilizar as massas para transformar toda a sociedade

Uma questão não resolvida: Que rumo para a sociedade?

O Grande Salto em Frente

Uma via sã e racional de desenvolvimento

A verdade sobre a fome

A Revolução Cultural: O maior avanço da emancipação humana até agora

O perigo de a revolução fazer marcha atrás

Libertar os jovens para iniciarem a Revolução Cultural

A natureza contraditória do socialismo

“Foi uma verdadeira revolução”

Debates de massas, mobilização de massas, crítica de massas

As “novas coisas socialistas”

“Natureza humana” e transformação social

O envio de intelectuais para as zonas rurais

O que está errado na “história feita através de autobiografias”?

A última grande batalha de Mao

5º Capítulo: Rumo a uma nova etapa da revolução comunista

Bob Avakian desenvolve uma nova síntese do comunismo

Aprender com a Revolução Cultural e avançar para além dela

O mundo precisa da nova síntese da revolução comunista

Notas

ANEXO

A VERDADEIRA história da revolução comunista

 

1º Capítulo: Introdução

As pessoas precisam de saber a verdade sobre a revolução comunista. A PURA verdade. Num momento em que as pessoas se estão a erguer em muitos lugares no mundo inteiro à procura de saídas, ESTA alternativa é declarada inaceitável. Num momento em que cada vez mais pessoas se inquietam e colocam grandes questões sobre o futuro, ESTA alternativa é constantemente caluniada, difamada e distorcida, ao mesmo tempo que àqueles que a defendem é negado espaço para responderem. É urgente responder a essas questões e dizer a VERDADE sobre a revolução comunista – o verdadeiro caminho de saída dos horrores que as pessoas sofrem hoje e dos horrores ainda piores que enfrentarão amanhã. Para isso, o jornal Revolution/Revolución organizou uma entrevista a Raymond Lotta feita por diferentes grupos de pessoas em diferentes pontos do país e de maneira a que outras pessoas lhe enviassem perguntas. O que se segue é uma versão sintetizada e editada com base nessas entrevistas, acrescentando novo material produzido desde a realização dessas entrevistas.

Pergunta: Ouvi-te falar da “primeira etapa” da revolução comunista. Exatamente a que te estás a referir?

Raymond Lotta: Estamos a falar de uma mudança de maré na história humana, as primeiras tentativas na história moderna de construir sociedades livres da exploração e da opressão. Especificamente, estamos a falar da efémera Comuna de Paris de 1871, da revolução russa de 1917-1956 e da revolução chinesa de 1949-1976. Elas foram levantamentos titânicos dos “escravos” modernos da sociedade contra os seus “amos”. Visaram criar uma comunidade da humanidade, uma sociedade baseada no princípio “de cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades”, uma sociedade onde deixem de existir divisões entre as pessoas em que algumas dominam e oprimem as outras, roubando-lhes não só os meios para terem uma vida digna mas também o conhecimento e os meios para realmente compreenderem o mundo e agirem para o transformar.

Nunca antes como nestas revoluções houve transformações tão radicais e de tão longo alcance na maneira como a sociedade está organizada e como funcionam as economias, na cultura e no ensino, na maneira como as pessoas se relacionam umas com as outras e como as pessoas pensam e sentem. Contra incríveis adversidades e obstáculos, e num intervalo de tempo que equivale a um nanossegundo da história humana, estas revoluções realizaram coisas extraordinárias – e mudaram o curso da história humana. Nunca antes foi tão decisivamente destruído o mito de uma natureza humana imutável – segundo o qual as pessoas são “naturalmente” egoístas e algumas pessoas se limitam a dominar “naturalmente” as outras.

Durante essas poucas décadas, pareceu estar à beira de nascer um mundo melhor. Como se diz em Comunismo: O início de uma nova etapa – Um manifesto do Partido Comunista Revolucionário, EUA, pela primeira vez foi aberta uma brecha na “longa noite [de] milhares de anos de trevas para a grande maioria da humanidade” – com a sociedade dividida em exploradores e explorados, opressores e oprimidos – e começou a ser criada toda uma nova forma de sociedade.1

As mentiras da visão convencional

P: Mas a visão convencional é de que estas revoluções não foram libertadoras, mas antes extremamente autocráticas, esmagando os direitos das pessoas – utopias transformadas em pesadelos.

RL: Sim, essa é a visão convencional, e ela é construída sobre distorções e falsificações sistemáticas, sobre infindáveis mentiras em relação ao que foram estas revoluções: o que de facto pretendiam fazer, o que de facto conseguiram e que desafios e obstáculos concretos enfrentaram.

Ora, as pessoas têm uma certa consciência de como lhes mentiram sistematicamente sobre coisas como as “armas de destruição em massa” que foram o pretexto para a guerra no Iraque. E não estamos aqui a falar de mentiras menores – a guerra do Iraque resultou na morte de centenas de milhares de pessoas e na deslocação de milhões.

Mas demasiadas pessoas que se consideram de “pensamento crítico” também estão demasiado dispostas a aceitar a “visão convencional” sobre o comunismo. E deixem-me ser claro, a classe dominante e os guardiães intelectuais do statu quo têm estado empenhados num implacável ataque ideológico ao comunismo – através do jornalismo popular, de pretensos estudos académicos, de autobiografias que traficam a “autenticidade da experiência pessoal”, de filmes e por aí adiante.

Sabem, há vários anos que estou empenhado num projeto chamado “Repor a Verdade” (“Set the Record Straight”), que lida com estas distorções e leva às pessoas a verdade sobre estas revoluções. Por exemplo, em 2009-2010, fiz uma digressão por varias universidades e uma coisa que fizemos foi instalar mesas nas universidades com um “teste surpresa” sobre factos básicos das revoluções comunistas.2

E os estudantes deram respostas muito erradas. Isso é vergonhoso, não só pelo que indica sobre o ensino superior, como, mais importante, porque se está a roubar às pessoas uma compreensão vital de como o mundo poderia ser radicalmente diferente, de como poderia ser um lugar muito melhor onde os seres humanos pudessem realmente florescer.

Há aqui muito em jogo, há uma verdadeira relevância e urgência neste preciso momento.

Precisamos da revolução e de um mundo inteiramente novo

P: Que queres dizer com “há muito em jogo”?

RL: Vejam o estado do mundo: as guerras injustas, a pobreza e a cruel desigualdade, a indescritível opressão e degradação das mulheres. A crise ambiental está a acelerar e nada está a ser feito para a parar. A classe capitalista-imperialista no poder – que detém e impõe violentamente esse poder, que controla a economia mundial e os recursos do mundo –, esta classe e o sistema a que preside colocaram-nos numa trajetória que está a ameaçar os próprios sistemas de equilíbrio ecológico e de apoio à vida no planeta.

As pessoas estão a responder, sobretudo a nova geração. Temos visto grandes erupções de protesto e rebelião: a massiva insurreição no Egito em 2011, os movimentos Ocupar, os jovens desafiadores na Grécia e em Espanha e as recentes erupções no Brasil e na Turquia. As pessoas estão a pôr-se de pé. Estão a examinar e a procurar soluções e filosofias. Vários programas e pontos de vista políticos têm ganhado influência e seguidores: os “movimentos sem líderes”, de “democracia real”, “anti-hierarquia”, “anti-estado” e “horizontalistas”, a “democracia económica” e por aí adiante.

Mas a única solução que é imediatamente rejeitada é a revolução comunista. Contudo, é única e precisamente a revolução comunista que pode de facto lidar com os problemas da sociedade e do mundo que causam tanta agonia às pessoas... e que pode concretizar as aspirações mais elevadas que têm levado as pessoas às ruas.

E nós estamos a ver o preço do que significa não haver uma liderança, uma visão e um programa comunistas.

Veja-se o Egito. As pessoas derrubaram heroicamente o regime de Mubarak. À superfície, pareceu haver uma mudança dramática. Mas as forcas armadas representantes do imperialismo continuam no poder e as pessoas estão presas no torniquete de duas alternativas inaceitáveis: o fundamentalismo islâmico ou uma ou outra variante da democracia ocidental ao serviço do imperialismo. A noção de que um movimento “sem líderes” pode de alguma maneira produzir uma mudança fundamental mostrou ser uma perigosa e mortal obstrução e ilusão.3

P: Mas as pessoas dizem que Lenine e Mao só tomaram o poder para um pequeno grupo. Como respondes a essa acusação?

RL: Lenine4 na Rússia em 1917 e depois Mao5 na China lideraram partidos que, por sua vez, lideraram milhões e depois dezenas de milhões de pessoas em revoluções que enfrentaram os mais profundos problemas da sociedade. Eles aplicaram e desenvolveram a teoria do comunismo científico inicialmente desenvolvida por Karl Marx6. Esta ciência põe a descoberto a fonte da exploração e miséria na sociedade – a divisão da sociedade em classes em que, com base nisso, um pequeno grupo monopoliza a riqueza e controla a sociedade. E mostra como tudo isto pode ser fundamentalmente superado e erradicado, através de uma revolução que corresponda aos interesses da classe explorada de hoje e que a envolva como sua base fundamental: o proletariado.

Os partidos criados e liderados por Lenine e por Mao fizeram duas coisas. Primeiro, lideraram as massas a fazerem revoluções – para derrubarem o velho sistema. Segundo, lideraram o povo a estabelecer novas estruturas que capacitaram as massas a começarem a assumir a responsabilidade pela governação da sociedade e pela sua transformação – iniciando o processo de abolição de todas as relações de exploração e opressão e de todas as instituições e ideias que correspondem a essas relações e as reforçam.

Marx tinha posto a descoberto a possibilidade de uma nova alvorada emancipadora e libertadora para a humanidade. Ele insistiu que, em última instância, isto tinha de ser obra das próprias massas. E estas revoluções deram uma expressão viva a isso.

Ao mesmo tempo, não era possível fazê-lo sem uma liderança – uma liderança científica e visionária. E a aprendizagem desta lição foi paga em sangue na primeira grande tentativa de revolução – a Comuna de Paris.

2º Capítulo: A primeira alvorada – A Comuna de Paris

Pergunta: Podes dizer-nos algo mais sobre a Comuna de Paris?

Raymond Lotta: A Comuna de Paris aconteceu em 1871, durante os dias finais de uma guerra entre a França e a Alemanha. O povo de Paris estava a sofrer horrivelmente – um gigantesco desemprego, escassez de alimentos e a destruição causada pela guerra. A 18 de março, ergueu-se contra o seu “próprio” governo. A Guarda Nacional de Paris, que tinha influências radicais, revoltou-se – e vários setores da cidade uniram-se numa insurreição. A Guarda Nacional ocupou os edifícios municipais da maioria dos bairros de Paris e executou dois generais do governo francês do período de guerra.

Uma semana depois, a Guarda Nacional organizou novas eleições municipais. Foi criado um novo governo, a Comuna. Era constituído por socialistas, anarquistas, marxistas, feministas, democratas radicais e elementos de outras tendências.

De imediato, a Comuna aboliu as antigas forças policiais. Introduziu reformas sociais radicais: a separação entre a igreja e o estado; tornou o ensino profissional disponível às mulheres e atribuiu pensões às mulheres solteiras; e cancelou muitas dívidas. A Comuna estabeleceu centros onde os desempregados podiam encontrar trabalho. E a Comuna permitiu que os sindicatos e as cooperativas operárias ocupassem e gerissem as fábricas que os capitalistas tinham abandonado durante a guerra. Os imigrantes foram autorizados a tornarem-se cidadãos plenos.

Mas não foi apenas um novo governo a tomar medidas progressistas. Houve uma tentativa de criar uma nova maneira de governar, um tipo diferente de sistema de governação.

P: Que queres dizer com isso?

RL: Os comunardos, como eles eram chamados, tentaram criar um sistema político que representasse os interesses e as necessidades dos operários, dos pobres urbanos e das classes mais baixas da sociedade – aqueles que durante muito tempo tinham sido oprimidos e a quem tinha sido negado o poder político. E também tinham como objetivo criar uma forma de governação que operasse de uma maneira diferente da do sistema burguês. Tentaram que os administradores prestassem contas às pessoas que os elegeram; tentaram simplificar o governo e ligá-lo mais diretamente aos aspectos mais difíceis e tumultuosos da vida das massas.

P: Conheci anarquistas que dizem basear-se na Comuna de Paris – que esta é o modelo deles. O que está errado nisso?

RL: Bem, a Comuna tinha alguns problemas, mas um deles era muito grande. Os comunardos tinham conseguido que tudo isto acontecesse em Paris – e foi realmente admirável o que eles fizeram – mas eles não tinham derrubado de uma maneira decisiva a velha ordem exploradora nem destruído por completo o velho poder de estado. De facto, os principais líderes políticos e as forças militares do antigo governo francês tinham fugido para os arredores de Paris, para uma zona chamada Versalhes.

Estão a ver, o comité central da Comuna concebia o que eles estavam a fazer como uma revolta municipal e que conseguiriam aguentar-se em Paris. Os comunardos tinham a ideia de que, ao criarem a Comuna, esse modelo e a sua criatividade no espaço agora libertado de Paris, seria o exemplo que o resto do país seguiria. Mas esta análise não era correta.

A classe dominante francesa não se conformou com a sua derrota inicial e continuava a ter o poder para impor a sua vontade – nomeadamente as forças armadas regulares.

Em maio, esse governo reacionário de Versalhes tinha juntado um exército de 300 mil soldados. A 21 de maio, o exército reentrou em Paris para esmagar a Comuna. Os comunardos resistiram heroicamente. Mas as forças militares atravessaram as barricadas de rua deles e começaram a massacrar entre 20 e 30 mil parisienses – só no decurso de uma semana. Ficou famosa uma última posição, num cemitério, com as pessoas literalmente encostadas ao muro. Seguiu-se-lhe uma vaga de execuções.7

Marx retira a lição essencial da Comuna: Precisamos de um novo poder de estado

Karl Marx apoiou entusiasticamente a Comuna. Após a sua derrota, ele avaliou cientificamente o significado e as lições dela. Assinalou que a Comuna tinha prefigurado positivamente um novo tipo de estado, a ditadura do proletariado – que os comunardos não estavam simplesmente a tomar a máquina do velho estado e a tentar usá-la de uma maneira progressista. Mas também assinalou que uma das fatais fraquezas da Comuna de Paris foi não ter marchado sobre Versalhes e destruído e desmantelado completamente a máquina do velho estado, concentrada no exército permanente da velha ordem. Também assinalou que a Comuna não desmantelou nem tomou os recursos do Banco de França, o qual estava a financiar o reagrupamento do velho regime e do seu exército em Versalhes.

Marx mostrou que todos os estados são, na sua essência, uma ditadura da classe dominante na sociedade. Ou seja, pode haver algumas formas de democracia, mas enquanto a sociedade estiver dividida em classes, o exército, a polícia, os tribunais e o poder executivo irão impor os interesses da classe dominante – o que hoje quer dizer a classe capitalista-imperialista. Repito, uma lição chave da Comuna foi que o poder estatal capitalista tem de ser completamente esmagado e desmantelado, tem de ser substituído por um novo sistema de poder de estado, a ditadura do proletariado. Por outras palavras, é necessário desmantelar as forças armadas do velho sistema – e, para estabelecer todo um novo sistema económico e social, é necessário criar um novo poder de estado que possa impor a vontade dos oprimidos e explorados.8

E a Comuna tinha uma outra debilidade: não tinha a liderança necessária para analisar, confrontar e agir em relação aos desafios concretos que enfrentou. Não tinha uma liderança que se baseasse numa compreensão científica do que é necessário fazer para derrotar a contrarrevolução e do que é necessário fazer para avançar para transformar a sociedade – sabem, para criar uma nova economia e um novo sistema social.

A Comuna foi um avanço inspirador e histórico-mundial para a humanidade oprimida. Nesse fugaz momento da Comuna esteve o embrião de uma sociedade comunista sem distinções de classe nem opressão social.9

Foi Lenine que aplicou as lições da Comuna e liderou a revolução russa que criou o primeiro estado socialista do mundo.

Menos de 50 anos depois da derrota da Comuna, ocorreu uma revolução muito mais vasta e profunda – na Rússia. Como eu estava a dizer, Lenine retirou as lições da Comuna e desenvolveu uma compreensão da necessidade de uma liderança de vanguarda. Porque a verdade é que uma razão chave para a Comuna não ter conseguido concretizar o seu incrível potencial foi a ausência de uma liderança unificada. Algumas pessoas dizem que isso foi uma coisa boa da Comuna. Mas a ausência de liderança foi uma das razões por que eles foram esmagados – e isso não é uma coisa boa!

P: Mas o que estás a dizer vai contra todo este ponto de vista – estou a pensar no tipo de movimentos que indicaste, como o Ocupar – de que uma liderança altamente organizada sufoca as pessoas.

RL: Sim, essa ideia anda por aí, em força, e é profundamente errada. Lenine desenvolveu a compreensão científica da necessidade de um partido de vanguarda com base em duas noções críticas. Uma, a de que as massas populares não podem desenvolver espontaneamente uma consciência revolucionária e um entendimento científico de como a sociedade está estruturada e funciona e das maneiras, das únicas maneiras, como pode ser radicalmente transformada – a partir da sua própria experiência e luta diárias. Veja-se o Egito. As pessoas foram verdadeiramente corajosas em se porem de pé, mas tinham todas aquelas ilusões sobre os militares egípcios. É necessária uma liderança para levar esta compreensão às massas populares. Com base nessa compreensão, as massas podem ser libertadas para transformarem conscientemente o mundo – e isto é parte do que tem sido demonstrado pela história e de que iremos falar. Fazer a revolução requer ciência. A revolução requer paixão, alento, coragem e energia criativa. Mas isso em si mesmo não irá mudar o mundo – sem um entendimento científico do que é necessário para fazer a revolução e emancipar a humanidade.

P: E a outra noção?

RL: A da necessidade de uma liderança centralizada. Para de facto capacitar as massas a vencerem os obstáculos e o que o inimigo vai lançar contra elas, em particular a sua força militar. E para poderem navegar ao longo de todas as voltas e reviravoltas, incluindo as manobras e enganos criados pela classe dominante numa crise revolucionária, e para liderar as pessoas a de facto derrubarem a velha ordem e a avançarem para revolucionar a sociedade. É necessária uma abordagem estratégica e uma capacidade estratégica para reunir toda a criatividade e determinação das massas. Quando as pessoas se libertam da “rotina normal” e levantam a cabeça, para onde é que tudo isto vai? A questão da liderança é decisiva. E, reparem, isso da “ausência de liderança” não existe. Haverá sempre um programa e uma força, representando interesses de classe diferentes, a liderar, independentemente de muitas pessoas poderem querer evitar uma liderança. E sejamos honestos: a “ausência de liderança” é de facto um programa que está a ser liderado – e isto não leva a nenhum lugar radicalmente transformador.10

É necessária uma liderança centralizada. Como é que se vai coordenar uma insurreição quando as condições mudam e surge uma oportunidade? Como é que se vai coordenar a reconstrução da sociedade a seguir à destruição produzida pela guerra revolucionária? Como é que se vai coordenar o funcionamento de uma nova economia? Como é que se vai coordenar o apoio à revolução mundial? É necessária uma liderança centralizada.

Ora, Lenine não estava a argumentar, “bem, vamos simplesmente substituir-nos às massas”. Não, toda a questão é que quanto mais essa liderança desempenhar o seu papel de vanguarda, maior é o ativismo consciente das massas. As massas fazem a história, mas não podem fazer a história ao serviço dos seus interesses mais elevados sem uma liderança. Ter essa liderança foi o que permitiu que ocorresse a revolução russa e que esta mudasse todo o curso da história mundial.

3º Capítulo: 1917 – A revolução abre caminho na Rússia

Pergunta: Então falemos da revolução bolchevique e das condições na sociedade russa. Na maioria das escolas, nem sequer se ensinam os factos básicos.

Raymond Lotta: Chama-se revolução bolchevique porque o Partido Comunista originalmente se chamava bolchevique (a palavra, que significa “maioria”, refere-se à maioria das forças agrupadas em torno de Lenine que resolveram criar um partido da revolução).

A revolução russa ocorreu na turbulência da I Guerra Mundial, que começou em 1914 e durou até 1918. Foi uma guerra em que dois blocos das grandes potências imperialistas lutaram um contra o outro. Um bloco incluía a Grã-Bretanha, a França e os EUA (e a Rússia fazia parte dessa aliança); e o outro era encabeçado pela Alemanha com os aliados dela. Eles estavam a lutar pela supremacia global, em particular pelo controlo das regiões coloniais oprimidas de África, Ásia e Médio Oriente.

Foi uma guerra monstruosa, mecanizada, moderna. Os combatentes foram atacados com gás, torpedos, minas, bombardeados com artilharia que nunca tinham visto, metralhados. Foi uma chacina a uma escala nunca antes vista na história humana – 10 milhões de pessoas foram mortas e outros 20 milhões de pessoas ficaram feridas.11

Quando a Rússia entrou na guerra, todos os principais partidos na Rússia e a maior parte dos principais partidos na Europa apoiaram a guerra em nome do patriotismo – todos menos o Partido Bolchevique liderado por Lenine. Este assumiu uma posição internacionalista, treinando as pessoas a verem como essa guerra não servia os interesses da humanidade oprimida e apelando às pessoas nos países imperialistas a se levantarem em revolução e derrotarem os seus próprios governos.

A maior parte da sociedade russa desse tempo era constituída por camponeses. Eles tinham pequenas parcelas de terra em que muitos deles trabalhavam (quase como os meeiros do Sul dos Estados Unidos). As condições de vida eram muito atrasadas e as pessoas estavam presas à tradição. Os camponeses faziam as sementeiras de acordo com o calendário religioso. As mulheres enfrentavam condições horrivelmente opressoras.

As cidades eram locais de habitações abarrotadas e doenças.

A Rússia era um império. A etnia russa dominante tinha colonizado várias zonas e regiões da Ásia Central (como o Uzbequistão) e também tinha subordinado regiões mais desenvolvidas como a Ucrânia. A Rússia era conhecida como “prisão de nacionalidades”. As nacionalidades não russas constituíam cerca de 45 por cento da população, mas as culturas minoritárias eram violentamente reprimidas e os idiomas delas não podiam ser ensinados nem falados nas escolas.

A Rússia era uma sociedade autocrática e repressiva. O poder do czar era baseado na polícia secreta, nas prisões e na vigilância.

A I Guerra Mundial intensificou todo o sofrimento da sociedade. Cerca de 1,5 milhões de russos morreram na guerra e três milhões ficaram feridos. As pessoas passavam fome. A guerra provocou uma “crise de legitimidade” na sociedade russa... e instalou-se um clima revolucionário. Os operários revoltaram-se e fizeram greves por melhores condições de vida. As mulheres tomaram as ruas. Muitos soldados recusaram-se a reprimir os protestos e a amotinação expandiu-se. O czar foi derrubado.12

Mas o novo governo não fez nada para mudar as condições básicas de vida das massas populares... e fez acordos secretos com os imperialistas britânicos e franceses para manter a Rússia na guerra.

Lenine e o papel vital da liderança comunista

P: Mas, muitas vezes diz-se que os bolcheviques estavam a conspirar nos bastidores e que basicamente fizeram um golpe de estado em outubro de 1917.

RL: Isso é um absurdo. O Partido Bolchevique liderado por Lenine estava preparado para agir e liderar como nenhuma outra força na sociedade russa. Tinha força nas bases e organização nos comités de fábrica, nas forças armadas, nos sovietes. Estes eram assembleias ilegais e antigovernamentais representativas dos operários que disputavam o poder nas cidades e nas grandes vilas...

O programa e a perspetiva bolcheviques tiveram um amplo e profundo eco numa sociedade em crise, em convulsão e à procura de uma direção. O Partido Bolchevique liderou as massas populares a verem o que estava por trás das várias manobras desse novo regime. Formulou as reivindicações de “terra, paz e pão” que respondiam às necessidades básicas do povo numa situação de horrível sofrimento e privação – mas para as quais nenhum outro partido tinha resposta. E, em outubro, Lenine e os bolcheviques lideraram as massas numa insurreição. Foi a Revolução de Outubro.13

P: Mas, repito, da maneira como isso é descrito, os bolcheviques só estavam a consolidar as rédeas do poder para eles mesmos.

RL: Reparem, estava a ser criado um novo poder de estado. De imediato, o novo governo promulgou dois decretos espantosos. O primeiro deles retirou a Rússia da guerra e exigiu o fim da chacina – e apelou a uma paz sem conquistas nem anexações. O segundo decreto autorizou os camponeses a tomarem as vastas propriedades rurais da coroa czarista, das classes aristocráticas proprietárias rurais e da igreja (ela própria proprietária de grandes extensões de terras).

Mas o que estava a acontecer teve um significado maior. Essa “longa noite de trevas”, essas trevas de exploração e opressão estavam a ser eliminadas. Pela primeira vez desde o surgimento da sociedade de classes, a sociedade ia deixar de estar organizada em torno da exploração. E isto teve repercussões em todo o mundo.

Na Europa, soldados, marinheiros e trabalhadores exaustos pela continuação da guerra seguiam as notícias do que estava a acontecer na nova sociedade. Na Alemanha, em Kiel e em Hamburgo, os marinheiros rebeldes da armada alemã revoltaram-se contra as ordens para continuarem a guerra. Em 1918, iniciaram-se insurreições em vários pontos da Europa Central – e foram cruelmente reprimidas. Houve muitos países na Europa em que emergiram situações revolucionárias, e em alguns deles houve revoluções. Mas em nenhum outro lugar, para além da Rússia, a revolução venceu e manteve-se. Uma grande parte da razão para isso foi não haver um genuíno partido de vanguarda nessas sociedades. Mas, devido à influência de Outubro, novas organizações comunistas propagaram-se em diferentes pontos do mundo. E os bolcheviques assumiram o ponto de vista de propagar a revolução, e promoveram o marxismo e a organização de um partido de vanguarda. Com base nisto, foi formado um novo organismo internacional que coordenou a atividade dos partidos e organizações comunistas em todo o mundo – um enorme avanço para a revolução.

O capitalismo mundial nunca mais seria o mesmo. A história mundial tinha sido profundamente mudada.

P: Deste uma imagem dos que apoiavam a revolução comunista na Rússia. E por quê. Mas não houve algumas pessoas que se opuseram ferreamente a esta revolução?

RL: Sim. Houve uma guerra civil entre 1918 e 1921. O país foi lançado num estado de quase caos e colapso.

Apenas alguns meses depois da insurreição de 1917, as forças reacionárias dentro da Rússia, que representavam a velha ordem derrubada, lançaram uma investida contrarrevolucionária contra o novo regime. Catorze potências estrangeiras, entre as quais os Estados Unidos, intervieram com tropas e ajuda militar em apoio da contrarrevolução. Reparem, em outubro de 1918, quando estava a ser celebrado o primeiro aniversário da Revolução, três quartos do país estavam nas mãos das forças contrarrevolucionárias. Pensem nisso.

O novo estado proletário estava isolado a nível internacional e havia uma aguda escassez de alimentos e armamento.14

Pode ver-se aqui o papel vital da liderança de vanguarda. O partido assumiu a responsabilidade pela coordenação das ações militares. Desenvolveu políticas económicas para satisfazer as necessidades sociais e manter unida a sociedade. Dirigiu a criação de novas instituições sociais. A imprensa revolucionária e outros meios de comunicação disseminaram o marxismo e a perspetiva socialista de uma nova economia, novas instituições políticas e novos valores. Isto alimentou todo um novo “discurso” emancipador na sociedade – e isto foi um fator muito poderoso e positivo na criação de um novo ambiente.

A nova sociedade estava a enfrentar uma violenta investida internacional. Sim, a economia esteve por vezes à beira do colapso, e as pessoas estavam a sofrer. Mas a liderança comunista manteve-se forte e levou a cabo a tarefa de expandir, consolidar e mobilizar a sua base entre aqueles que queriam defender a libertação com tudo o que tinham. E as pessoas puderam mobilizar-se e pôr-se de pé porque agora havia novos órgãos de poder estatal proletário que exprimiam a vontade e a determinação delas.

Um novo tipo de poder

P: Que queres dizer com “órgãos de poder estatal proletário”?

RL: Isso é uma questão excelente e central. Nas sociedades capitalistas, os exércitos, os tribunais, a polícia, as prisões e – mesmo na cúpula – o poder executivo, tudo isto está ao serviço dos capitalistas. Estes órgãos reprimem as pessoas quando elas se põem de pé – vejam o que fizeram ao movimento Ocupar, por exemplo – ou mesmo antes de elas se porem de pé, só para que elas “saibam o lugar delas” na sociedade capitalista – como nas ações policiais de “parar e revistar” em Nova Iorque e noutras cidades. Os parlamentos são apenas tribunas de falatório, lugares que permitem aos diferentes capitalistas em contenda debaterem as suas discordâncias e/ou que servem de inócuas válvulas de escape para o descontentamento das massas. Por isso pode dizer-se que são órgãos de poder do estado reacionário, ou órgãos de poder do estado burguês – ou seja, capitalista. Como já disse, é uma ditadura da burguesia, ou seja, da classe capitalista.

A revolução socialista tem de estabelecer novos órgãos de poder revolucionários que representem o proletariado. Estes órgãos de poder – que devem, com o passar do tempo, envolver um número crescente de pessoas tanto da base da sociedade como também de setores mais da classe média – terão de conseguir eliminar a contrarrevolução. Por exemplo, são necessárias forças de segurança pública – mas numa base completamente diferente, servindo fins completamente diferentes e com uma conduta completamente diferente da que temos hoje. Mas estes novos órgãos de poder também têm de ser capazes de apoiar as pessoas na realização de transformações em todos os campos, liderando-as e permitindo que elas organizem os seus esforços de criação de uma sociedade inteiramente nova numa base inteiramente nova. É isto o que significa a ditadura do proletariado.

As massas criaram novas práticas na situação realmente medonha de uma guerra civil total. Por exemplo, houve a prática do trabalho voluntário cooperativo, em que, sob terríveis pressões, as pessoas se juntavam para manter as condições de salubridade e higiene nas cidades. As pessoas estavam a mudar a natureza humana, trabalhando coletivamente e forjando novas relações baseadas na cooperação. E o novo estado estava a dar apoio a isto.

P: Nunca se ouve falar realmente nesta guerra civil quando se fala da revolução. Que aconteceu de facto?

RL: A contrarrevolução foi derrotada a grande custo. Durante a guerra civil, um milhão de pessoas morreu nos combates e mais três milhões morreram de doença. Nove décimos dos engenheiros, médicos e professores saíram do país. Alguns dos mais dedicados operários comunistas morreram nas linhas da frente. E a própria classe operária ficou imensamente reduzida em número – devido aos combates, às deslocações, à destruição e às pessoas que fugiram para as zonas rurais.

Os comentadores burgueses falam como se os bolcheviques tivessem assumido o controlo de um país que estava basicamente intacto e como se os imperialistas se tivessem limitado a olhar para ele de uma maneira benigna. Não, as coisas estavam num estado de quase ruína e os imperialistas e reacionários estavam a atacá-los. O primeiro embargo petrolífero do mundo foi aplicado ao novo estado soviético.

Mas o poder de estado foi preservado... e, por mais frágil que fosse, a União Soviética continuou a ser uma posição avançada da luta por um mundo novo. Tudo isto se deveu à liderança de Lenine e à existência de um partido de vanguarda.

Mudanças radicais: As mulheres

P: Mas há uma linha de ataque que sustenta que as emergências e as ameaças se tornaram numa desculpa para os bolcheviques simplesmente traírem as esperanças de pessoas.

RL: Reparem, era uma revolução que lutava pela sua sobrevivência, mas também era um poder de estado que lutava por levar avante uma revolução social. Veja-se o caso da opressão das mulheres.

A revolução agiu rapidamente para tomar medidas importantes. Aboliu todo o sistema de matrimónio sancionado pela igreja que tinha codificado a autoridade do homem sobre a mulher e os filhos. O divórcio passou a ser fácil de obter. Isto foi muito importante, pois proporcionou às mulheres uma maior liberdade social. Foi decretado o salário igual para trabalho igual. As maternidades passaram a fornecer os seus serviços gratuitamente; e, em 1920, a União Soviética tornou-se no primeiro país da Europa moderna a legalizar o aborto.15 Isto aconteceu muito antes de os países capitalistas desse tempo o terem feito, surgindo numa época em que o direito ao divórcio estava normalmente sujeito a todo o tipo de restrições religiosas, se é que era sequer permitido, e em que as mulheres em muitos países capitalistas nem sequer podiam votar ou tinham acabado de conquistar esse direito bastante básico – e isto aconteceu apenas alguns anos depois de as autoridades norte-americanas terem torturado as sufragistas encarceradas que estavam em greve da fome, alimentando-as à força.16 Muito ligado a isto em espírito está o facto de a União Soviética ter legalizado as relações homossexuais.

Em meados e finais dos anos 1920, também ocorreu uma outra coisa. Houve lutas contra os costumes patriarcais nalgumas das repúblicas da Ásia Central. Muito disto estava ligado às opressoras leis islâmicas – a Xariá. As mulheres estavam a desafiar tudo isto e o estado socialista deu o seu apoio às mulheres (e aos homens esclarecidos) que participavam nessas lutas – e estava a encorajar de facto essas lutas.

O governo forneceu fundos às organizações locais de mulheres. Um grande foco da luta foi a oposição à prática dos casamentos arranjados que ainda persistia em diferentes regiões, e também à dos dotes nupciais – os pagamentos feitos entre as famílias dos noivos. Durante algum tempo, os comunistas das cidades foram para essas zonas para apoiar estas campanhas. Por vezes, isto tornou-se muito intenso, com forças retrógradas a atacar os organizadores. E houve mulheres ativistas locais a apresentar-se para a luta. Em 1927, foi lançada uma grande ofensiva contra a prática secular de obrigar as mulheres a usar véu – um símbolo da opressão, tanto no mundo de então como no de hoje, do controlo patriarcal sobre os rostos, os corpos e a humanidade das mulheres.17

Nos jornais e nas escolas soviéticas, houve um debate vivo sobre os papéis de género, o matrimónio e a família. Houve obras de ficção científica a imaginar novas relações sociais. E, francamente, quando se compara o que estava a acontecer na União Soviética com a situação de patriarquismo – de patriarquismo imposto – no resto do mundo de então e de agora, isto parece ficção científica!

Nunca antes uma sociedade se tinha proposto eliminar a opressão das mulheres, nunca antes a igualdade de género se tinha tornado num tão grande foco da sociedade. As pessoas precisam de saber isto. As pessoas precisam de aprender com isto. Precisamos de aprender com os pontos fortes disto, que foram de longe o aspecto principal, sobretudo neste período, e também precisamos de aprender com alguns dos pontos fracos do entendimento deles, dos quais falarei um pouco mais adiante.

Mudanças radicais: As nacionalidades minoritárias

P: Mencionaste as nacionalidades minoritárias. Como é que estavam a lidar com a discriminação? Obviamente, estamos aqui nos EUA, e o racismo está bem vivo. Mas os ativistas progressistas e radicais põem em causa se o socialismo, o comunismo, pode realmente lidar com a opressão racial e nacional.

RL: A revolução bolchevique criou o primeiro estado multinacional do mundo baseado na igualdade das nacionalidades.

O novo estado socialista reconheceu o direito à autodeterminação – ou seja, o direito de uma nação oprimida a se separar de um império ou de uma nação dominante e a obter a independência. Por exemplo, a Finlândia, que no império russo foi mantida numa posição subordinada, tornou-se independente. A constituição soviética de 1924 deu uma configuração formal a uma união multinacional de repúblicas e regiões autónomas. Foi por isso que houve a União Soviética – a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a qual incluía 12 grandes repúblicas nacionais e 25 regiões autónomas (e muitos distritos e outras unidades de menor dimensão). O novo governo central reconheceu o direito à autonomia – e isto queria dizer autogoverno – nas repúblicas e nas regiões.

Um decreto de 1917 concedeu a todas as nacionalidades minoritárias o direito ao ensino nos seus idiomas maternos em todas as escolas e universidades.18 Aconteceram coisas incrivelmente estimulantes nos anos 1920 e início dos anos 1930. Foram atribuídas formas escritas a muitas nacionalidades minoritárias que não tinham línguas escritas. O estado soviético dedicou recursos consideráveis à produção em massa de livros, revistas e jornais nas regiões minoritárias, à distribuição de filmes e ao apoio a grupos folclóricos.

Foram publicados livros em mais de 40 idiomas não russos. Paremos um pouco aqui. Que está a acontecer neste momento nos Estados Unidos? Vemos campanhas em vários pontos do país a defender “só inglês”! Compare-se isto com a União Soviética. Nos anos 1920, os russos estavam a ser encorajados a aprender idiomas não russos – e o chauvinismo grã-russo, semelhante aos privilégios e à dominação dos brancos norte-americanos, foi pública e fortemente condenado como influência nociva na sociedade.

A política de nacionalidades requeria uma “liderança local” nos novos territórios nacionais. A ideia era criar líderes vindos das populações dessas regiões. E foram feitos todos os tipos de esforços para treinar dirigentes do partido e administradores do governo, das escolas e das empresas oriundos das nacionalidades anteriormente oprimidas.19

Pôs-se fim à perseguição do povo judeu – o qual, a propósito, durante o regime czarista tinha sido confinado na sua esmagadora maioria a uma zona específica chamada “zona de colonato” e periodicamente sujeito a “pogroms” semelhantes aos linchamentos por turbas nos EUA. Depois da vitória da revolução, o novo estado proibiu oficialmente o antissemitismo. Os judeus passaram a ingressar em profissões das quais tinham sido banidos durante muito tempo e a ocupar importantes posições de autoridade na administração do estado. Foram criadas companhias de teatro que representavam em iídiche. Durante a guerra civil, a liderança bolchevique combateu a influência das ideias antijudaicas entre vários setores dos camponeses e outros.20

Este espírito de combate à opressão nacional e encorajamento ativo da diversidade étnica permeou a União Soviética inicial. Foi uma das características definidoras da nova sociedade e do novo estado.

Nessa altura, em que outro lugar no mundo estavam a acontecer coisas como estas? Uma resposta curta: em lugar nenhum. Mas nós sabemos, ou pelo menos as pessoas deveriam saber, qual era a situação nos Estados Unidos. A segregação era a regra. As Jim Crow [leis de segregação racial] estavam em pleno vigor. Durante esse tempo, o Ku Klux Klan marchou pelas ruas de Washington, DC, com vestimentas cerimoniais completas e a prática dos linchamentos por turbas aterrorizava os afro-americanos no Sul dos Estados Unidos. E, no “Norte esclarecido”, as turbas brancas andavam à solta pelas cidades, assassinando 23 negros só em Chicago num frenesim de 7 dias em 1919, um dos 25 ultrajes semelhantes cometidos só nesse verão – no mesmo ano em que os “vermelhos” estavam envolvidos numa guerra civil para criarem um novo mundo no que viria a ser a União Soviética.21

Quando Paul Robeson – o grande ator, cantor e radical afro-americano – visitou pela primeira vez a União Soviética no início dos anos 1930, ficou profundamente impressionado com os esforços da revolução para eliminar os preconceitos raciais e nacionais e profundamente emocionado pessoalmente pela maneira como foi tratado tanto pelos funcionários como pelas pessoas comuns na nova sociedade socialista. Na União Soviética, as minorias étnicas não estavam a ser linchadas como acontecia nessa altura com os negros no Sul dos Estados Unidos.22 A nova União Soviética não era um lugar onde estavam, e ainda estão, a ser produzidos e defendidos como ícones cinematográficos filmes racistas como O Nascimento de Uma Nação (que enaltecia o Ku Klux Klan) e E Tudo o Vento Levou (que pintava de cor-de-rosa a cultura das plantações brancas). A nova cultura na União Soviética estava a promover a igualdade entre as nacionalidades e a celebrar o heroísmo das pessoas que combatiam a opressão.

Os Estados Unidos e a União Soviética eram dois mundos diferentes.

As artes

P: Tens-te centrado principalmente nas mudanças económicas e políticas. Mas que estava a acontecer no campo das artes?

RL: Bem, primeiro, as coisas de que acabei de falar são definitivamente políticas – mas isto também abarcava as maneiras como as pessoas se relacionavam umas com as outras na vida social, e mesmo como pensavam sobre o mundo e sobre si mesmas. E isto também teve reflexos nas artes. Desde a chegada da revolução ao poder em 1917 aos anos 1920 e início dos anos 1930 houve uma tremenda vitalidade artística na União Soviética. Foi muito debatido o papel, o propósito e o caráter da arte revolucionária ao contribuir para a construção de uma nova sociedade e um novo mundo.

Foram produzidas inovações de nível mundial nas artes. Estou a falar de importantes artistas visuais de vanguarda como Rodchenko e Malevich, de cineastas como Eisenstein e Dovzhenko23 – os quais estavam a criar obras muito impressionantes inspiradas por uma re-imaginação radical do mundo, por um desejo de refazer radicalmente o mundo – e a fazerem isto através de todo o tipo de técnicas novas e sem precedentes, como a montagem em filme.

Reparem, estive a ouvir a curadora de uma recente exposição no Museu de Arte Moderna [de Nova Iorque] sobre o movimento de arte abstrata do início do século XX. Ela foi entrevistada na televisão e perguntaram-lhe onde é que, nessa altura, essa arte estava de facto a influenciar a sociedade. E ela fez uma piada: Sabe, o único lugar no mundo onde a vanguarda alguma vez teve poder de estado... foi a União Soviética. Ela estava a ser subtil, mas estava a assinalar uma coisa real.

Os artistas na União Soviética estavam a criar obras incríveis e pioneiras como parte de uma ousada transformação da sociedade e das consciências. Um famoso arquiteto projetou estruturas para exprimir o internacionalismo; outros arquitetos e urbanistas estavam a repensar o traçado das cidades e das habitações, para promoverem o espírito comunitário e a cooperação – envolvendo mesmo coisas como o redesenho do mobiliário doméstico.

Estavam a chegar ao público pontos de vista e debates de todo o tipo – questões sobre a importância e o papel da arte ou a relação entre a experimentação artística e as novas relações sociais. Havia todo o tipo de grupos e associações de artistas e trabalhadores culturais, publicações, manifestos e proclamações.

E a inovação artística de nível mundial e a exploração teórica juntaram-se às necessidades das massas e, se quiserem usar a expressão, aos “atos quotidianos”. Especialmente nas artes visuais, onde se fizeram grandes inovações na arte dos cartazes, na litografia, que contribuíram para a batalha pela alfabetização dos camponeses.

Houve campanhas de massas para eliminar a iliteracia, e muito rapidamente a população soviética atingiu elevados níveis de literacia.

Houve campanhas de saúde pública – ou seja, sobre coisas básicas como encorajar as pessoas nas zonas rurais a terem hábitos básicos de higiene – em que os artistas visuais foram chamados a ajudar a encontrar formas de comunicar as mensagens. E estes enfeitaram comboios com grafismos ousados.

Havia muitos teatros ao ar livre, um teatro para as massas. Havia artistas a participar em festivais de rua e em desfiles – estes eram formas muito populares de expressão cultural das massas. Os poetas e os satiristas tinham muitos seguidores entre as massas.24

O que quero salientar é que a União Soviética foi um lugar entusiasmante, um lugar fantástico onde estar nos anos 1920 e início dos anos 1930. Como nenhum outro lugar no planeta.

José Estaline

P: Nunca se ouve falar realmente dessas coisas. Qual foi o papel de Estaline em tudo isso? E talvez também possas falar sobre o papel dele em geral. A visão convencional diz que ele era uma espécie de lunático ou tirano.

RL: Há aqui muito de que falar. Há, e aqui uso a expressão do historiador Arno Mayer, uma “demonização ritualizada” de Estaline.25 E deixem-me dizer abertamente... as pessoas que se limitam a aceitar esta “demonização ritualizada” e que a repetem... são vítimas de uma “lavagem ao cérebro”.

Temos de repor a verdade e de olhar para os indivíduos e os acontecimentos de uma maneira científica, compreendendo o verdadeiro contexto: o que estava a acontecer na sociedade e no mundo; como é que eles entendiam o que estavam a enfrentar; e, com base nisto, quais eram as metas e objetivos deles. Em suma, temos de desmistificar.

Estaline foi um revolucionário genuíno. Os tipos de mudanças sociais radicais que ocorreram na sociedade soviética que eu tenho vindo a descrever – tudo isto esteve muito ligado à liderança de Estaline. Lenine morreu em 1924 e José Estaline assumiu a liderança do Partido Comunista na União Soviética. Ora, a questão que se colocava em meados dos anos 1920 era: É possível construir o socialismo na União Soviética? É possível fazê-lo numa sociedade que era económica e culturalmente atrasada?

A expectativa de Marx era de que as revoluções socialistas iriam irromper primeiro nos países capitalistas mais avançados – porque aí havia uma grande classe operária industrial e uma economia industrial moderna que poderiam servir de base a uma economia e uma sociedade socialistas desenvolvidas. Mas não foi assim que a história se desenvolveu.

Lenine disse: Certo, não temos o que teoricamente se estava à espera que fosse a base desenvolvida para o socialismo... estas são as cartas que nos saíram, temos de construir o socialismo e criar uma base melhor... e temos de promover a revolução mundial. E a União Soviética desempenhou o papel de iniciador da formação de uma associação de partidos comunistas – que foi a III Internacional Comunista.

Mas os desafios de facto aumentaram e intensificaram-se. Após uma década de revolução, em 1927, a União Soviética ainda estava só, como único estado proletário no mundo... e não havia nenhuma certeza de que viessem a ocorrer revoluções noutros países. Por isso, repito, será que era possível resistir e levar a cabo a transformação económica e social socialista?

Estaline deu um passo em frente e lutou pelo ponto de vista de que, nestas circunstâncias, a União Soviética podia e devia seguir a via socialista. Se não o tivesse feito, a União Soviética, o primeiro estado socialista do mundo, não iria conseguir sobreviver. Não iria conseguir ajudar a revolução noutros lugares. Fazer menos que isso iria desperdiçar os sacrifícios de milhões de pessoas na União Soviética e trair as esperanças da humanidade oprimida em todo o mundo. Era esta a orientação pela qual Estaline estava a lutar – e Estaline liderou complexas e agudas lutas para socializar a propriedade da indústria e coletivizar a agricultura.

A construção de uma economia socialista

P: Estás a referir-te ao debate sobre a construção do “socialismo num só país”?

RL: Sim. Nessa altura, e isto foi em finais dos anos 1920, Estaline viu a construção socialista na União Soviética como parte e contribuição para o avanço da revolução mundial. E ele e outras pessoas na alta liderança estavam à espera de uma nova maré da revolução, sobretudo na Alemanha. Eles pensavam que a União Soviética poderia ajudar a desencadear essa nova vaga – embora continuasse a haver a necessidade de “avançarem sós” durante algum tempo.

P: Podes descrever resumidamente a situação económica na União Soviética em meados dos anos 1920?

RL: A agricultura ainda era atrasada e não conseguia alimentar a população de uma maneira fiável. A indústria era limitada e não podia fornecer as fábricas e as máquinas necessárias para modernizar a economia. A Rússia tinha sido uma sociedade em que os intelectuais eram um minúsculo segmento da população, em que apenas uma diminuta fatia da população tinha estudos superiores em tecnologia ou artes liberais. E havia, como sempre, a iminente ameaça de um ataque imperialista.

Eram estas as contradições económicas e sociais reais enfrentadas por seres humanos reais que estavam a tentar refazer a sociedade e o mundo.

O estado soviético sob a liderança de Estaline tomou medidas para criar um novo tipo de economia. Pela primeira vez na história moderna, a produção social estava a ser levada a cabo de uma maneira consciente segundo um plano concebido para satisfazer as necessidades do povo e moldado por objetivos e metas sociais globais de acabar com a opressão e a pobreza e mudar o mundo... um plano que era coordenado como um todo. Isto foi um extraordinário passo em frente. A produção deixou de estar dependente do que poderia gerar lucro a um capitalista.

Falei da rutura com a “longa noite de trevas”. Ali, naquele único pedaço de terra libertada no mundo, cercado por potências imperialistas e reacionárias hostis, estava a ser feito algo totalmente radical. Em vez de serem explorados por uma minoria, dominados por uma minoria de proprietários – em vez de o produto social do trabalho e da energia das pessoas servir para a manutenção da divisão da sociedade em classes, agora havia uma economia ao serviço das necessidades da sociedade e da mudança revolucionária.

P: Mas a maneira como isso é retratado é que havia um plano diretor vindo de cima e imposto à sociedade.

RL: O I Plano Quinquenal da União Soviética foi lançado em 1928. O lema do I Plano Quinquenal era “estamos a construir um mundo novo”. Milhões de operários e camponeses foram incentivados por este espírito. Nas fábricas e nas aldeias, as pessoas discutiram o plano: a diferença que a construção de uma economia assim traria às vidas delas – e às das pessoas em todo o mundo. Nas conferências nas fábricas, as pessoas falavam sobre como reorganizar o processo de produção. As pessoas voluntariavam-se para ajudarem a construir vias-férreas em regiões inóspitas. Elas trabalhavam voluntariamente em longos turnos. Nas siderurgias, as pessoas cantavam canções revolucionárias a caminho do trabalho.26

Nunca antes na história tinha havido uma tal mobilização de pessoas para, de uma maneira consciente, alcançarem metas económicas e sociais planificadas.

E façamos novamente a pergunta: que estava a acontecer no resto do mundo? A economia capitalista mundial estava a elanguescer na Grande Depressão do início dos anos 1930 – com níveis de desemprego que atingiram os 20 e os 50 por cento. Em grandes cidades como Nova Iorque e Berlim, as pessoas estavam a passar fome, e se alguma vez viram o filme As Vinhas da Ira, têm uma imagem do que enfrentavam os pequenos agricultores nos EUA – o país mais rico do mundo.

De volta à União Soviética, também estava a acontecer a transformação da agricultura, a coletivização...

A luta nas zonas rurais

P: Essa é uma das coisas que as pessoas me indicam como uma coisa negativa.

RL: Bem, elas estão muito erradas. A coletivização respondeu a necessidades e contradições reais na sociedade – e à situação mundial que os soviéticos enfrentavam.

Temos de voltar à guerra civil de que já falei. Ela causou uma imensa destruição e desequilíbrios na economia e na sociedade. A situação era desesperada. Nas cidades e nas vilas, as pessoas passavam fome, a indústria mal conseguia funcionar e os camponeses estavam relutantes em cultivar porque durante a guerra o governo tinha canalizado grandes quantidades de produtos agrícolas para alimentar o exército e a população.

Foi necessário restabelecer e estimular a produção económica e reconstruir os transportes e as comunicações. A liderança revolucionária tomou algumas medidas, conhecidas como a Nova Política Económica, ou NEP. Estas incluíram a reintrodução de alguns mercados privados e várias formas de propriedade e atividade capitalistas – embora o estado socialista tenha mantido o controlo da grande indústria e da banca. E o investimento estrangeiro foi autorizado. Estas medidas eram vistas por Lenine e pela liderança revolucionária como um recuo temporário para reanimar a economia. A NEP conseguiu fazê-lo mas, com o passar do tempo, também deu origem a novos problemas.

Houve uma escassez de alimentos nas cidades, sobretudo com o crescimento da população urbana. As terras tinham sido redistribuídas aos camponeses após a tomada do poder em 1917. Mas, ao longo dos anos 1920, um setor dos camponeses ricos começou a ganhar força na economia rural que ainda era uma economia de pequenos proprietários de base privada. Os camponeses ricos, ou kulaks como eles eram chamados, tinham grandes extensões de terras e estavam a consolidar propriedades ainda maiores. E a NEP tinha dado origem a forças (a expressão popular era “homens NEP”) que dominavam a moagem e comercialização de cereais e o setor financeiro nas zonas rurais. A polarização social entre os kulaks e o campesinato pobre estava a aumentar.27

Estaline e outros membros da liderança sentiam que tinham de agir rapidamente para criar grandes unidades agrícolas nas zonas rurais. Isto iria incrementar a produtividade e cercar os kulaks. Também iria acelerar a “proletarização” dos camponeses, levando mais pessoas para as cidades e a indústria e atenuando as tensões entre a nova sociedade e os camponeses, que continuavam agarrados à propriedade privada.

A coletivização foi um enorme movimento social que atraiu, ativou e se apoiou nos camponeses mais pobres como base dela, e em que se trabalhou para envolver tantas pessoas quanto possível. Trabalhadores voluntários dedicados vindos das cidades foram para as zonas rurais para criar unidades coletivas. Artistas, escritores e cineastas foram para as linhas da frente para contarem as histórias do que estava a acontecer. Foram enviadas bibliotecas ambulantes para as equipas de trabalho nos campos agrícolas. Nalgumas regiões, as quintas tinham os seus próprios grupos de teatro. A religião, a superstição e as tradições entorpecedoras da mente foram desafiadas.

As pessoas ergueram a cabeça e começaram a ficar em sintonia com o que estava a acontecer na sociedade em geral. Elas discutiam os planos nacionais e os acontecimentos nacionais. As mulheres, cujas vidas tinham sido definidas por uma tradição opressora e por obrigações patriarcais, passaram a ter funções como motoristas de tratores e dirigentes das unidades coletivas.28

P: Mas a coletivização enfrentou muita resistência.

RL: Sim. Por um lado, isso teve a ver com a luta de classes nas zonas rurais – onde os kulaks e outras forças tradicionalmente privilegiadas se estavam a entrincheirar e a mobilizar a resistência às mudanças e às forças sociais de que tenho estado a falar. Esse foi o aspecto principal.

Por outro lado, alguma dessa resistência estava ligada a erros que foram cometidos. Mao escreveu sobre isto nos anos 1950. Ao mesmo tempo que reconhecia o caráter extraordinário e sem precedentes da coletivização na União Soviética, também fez sérias críticas à maneira como Estaline a abordou. A coletivização ocorreu antes de os camponeses terem ganho experiência de cooperação entre eles, de trabalharem os campos e usarem as ferramentas de uma maneira cooperativa. Não tinha sido feito suficiente trabalho político e ideológico para criar uma compreensão e uma atmosfera que permitissem aos camponeses agirem de uma maneira mais consciente para chegarem à propriedade social coletiva. E o estado aprovisionava-se de demasiados cereais das zonas rurais – isto exerceu uma pressão desnecessária sobre os camponeses e criou ressentimento.29

Mudar as circunstâncias e mudar a maneira de pensar

P: Espera – que queres dizer com “trabalho ideológico”?

RL: Quero dizer o trabalho para mudar não só o que as pessoas fazem, mas também para as ganhar para pensarem de novas maneiras e para, com base nisso, libertarem a iniciativa delas para transformarem o mundo. A vida dos pequenos camponeses – em que cada um possui a sua própria terra, sobrevivendo ou não através dos seus próprios esforços, em oposição a outros que competem com eles – coloca-os uns contra os outros, e isto molda a maneira de pensar deles. Estaline tendia a pensar que, se a agricultura fosse mecanizada e coletivizada, a maneira de pensar das pessoas seria transformada mais ou menos naturalmente; mas o processo global é muito mais complexo que isto, e na verdade é necessário trabalhar para transformar não só o que as pessoas pensam, mas também como as pessoas pensam, muito antes da revolução E TAMBÉM ao longo de cada fase dela. Como referi, isto foi assinalado por Mao e é algo sobre o qual Bob Avakian [BA] construiu e elevou a um novo nível na nova síntese do comunismo.

Portanto, para voltar a Estaline, ele estava a tentar resolver problemas reais na sociedade, como a maneira de avançar e sair da agricultura privada numa altura em que a União Soviética enfrentava um cerco internacional. Mas, como mencionei, a abordagem foi algo mecânica; ele via a criação de níveis mais elevados de propriedade e quintas maiores com tecnologia mais avançada como o nó da questão... e menosprezou a dimensão ideológica em geral e não compreendeu que os valores e a maneira de pensar das pessoas têm de mudar, que as relações delas entre si na produção e na sociedade têm de mudar e que a liderança tem de estar a trabalhar nisto.30

O mesmo problema existia na abordagem à planificação industrial – uma visão mecânica de que ao se construir uma indústria pesada socialista se estar a garantir as bases materiais para o socialismo. Mas, como disse Mao, e isto aconteceu anos depois, “De que serve a propriedade estatal das fábricas e dos armazéns, se não se fomentam os valores de cooperação?” E o desenvolvimento económico socialista tem de ser orientado para a redução das diferenças entre indústria e agricultura, entre trabalho intelectual e trabalho manual, entre operários e camponeses. Estaline deu alguma atenção à eliminação destas contradições, mas isto era visto como uma tarefa secundária em relação à criação de uma base agroindustrial mais moderna.31

Um ponto de viragem: A revolução é esmagada na Alemanha e os nazis chegam ao poder

P: Tal como eu entendo isto, houve uma clara viragem para políticas mais conservadoras, por assim dizer, na sociedade soviética em geral, a partir de meados dos anos 1930. Isto é verdade? E, nesse caso, por quê?

RL: A liderança e as massas soviéticas não puderam escolher as circunstâncias para fazerem, defenderem e desenvolverem a revolução. E, em meados dos anos 1930, a revolução estava sob um duro ataque e a enfrentar uma situação mundial muito desfavorável e perigosa. Em 1931, o Japão invadiu a Manchúria, na fronteira oriental da União Soviética. Em 1933, o partido nazi, encabeçado por Hitler, consolidou o seu poder na Alemanha.

Como já referi, a liderança soviética tinha estado à espera que houvesse uma revolução na Alemanha. Mas o regime nazi esmagou efetivamente o Partido Comunista da Alemanha e iniciou um programa de militarização. Ao mesmo tempo, as forças pró-fascistas tinham ganho força na Hungria, na Bulgária, na Roménia e nos países bálticos, incluindo na Polónia. Em Espanha, as potências ocidentais mantiveram-se de braços cruzados quando o General Franco encabeçou uma insurreição contra a República Espanhola, com a ajuda ativa de Hitler e Mussolini. A Alemanha e o Japão tinham assinado um Pacto Antissoviético.

O crescente perigo de uma guerra inter-imperialista e a probabilidade de um massivo ataque imperialista contra a União Soviética estavam a moldar profundamente a política económica e social na União Soviética.

P: Então, quais foram as implicações disso?

RL: A guerra estava a aproximar-se. E, tal como aconteceu com todos os desafios que a revolução soviética enfrentou, não havia nenhuma experiência histórica anterior de lidar com a magnitude de uma situação como essa – a probabilidade de um ataque total do imperialismo alemão contra a União Soviética. Estaline e a liderança soviética abordaram isto de uma certa maneira. A avaliação deles era que tinha havido um grande salto na propriedade estatal socialista e no desenvolvimento das forças produtivas. E que era tempo de porem mãos à obra e se prepararem para a eventualidade de uma guerra.

Houve um ímpeto para uma maior disciplina e uma aceleração da produção nas fábricas para que tivessem capacidade de fazer a guerra. Houve uma grande ênfase em medidas administrativas, em incentivos materiais (pagando mais às pessoas para trabalharem mais arduamente) e em técnicas de gestão e na tecnologia.

A experimentação radical social e cultural dos anos 1920 e início dos anos 1930 foi restringida. Foi vista como sendo demasiado afastada das tarefas urgentes da produção e da política e demasiado alienantes para as vastas fileiras dos trabalhadores e dos novos estratos técnicos recém-instruídos que se estavam a unir em torno do regime.

Foi dada prioridade à unidade face à crescente ameaça de guerra – e a unidade estava a ser forjada em torno de uma espécie de patriotismo nacional.

A nível internacional, a União Soviética estava a apelar e a tentar construir uma frente única global contra as potências imperialistas fascistas. Isto subordinou, e sacrificou mesmo, as lutas revolucionárias em vários pontos do mundo à meta da defesa da União Soviética. A liderança soviética via a defesa da União Soviética como a mesma coisa que os interesses da revolução mundial.

Tudo isto era muito problemático. Ia contra, e estava em contradição com, o que a revolução representava e com o seu caráter principal global. A revolução enfrentava a necessidade de se preparar para um ataque e uma guerra que poderiam destruir toda a revolução. Isto era algo real e monumental. Mas a abordagem de Estaline tinha sérias falhas.

Erros e reveses

P: Podes elaborar um pouco mais sobre isso – ou seja, como é que justificaram essa mudança de abordagem?

RL: Bem, já falei sobre a tendência de Estaline para ver as coisas de uma maneira mecânica e estática – ou seja, para não ver que há contradições no interior das sociedades, dos processos, dos indivíduos – na realidade, de tudo – que podem não estar à superfície, mas que de facto estão a impulsionar a mudança no interior de uma coisa. Sabem, é como se estivéssemos a olhar para um ovo e só a ver o que está à superfície, e assim não é possível saber que lá dentro está uma galinha potencial, a qual cresce e cresce e por fim sai para fora desse ovo e se transforma numa coisa completamente diferente.

Esta espécie de maneira de pensar mecânica ou estática infiltrou-se e começou a colorir cada vez mais a conceção dele do socialismo – de que havia um estado socialista que tinha de ser defendido a todo o custo contra a investida que ele via que estava a chegar, e muitas coisas foram justificadas em nome dessa defesa, o que de facto estava a escavar pela base o caráter socialista do estado.

Por exemplo, Estaline começou a fazer concessões a setores da população que ainda eram muito religiosos e tradicionais na sua maneira de pensar, ou que eram fortemente influenciados pelo nacionalismo russo, ou ambas as coisas. Bem, sim, a nova sociedade tinha 15 anos – mas uma coisa que aprendemos é que há grandes setores do povo que não abdicam dessa velha maneira de pensar da noite para o dia. Portanto, isto cria desafios em termos de se levar a cabo a luta ideológica, de se fazer o trabalho educativo e de se promover uma mundivisão científica na sociedade, ao mesmo tempo que se defende o direito ao culto religioso. Mas, da maneira como Estaline via isto, era necessário fazer concessões a esse tipo de maneiras de pensar e a esse tipo de forças, como a Igreja Ortodoxa Russa, para, da maneira como Estaline via isto, se fortalecer a unidade para o esforço de guerra.

O governo também começou a fazer marcha atrás nalguns dos avanços anteriores em relação às mulheres e aos homossexuais, por exemplo. Alguns dos tremendos avanços de que falei antes, e que nessa altura eram únicos no mundo – incluindo o direito ao aborto –, foram invertidos. Também foram invertidos os direitos dos homossexuais. E, de uma maneira mais geral, a família tradicional começou a ser enaltecida e as relações tradicionais começaram a ser reforçadas. Isto foi simultaneamente um erro muito grave e um indício de uma certa falta de profundidade no entendimento da importância das relações de género na transformação global da sociedade. E este tipo de coisas baseava-se, repito, no pressuposto de que o caráter socialista da sociedade estava mais ou menos assegurado e de que a principal coisa que era necessário fazer era defendê-la.

Bem, não quero de maneira nenhuma minimizar a dimensão da ameaça que a União Soviética enfrentava. Estaline e as pessoas à volta dele foram as primeiras pessoas a dirigir um estado socialista, tinham a enorme responsabilidade de o defender e tinham o mais poderoso exército do mundo estacionado à porta com o chefe desse exército a deixar muito claro que tencionava destruir esse país socialista. E recordemos que os nazis estiveram muito próximo de concretizar essa ameaça e que mataram cerca de 26 milhões – sim, 26 milhões! – de habitantes da União Soviética no processo de tentarem fazê-lo.

De maneira nenhuma estou a dizer isto para justificar esses erros. Estou a dizer isto para que de facto compreendamos o que eles enfrentaram e como, face a esse tipo de enorme pressão, devemos e podemos fazer melhor no futuro. E, sem entrar em tudo isto agora, isto sublinha a importância do trabalho desenvolvido por Bob Avakian ao se debater com toda esta experiência, da maneira como ele a abordou, e como, através desse processo, desenvolveu a nova síntese do comunismo.

P: E em relação aos gulags32 e às execuções? Quando se fala em Estaline, esta é provavelmente a primeira coisa de que as pessoas começam a falar.

RL: A situação internacional que acabei de descrever – em que a própria existência da União Soviética estava em risco – também determinou o contexto para as purgas e a repressão de finais dos anos 1930.

Reparem, quando falamos de erros literalmente dolorosos, estamos a referir-nos a parte do que aconteceu no período entre 1936 e 1938. Muitas pessoas inocentes foram alvo da repressão: responsáveis económicos, oficiais militares, membros do partido que tinham estado na oposição nos anos anteriores e outros que foram considerados potenciais fontes de oposição, incluindo pessoas da intelectualidade. Os direitos legais básicos das pessoas foram violados e houve pessoas executadas com base nessas violações. Portanto, isto foi, como referi, doloroso.33

Ora, há duas maneiras diferentes de compreender o que estava a acontecer – e só uma delas serve para se chegar à verdade. Pode declarar-se que Estaline era um monstro, um déspota paranoico que só queria acumular um “poder absoluto” – fim de discussão. Esta é a linha de ataque dos historiadores anticomunistas e dos propagandistas da guerra fria.

Ou pode aplicar-se uma abordagem científica a este momento da história da revolução comunista para se compreender o que aconteceu e por quê. Olha-se para o que Estaline e a liderança soviética estavam de facto a enfrentar nesse momento em termos da certeza virtual de um ataque massivo, olha-se para o facto de que havia efetivamente alguns grupos contrarrevolucionários e alguns elementos no partido e no exército que, perante isso, aparentemente estavam a intrigar com uma ou outra potência imperialista, analisa-se o enquadramento que eles estavam a usar para entender tudo isso e depois avalia-se o que foi feito politicamente face a isso. E se houve erros – e, como referi, houve, alguns deles muito sérios –, então esforçamo-nos por compreender o que é que na compreensão e na abordagem deles a esses problemas deu lugar a esses erros.

Um ponto de orientação

Portanto, quero passar ao que levou a esses erros. Mas antes de o fazer, há outra coisa que quero trazer a esta discussão – como ponto de orientação básica. Mesmo reconhecendo que houve excessos graves, ainda assim, o que aconteceu na União Soviética não se compara minimamente com o que aconteceu em resultado de apenas um evento na história dos EUA: a decisão de Thomas Jefferson de fazer a Compra do Luisiana, a qual desempenhou um papel chave na expansão e no prolongamento da escravatura nos Estados Unidos.

Cem mil escravos, um terço deles crianças, foram vendidos nos mercados de Nova Orleães antes da Guerra da Secessão.34 Os escravos colhiam algodão desde antes do amanhecer a depois do anoitecer. Eles desbravaram pântanos infestados de doenças. Eram obrigados a trabalhar como se fossem bestas de carga. Os esclavagistas parceiros de Jefferson praticaram de uma maneira generalizada e massiva violações, punições bárbaras e mesmo a venda de crianças para longe dos pais delas. Os proprietários de escravos na costa leste dos EUA, incluindo o próprio Jefferson, lucraram enormemente com a expansão dos territórios de escravos. E, no território recém-adquirido, o genocídio contra os povos indígenas ganhou um novo ímpeto terrível.

Thomas Jefferson agiu consciente e metodicamente para expandir e consolidar o sistema de escravatura, literalmente um sistema de propriedade de seres humanos. Ele criou um inferno sobre a Terra que iria durar quase seis décadas, tudo em busca do império e do lucro.35

Ou veja-se a enorme quantidade de assassinatos cometidos pelos EUA durante as últimas décadas num período em que ninguém poderia alegar que eles estavam a enfrentar nenhum tipo de ameaça séria à sua própria existência – e estou a falar dos vários milhões de mortos na Coreia, dos vários milhões mais de mortos na Indochina, das centenas de milhares de mortos e dos milhões de deslocados no Iraque, tudo isto em resultado de intervenções militares diretas dos EUA – e isto sem sequer mencionar as muitas e mortíferas guerras por procuração que patrocinaram na América Latina e em África – e, repito, para quê? Para manterem um sistema mundial de exploração e miséria.

Estaline, por outro lado, cometeu erros, e mesmo erros sérios, numa situação em que a União Soviética estava em condições desesperadas e enfrentava ameaças terríveis. Mas ele fez esses erros no contexto da defesa de uma revolução que abalou o mundo e que visava libertar o mundo da escravatura na sua forma moderna.36

Para se determinar a essência da questão, é preciso julgar qualquer figura histórica, ou qualquer acontecimento histórico, no contexto global do que estava a acontecer, de que interesses vitais estavam em ação e em jogo e de quais eram as metas e os objetivos da pessoa ou grupo em questão. Ao mesmo tempo, como referi, é preciso avaliar a maneira como Estaline e grande parte da liderança soviética compreendiam as tensões e contradições na sociedade e a abordagem deles ao lidarem com isso. E isso tinha problemas sérios.

Dois tipos diferentes de contradições

P: Que queres dizer com isso? Problemas na maneira como ele compreendia as coisas? Isto está ligado ao que referiste antes sobre uma visão estática do socialismo?

RL: Sim. Mencionei antes que, em meados dos anos 1930, a propriedade socialista e coletiva tinha sido estabelecida nos principais setores da economia. As antigas classes proprietárias tinham sido derrubadas e o capitalismo privado tinha sido praticamente transformado.

Estaline concluiu que já não havia uma base económica para a exploração – e portanto já não havia classes antagónicas na sociedade socialista. O entendimento era que havia duas classes não antagónicas: os operários e os camponeses coletivizados, e depois um estrato da nova e velha intelectualidade e de profissionais de colarinho branco. A antiga classe dominante fora derrubada pela revolução e pela guerra civil. Da maneira como Estaline via isto, havia restos da velha ordem – mas, como referi, não havia classes antagónicas, não havia nenhuma força burguesa no interior da sociedade. E esses restos da velha ordem – repito, estou a caracterizar esse entendimento – só poderiam estar a ser apoiados externamente.

Portanto, a ameaça à sociedade soviética era vista como vinda de agentes das classes derrubadas, alimentada e apoiada pelo capital estrangeiro. E havia todo este discurso de espiões e sabotadores estrangeiros, de complôs e conspirações vindas de fora. Havia uma subversão real, mas Estaline tendeu a ver toda a oposição na sociedade como vinda, de alguma maneira, do exterior. E a luta contra a contrarrevolução era vista como uma espécie de operação de contraespionagem. Foi esta maneira de pensar que conduziu aos sérios erros que descrevi anteriormente.

Mas a análise de Estaline era errada. De facto, na sociedade abundavam diferenças de classe e contradições. E nem todas elas vinham do exterior – embora, como tenho vindo a realçar, houvesse uma ameaça de intervenção e de guerra e aquilo que está a acontecer no mundo molda profundamente as lutas na sociedade socialista. Tudo isto foi descoberto por Mao e, com base nisso, ele pôde liderar a Revolução Chinesa com uma maneira profundamente diferente de lidar com estas contradições e os diferentes tipos de luta que elas originam.37 Voltarei a isto mais à frente na entrevista.

Estaline estava a confundir estes dois tipos de contradições. Na sociedade soviética dos anos 1930, havia pessoas que estavam a levantar objeções a diversas políticas do estado socialista – pessoas que de facto estavam em dissensão. Mas Estaline estava a tratar todas estas diferenças como sendo antagónicas, e ligou tudo isso às ameaças externas – à subversão externa. A repressão só deveria ter sido dirigida contra os inimigos. Mas foi usada contra pessoas que estavam a exprimir discordância e contra pessoas que estavam a cometer erros em certas posições de responsabilidade. Como referi, Mao compreendeu este problema e analisou-o de uma maneira mais profunda para chegar à verdade da dinâmica da sociedade socialista. E Bob Avakian tomou por base esta conceção pioneira de Mao, e a experiência da sociedade socialista de uma maneira mais geral, e desenvolveu um entendimento científico mais profundo da sociedade socialista e uma perspetiva mais alargada da importância da dissensão e da luta entre ideias diferentes nessa sociedade.

Mas Estaline não tinha este entendimento. E baseou-se em purgas e ações policiais para resolver os problemas – em vez de, e isto foi o que aconteceu durante a Revolução Cultural na China, em vez de mobilizar as massas para tomarem como suas as candentes questões políticas e ideológicas do rumo global da sociedade e para abrir mais as coisas. Em vez disso, houve toda uma abordagem de se entrincheirarem para defenderem o estado socialista.

E houve um sério afastamento do internacionalismo – a União Soviética afastou-se da responsabilidade do estado socialista de promover a revolução mundial. Havia uma perspetiva de que nada era mais importante que proteger o estado socialista e de que, para se fazer isso, quase tudo se justificava – incluindo começar a fazer uma espécie de realpolitik, ou intriga política, com os imperialistas. Bem, só para que fique claro, há um papel para as relações diplomáticas que os estados socialistas estabelecem com os imperialistas – não seria possível esses estados existirem num estado de guerra permanente, por uma razão: é necessário que haja relações comerciais, e outras – mas estas têm de ser na base de princípios, com base na ideia de que essas relações fiquem subordinadas ao avanço da revolução. Mas, com demasiada frequência, ao navegarem durante esse período, isto foi perdido de vista.38

Uma relação crucial: Fazer avançar a revolução mundial, defender o estado socialista

P: Mas tens vindo a realçar a necessidade real de defender a União Soviética e como isto estava a ter um impacto nas decisões que Estaline estava a tomar.

RL: Sim, mas não havia uma correta compreensão científica disso. Reparem, Bob Avakian identificou – e nenhum líder e teórico comunista antes dele sequer conceptualizou as coisas nestes termos – que há uma contradição real entre defender o estado socialista e fazer avançar a revolução mundial, e isto por vezes pode manifestar-se de uma maneira muito aguda. Isto é um elemento chave da nova síntese do comunismo, no seu maior desenvolvimento da ciência do comunismo.

Não se pode deixar que os imperialistas simplesmente destruam a nova sociedade socialista. Ela tem de ser defendida. Mas isto pode entrar em contradição com o apoio à revolução noutras partes do mundo – em termos de onde estamos a colocar recursos, de como se faz a diplomacia e de como se organiza a sociedade socialista e se preparam as pessoas no plano ideológico em termos de fazerem sacrifícios pela revolução mundial em geral. Portanto, é necessário reconhecer esta contradição e aprender a lidar com ela.

Estaline – e mesmo Mao, mais tarde, quando liderou a revolução na China – tendia a equiparar a defesa do estado socialista com uma atuação em defesa dos interesses do avanço da revolução mundial. E, repito, ao se avaliar isto, é preciso recordar que esta foi a primeira vez que alguém alguma vez teve de enfrentar uma situação destas e que não havia nenhuma experiência anterior em que se basearem, é preciso recordar a ameaça real e existencial que eles enfrentavam e é preciso recordar que estes dois líderes nunca vacilaram perante o imperialismo e que Mao, em particular, lutou pela revolução e produziu avanços na revolução até à sua própria morte. Mas isto equivalia objetivamente a pôr a defesa do estado socialista acima do avanço da revolução mundial.

Não é que Estaline e Mao se tenham proposto, de uma maneira consciente, a subordinar a revolução mundial à defesa de um país socialista. Em vez disso, dado que eles compreenderam esta contradição extremamente complexa e aguda de uma determinada maneira linear – a revolução triunfaria neste país, depois naquele país, e a revolução mundial prosseguiria através de um processo de defender e acrescentar novos países socialistas – devido a esse entendimento, eles cometeram erros de política.

Ao penetrar profundamente nisto, Bob Avakian desenvolveu um novo entendimento científico: o principal papel do estado socialista é ser uma zona libertada para o avanço da revolução mundial. Tem de se defender a si mesmo com base nisso e estar preparado para arriscar a sua sobrevivência nos períodos em que a revolução mundial possa fazer grandes avanços. E, em tudo isto, tem de lidar corretamente com as contradições reais e muito difíceis que estão envolvidas.39

Portanto, estas são algumas lições importantes do que estava a acontecer na União Soviética nos anos 1930.

P: E, claro, depois a União Soviética foi invadida pelo imperialismo alemão em 1941.

RL: Sabem, a história da União Soviética, quando ela era socialista, foi a história de uma sociedade a fazer a guerra, a preparar-se para a guerra, ou a sarar as feridas da guerra. Em junho de 1941, os nazis invadiram a União Soviética. Lançaram o exército mais moderno do mundo e a maior parte do seu poderio militar contra os soviéticos. Hitler deixou bem claro às tropas dele que esperava que elas abandonassem todos os princípios de humanidade no que iria ser uma guerra de aniquilação total.40

Os soviéticos lutaram com incrível heroísmo. Vinte e seis milhões de cidadãos soviéticos perderam a vida na II Guerra Mundial, mais de um em cada oito habitantes.

Mas havia esta contradição. A União Soviética saiu militarmente vitoriosa da II Guerra Mundial. Mas a revolução estava política e ideologicamente debilitada. Com isto quero dizer que os erros que antes descrevi tinham corroído e minado a maneira como as pessoas entendiam as metas da revolução comunista e tinham reforçado de facto as debilidades na maneira como as pessoas estavam a tentar compreender o mundo e como o transformar. As pessoas continuavam a lutar pela construção do socialismo e a recusar-se a ceder ao imperialismo, e isto estava definitivamente a ser liderado por Estaline. Mas elas também tinham sido confundidas na sua compreensão da diferença entre nacionalismo e internacionalismo, entre revolução e reforma, e sobre o que realmente constituiu uma abordagem científica à natureza e à sociedade.

Depois da morte de Estaline em 1953, novas forças burguesas dentro do Partido Comunista manobraram para tomar o poder; e, em 1956, Nikita Khrushchev, um alto responsável do partido e do governo, tomou as rédeas do poder, consolidou o domínio de uma nova classe capitalista e dirigiu a reestruturação sistemática da União Soviética numa sociedade de capitalismo de estado.41 Isto representou o fim do primeiro estado proletário.

P: Então, como pões isto em perspetiva?

RL: A revolução soviética foi um levantamento de escravos com uma liderança comunista de vanguarda – e para forjar uma maneira completamente nova de organizar e administrar a sociedade, uma maneira completamente nova de se relacionarem com o mundo – não para o saquear e conquistar, mas para contribuir para a emancipação da humanidade. A sua derrota foi um amargo revés, e foi-o ainda mais devido ao facto de nessa altura as pessoas não terem as ferramentas científicas para compreenderem o caráter e a fonte dessa derrota.

Apesar dos erros que descrevi, a revolução de 1917-56 representou os primeiros passos, à parte a efémera Comuna de Paris, no caminho da emancipação, rumo a um mundo livre da opressão e da exploração. Inspirou as pessoas em todo o mundo. Mas esse caminho tem de ser forjado – a compreensão do que vai ser necessário fazer tem de ser aprofundada e alargada. Não ocorre de uma maneira automática ou espontânea. Há uma “curva de aprendizagem”, por assim dizer.

Mas para se aprender, e aprender profundamente, é necessária uma compreensão científica da sociedade e de como a transformar. É necessário um maior desenvolvimento dessa ciência... Estou a falar da ciência do comunismo. É uma questão de identificar e analisar os problemas e desafios no processo de chegar a um mundo sem classes – e de forjar soluções e desenvolver novos discernimentos de como entender o que se está a enfrentar.

Isso foi o que fez Mao Tsétung, o líder da revolução chinesa – ele elevou o projeto da emancipação, a revolução comunista, a todo um novo nível de compreensão e prática. Isso constituiu um novo avanço para a humanidade, mais radical e mais emancipador. E é disso que vamos falar a seguir.

4º Capítulo: China – Um quarto da humanidade escalou a novas alturas de emancipação

Pergunta: O que nos leva à revolução chinesa em 1949. Podes dizer alguma coisa sobre como os comunistas chegaram ao poder aí?

Raymond Lotta: Foi uma vasta sublevação social e política, uma luta armada revolucionária de massas de uma extraordinária audácia e sacrifício. Mao Tsétung liderou esta revolução épica. Mas para entendermos como esta revolução chegou ao poder... temos de entender o seu contexto histórico.

No século XIX, as principais potências capitalistas do mundo começaram a penetrar na China, abrindo o seu caminho a nível militar e económico. E, no final do século, conseguiram dominar a China. Impuseram tratados que lhes davam vantagens comerciais. Dividiram a China em esferas de influência estrangeira, o que significou que uma potência controlava, saqueava e explorava uma região do país – e as outras faziam o mesmo noutras regiões.

A China tinha sido governada durante muito tempo por uma monarquia. Ela foi derrubada por uma revolta de oficiais militares e opositores civis insurgentes em 1911, e a república foi declarada em 1912. Mas a República era frágil – e estava debilitada pela velha ordem corrupta. Os senhores da guerra tinham dividido o país nos seus próprios feudos, semelhantes a mini-estados. Tudo isso tornou mais fácil ao imperialismo continuar a abrir violentamente o seu caminho no país, especialmente o imperialismo japonês.42

Nasce uma revolução

P: Então, quando é que entram em cena Mao e o comunismo?

RL: Tinha havido diversas tentativas do povo chinês para afastar este controlo estrangeiro, frequentemente envolvendo enormes sublevações; houve corajosas revoltas camponesas. Mas não conseguiram mudar de uma maneira fundamental as condições da sociedade chinesa.

A revolução bolchevique alterou dramaticamente a equação. Despertou e inspirou um setor da juventude e dos intelectuais chineses para abraçarem o comunismo. O Partido Comunista da China foi formado em 1921. Com início em 1927, houve uma violenta batalha entre o Kuomintang, que tinha começado como partido-governo nacionalista mas que tinha sido tomado por reacionários apoiados por diversas potências imperialistas, e o Partido Comunista da China. O movimento comunista sofreu enormes banhos de sangue e perseguições às mãos do Kuomintang. E, neste contexto, Mao desenvolveu e depois lutou por uma correta estratégia política e militar para chegarem de facto à libertação.43

Um importante ponto de viragem foi a Longa Marcha, um dos feitos militares mais extraordinários do século XX. Em 1934, Mao liderou 100 mil combatentes do Exército Vermelho e organizadores comunistas numa longa marcha de mais de 9600 quilómetros para reagrupar e reorganizar as forças da revolução. Atravessaram a pé pântanos perigosos e montanhas traiçoeiras. Combateram os senhores da guerra e os exércitos reacionários. Propagaram a revolução por onde quer que passassem. Quando a Longa Marcha chegou ao seu destino, só 10 mil pessoas a tinham conseguido terminar. Mas, graças à Longa Marcha, a revolução pôde seguir em frente.44

Em 1931, o imperialismo japonês começou a expandir-se agressivamente para a China. E em 1937 entrou em guerra com a China. As forças militares japonesas tomaram Xangai e também a importante cidade de Nanquim, onde levaram a cabo uma das piores atrocidades da história moderna – estuprando, torturando e assassinando sistematicamente mais de 300 mil civis.45 O Japão saqueou a China para obter matérias-primas, para a produção industrial por trabalho escravo, e cometeu horrendos crimes de guerra, incluindo o uso de armas químicas. Isto estava a acontecer no contexto da II Guerra Mundial de 1939-1945 – em que as potências imperialistas procuravam, repito, re-dividir violentamente o mundo.

Os comunistas chineses estavam determinados a combater a invasão e ocupação japonesa, como parte da luta pela libertação nacional e social. Em 1940, as suas forças militares tinham aumentado para cerca de 500 mil combatentes. Mao e os comunistas mobilizaram e lideraram o povo chinês a pôr-se de pé e a combater as forças ocupantes do imperialismo japonês. E, em 1945, infligiram uma derrota às forças japonesas na China.

Mas o país estava devastado. Cerca de 14 milhões de chineses morreram em resultado da II Guerra Mundial! A maior parte da rede ferroviária, das principais estradas e das fábricas da China tinham sido destruídas. E, assim que a guerra acabou em 1945, começou uma guerra civil entre as forças lideradas pelos comunistas e as forças do Kuomintang, armadas e financiadas pelos imperialistas norte-americanos. Após quatro anos de intensos combates, a revolução chinesa triunfou em 1949.46

Mas os imperialistas norte-americanos iriam muito em breve avançar pela península coreana, ameaçando invadir a própria China e usar armas nucleares. A 7ª Frota Naval norte-americana estava estacionada no Extremo Oriente. Tudo isto aconteceu durante a Guerra da Coreia, a qual começou apenas nove meses depois da vitória da revolução.

A revolução chegou ao poder nestas condições. Ao obter esta vitória incrível, a revolução chinesa tornou-se num farol para os oprimidos do mundo – e num alvo para o imperialismo. A visão convencional no movimento comunista nessa altura era de que não era possível num país economicamente atrasado como a China, com centenas de milhões de camponeses, fazer uma revolução anticolonial que levasse ao comunismo. Mao aplicou e desenvolveu ainda mais a ciência do comunismo ao forjar uma via revolucionária para as nações oprimidas – desenvolvendo simultaneamente o programa político e a estratégia militar para fazer uma revolução libertadora nesse tipo de países. E o passo em frente dado por Mao tem tido grandes implicações para a revolução em todo o mundo.

A China nas vésperas da revolução

P: Como era a sociedade chinesa em 1949?

RL: A China era uma sociedade semifeudal. A grande maioria da população era constituída por camponeses pobres, sujeitos ao domínio cruel e arbitrário dos proprietários rurais.

Os camponeses alugavam a terra aos proprietários que, quando as colheitas eram boas, chegavam a retirar metade da riqueza produzida pelos camponeses – levando cereais como renda. Nos anos de más colheitas, retiravam ainda mais. Os camponeses ficavam com o que sobrava, e mesmo nos melhores anos isto geralmente não era suficiente – pelo que os camponeses tinham de pedir empréstimos a usurários, pagando juros que podiam ser qualquer coisa entre 30% e 100%. E, em cima disto, os camponeses tinham de pagar impostos às autoridades governamentais. Nos anos de fome, que eram frequentes, os camponeses ficavam reduzidos a comer folhas e cascas de árvores, e muitas vezes eram mesmo forçados ao horror de venderem um dos seus filhos para que os outros pudessem sobreviver. Sabem, a fome era considerada parte da vida normal, uma das coisas de que um camponês poderia esperar morrer – como as doenças ou a velhice.47

Para as mulheres, a vida era um inferno vivo. Estou a falar dos espancamentos de esposas, dos casamentos arranjados e da prostituição forçada. Um dos mais opressores e horrendos costumes da sociedade chinesa era a prática dos pés enfaixados. Os pés das meninas de sete ou oito anos eram firmemente embrulhados e dobrados até o arco partir e os dedos ficarem permanentemente dobrados. Esta horrível prática era feita para reduzir os pés das mulheres e as forçar a oscilar quando andavam – o que era considerado erótico e estético na sociedade patriarcal da China. A intensa dor e sofrimento estavam resumidos num velho ditado: “Por cada par de pés enfaixados, um balde cheio de lágrimas”. O enfaixamento dos pés tornou-se no símbolo das condições das mulheres chinesas antes da revolução.48

Nas cidades, a situação era desesperada. Em Xangai antes da erupção da II Guerra Mundial, eram recolhidos das ruas 25 mil cadáveres por ano.49 Nas fábricas têxteis, as jovens operárias ficavam fechadas à noite. Xangai também tinha sido dividida por diversas potências estrangeiras.

A China tinha uma base industrial pouco desenvolvida – produzindo sobretudo bens de manufatura ligeira como cigarros e têxteis. Era um país com 500 milhões de habitantes, mas só tinha 12 mil médicos treinados em medicina ocidental. Morriam quatro milhões de pessoas por ano devido a doenças infecciosas e parasitárias.50 A esperança de vida era de 32 anos. As pessoas estavam tão desesperadas que havia um enorme flagelo de dependência do ópio – 60 milhões de viciados em ópio.

É por isto que se faz uma revolução. É por isto que é necessário derrubar as velhas classes exploradoras e destruir o seu sistema estatal.

Mobilizar as massas para transformar toda a sociedade

A revolução chinesa fez precisamente isso. Estabeleceu um novo poder de estado, uma forma da ditadura do proletariado, baseado na aliança entre operários e camponeses. Este novo poder de estado protegeu os direitos das pessoas, reprimiu a contrarrevolução e tornou possível que fosse feita uma transformação global da sociedade e o apoio à revolução mundial. Nas cidades e nas zonas rurais foram estabelecidas novas instituições a todos os níveis da sociedade, lideradas pelo Partido Comunista mas envolvendo milhões e milhões dos anteriormente explorados a tomarem a iniciativa para transformarem e administrarem a sociedade.

Sabem, durante milénios, os oprimidos foram tratados como nada mais que um par de mãos para trabalhar. Agora eles tinham o direito e a capacidade de se porem de pé – e o apoio do Exército Popular de Libertação para transformarem a vida económica, política, social e cultural.

Sob a liderança de Mao e do Partido Comunista da China, a revolução chinesa começou imediatamente a mudar a situação.

P: Por onde começaram?

RL: Uma das primeiras medidas foi a reforma agrária. No início dos anos 1950, o novo poder de estado revolucionário tinha distribuído entre 30% e 40% das terras aráveis da China, retiradas às classes proprietárias rurais exploradoras, por cerca de 300 milhões de camponeses. A reforma agrária chinesa foi a mais massiva expropriação e distribuição de propriedade e o maior repúdio de dívidas da história mundial.51 Ela foi verdadeiramente um movimento de massas vindo de baixo, liderado pelo partido. Foi diferente da transformação vinda de cima que frequentemente ocorreu nas zonas rurais soviéticas sob Estaline.

Por toda a China, os camponeses repartiram as terras, as ferramentas e os animais. Eles enfrentaram os antigos proprietários rurais. Organizaram reuniões de massas para falarem sobre como tinham sofrido na velha sociedade e como iriam trabalhar a terra na nova sociedade. Entraram na vida política, afastando os antigos magistrados das aldeias e substituindo-os por conselhos eleitos. Começaram a libertar-se da superstição e a estudar ciência. Num país onde as mulheres nunca tinham sido tratadas como iguais, não foram só os homens mas também as mulheres que receberam terras. A revolução tinha quebrado de maneira decisiva a espinha à opressão dos proprietários rurais.52

P: Mencionaste que as mulheres obtiveram terras, mas de que outras maneiras as coisas estavam a mudar para as mulheres?

RL: Recuemos aqui por um momento. Falei antes sobre o que tinha sido feito na União Soviética, sobretudo na primeira década ou assim, e em comparação com o resto do mundo. E temos de compreender realmente que esta questão – estou a falar da opressão da mulher de uma maneira mais universal – nem sequer foi vista como uma “questão” até finais do século XVIII, quando foram escritas as primeiras obras importantes sobre ela. Marx e Engels viram-na como parte integral da revolução comunista logo desde o início e Engels escreveu uma importante obra sobre ela – A origem da família, da propriedade privada e do Estado – em que detalha como surgiu esta opressão e, em traços muito gerais, como podia e seria eliminada na luta pela sociedade comunista.53

Portanto, estas eram a análise e a pratica mais avançadas no planeta, por um lado, mas ainda assim houve maneiras em que tudo isto – o trabalho teórico pioneiro de Engels, as transformações na União Soviética e mesmo os primeiros avanços na China de que falarei mais à frente – foram os primeiros passos. Os primeiros passos – mas passos de gigante. Mesmo algo como o direito a terem terras – isto teve uma grande importância no contexto de um país que, de muitas maneiras, ainda não tinha saído completamente do feudalismo.

Portanto, em 1950, na China libertada, uma nova lei do casamento pôs fim aos casamentos com crianças e aos casamentos arranjados. A nova lei garantiu às mulheres, bem como aos homens, o direito a se divorciarem. Mas a revolução, como salientou Mao, era mais que novas leis. As pessoas estavam a mudar a sociedade através da mobilização das massas, mas isto estava profundamente ligado à luta pela transformação das relações sociais opressoras e das ideias retrógradas, bem como pela mudança dos valores e das maneiras de pensar.

Onde houve reforma agrária, houve luta contra o tratamento das mulheres como objetos da autoridade masculina, uma luta contra os limites estreitos da família e contra a autoridade do clã. Uma coisa muito importante nisto foi: o partido desenvolveu uma prática de se apoiar nas viúvas e nos órfãos, mesmo quando estava a levar a cabo a luta pela reforma agrária e por formas cooperativas de agricultura – atraindo os mais oprimidos e, neste processo, atraindo de uma maneira muito mais plena as mulheres para a vida pública, e de uma maneira muito dinâmica.

Na sociedade em geral, houve uma luta ideológica contra a noção de inferioridade das mulheres. Mao popularizou o lema “as mulheres levam aos ombros metade do céu e devem conquistá-lo”. Não era simplesmente uma declaração de igualdade mas antes um apelo a assumirem tudo aquilo que se interpusesse no caminho. Em menos de uma década, a prostituição desapareceu como fenómeno social importante; foi retirada a vergonha às mulheres que antes tinham sido forçadas a isso e possibilitou-se que elas tivessem uma nova vida, produtiva, e as mulheres podiam andar sem medo pelas ruas das grandes cidades. Foi eliminada de uma vez por todas a prática dos pés enfaixados. E tudo isto foi ainda mais longe durante a Revolução Cultural, a qual começou em 1966 – e sobre a qual falarei daqui a pouco.54

P: Disseste que a China ficou devastada depois da guerra. Como é que o novo poder lidou com isso?

RL: Foram lançadas campanhas de massas para limpar as cidades. A cólera e outras doenças epidémicas foram eliminadas ou controladas. Foram construídas novas fábricas e alojamentos para os trabalhadores. Foram construídos hospitais e escolas de medicina. Em 1965, a China já tinha treinado 200 mil médicos regulares.55 Foi criado um novo sistema de ensino a nível nacional. Foram lançadas massivas campanhas de alfabetização. Todo o tipo de voluntários foram para as zonas rurais e, em finais dos anos 1950, a maioria dos camponeses tinha obtido conhecimentos básicos de leitura. Foi isto que a revolução tornou possível.

O flagelo do vício do ópio foi eliminado através de massivas campanhas de tratamento e educação. As pessoas que antes eram viciadas podiam agora trabalhar de uma maneira produtiva – porque tinha sido estabelecida toda uma nova economia baseada na satisfação das necessidades sociais, o que incluía a capacidade de cultivar produtos agrícolas para beneficio da sociedade. O mais importante, o mais precioso, eram as pessoas e a capacidade de serem saudáveis, de aprenderem e de contribuírem.56

Uma questão não resolvida: Que rumo para a sociedade?

P: Portanto, foram grandes avanços.

RL: Sim, mas o rumo que a sociedade iria tomar – isso não foi resolvido.

P: Que queres dizer com isso? Eles tinham o poder, não tinham?

RL: Deixem-me voltar atrás por um segundo. Quando a revolução chegou ao poder em 1949, Mao pronunciou aquele famoso discurso na Praça Tiananmen em Pequim. Ele declarou à multidão: “O povo chinês pôs-se de pé.” Mas também olhou para além desse momento e declarou que isso era “apenas o primeiro passo, (...) apenas um curto prólogo numa longa peça de teatro.”57

Era a maneira poética de Mao de dizer que a revolução não podia parar. Estava a entrar numa nova etapa de transformação socialista da economia, de criação de novas instituições políticas e de criação de novos valores de trabalhar para o bem comum. A revolução tinha de continuar.

A meta da revolução comunista é eliminar a divisão da sociedade e do mundo em classes e criar uma comunidade mundial da humanidade. Marx usou a seguinte expressão muito descritiva para captar a essência do comunismo: “as duas ruturas radicais” com as relações tradicionais de propriedade e com as ideias tradicionais. É por isso que estas mudanças iniciais que eu estava a descrever, por muito extraordinárias que tivessem sido... foram apenas “o primeiro passo”.

Mas havia forças poderosas no Partido Comunista da China que tinham um ponto de vista muito diferente. Viam a revolução como um veículo para ultrapassar a dependência e o atraso económicos da China e para transformar a China numa potência moderna e industrial. A China tinha estado humilhada e dominada por potências estrangeiras. Elas viam o socialismo como um meio, e um contexto, para conseguirem a libertação nacional e a independência nacional.

E chegaram à conclusão oposta à de Mao. Da perspetiva delas, a revolução político-social tinha essencialmente terminado em 1949. A tarefa agora, como elas a viam, era sobretudo a modernização económica.

Estavam a basear-se em parte nas deficiências da União Soviética quando esta era socialista. Promoveram um programa de industrialização rápida. O desenvolvimento, aos olhos delas, iria depois escorrer para as zonas rurais. O ponto de vista delas levou-as para uma certa direção: a concentração de recursos em fábricas grandes e modernas e em tecnologia avançada; a construção de um grande aparelho de planeamento centralizado; a criação de exércitos de peritos; a motivação das pessoas através de incentivos salariais e bónus. Mas aqui estava a armadilha: grande parte da maneira de pensar delas na verdade refletia o entendimento dominante do socialismo no movimento comunista internacional. Elas estavam a adotar o modelo soviético de desenvolvimento.

P: E Mao discordava?

RL: Sim. Mao reconhecia a necessidade de construir uma indústria... mas estava contra a ideia de uma rápida industrialização baseada na concentração de recursos nas zonas urbanas e à custa dos camponeses na agricultura. Era a favor de se desenvolver a tecnologia, sobretudo a tecnologia adequada às condições da China... mas era contra a ideia de colocar a tecnologia e os peritos acima do povo e da sua criatividade. Era a favor de melhorar a vida das pessoas... mas contra motivar as pessoas através de um apelo estreito aos seus interesses materiais imediatos.

Ele via essa abordagem dos outros líderes do partido como uma abordagem que conduziria ao reforço e aumento das desigualdades e que estaria a retirar a iniciativa às massas. Ele estava à procura de uma abordagem que permitisse de facto que as massas obtivessem um domínio total da sociedade e que impedisse que se formassem novas elites.

Era necessário planear o desenvolvimento económico, mas era necessário um sistema de planeamento diferente, mais radical, mais dinâmico e mais participativo do que o que havia na União Soviética socialista. Por um lado, se a China queria conseguir resistir a um ataque e invasão imperialistas, tinha de descentralizar a indústria e de não concentrar o desenvolvimento nas cidades e zonas litorais vulneráveis; mas de facto estou a falar de uma questão mais profunda, que tem a ver com envolver as massas populares de uma maneira mais aprofundada no processo concreto de conhecer e transformar a sociedade.

Portanto, havia esta contenda entre dois campos no Partido Comunista sobre o rumo da sociedade. Essas forças conservadoras tinham força e influência no Partido Comunista e na sociedade. No período entre 1949 e 1976, houve uma intensa luta aos mais altos níveis do partido sobre o rumo da sociedade, sobre avançar para o comunismo... ou regressar ao capitalismo.

E há uma outra dimensão. Em meados dos anos 1950, Mao e as forças revolucionárias estavam a lutar contra dois legados. Bob Avakian tem falado sobre isto.58 Em primeiro lugar e mais importante, estavam a lutar contra as continuadas ameaças e influência do capitalismo e do imperialismo ocidental, os quais historicamente tinham dominado a China e estavam a cercar e a pressionar a China. Em segundo lugar, Mao estava a lutar contra o legado político e ideológico e a influência do modelo soviético de desenvolvimento, o qual mesmo antes da sua degeneração em capitalismo de estado tinha significativos problemas. Por capitalismo de estado, quero dizer um sistema em que as fábricas, as minas, os transportes – em suma, os meios de produção – são propriedade do estado, mas são geridas de acordo com os princípios capitalistas do “lucro no comando”, em vez de estarem a apoiar a revolução e a satisfazer as necessidades sociais.

P: Sei que já falamos um pouco sobre isto, mas porque é que isso não era um modelo para o desenvolvimento socialista?

RL: Bem, um dos problemas da abordagem ou modelo soviético era a ideia de que assim que se tenha estabelecido a propriedade estatal dos principais recursos produtivos da sociedade, então a tarefa fundamental era a de desenvolver as forças produtivas, de avançar a todo o vapor e desenvolver realmente a economia. Mas Mao via isto de uma maneira diferente. Ele argumentou que este ponto de vista não iria levar de facto as massas a transformarem as condições materiais e a se transformarem a elas próprias – a transformarem todas as relações sociais e ideológicas da sociedade. Em vez disso, este modelo de apenas “ir produzindo ao longo do caminho” para o comunismo, na realidade levaria ao surgimento de um novo estrato privilegiado que começaria a instalar-se numa posição acima das massas.

Ora, nessa altura, Mao não tinha uma teorização completamente formada de tudo isto. E ainda haveria grandes lutas durante os anos seguintes, que culminariam na Revolução Cultural. Essas lutas foram crisóis através dos quais Mao começou a forjar um entendimento pioneiro da natureza da sociedade socialista e de como chegar à meta do comunismo, um entendimento realmente novo do que é o comunismo. Mas, nessa altura, nos inícios e meados dos anos 1950, Mao já via problemas reais naquilo a que eu chamo “o modelo soviético”.

Portanto, era esta a situação que a liderança revolucionária na China enfrentava. Iria a China conseguir resistir às pressões do imperialismo ocidental, em particular dos EUA? Iria conseguir resistir às pressões para ficar debaixo da asa e do controlo da União Soviética? Ou iria conseguir seguir um caminho diferente, um caminho libertador?

O Grande Salto em Frente

O Grande Salto em Frente de 1958 começou a esculpir esse caminho diferente. Havia um tremendo potencial e entusiasmo por uma mudança nas zonas rurais. E a liderança revolucionária conseguiu transformar isso numa poderosa força para a transformação.59

P: Há muita confusão e desinformação em relação ao Grande Salto em Frente. De que se tratava? E depois gostaria que falasses sobre os ataques ao Grande Salto em Frente.

RL: No centro do Grande Salto em Frente nas zonas rurais estavam as comunas. As comunas juntaram os camponeses de uma maneira que combinava a atividade económica, a atividade política e social, a milícia e a administração. Isto era algo novo. Eram unidades de poder em que as massas, sobretudo os anteriormente oprimidos e explorados, estavam a exercer o poder sob a liderança do partido. Estavam a mudar a base produtiva da sociedade, especificamente nas zonas rurais. E ao fazê-lo... como parte disso, estavam a mudar as relações entre as pessoas.

Ora, as comunas surgiram através de um processo. Os camponeses tinham participado no grande movimento de reforma agrária... tinham-se erguido contra os antigos proprietários rurais e obtido terras, ferramentas e gado. Mas as coisas não pararam aí. A liderança revolucionária encorajou as pessoas a formarem brigadas de ajuda mútua, para se ajudarem umas às outras para trabalharem a terra e partilharem as ferramentas. E depois a formarem cooperativas em que os camponeses se juntavam e usavam coletivamente as terras, os animais e as grandes ferramentas que eram sua propriedade individual. E depois a formarem cooperativas de maior dimensão.60

As pessoas estavam a trabalhar coletivamente de novas maneiras e a ver os benefícios de trabalhar coletivamente e partilhar recursos. Um crescente número de camponeses começou efetivamente a queimar os títulos de propriedade das terras, porque eles estavam a trabalhar e a ganhar confiança nesta nova situação.

Numa zona rural, as cooperativas camponesas juntaram-se umas às outras para iniciarem um vasto projeto para trazer água através das montanhas para irrigar planícies áridas. Mao fez o balanço desta experiência e ela converteu-se num modelo para as comunas.

P: Então, que estavam a fazer as comunas?

RL: As pessoas podiam mobilizar-se coletivamente e libertar todo o tipo de energias e criatividade. Trabalharam para recuperar terras, plantar árvores e construir estradas. Construíram projetos de irrigação e vários projetos de controlo das cheias para se protegerem das calamidades. Tornou-se possível usar tratores e máquinas de uma maneira mais racional para satisfazer as necessidades da produção de alimentos, porque a terra era propriedade coletiva. E foram instaladas indústrias de pequena escala nas zonas rurais – fábricas de fertilizantes e cimento e pequenas centrais hidroelétricas. Os camponeses começaram a dominar a tecnologia; o conhecimento científico foi disseminado e tornou-se possível inovar e resolver problemas ao nível local de uma maneira inteiramente nova. O estado socialista também estava a assegurar que os preços dos bens industriais e dos bens manufaturados de consumo comprados pelas comunas e pelos camponeses se mantivessem baixos e que os preços agrícolas fossem regulados a um nível que ajudava os camponeses.

Destas e de outras maneiras, os fossos entre a cidade e o campo e entre os camponeses e os operários estavam a ser abordados e transformados. Isto foi muito importante, porque o desenvolvimento desigual entre as zonas urbanas e as zonas rurais é uma fonte de privilégio e dominação social e de classe. Historicamente, o desenvolvimento e a industrialização capitalistas têm envolvido cidades que secam os recursos das zonas rurais – com os camponeses das zonas rurais a enfrentar os preços baixos dos bens agrícolas que vendem e os preços muito mais elevados dos bens manufaturados que compram. Este tipo de relações desiguais urbano-rurais contribui para o empobrecimento das zonas rurais e força muitos agricultores-camponeses no Terceiro Mundo a abandonarem as zonas rurais para os bairros degradados e as favelas das cidades. Isto também foi uma alternativa, e uma rejeição, à abordagem soviética à coletivização que espremia desmesuradamente os camponeses para se poder acumular capital para o desenvolvimento industrial.

Uma importante característica do Grande Salto em Frente foi a maneira como desafiou a opressão da mulher. As mulheres deixaram de estar constrangidas, e limitadas, pela sufocante estreiteza da produção baseada na família. As pessoas saíram de casa. O Grande Salto em Frente criou cozinhas, refeitórios e infantários comunais e reparações caseiras cooperativas. As mulheres entraram no redemoinho da batalha económica, política e ideológica pela criação de uma sociedade nova. Os velhos hábitos e valores foram questionados. As pessoas estavam a lutar contra a superstição, o fatalismo e os costumes feudais que ainda persistiam, como os casamentos arranjados.61

As comunas também estabeleceram redes de escolas primárias e secundarias, bem como de clínicas médicas.

Isto foi uma maneira de desenvolver a autossuficiência e um desenvolvimento equilibrado, com uma disseminação das capacidades técnicas e industriais, permitindo à China resistir melhor a um ataque imperialista e apoiar a revolução mundial.

As comunas marcaram um salto na participação direta das massas em todas as esferas da sociedade, mesmo em relação ao que a revolução tinha conseguido fazer até então.62

Uma via sã e racional de desenvolvimento

P: Mas quando se lê qualquer um desses livros ou artigos anticomunistas sobre o Grande Salto em Frente, todos eles dizem que ele foi “insano e irracional”.

RL: Deixem-me dizer-vos o que é insano e irracional. A agroindústria multinacional que se baseia na especialização em monoculturas para a exportação e numa enorme introdução de fertilizantes baseados no petróleo, que prejudica os ecossistemas locais e afasta os camponeses das zonas rurais para as cidades, para bairros degradados e favelas – isso é insano. Converter terras antes dedicadas ao cultivo de alimentos em terras para culturas viradas para combustíveis como o etanol e o desenvolvimento de uma agricultura orientada para a exportação em que se plantam flores exóticas para exportação enquanto as pessoas pobres ficam famintas – isso é insano. Fazer com que os países se tornem cada vez mais dependentes do mercado mundial para os bens alimentares básicos que estão sujeitos aos caprichos dos preços mundiais – isso é o cúmulo da irracionalidade e da insanidade.

Quando 250 mil camponeses indianos pobres cometeram suicídio entre 1995 e 2011, porque foram apanhados nas redes da agroindústria global, como a Monsanto, e se endividaram para pagarem as sementes e os fertilizantes monopolizados por essas empresas – isso é o trágico resultado de uma maneira insana e irracional de organização económica baseada no lucro e na dominação imperialista da agricultura e do conhecimento científico.63

Sabem, estive em Manila em 1996 e as pessoas levaram-me ao que se chama Montanha Fumarenta. É um enorme aterro onde as pessoas recolhem o que podem para sobreviverem, usarem ou venderem. Havia fumo e gases tóxicos devido aos fogos (é daqui que vem o nome dela). Muitas dessas pessoas eram camponeses deslocados. E isto foi numa altura em que as Filipinas estavam a ser pressionadas a cultivar as chamadas “exportações agrícolas não tradicionais”, como os espargos, que me disseram não fazer parte da dieta das pessoas. Algumas das mulheres que antes cultivavam arroz mas que não tinham títulos de propriedade das terras... estavam sujeitas a estas pressões para substituírem as culturas... e deixaram de poder cultivar e migraram para Manila, onde o único trabalho para muitas delas era no tráfico sexual. Isto é uma loucura.

Reparem, vivemos num mundo em que morrem 18 mil crianças por dia, todos os dias, de fome e doenças evitáveis.64 Isto sim é insano.

Do ponto de vista de satisfazer as necessidades básicas do povo e de desenvolver uma agricultura sustentável, do ponto de vista de eliminar todas estas divisões escravizadoras – do ponto de vista de servir os interesses da humanidade – o Grande Salto em Frente foi totalmente racional. Foi um exemplo do que Mao chamava “pôr a política no comando” do desenvolvimento económico – criar uma economia que esteja ao serviço das necessidades do povo e contribua para a transformação revolucionária da sociedade.65

Através do Grande Salto em Frente, e mais tarde da Revolução Cultural, a China revolucionária estava a fazer algo que não tem precedentes na história humana. Foi a primeira vez que um processo de desenvolvimento económico e de industrialização não foi simultaneamente um processo de urbanização caótica.

A verdade sobre a fome

P: Mas houve uma fome, e diz-se que foi porque Mao era imprudente, tentando fazer coisas fanáticas nas zonas rurais, tentando apenas retirar o máximo possível do trabalho dos camponeses, e indiferente ao bem-estar do povo.

RL: Quero falar sobre isso, e esclarecer as muitas distorções. Primeiro, como expliquei, o Grande Salto em Frente não foi imprudente, foi guiado por metas políticas coerentes. Mobilizou a energia e o entusiasmo das massas camponesas.

Ora, houve uma grande crise de alimentos que começou em finais de 1959 e que se agravou em 1960. Mas não foi devido às políticas nem à indiferença de Mao. A crise de fome não foi o resultado do sistema de comunas, do caminho económico diversificado que estava a ser criado, nem dos projetos de recuperação de terras. As dificuldades de 1960-61, e elas atingiram proporções de fome, tiveram causas complexas.

Primeiro, houve um declínio acentuado na produção de alimentos em 1959. A China tinha sofrido um dos seus piores desastres climáticos num século. As inundações e a seca afetaram mais de metade das terras agrícolas da China.66

Segundo, a situação internacional teve uma reviravolta que teve impacto nos desenvolvimentos na China. Houve uma aguda luta ideológica entre a China revolucionária e a União Soviética. Como disse antes, a União Soviética já não era socialista; novas forças capitalistas tinham subido ao poder em meados dos anos 1950. A liderança soviética estava agora a tentar consolidar o movimento comunista internacional em torno de uma linha revisionista. Por revisionismo, quero dizer uma perspetiva capitalista e antirrevolucionária que se disfarça numa terminologia marxista para justificar e legitimar políticas reformistas que não tocam nas relações fundamentais do capitalismo. Mao concluiu que a União Soviética tinha abandonado a via socialista e estava a vender os interesses da revolução mundial ao imperialismo norte-americano. E denunciou isto.

Os soviéticos retaliaram, retirando os seus conselheiros e técnicos, acabando com a ajuda e saindo com os planos de instalações industriais inacabadas. Isto causou desequilíbrios na economia chinesa. Deixou de haver as peças sobressalentes e o equipamento de que estavam à espera e o plano económico original ficou em risco. Além disso, os soviéticos deixaram a China com o fardo de uma dívida, devido ao equipamento militar fornecido durante a Guerra da Coreia.67

Portanto, houve um declínio abrupto e agudo na produção de alimentos devido a essas calamidades climáticas; e depois a retirada repentina da ajuda soviética criou mais tensões e ruturas na economia.

Terceiro, também houve alguns erros políticos dos maoistas. Um dos problemas era que, em muitas zonas rurais, muito do tempo de trabalho dos camponeses era dedicado a projetos não agrícolas. Isto prejudicou a produção de alimentos. Um outro problema era que as comunas eram inicialmente bastante grandes; e também houve o problema de tentarem organizar e gerir a produção agrícola, a distribuição de rendimentos e outras atividades a um nível demasiado elevado e centralizado na estrutura das comunas. Era necessária uma maior flexibilidade.

Quarto, a alta liderança revolucionária não estava a receber uma informação tão fidedigna quanto teria sido desejável sobre o que estava de facto a acontecer a nível local, sobretudo à medida que a situação de fome se agravava rapidamente. Por um lado, as vastas mudanças e experimentação do Grande Salto em Frente causaram transtornos nalguns dos procedimentos de planeamento estabelecidos, bem como nos sistemas e canais de informação. Por outro lado, as pressões da liderança central para se cumprir as metas, combinadas com o espírito eufórico desses tempos, tiveram como consequência que os líderes locais muitas vezes exageravam os números da produção de cereais e outros produtos. Assim, tudo isto se combinou para tornar mais difícil à liderança obter o tipo de imagem precisa do que era necessário fazer – e isto afetou a capacidade de responderem rapidamente.

Houve uma crise real. Mas a liderança de facto respondeu. Foram realizadas investigações e foram feitos ajustes. A quantidade de cereais a entregar ao estado foi reduzida. A escala de alguns projetos não agrícolas foi reduzida, para que as pessoas pudessem dedicar mais tempo à produção de alimentos. As comunas foram reduzidas em dimensão, para que houvesse uma maior flexibilidade.68 Os cereais foram racionados a nível nacional e foram enviados fornecimentos de cereais de emergência para as regiões em dificuldade.69 Foram importados cereais para ajudar as cidades e para que as comunas pudessem manter mais cereais.

De grande importância foi o facto de a estrutura das comunas, as instituições e os valores da cooperação, terem possibilitado de facto que as pessoas se unissem para lidarem com os problemas.70

Esta fome de 1960-61 teve as causas que estou a descrever. Foi-lhe dada uma resposta da maneira que estou a descrever: com base nas necessidades das pessoas e de um maior avanço da revolução.

Comparemos esta situação com a fome que ocorreu na Índia durante a II Guerra Mundial e que matou entre 1,5 e 3 milhões de pessoas. Essa fome foi causada pelas políticas de aquisições e preços agrícolas do governo britânico durante a guerra. Ela foi obra de Churchill e ele persistiu nessas políticas muito depois de ter sabido do sofrimento que estava a causar.71

E mais recentemente, tem havido – e continua a haver – fomes horrendas em África. Elas são o legado da dominação e distorção imperialistas dessas economias, de guerras civis que têm sido aproveitadas, quando não diretamente alimentadas, pelo imperialismo, e do aquecimento global e do seu impacto, que têm tudo a ver com o funcionamento do imperialismo mundial. E, nestes casos de fome, a “ajuda” acaba frequentemente por minar ainda mais a agricultura sustentável e de subsistência dos camponeses.

Portanto, num conjunto de casos, a fome resulta e é exacerbada pelas relações do capitalismo-imperialismo. No caso da revolução chinesa, a crise de 1960-61 ocorreu no contexto da tentativa de resolver o problema alimentar que há muito tempo infestava a China.

P: Mas e quanto ao grande número de mortes – há estudos que dizem que morreram 30, 40, 50 milhões de pessoas.

RL: Reparem, há uma verdadeira indústria caseira de inflacionamento do número de mortes durante o Grande Salto em Frente. Baseia-se em dados pouco fiáveis dos censos e em todo o tipo de manipulações estatísticas. Muitas das estimativas do número de mortes baseiam-se na diferença entre o que teria sido o esperado crescimento normal da população e a população real. Os métodos são muito duvidosos. Por exemplo, devido às dificuldades que houve durante a crise de alimentos, as taxas de natalidade caíram, mas alguns dos não nascidos são contabilizados nos números de “mortes em excesso”. Ou, para dar outro exemplo, durante o Grande Salto em Frente houve uma migração das aldeias, em certo grau quando o Grande Salto em Frente começou e depois quando aumentou a escassez de alimentos – e este fenómeno contribuiu para uma deficiente contabilização da população.72

Todo o esforço de inflacionamento dos números de mortes serve para atacar o Grande Salto em Frente e a revolução maoista de uma maneira mais geral. E é importante saber que os dados dos censos que os académicos ocidentais usam para calcular os números de mortes – esses dados dos censos foram inicialmente divulgados por Deng Xiaoping. Deng tinha-se oposto a Mao e liderou o golpe de estado contrarrevolucionário de 1976. No início dos anos 1980, ele estava a promover o desmantelamento das quintas coletivas – e os números de mortes e os cada vez maiores dos números de mortes fizeram parte da tentativa de descrédito oficial da agricultura coletiva que estava em curso.73

Frequentemente, os académicos ocidentais anticomunistas usam uma metodologia em que se alguém morreu, isso foi obra de Mao, e essas pessoas não morreram simplesmente, foram “mortas” por Mao – e Mao “matou-as” porque era um tirano implacável.

As pessoas podem ir ao sítio internet da Repor a Verdade (“Set the Record Straight”), onde disponibilizamos materiais que criticam essa metodologia.

A questão principal é esta: Em 1970, a China conseguiu, pela primeira vez, resolver o seu histórico problema alimentar. Ou seja, durante centenas de anos a China sofreu devastadores ciclos de secas e privações. Mas agora tinha a capacidade de satisfazer as necessidades nutricionais básicas e de segurança alimentar, a capacidade efetiva de ter uma agricultura sustentável baseada nas necessidades – e não uma agricultura ao serviço do capitalismo mundial.74

Isto teve tudo a ver com o Grande Salto em Frente e a criação de comunas. Teve tudo a ver com a mobilização coletiva das pessoas para a construção de obras de irrigação e controlo de cheias, para a recuperação e melhoramento das terras, para dominarem novas técnicas agrícolas e para o estabelecimento de pequenas indústrias nas zonas rurais. Teve tudo a ver com o espírito de trabalhar para o bem comum promovido pela revolução socialista.

A Revolução Cultural: O maior avanço da emancipação humana até agora

Pergunta: Falemos da Revolução Cultural que ocorreu entre 1966 e 1976. É o seguinte episódio momentoso da revolução chinesa.

Raymond Lotta: A Revolução Cultural foi o ponto alto da primeira etapa da revolução comunista. É o terceiro “marco” da primeira etapa da revolução comunista... Estou a falar da Comuna de Paris e da revolução bolchevique como os dois primeiros marcos.

Ora, a Revolução Cultural acabou por ser derrotada em 1976. E a China hoje já não é um país socialista. Mas a Revolução Cultural ainda é inspiradora e incrivelmente rica em lições. Qualquer pessoa que aspire a uma sociedade e um mundo justos e libertadores precisa de conhecer... e de aprender com a Revolução Cultural.

P: Mas, Raymond, há toda uma vilificação em torno da Revolução Cultural. Como é que explicas isto e ajudas as pessoas a ver as coisas com um ponto de vista científico?

RL: Sim, a burguesia nunca abranda os seus ataques à Revolução Cultural. E nós temos de levar a cabo uma verdadeira batalha pela verdade porque isto tem tudo a ver com a possibilidade humana. O que foi a Revolução Cultural? Que problemas na sociedade e no mundo estava ela a confrontar? Quais foram as suas verdadeiras metas? Quais foram as suas formas predominantes de atividade e luta? O que realmente conseguiu? Como é que a sociedade e as pessoas mudaram através dela?

A mera colocação destas questões para uma investigação e exploração sérias leva-nos para todo um plano de discussão diferente. E ao prosseguirmos e respondermos a estas questões nesta base científica, chegamos de facto à verdade concreta da Revolução Cultural.

Agora, ao se avaliar qualquer período ou figura históricos, haverá sempre tendências contrapostas ou secundárias, anomalias, o que for... mas a primeira e principal pergunta a responder é: o que é principal, qual é a essência da sociedade, ou do movimento social, ou da figura histórica em causa – o que as caracteriza quanto ao essencial?

A Revolução Cultural foi a tentativa de mais vasto alcance na história moderna, e na história humana, de revolucionar e reestruturar uma sociedade afastando toda a exploração e opressão – com base no envolvimento consciente, no ativismo consciente de dezenas e centenas de milhões de pessoas. No seu decurso, milhões e milhões de pessoas revolucionaram a sua conceção do mundo – ou seja, os valores fundamentais, a sua abordagem à realidade – e todo o etos, ou espírito, da sociedade foi transformado.

O perigo de a revolução fazer marcha atrás

P: Então, qual foi o ponto crucial da Revolução Cultural? Ouvimos falar tanto de fações e lutas e crítica e de pessoas a serem denunciadas.

RL: Para se chegar à essência disto, temos de dar um passo atrás. Estão a ver, Mao tinha estado à procura de uma solução para o problema de a revolução poder fazer marcha atrás. Não através de uma invasão ou um ataque, por mais reais que fossem esses perigos – mas devido a causas internas. Ou seja, por dentro do próprio sistema socialista. Tratava-se do perigo de o partido comunista se poder converter no instrumento de uma nova classe exploradora a exercer um controlo e dominação burgueses.

Estão a ver, uma nova elite poderia obter o controlo dos órgãos do poder de estado e depois adaptar esses órgãos para restaurar as relações de exploração e opressão – ainda que o estado se possa manter socialista no nome e manter algumas das características exteriores do socialismo.

Isto não foi uma questão abstrata na China em 1964-66.

Estávamos a falar do Grande Salto em Frente. Ele foi uma rutura radical com os modelos ocidental e soviético de desenvolvimento. Foi um golpe nas forças burguesas tecnocráticas no partido. Mas, devido à crise de alimentos e à fome de 1960-61, e devido aos desequilíbrios na indústria causados pela retirada repentina da ajuda e da assistência técnica soviéticas, foi necessário fazer alguns ajustes económicos e organizativos. Mas isto criou aberturas às forças conservadoras no Partido Comunista, as quais se anunciavam como os “realistas económicos” que poderiam colocar a economia onde ela precisava de estar. E elas agiram vingativamente para tentarem minar as políticas e o espírito do Grande Salto em Frente.

Essas forças tinham uma vasta força organizativa dentro do Partido Comunista. Em 1964-65, estavam a ganhar terreno. Tinham um programa coerente. Queriam usar critérios de lucro para decidir as prioridades do investimento. Queriam um sistema de ensino, moldado segundo o modelo soviético, que produzisse elites profissionais e “elites comunistas”. Estavam muito entrincheiradas na esfera cultural – a ópera, uma forma de arte muito popular, continuava dominada pelos antigos temas e personagens feudais. De facto, diziam aos operários e aos camponeses que esquecessem a política – “deixem isso para o partido e mantenham os olhos no chão que nós cuidamos do vosso bem-estar social.”

Como expliquei antes, para estas forças conservadoras nos mais altos níveis do partido e do estado, o principal era transformar a China num país moderno, poderoso, industrializado. Era com isto que elas identificavam o socialismo – e elas promoveram e, onde puderam, adotaram políticas que serviam esse objetivo e esse programa.

A nível internacional, a luta com os revisionistas soviéticos estava a intensificar-se. Mao estava a liderar a luta a nível mundial para demarcar a verdadeira revolução do revisionismo da União Soviética – e os soviéticos estavam a tentar isolar a China. Ao mesmo tempo, os imperialistas norte-americanos estavam a escalar rapidamente a guerra no Vietname. O Vietname do Norte faz fronteira com a China, e nessa altura havia um perigo real de os EUA a escalarem ainda mais e atacarem a China. Neste contexto, algumas destas forças revisionistas e conservadoras defenderam o arrefecimento da luta ideológica com os soviéticos. E estavam a posicionar-se para adotarem na China o modelo da União Soviética (que se tinha tornado num sistema capitalista dentro de um quadro institucional de propriedade de estado e planeamento estatal que só eram socialistas no nome).75

Lembrem-se, falámos sobre como Mao tinha estudado a experiência soviética de uma maneira muito profunda. Ele concluiu que as purgas de Estaline nos anos 1930 não tinham resolvido o problema de impedir a contrarrevolução na União Soviética. Em primeiro lugar, porque as massas de operários e camponeses se mantiveram passivas. Não desenvolveram a compreensão consciente que lhes permitiria distinguir entre os programas e os pontos de vista que impulsionariam a sociedade em direção ao comunismo... e os programas e as políticas que conduziriam de regresso ao capitalismo. E o Partido Comunista e as instituições do estado não foram revolucionados pelas purgas.

Mao estava a lidar com um problema histórico-mundial da revolução comunista. Como impedir a contrarrevolução, mas impedindo-a de uma maneira que seja consistente com o objetivo de chegar a um mundo comunista? Como impedir a contrarrevolução de uma maneira que capacite as massas a desempenharem o papel decisivo e consciente na transformação da sociedade e a se transformarem a elas próprias? Como manter o partido na via revolucionária e combater a atração para se “acomodar” e se tornar numa nova classe exploradora?

Era este o desafio. E estava a ser muito agudamente colocado em termos do que estava a acontecer na sociedade chinesa no início dos anos 1960... porque esses seguidores da via capitalista estavam posicionados para tomar o poder.

A situação mais geral na sociedade era-lhes favorável, por assim dizer.

Libertar os jovens para iniciarem a Revolução Cultural

P: Que queres dizer com isso? Não era Mao que ainda estava a liderar?

RL: Reparem, o partido tinha-se tornado muito calcificado e estas forças revisionistas tinham muita autoridade e influência – isto era um grande problema. Mas havia um outro grande problema. As pessoas também estavam a aceitar demasiadamente a rotina. Sabem, ao longo dos 17 anos anteriores tinha havido uma grande melhoria no bem-estar material e social das pessoas. Isto criou, sobretudo entre aqueles que tinham sofrido enormemente na velha sociedade, uma certa atração a não questionarem as coisas. E também, devido a tudo o que foi conseguido sob a liderança do partido, muitos camponeses e operários tinham assumido que os seus líderes, desde que se chamassem “comunistas”, deveriam ser bons, deveriam ser comunistas. E, em muitas unidades fabris e zonas rurais, as pessoas estavam simplesmente demasiado assustadas para criticarem a liderança. Como se afasta esta complacência a alinhar com o statu quo?

Portanto, era esta a situação, a necessidade, que Mao enfrentava. Mao estava à procura de uma solução. E a Revolução Cultural marcou o passo em frente. Não iria ser uma remoção da autoridade revisionista, a partir de cima. Iria ser uma revolução que envolveria e requereria a mobilização das massas, aos milhões, a partir de baixo. Através da luta política e ideológica de massas liderada pelo núcleo revolucionário do partido, as massas poderiam vir a compreender as questões do certo e do errado, da revolução e do revisionismo – e, com base nisso, iriam desempenhar o papel decisivo no derrube político dos centros do poder burguês no interior do Partido Comunista. A Revolução Cultural tinha a ver com revolucionar toda a sociedade e a maneira de pensar das pessoas.

Ao decidir lançar a Revolução Cultural, Mao estava a tomar um risco incrível. Já falei sobre a situação internacional, com os imperialistas norte-americanos no Vietname e as manobras soviéticas.

Portanto, como é que se podia abanar as coisas e iniciar este tipo de luta extraordinária? Mao estava à procura de uma fonte de dinamismo e rebelião. Onde é que ela estava na sociedade? Mao olhou para os jovens. Ao contrário de muitas pessoas mais velhas, eles não estavam a comparar tanto as coisas com o que eram antes... mas com o que elas poderiam ser.

Mao viu os jovens como catalisadores. Mao quis libertar o espírito questionador e rebelde da juventude.

Havia os Guardas Vermelhos, que eram organizações de estudantes revolucionários do ensino secundário e universitário, além de outros jovens. E eles organizaram protestos e manifestações, confrontaram os administradores universitários por agirem como caciques e lançaram críticas a vários líderes do partido. Isto foi o início da Revolução Cultural. Os Guardas Vermelhos ajudaram a propagar a mensagem de que “é justo revoltarmo-nos contra os reacionários”, como tinha dito Mao.76

As escolas encerraram durante um ano e o governo permitiu que os jovens viajassem gratuitamente de comboio. Eles espalharam-se por diferentes regiões, fazendo caminhadas mesmo até regiões muito remotas, e reuniram-se com as pessoas, como os camponeses, para os quais tinham sido ensinados a olhar de cima. E encorajaram as pessoas a erguerem a cabeça e a perguntarem: “Que políticas estão no comando aqui e que objetivo elas servem? Onde está a revolução aqui?”77

A natureza contraditória do socialismo

P: Raymond, usaste expressões como seguidores da via capitalista e talvez devesses explicá-las.

RL: Mao descobriu que as raízes do problema de a revolução poder fazer marcha atrás estão na própria natureza, a natureza contraditória, da sociedade socialista. Por um lado, o socialismo é um grande salto, um salto para além da exploração e da dominação de classe da burguesia. O socialismo torna possível levar a cabo mudanças económicas e sociais fundamentais ao serviço dos interesses das massas e capacita as massas a transformarem a sociedade.

Por outro lado, o socialismo é uma sociedade em transição. É uma transição do capitalismo – com todas as suas divisões de classe, exploração e desigualdades – para o comunismo, um mundo sem classes. E o socialismo transporta as cicatrizes económicas, sociais e ideológicas da velha sociedade. Continua a haver diferenças de desenvolvimento entre a indústria e a agricultura, entre a cidade e o campo e entre as regiões. Continua a haver a divisão milenar entre o trabalho intelectual e o trabalho manual. Continua a haver diferenças salariais e o dinheiro e os preços continuam a ser usados.

Estes “restos” da sociedade capitalista contêm as sementes do capitalismo. Veja-se o caso do dinheiro e dos preços, que são usados no socialismo no intercâmbio de bens e no apoio ao planeamento económico e para ajudar a avaliar a eficiência. Mas a existência de dinheiro e de preços também pode influenciar a tomada de decisões numa direção capitalista – em direção a se produzir de acordo com o que rende mais dinheiro.

E também há as instituições e as ideias opressoras que reforçavam a velha sociedade. Estou a falar do patriarquismo, do racismo e do chauvinismo nacional. Estas coisas não desaparecem “automaticamente” assim que a base material delas é minada com o derrube do capitalismo. Na verdade, elas depois têm de ser combatidas em si mesmas. E também há a força do hábito e de milhares de anos de ideias e maneiras de pensar das classes exploradoras.

Chegar ao comunismo requer superar estas desigualdades económicas e sociais, estas relações de mercadorias e estas instituições sociais e ideias opressoras. Isto não vai acontecer da noite para o dia. Marx de facto pensava que esta transição seria relativamente breve, mas ficou provado que isso era errado. Vai requerer um processo prolongado e complexo de luta e transformação revolucionárias – à escala mundial.

Portanto, vai haver uma luta em todos os momentos sobre como transformar e restringir estas marcas de nascença da sociedade socialista que tenho estado a descrever – ou mesmo sobre se não se deve transformar e restringir. Mao concluiu que esta é de facto uma luta entre a via socialista e a via capitalista – entre as políticas e as linhas que irão continuar o avanço para o comunismo e as que irão levar a sociedade numa direção diferente, de regresso ao capitalismo, como acontece hoje na China.

Ora, Mao concluiu que as desigualdades e diferenças sociais que continuam a existir na sociedade socialista, juntamente com o facto de o dinheiro, os preços e os contratos, continuarem a desempenhar um papel significativo na economia socialista, fazem parte do terreno em que se desenvolvem na sociedade socialista as novas forças privilegiadas e uma nova burguesia.

E ele levou esta análise ainda mais longe. Mostrou que o núcleo de uma nova classe burguesa no socialismo se encontra no interior dos níveis mais altos do partido comunista e do estado socialista. São os seguidores da via capitalista. Estes lutam por políticas que expandem estes fossos e baseiam-se em métodos e meios herdados da sociedade de classes exploradoras e, porque têm poder para influenciar a maneira como é feita a produção, convertem-se de facto no ponto de concentração de uma nova burguesia, precisamente no interior da sociedade socialista e precisamente no interior do próprio partido. Eles estavam a tentar tomar o poder – e foi por isso que Mao e o núcleo revolucionário lançaram a Revolução Cultural em 1966.78

Têm de perceber o quão grande foi o avanço teórico que Mao estava a fazer. Mao estava a aplicar categorias marxistas à economia política do socialismo e, nesse processo, estava a expandir e a enriquecer essas categorias. Ele mostrou que as relações socialistas de produção são altamente contraditórias, que há aspectos burgueses dentro delas. Ele mostrou que o capitalismo poderia reemergir no quadro da propriedade estatal socialista formal. E pegou na análise de Lenine de que “a política é a expressão mais concentrada da economia”79 para explicar como certos altos dirigentes do partido se podem converter de facto na personificação das relações capitalistas de produção. Mao e a liderança revolucionária estavam a expor este tipo de questões às massas no decurso da Revolução Cultural. O quartel-general revolucionário, como era chamado, estava a liderar o povo no estudo e na compreensão da “estrutura profunda” da sociedade e no questionamento do tecido da sociedade.80

Sabem, a narrativa anticomunista diz que Mao era um déspota paranoico que simplesmente inventava inimigos quando lhe convinha. Não, a Revolução Cultural tinha a ver com o destino de uma revolução que envolvia um quarto da humanidade. Era uma luta monumental pela continuação da luta por um mundo novo e libertador – contra esses seguidores da via capitalista que queriam levar a China de regresso ao capitalismo.

“Foi uma verdadeira revolução”

P: Podes falar-nos mais sobre o sentir e o fluir da Revolução Cultural?

RL: Foi uma verdadeira revolução. Foi plena de invenção e inovação. Desde o início, inspirou dezenas de milhões de pessoas mas também chocou e perturbou dezenas de milhões de pessoas. Tornou-se muito intensa: reuniões de rua, protestos, greves e manifestações. Havia o que se chamava dazibaos [cartazes de grandes carateres] colocados em todo o lado, com as pessoas a escrever comentários e críticas às políticas e aos líderes. Alguns deles eram muito sofisticados e outros eram mais simples. Foram disponibilizadas instalações públicas para reuniões e debates. Floresceram jornais de pequena circulação. Só em Pequim, havia mais de 900 jornais. Foram disponibilizados gratuitamente materiais e instalações para essas atividades, incluindo papel, tinta, pincéis, cartazes, impressoras, salas para reuniões e sistemas de som.

Depois, à medida que a Revolução Cultural ganhou raízes entre os operários, deu uma nova reviravolta. Quarenta milhões de operários em todo o país empenharam-se em intensas e complexas lutas e sublevações de massas para retomarem o poder às entrincheiradas administrações municipais do partido e das cidades que eram viveiros do conservadorismo. Por vezes houve paragens de trabalho e por vezes houve lutas para não se parar o trabalho; por vezes houve manifestações massivas, por vezes houve debates de massas que duravam toda a noite, frequentemente com a participação de estudantes e Guardas Vermelhos. Os cartazes estavam em todo o lado, com multidões a juntarem-se à sua volta para os lerem atentamente e os debaterem – como já disse, isto foi muito vivo, muito revolucionário.

Tornou-se muito intenso. Em Xangai, no outono de 1966, havia cerca de 700 organizações nas fábricas.81 As forças revolucionárias mobilizaram-se. Os seguidores da via capitalista contra-atacaram. Eles tinham as suas organizações de massa e tentaram desacreditar os revolucionários e subornar as pessoas com aumentos salariais.

Por fim, os operários revolucionários, com uma liderança maoista, conseguiram unir vastos setores da população da cidade. E, em janeiro de 1967, romperam o controlo dos revisionistas seguidores da via capitalista que administravam a cidade. Tomaram o principal edifício municipal, ocuparam as centrais de comunicações e começaram a organizar a distribuição de bens essenciais na cidade. Foi a “Tempestade de Janeiro” de Xangai.

E o que se seguiu foi extraordinário: as pessoas começaram a fazer discussões e debates de massas sobre como administrar a cidade, sobre que tipos de estruturas políticas melhor serviriam os objetivos da revolução. Começaram a experimentar novas instituições de governação política em toda a cidade. Houve debate... e estavam a surgir verdadeiros desafios sobre que tipo de órgãos de poder político, que tipo de instituições, correspondem às necessidades do avanço da revolução.

Estavam a ser colocadas grandes questões e também estavam a ser retiradas lições aos mais altos níveis da liderança da Revolução Cultural. Por exemplo, como possibilitar uma maior e mais significativa participação das massas na tomada de decisões? Mas, ao mesmo tempo, como desenvolver instituições e estruturas que sejam suficientemente fortes para impedir a contrarrevolução? Como se pode ter uma participação e um debate mais vastos... e, ao mesmo tempo, manter a liderança revolucionária e dar uma direção revolucionária às instituições de poder?

Porque não se está apenas a lidar com uma cidade como Xangai como cidade por si só, mas a tentar desenvolver um sistema de governação e de exercício do poder que tenha em conta as necessidades mais vastas da revolução – por exemplo, enviando médicos ou pessoal técnico qualificado para outros pontos do país onde possam ser precisos... ou mesmo para outros pontos do mundo para apoiar a revolução.

Era este o tipo de processo de experimentação, debate e análise que estava a ocorrer no primeiro ano ou nos dois primeiros anos da Revolução Cultural. E, por fim, foi estabelecida uma nova instituição de poder político, chamada “comité revolucionário”. Este combinava um grande envolvimento das massas e um papel dirigente especial do partido. Estas lições estavam a ser aplicadas e as mudanças estavam a ocorrer aos níveis de base da sociedade – nas fábricas, nos hospitais, nas escolas, etc.82

Mao disse que não pode haver revolução se ela não transformar os costumes, os hábitos e as maneiras de pensar. Quando falei sobre a União Soviética, mencionei a afirmação de Mao: “De que serve a propriedade estatal das fábricas e dos armazéns, se não se fomentam os valores de cooperação?” Um tema que tenho vindo a sublinhar, ou seja, o que Mao estava a salientar e o que o comunismo pressupõe – tem de se estar a mudar as circunstâncias e a mudar as ideias e os valores. E para quem e para quê: para um estreito interesse próprio ou para benefício da humanidade? As pessoas estavam a discutir este tipo de coisas no meio das grandes batalhas da Revolução Cultural. As pessoas estavam a transformar a sociedade e o mundo e as relações entre as pessoas e a sua própria conceção e entendimento do mundo, num processo muito entrelaçado.

Sabem, no início da Revolução Cultural, Mao fez uma observação crucial. Ele disse que embora o alvo da Revolução Cultural fossem os seguidores da via capitalista, o objetivo era mudar a conceção do mundo – capacitar as massas a compreenderam de uma maneira mais profunda e cientifica a sociedade e o mundo, o próprio papel transformador delas e as questões de ideologia e moralidade.83

Debates de massas, mobilização de massas, crítica de massas

P: E quanto ao nível de violência durante a Revolução Cultural?

RL: A violência irrompeu algumas vezes, mas não era isso a que Mao estava a apelar, nem foi o caráter principal da Revolução Cultural. As suas principais formas de luta foram os debates de massas, a mobilização política de massas e a crítica de massas.

A orientação de Mao foi claramente expressa em documentos oficiais amplamente publicitados. Na Decisão em 16 Pontos, que guiou a Revolução Cultural, declarava-se: “Num debate, deve recorrer-se ao raciocínio e não ao constrangimento ou à coerção.”84 Isto não era nenhum documento esotérico do partido. Foi popularizado em toda a sociedade.

Houve uma aguda luta política e ideológica contra a autoridade revisionista e dos seguidores da via capitalista, à escala de toda a sociedade. E como eu estava a dizer, os seguidores da via capitalista contra-atacaram. Organizaram-se entre os jovens, entre os operários e entre os intelectuais. Reparem, isto foi uma luta com dois lados.

Agora em relação à violência que ocorreu... primeiro, é importante entender que alguma da violência que ocorreu durante a Revolução Cultural – como já disse, essa não foi a principal forma como a luta se desenvolveu – na realidade foi incitada pelas altas fileiras dos seguidores da via capitalista que procuravam defender as suas posições fortificadas e desacreditar a Revolução Cultural.

E, nesta situação, também houve Guardas Vermelhos que se entusiasmaram no zelo deles para libertarem a sociedade de influências burguesas e cometeram excessos, recorrendo a maus-tratos às pessoas. E houve algumas pessoas que usaram a Revolução Cultural para saldarem velhas contas e agravos.

Uma outra coisa que tornou complicada a Revolução Cultural foi o facto de haver algumas cliques, ou grupos organizados, no interior do partido que se apresentavam como apoiantes, e mesmo como “os mais árduos apoiantes”, da Revolução Cultural – mas que de facto perseguiam uma “agenda” diferente e que acabaram por se lhe opor arduamente.

Mao e os líderes revolucionários tiveram de liderar as massas a distinguir as coisas, a resumir as lições e os métodos de luta e a consolidar os ganhos obtidos na compreensão. Os atos de violência foram criticados, condenados e combatidos pela liderança revolucionária maoista – através de declarações, diretivas, editoriais e intervenções no terreno.

Quando de facto se estuda o que disseram e fizeram as pessoas que estavam a trabalhar com Mao, torna-se claro que elas estavam a lutar para que as pessoas se unissem em torno dos interesses mais fundamentais e das aspirações mais elevadas delas, para que levassem a cabo uma luta em torno de princípios a partir de um plano mais elevado e para as ajudar a resistirem a se deixarem enredar em disputas sectárias. Por exemplo, houve um famoso incidente numa universidade em Pequim. Os ativistas estudantis envolveram-se numa luta de fações que acabou por assumir uma forma violenta. A liderança maoista enviou brigadas desarmadas de operários para ajudarem a acabar com a luta e ajudarem as pessoas a analisar as diferenças.85

As “novas coisas socialistas”

P: Então foi só uma luta infindável? Quero dizer, para onde estava a ir?

RL: Bem, a Revolução Cultural passou por várias fases. Houve o período entre 1966 e 1968 em que as pessoas se ergueram e houve o derrube de grande parte da cúpula dos seguidores da via capitalista, com todos os tipos de lutas e debates que tenho estado a descrever. Depois, a Revolução Cultural deu outra volta. Tornou-se possível consolidar os ganhos obtidos e levar avante a transformação social e institucional, e isto emergiu de facto das lutas e da experimentação que estavam a ocorrer.

E vemos estas grandes mudanças que ocorreram nas instituições de base e na governação da sociedade.86

P: Talvez nos possas dar alguns exemplos.

RL: Claro. Bem, uma grande ênfase da Revolução Cultural foi abordar a questão de se ultrapassar, e de trabalhar para se ultrapassar, a divisão histórica entre as pessoas que trabalham com as ideias e aquelas que trabalham com o dorso. Como fazê-lo? Quero aprofundar todo este tópico mais à frente, mas por agora o que é importante é que na maioria das sociedades isto nem sequer é uma questão – toma-se simplesmente como adquirido que algumas pessoas irão trabalhar com as ideias e ser treinadas a desenvolver essas capacidades e outras pessoas não; isso conduz a relações de desigualdade. É uma divisão de opressão, e o sistema de ensino no capitalismo está orientado para a reproduzir, e portanto se só tomarmos o velho sistema de ensino do capitalismo e o tentarmos expandir, vamos continuar a ter esta relação de opressão a ganhar raízes e a expandir-se.

Portanto, tendo isto em conta, o sistema de ensino foi completamente mudado. Foram profundamente desafiados os velhos métodos de ensino em que os estudantes são meros recetáculos passivos do conhecimento e levados a lutar pelas classificações e em que os professores são autoridades absolutas. Em vez disso, foi fomentado o espírito crítico e o estudo era combinado com atividades produtivas. As políticas elitistas de admissão às universidades que davam uma espécie de via rápida aos filhos e filhas dos membros do partido e dos profissionais... foram reformuladas. Houve uma grande mobilização para levar jovens de origem camponesa e operária para as universidades. A seguir ao ensino secundário, os estudantes de diferentes origens sociais passavam dois anos em fábricas ou em comunas. Depois candidatavam-se à universidade – e parte do processo de entrada eram recomendações e avaliações feitas por pessoas dessas comunas e fábricas.87

No capitalismo, o conhecimento é visto de uma determinada maneira: como ferramenta para se ganhar uma vantagem competitiva sobre os outros, como escada para o sucesso individual, como fonte de lucro e prestígio privados. E alguma desta mentalidade é passada para a sociedade socialista e é uma outra semente do capitalismo. No socialismo, o conhecimento é posto ao serviço da sociedade e do mundo, ao serviço de uma sociedade que está a eliminar as desigualdades e a mudar o mundo para benefício da humanidade e, repito, a combater essa mesma divisão opressora e enraizada, entre as pessoas que são treinadas a trabalhar com as ideias e as pessoas que são completamente afastadas disso.

Da Revolução Cultural surgiu o que se chamou as “novas coisas socialistas” que refletiam as novas relações e valores socialistas.

Um dos mais entusiasmantes avanços foi o que se chamou investigação de “portas abertas”. Os cientistas iam para as zonas rurais para fazerem experiências entre os camponeses. Foram instalados centros de investigação perto dos campos. As experiências eram feitas por especialistas vindos das cidades ao lado dos camponeses e com eles – sobre os cereais híbridos, os ciclos de vida dos insetos e outros aspectos da ciência. Os cientistas estavam a aprender sobre a vida dos camponeses e com as perguntas e análises deles e os camponeses estavam a aprender o método científico.

Nas cidades, as principais instituições de ensinos e institutos de investigação desenvolveram relações de cooperação com fábricas, comités de bairro e outras organizações. As pessoas iam aos laboratórios e os laboratórios iam ter com as pessoas. Houve soluções inovadoras, como o caso das mulheres de uma fábrica de bairro que produzia componentes para computadores avançados – não estavam a trabalhar como mão-de-obra subcontratada e sobre-explorada, como no sistema capitalista mundial atual, mas como parte de uma economia ao serviço do povo... em todo o caso, estas mulheres iam aos institutos de investigação e viam como se usava os computadores e as pessoas dos institutos iam às fábricas locais.88

Tudo isto tinha a ver com demolir muros e distinções sociais.

P: Estás a descrever um tipo muito diferente de estrutura social.

RL: Totalmente. Estamos a falar de dois mundos diferentes.

Houve o movimento dos “médicos pés-descalços”. Os jovens das cidades e os jovens camponeses instruídos estavam a ser treinados para fazerem medicina preventiva e fornecerem cuidados médicos básicos. Eles foram para diferentes pontos das zonas rurais. Eram chamados “médicos pés-descalços” porque estavam nas zonas rurais em condições muito rudimentares – mas isso estava a contribuir para satisfazer as necessidades básicas de saúde das pessoas. Havia 1,3 milhões de médicos pés-descalços.89

E isto foi só um dos avanços nas práticas de cuidados de saúde durante a Revolução Cultural. Houve um tremendo impulso para combinar a medicina tradicional, como a acupuntura, com a medicina moderna. Houve uma maior revolucionarização das relações médico-paciente, desafiando a noção do paciente como mero recetor passivo de tratamento. Houve grandes avanços na investigação e verdadeiras descobertas. A insulina foi sintetizada.90

Uma das grandiosas e não referidas histórias médicas da Revolução Cultural refere-se ao tratamento da malária. Os combatentes pela libertação do Vietname, que lutavam contra o imperialismo norte-americano, estavam a sofrer com novas estirpes de malária – e no final dos anos 1960 a liderança vietnamita pediu ajuda à China. Mao iniciou um importante programa de investigação coletiva. Um grupo de investigadores analisou 40 mil substâncias químicas enquanto um outro investigava as medicinas tradicionais, despachando enviados às aldeias. Foi desenvolvida uma nova cura incrivelmente efetiva para a malária, que só foi reconhecida como um importante avanço pela comunidade médica internacional nos anos 1980.91

As pessoas não se apercebem que a China revolucionária estabeleceu o sistema de cuidados de saúde mais igualitário do mundo, baseado no princípio de servir o povo, e que os cuidados primários essenciais estavam a chegar a praticamente toda a população. A esperança de vida duplicou, de 32 anos em 1949 para 65 anos em 1976.92 E, no início dos anos 1970, Xangai tinha uma taxa de mortalidade infantil mais baixa que a da Cidade de Nova Iorque.93

Em termos de inovações e transformações noutras esferas. Praticava-se a crítica e a supervisão das massas aos membros do partido, em que as pessoas comuns criticavam os membros do partido. Isto foram coisas institucionalizadas pelos grandes levantamentos e desafios da Revolução Cultural.

Houve grandes mudanças na administração das fábricas, praticando-se o que se chamava “as duas participações” – os operários participavam na administração e os administradores participavam no trabalho produtivo. Foi posto em causa o antigo sistema de controlo apertado através de regras e regulamentos que frequentemente transformava os operários em nada mais que extensões das máquinas.

A Revolução Cultural criou uma cultura mais vasta em que as pessoas prestavam atenção às grandes questões da sociedade. As fábricas não eram meras unidades de produção. Tornaram-se locais de luta política, de estudo político, de estudo teórico. Foram criados grupos culturais nas fábricas.94

P: Voltando à tua discussão anterior sobre como o que se considera ser uma maneira racional de organizar a sociedade depende do tipo de mundo que se está a tentar criar, posso imaginar os capitalistas, e as pessoas que pensam como eles, a exclamar: “Isso não é maneira de gerir uma fábrica! Isso é uma loucura!” E em relação às artes?

RL: Houve uma explosão de atividade artística entre os operários e os camponeses – poesia, pintura, música, contos e mesmo filmes. Propagaram-se os projetos de arte de massas e novos tipos de projetos artísticos populares e colaborativos, incluindo às zonas rurais e às regiões mais remotas. Um dos mais famosos foi o projeto do Pátio da Cobrança das Rendas.95 Era um grupo de estátuas que ilustrava de maneira comovente o sofrimento na velha sociedade – vê-se os camponeses a entregarem as suas exíguas colheitas como rendas e impostos. Foi um trabalho escultório conjunto de estudantes e professores e foi instalado na casa de um antigo proprietário rural. Este tipo de obras atingiu um nível muito elevado de expressão artística e conteúdo revolucionário.96

A Revolução Cultural também produziu o que se chamou “obras revolucionárias modelo”. Elas estabeleceram paradigmas que as pessoas em toda a China podiam usar como modelos no seu desenvolvimento de inúmeras obras artísticas. As óperas revolucionárias modelo e os ballets modelo colocaram as massas na frente e no centro dos palcos. Comunicavam as vidas delas, e o papel delas na sociedade e na história. Estas obras modelo eram de um nível extraordinariamente elevado e combinavam formas chinesas tradicionais com instrumentos e técnicas ocidentais.

E havia mulheres fortes a figurar proeminentemente nas óperas revolucionárias. Onde antes os ballets continuavam a ter uma espécie de fragilidade, uma influência delicada, agora os ballets estavam impregnados de espírito atlético. Portanto, não tratavam só os temas da emancipação da mulher, mas na verdade nelas figuravam mulheres que dançavam de maneiras mais inovadoras e atléticas. Houve novas sínteses, novas formas híbridas, através da criação destas óperas modelo. Então, era isto o que estava a acontecer – e várias companhias da Ópera de Pequim viajaram até às zonas rurais, ajudando os grupos culturais locais a se desenvolverem, ao mesmo tempo que aprendiam com os espetáculos locais.97

Sabem, a Revolução Cultural de facto teve um impacto social e cultural muito grande nas zonas rurais da China. Houve grandes mudanças antes da Revolução Cultural. Já falei sobre o que aconteceu durante o Grande Salto em Frente e sobre como melhorou a vida material das pessoas. Mas a influência das velhas formas de organização da vida das aldeias, o papel da família e da família alargada... e o mero facto de a vida ser mais contida nas zonas rurais, sem a mesma azáfama, intensidade e diversidade da cidade – tudo isto tinha um efeito conservador. Bem, a Revolução Cultural começou a abanar isto.98

“Natureza humana” e transformação social

Lembro-me de ler um testemunho de uma pessoa que cresceu numa aldeia rural durante a Revolução Cultural. Ele falava sobre como as pessoas na aldeia dele tinham aprendido a ler e a escrever através do estudo dos textos das peças de teatro e das óperas produzidas durante a Revolução Cultural que incorporavam o idioma e a música locais nas adaptações. Ele escreveu sobre como mudou a vida cultural e social nas aldeias, incluindo nos jogos desportivos e no estudo, e como isto dava às pessoas uma oportunidade para se reunirem e comunicarem... e se apaixonarem. Uma nova esfera pública estava a substituir a esfera mais limitada da família e do clã da aldeia.99

Sabem, dizem sempre às pessoas que o comunismo não funciona porque “vai contra a natureza humana”... que as pessoas são egoístas “por natureza”. Mas isso não é uma descrição da natureza humana... é uma descrição da “natureza humana no capitalismo”... do que é promovido e reforçado por um sistema baseado na competição e na propriedade privada, em que as pessoas têm de competir pelo emprego, pelo ensino, por tudo, até mesmo pelas relações pessoais... e em que há um sistema baseado no lucro que promove os lemas do “primeiro eu” e “o vencedor fica com tudo”...

Mas o socialismo abre todo um campo de liberdade para as pessoas mudarem as circunstâncias delas e mudarem a maneira de pensar delas. Foi isso que aconteceu durante a Revolução Cultural. Havia um sistema económico baseado na utilização dos recursos para melhorar a sociedade e a humanidade. Havia novas relações e instituições sociais que permitiam que as pessoas cooperassem umas com as outras e maximizassem as contribuições delas para a libertação da sociedade e do mundo. Através da Revolução Cultural, mudou o sentimento de responsabilidade social das pessoas... foi criado um novo ambiente social que valorizava a cooperação e a solidariedade.

Isto foi real e afetou o que as pessoas consideravam ser significativo e importante nas vidas delas... e a maneira como agiam. Não foi nenhuma utopia perfeita... mas sim pessoas reais a mudarem a sociedade e a maneira de pensar delas. Durante a Revolução Cultural foi popularizado o lema “Servir o povo” e as pessoas estavam realmente a avaliar as vidas delas, e as das outras pessoas, com isso em mente.100

E quando o capitalismo foi restaurado na China em 1976, e as velhas relações económicas de “comer ou ser comido” foram reintroduzidas... as pessoas mudaram uma vez mais – de regresso à velha perspetiva do “eu contra todos”. Mudaram, não devido a que de alguma maneira se tenha reafirmado uma natureza humana primordial, mas porque a sociedade tinha mudado de regresso ao capitalismo!

O envio de intelectuais para as zonas rurais

P: Falaste bastante sobre as zonas rurais e as cidades. E em relação à política de enviar intelectuais e profissionais para as zonas rurais? Isso é muito controverso.

RL: A política de enviar intelectuais e artistas para as zonas rurais não era punitiva. Durante a Revolução Cultural, artistas, médicos, trabalhadores técnicos e científicos e todos os tipos de pessoas foram chamados a viver entre os operários e os camponeses: para aplicarem os seus conhecimentos às necessidades da sociedade, para partilharem a vida dos trabalhadores, para trocarem conhecimentos e para aprenderem com as pessoas comuns.

Dizem-nos que a ida para as zonas rurais foi uma forma de perseguição. Mas fazer com que operários e camponeses entrassem nas universidades e que profissionais fossem para as zonas rurais – isto não tinha nada a ver com recompensas e castigos. Um dos objetivos da Revolução Cultural era começar a eliminar o desequilíbrio cultural que existia na China. Havia uma situação social em que os artistas, os intelectuais e os profissionais estavam concentrados nas cidades e em que o trabalho deles era frequentemente feito numa espécie de torre de marfim, separados do resto da sociedade, sobretudo separados dos 80% da população que viviam nas zonas rurais.

A política de enviar profissionais para as zonas rurais tem de ser vista no contexto socioeconómico mais geral da busca, por parte da China maoista, de um desenvolvimento equilibrado e igualitário. No Terceiro Mundo, há uma crise de urbanização caótica e de desenvolvimento distorcido: cidades excessivamente grandes e ambientalmente insustentáveis com anéis de favelas esquálidas; uma gigantesca afluência de migrantes rurais que não conseguem encontrar trabalho; políticas económicas, sistemas de ensino e infraestruturas de cuidados médicos enviesados para os mais ricos nas cidades à custa dos pobres das cidades e dos habitantes das zonas rurais.

A Revolução Cultural gerou uma discussão em toda a sociedade sobre a necessidade de reduzir as desigualdades entre o trabalho intelectual e o trabalho manual, entre a cidade e o campo, entre a indústria e a agricultura e entre homens e mulheres. Eliminar estas desigualdades e fossos era parte de um processo de eliminação das divisões sociais e de fazer progredir o conhecimento, a consciência e as capacidades da sociedade – em benefício da sociedade no seu conjunto.

P: Estou a perceber o teu argumento sobre as desigualdades entre a cidade e o campo. Mas por que havia uma tal ênfase em enviar intelectuais para as zonas rurais? Algumas pessoas alegam que estavam simplesmente a ordenar aos intelectuais que participassem no trabalho físico e na agricultura e nas fábricas, e que era só isso. Como é que respondes a isso?

RL: O que é realmente importante entender aqui é que a Revolução Cultural estava a lidar com esta questão histórico-mundial – a do grande fosso entre o trabalho intelectual e o trabalho manual de que eu falei antes e que agora quero aprofundar mais.

Ora, a maioria das pessoas hoje aceita isto como assumido, ou como facto, que haverá sempre algumas pessoas que trabalham principalmente com o dorso e as mãos e outra que trabalham com a mente. E é certamente verdade que esta divisão existe há muito, muito tempo. Remonta há milhares e milhares de anos e emergiu com a divisão da sociedade humana primeva em classes.

Portanto, esta tem sido a situação da sociedade humana em que a vida e atividade intelectual, as responsabilidades de administração e gestão dos assuntos da sociedade, a criação artística e cultural... estas coisas têm sido a coutada de uma faixa muito reduzida da sociedade. Mas isto é um produto da maneira como a sociedade humana evoluiu e se desenvolveu, sobretudo desde o surgimento das classes e dos sistemas económicos de exploração em que um pequeno setor da sociedade controla o trabalho e o produto do trabalho dos outros – não é “inato” aos seres humanos.

A divisão entre o trabalho intelectual e o trabalho manual tem dois grandes efeitos.

Um deles é que as pessoas envolvidas nestas formas de “trabalho intelectual” têm algumas vantagens e privilégios – nem que seja só o de se poderem dedicar a esta atividade – e há um estatuto social mais elevado associado a isso. Obviamente, há os governantes da sociedade que têm o controlo dos meios para imporem um regime opressor: para preservarem os sistemas de exploração e para colherem os frutos do trabalho dos outros. Eles monopolizam a tomada de decisões importantes na sociedade. O estatuto deles é, sim, o de governantes, e a contradição entre o trabalho intelectual e o trabalho manual é, neste caso, antagónica. Mas mesmo as pessoas que não estão a governar e que se dedicam sobretudo ao trabalho intelectual... ainda assim têm vantagens e prestígio social.

Em relação aos que se dedicam ao trabalho manual, eles são mantidos numa posição subordinada, são “bons para o trabalho árduo” e depois são descartados. E, historicamente, o trabalho manual tem sido desvalorizado e olhado de cima para baixo.

Mas há outro efeito negativo desta divisão do trabalho. Ela atrasa o desenvolvimento global do indivíduo. As massas populares trabalhadoras estão a passar a maior parte das horas delas a fazer só isso, a trabalhar – e a trabalhar em condições de monotonia, de repetição e frequentemente sob o chicote ou o domínio de outros. Não têm oportunidade de se dedicarem ao trabalho com as ideias, para obterem uma compreensão da sociedade e para assumirem a responsabilidade pela gestão dos assuntos da sociedade. E, entretanto, aqueles que se dedicam principalmente ao trabalho intelectual estão geralmente desligados da atividade produtiva – e isto atrasa o seu desenvolvimento global e o seu entendimento do mundo. As pessoas nas cidades estão desligadas do mundo natural, enquanto as pessoas nas zonas rurais podem levar vidas muito isoladas e ficar totalmente submersas na luta com a natureza.

Ora, os fundadores da ciência do comunismo, Marx juntamente com Engels, viram esta divisão do trabalho, e os antagonismos de classe que ela reflete e reforça, como um problema chave que a revolução comunista tem de eliminar. Eles imaginaram uma sociedade comunista futura em que é que obtida uma nova e mais elevada unidade do trabalho intelectual com o trabalho manual – em que as pessoas são simultaneamente produtivas e criativas. Mas chegar aí é um processo complexo... e como aconteceu com tantos outros assuntos que temos estado a discutir, se o posso dizer assim, nós “aprendemos a curva de aprendizagem” através da primeira etapa da revolução comunista.

A União Soviética sob Estaline tentou lidar de várias maneiras com esta contradição intelectual-manual. Uma das iniciativas mais importantes foi promover pessoas de origem operária a posições de gestão e autoridade, com recursos dedicados a treinar e a instruir os operários. Isto foi um grande avanço em relação à velha sociedade. Mas simplesmente colocar operários em posições de gestão não resolve em si e por si só o problema. Por um lado, essas posições de gestão são elas mesmas encarnações de relações de produção que transportam as sementes do capitalismo. Por outro lado, como assinalou Mao, se esses operários têm uma mundivisão burguesa, então, a partir das suas novas posições, eles podem agir contra os interesses mais gerais das massas, convertendo-se em “figurões” de “origens humildes”.

A Revolução Cultural lidou com a contradição do trabalho intelectual-manual de uma maneira diferente. Por exemplo, como já referi, não se limitou a colocar operários em posições de gestão, mas revolucionou todo o conceito de gestão. E além de se dedicarem a diferentes tarefas e responsabilidades, as massas tinham uma liderança para se envolverem nas grandes questões sociais, políticas e ideológicas da sociedade e do mundo. Portanto, a Revolução Cultural lidou com a contradição intelectual-manual de uma maneira mais completa que no caso da União Soviética. Não se limitou a simplesmente “promover operários”.101

A política de enviar jovens instruídos e intelectuais para as zonas rurais foi uma outra parte importante disto. Capacitar os intelectuais a aprenderem com a experiência de vida dos trabalhadores de base e a partilharem o conhecimento, e a obterem um sentido vivo de como o trabalho intelectual deles era parte de um projeto mais vasto para transformar e revolucionar a sociedade.

E isto foi muito entusiasmante e muito significativo para muitas pessoas. Conheço uma professora de literatura que cresceu durante a Revolução Cultural. Quando ela era jovem, foi para o campo... e ela tem escrito sobre isso. Ela tinha obtido uma formação intelectual na cidade. E trabalhou ao lado dos camponeses, estudou os idiomas locais, discutiu teoria com os camponeses. E, para ela, isso foi uma experiência incrível e transformadora da vida dela – uma vida com um propósito que os jovens na sociedade norte-americana não têm.102

P: Mas as pessoas irão dizer-te que, num país como os EUA, podes fazer com que o teu propósito seja a tua própria vida.

RL: Reparem, nos EUA em 1968-69, se fossem jovens sem formação universitária ou sem possibilidade de adiamento do serviço militar, haveria uma boa hipótese de serem chamados para o exército para cometerem genocídio contra o povo vietnamita. Isso é uma vida com um propósito? Na China, os jovens e os profissionais estavam a ir para as zonas rurais como parte da criação de um mundo novo.

Sabem, eu lembro-me que, depois de o Furacão Katrina ter atingido Nova Orleães em 2005, houve todos os tipos de pessoas – enfermeiros, engenheiros, motoristas, todos os tipos de pessoas – que queriam lá ir ajudar. Mas isso não foi possível, pelo menos não em grande escala – não é assim que a sociedade norte-americana está organizada. Ou seja, não é um sistema económico-social em que as reais prioridades sociais definem o que acontece na sociedade. Também me lembro de como, durante as férias da Páscoa a seguir ao Katrina, os estudantes universitários de diferentes pontos do país foram para Nova Orleães para se juntarem às massas na reconstrução da vida delas. Mas isto aconteceu numa escala muito pequena e temporária.

Imaginem uma sociedade onde isto seja a norma, e não a exceção. Onde as pessoas tenham a capacidade de trabalhar para o bem comum, de aplicar os conhecimentos e a energia delas a isso, e onde sejam tomadas decisões sociais para promover isso. Imaginem uma sociedade onde esse tipo de impulso que vimos com o Katrina tem o apoio do poder estatal... e além disso que esse poder tenha o cuidado de não o “asfixiar com o apoio” – por outras palavras, tem de haver espaço para as pessoas tentarem novas coisas e explorarem novas direções.

Como salientei antes, na China revolucionária as pessoas instruídas foram chamadas a aplicar os conhecimentos delas às necessidades da sociedade, a partilharem a vida dos trabalhadores e a aprenderem com as pessoas comuns. E um grande número de jovens e profissionais respondeu à chamada da Revolução Cultural para “servirem o povo” e para irem para as zonas rurais e constituíram exemplos para os outros. Houve um apelo aos mais elevados interesses e aspirações das pessoas de servirem o povo.

E isto converteu-se numa questão generalizada: o que é mais importante, que um médico qualificado tenha o “direito” a uma vida privilegiada na cidade ou que a saúde esteja amplamente disponível, para que as pessoas nas zonas rurais tenham direito a cuidados decentes? Esta era uma questão importante porque, nas vésperas da Revolução Cultural, 70 a 75% das despesas governamentais em saúde estavam concentradas nas cidades, onde só vivia 20% da população. Mas, no início dos anos 1970, já havia uma situação em que, em qualquer momento dado, cerca de um terço do pessoal hospitalar urbano estava nas zonas rurais, em brigadas móveis.103 Isto foi uma coisa tremenda.

Mas, apesar de estes avanços terem sido grandiosos, continuava a haver problemas na maneira como esta contradição entre o trabalho intelectual e o trabalho manual estava a ser lidada – na maneira como Mao e a liderança revolucionária estavam a abordar a eliminação das diferenças entre os intelectuais e outros setores da sociedade, sobretudo os anteriormente oprimidos e explorados.

P: Que tipos de problemas?

RL: Isso é algo que vou aprofundar mais à frente, quando falarmos sobre a nova síntese do comunismo, de Bob Avakian.

Mas, em termos da política de enviar intelectuais para as zonas rurais, ela foi fortemente guiada pela ideia de “remodelar os intelectuais”. Isto era problemático. Ora, essa expressão, “remodelar os intelectuais”, que foi usada na China nessa altura, não tem nada a ver com a sua tradução anticomunista: “forçar os intelectuais a deixarem de pensar”. Era uma luta contra as atitudes elitistas. Mas a abordagem foi unilateral. Como se os intelectuais, só por se dedicarem ao trabalho intelectual e terem os privilégios associados a isso, fossem uma fonte de problemas na sociedade. E os valores e a maneira de pensar deles, dos intelectuais, foram tratados seletivamente.

Havia uma ênfase unilateral na eliminação da divisão entre o trabalho intelectual e o trabalho manual – na perspetiva de eliminar os privilégios e os preconceitos dos intelectuais. Ora, há atitudes e valores elitistas dos intelectuais que têm origem na posição particular que eles ocupam na sociedade. Mas os operários e os camponeses também são influenciados pela ideologia burguesa, incluindo os ressentimentos para com os intelectuais ou o se curvarem perante eles. A maneira de pensar de toda a gente tem de ser transformada – como parte de se converterem em emancipadores da humanidade.

O que estou a dizer é que a Revolução Cultural, em geral, marcou um avanço real na eliminação da contradição entre o trabalho intelectual e o trabalho manual. Foi inovadora. Mas não foi a síntese plena que era necessária. E podemos aprofundar isto mais à frente.

O que está errado na “história feita através de autobiografias”?

P: Há estas autobiografias sobre o quão mau foi terem de ir para as zonas rurais e sobre como as pessoas sofreram. O que devem as pessoas fazer em relação a estas autobiografias?

RL: Deixem-me salientar o seguinte sobre as autobiografias – e qualquer historiador que preze esse título vos dirá a mesma coisa. Embora algumas autobiografias de facto possam captar e analisar as principais linhas e tendências de todo o período histórico ao longo do qual o autor viveu, a maioria delas tende limitar-se ao que o autor viveu diretamente. As autobiografias não são, em geral – e repito, há e pode haver exceções –, obras de investigação e síntese científicas. As autobiografias não captam necessariamente a vasta, diversa e complexa tela social que é a história... nem chegam à essência das diferentes forças sociais e de classe em contenda, dos diferentes programas e pontos de vista em relação aos quais se batalha na sociedade e no mundo. Isso não as torna inúteis – elas podem esclarecer algumas coisas, mas temos de estar cientes do que elas são... de quais são as limitações delas. Há dinâmicas sociais mais vastas e elas são o contexto para a experiência individual de cada pessoa.

Ora, quando se analisa uma situação como a Revolução Cultural, em que houve uma enorme convulsão social – e isto incluiu algumas pessoas a perderem privilégios e outras a serem vítimas de excessos no que foi globalmente uma causa justa –, isto torna-se muito complexo.

Sabem, eu estava a ler uma discussão sobre a literatura de autobiografias escrita por J. Arch Getty, que é um historiador da revolução soviética. E ele salientava que nunca se deve tentar compreender um importante evento como a revolução francesa através de histórias pessoais... sabem, a narração de “aqui está aquilo pelo que passei” ou “o que eu ouvi”, etc. Mas, de alguma maneira, ele prosseguia salientando que, em relação à revolução soviética durante o período de Estaline, é perfeitamente admissível fazer grandes generalizações analíticas com base na história feita através de anedotas.104 E o mesmo se aplica ainda mais à Revolução Cultural. Não se pode compreender tudo aquilo de que temos falado nesta entrevista, em termos das principais motivações e personagens, bem como da complexidade, da Revolução Cultural... através da literatura de autobiografias.

É importante ter em mente este ponto de metodologia.

Além disso, há o facto de só um certo tipo de autobiografias, as que são reclamações daqueles que viram os privilégios deles serem atacados durante a Revolução Cultural – só essas autobiografias são promovidas na sociedade norte-americana, nas escolas, ou no que seja... como parte da investida ideológica da burguesia contra o comunismo. É como se alguém de outro país fosse tentar entender os anos 1960 e os anos 1970 sem saber nada sobre a história global da escravatura e do Jim Crow [o sistema de leis de segregação racial em vigor nos EUA até 1965 – NT], seguidas de mais opressão e discriminação contra os negros no norte dos EUA, somente através da leitura da autobiografia de uma pessoa branca a quem foi negada admissão numa universidade que tivesse um programa de ação afirmativa para as minorias.105

A última grande batalha de Mao

P: Raymond, passemos ao decorrer da Revolução Cultural. Falaste sobre as duas fases da Revolução Cultural – as grandes convulsões dos primeiros anos e depois alguma consolidação e transformação. O que aconteceu nos últimos anos da Revolução Cultural?

RL: A Revolução Cultural começou em 1966 – e depois passou por essas fases que descrevi. E, no início dos anos 1970, a luta de classes estava a agudizar-se. Era uma situação complexa. Havia resistência e oposição à Revolução Cultural por parte de forças reacionárias. Entre as massas, havia aqueles que tinham uma orientação realmente radical e que estavam a lutar para defender e levar avante a Revolução Cultural... e havia aqueles que a apoiavam uma parte do tempo e não estavam assim tão entusiasmados noutras ocasiões... e havia as pessoas recuadas que simplesmente se lhe opunham.

E, mais importante, os seguidores da via capitalista estavam a mobilizar-se continuamente em torno do programa deles... mesmo tendo sofrido grandes reveses e derrotas durante os primeiros anos da Revolução Cultural.

Mao tinha concluído que as duas vias que se abrem depois da tomada do poder, a via capitalista e a via socialista, isso não é uma situação que apenas dure alguns anos ou algo assim. É uma característica definidora de um relativamente longo período de transição socialista. E, como Mao também salientou: saber quem vence, não é uma questão que se resolva antes de se chegar de facto ao comunismo e à eliminação da divisão da sociedade mundial em classes.

Mao avisou permanentemente do perigo da restauração capitalista. As massas têm o poder de estado no socialismo, mas a revolução tem de continuar. Como dissemos antes, está-se a lidar com as cicatrizes da sociedade de classes – em que continua a haver diferenças entre a cidade e o campo, persiste a hierarquia da especialização, o dinheiro continua a desempenhar um papel na gestão da economia, continua a haver um fosso entre o trabalho intelectual e o trabalho manual.

E há a influência das velhas ideias e valores, da força do hábito – de as pessoas irem com a corrente, de se subordinarem às convenções, de manterem as formas “testadas e verdadeiras”, etc. Uma questão crucial da transição socialista é a posição da mulher na sociedade, de chegar à plena emancipação da mulher e de levar a cabo uma luta contra as raízes e a persistência do patriarquismo nas suas múltiplas formas.

É isto o que a revolução no poder enfrenta.

P: Estás a falar do caráter geral e dos desafios gerais que a sociedade socialista enfrenta. Mas o que significava isso nesse momento, em termos destas fases da Revolução Cultural?

RL: A situação específica, a conjuntura concreta que estava perante os revolucionários, foi muito difícil de 1973 a 1976. E não era só o que estava a acontecer nessa altura na China. Havia toda a situação internacional e a maneira como esta se estava a interpenetrar com a luta de classes na China e a ter um impacto nela. Só posso aflorar alguns dos aspectos chaves do que estava a acontecer.

Deixem-me começar pela situação internacional no início dos anos 1970. Havia um crescente perigo de guerra, que incluía a possibilidade de um ataque da União Soviética à China. As pessoas podem não saber... mas, no início dos anos 1970, a maior concentração de tropas terrestres no mundo estava na fronteira sino-soviética, onde havia dois exércitos que se enfrentavam um ao outro. Ao mesmo tempo, tinha havido acontecimentos na China, que incluíram uma clara traição, com origem entre algumas das pessoas que antes tinham desempenhado um papel dirigente na Revolução Cultural. Isto criou muita confusão entre as pessoas e tinha de ser clarificada e compreendida.

Um dos desafios determinantes que Mao e os revolucionários defrontavam nesse período era o de como enfrentar esse perigo de uma guerra e, ao mesmo tempo, manter em marcha a Revolução Cultural. Estão a ver, um grupo de seguidores da via capitalista associado aos altos dirigentes do partido Deng Xiaoping e Zhou Enlai estava a tentar aproveitar esta aguda situação internacional para pôr fim... para fazer marcha atrás na Revolução Cultural. Eles argumentavam: “Basta desta Revolução Cultural, precisamos de pôr as mãos ao trabalho para criar um exército moderno e uma economia eficiente.” Com isto, queriam dizer uma economia e umas forças armadas capitalistas. Eles estavam a lutar pelo programa deles aos mais altos níveis do partido... e a mobilizar forças sociais na sociedade.

Eles continuavam a ter uma imensa força no partido, no governo e nas forças armadas. E estavam a apelar às massas de uma certa maneira. Diziam que, se a China se ligasse à economia mundial, a sociedade ficaria melhor: o nível de vida dos trabalhadores de base aumentaria, a economia da China seria fortalecida e estaria numa melhor posição para lidar com o perigo de guerra. Eles diziam aos jovens de origens mais privilegiadas que a Revolução Cultural lhes estava a roubar as “carreiras”.

Mao e o quartel-general revolucionário no partido estavam a mobilizar as massas para enfrentarem esta situação que estou a descrever. Lideraram as massas na defesa das novas mudanças no ensino, incluindo a admissão nas universidades de jovens de origem operária e camponesa... lideraram as pessoas na defesa das obras culturais revolucionárias, como as óperas... das novas formas de gestão nas fábricas... de tudo aquilo de que falámos em relação aos jovens que iam para as zonas rurais.

Era uma luta complicada aquela que os revolucionários estavam a levar a cabo. Eles estavam a apelar ao povo que defendesse estas “novas coisas socialistas” face aos esforços dos seguidores da via capitalista para as desacreditar e minar... uma vez mais, em nome da estabilidade. E os revolucionários não estavam a argumentar unicamente a favor da defesa do que tinha sido conseguido com a Revolução Cultural, mas também a apelar às pessoas para irem mais longe na luta para revolucionar a sociedade e a maneira de pensar das pessoas.

Eles promoveram o estudo da teoria marxista. Expuseram o programa e a linha dos seguidores da via capitalista. Disseram à sociedade o muito que estava em jogo... para as massas na China e para a causa do comunismo... o muito que estava em jogo nessa luta para derrotar as tentativas dos seguidores da via capitalista de fazerem com que as conquistas da Revolução Cultural fizessem marcha atrás. Houve surtos de protestos – alguns deles organizados pelos seguidores da via capitalista... outros pelas massas revolucionárias contra eles. Os revolucionários tentaram, sempre, mobilizar o ativismo consciente das massas nessa luta complexa.

A luta passou por agudas voltas e reviravoltas. E, à medida que se desenvolvia e intensificava, o estado de espírito entre alguns setores das massas foi afetado. Algumas pessoas que tinham apoiado a Revolução Cultural nas suas primeiras fases estavam agora a começar a cansar-se. Esta é a realidade da luta de classes. Mas, face a tudo isto, os revolucionários bateram-se muito arduamente na luta – por destacarem os problemas e retomarem a iniciativa.

Esta foi “a última grande batalha de Mao”. Foi heroica... foi transcendente.

Também foi nesse período de 1973 a 1976 que Mao e os revolucionários que ele liderava fizeram importantes contribuições teóricas para o nosso entendimento da natureza da sociedade socialista, da luta de classes no socialismo e da meta do comunismo. Os revolucionários também cometeram algumas falhas e erros secundários... e deles também resultaram lições importantes.106

Isto é apenas uma descrição a largas pinceladas. Se as pessoas quiserem obter uma análise profunda da “última grande batalha” de Mao e das suas lições, devem ler as obras de Bob Avakian, como A Perda na China e o Legado Revolucionário de Mao Tsétung, As Contribuições Imortais de Mao Tsétung107 e Conquistar o Mundo? Dever e Destino do Proletariado Internacional.

Quando Mao morreu em setembro de 1976... isso foi o sinal para os reacionários dentro do partido. Em outubro, eles organizaram um golpe militar. Agiram imediatamente contra o núcleo revolucionário aos mais altos níveis do partido e deslocaram tropas para pontos-chave do país. Houve resistência. Mas a repressão foi rápida e dura, com um grande número de prisões e execuções.

O socialismo na China foi derrotado. A primeira etapa da revolução comunista chegou ao fim.

5º Capítulo: Rumo a uma nova etapa da revolução comunista

Pergunta: Raymond, discutimos a primeira etapa da revolução comunista com alguma profundidade e realçaste de uma maneira viva e aguda estas transformações e feitos sem paralelo... e também alguns dos problemas. Mas, no final, houve uma derrota. O que significou isso nessa altura e onde isso nos deixa hoje?

Raymond Lotta: A derrota na China foi um verdadeiro ponto de viragem. Houve confusão, choque e desorientação no movimento comunista internacional – estou a referir-me às forças que geralmente se descrevem a si mesmas como maoistas. E também houve este tipo de resposta entre as forças radicais e progressistas em geral.

Muitos dos autoproclamados comunistas alinharam com a nova liderança da China. Eles indicaram o aparente apoio que a nova liderança tinha entre alguns setores das massas chinesas... e viram com bons olhos as declarações da boca para fora de apoio ao socialismo e ao comunismo feitas pelos seguidores da via capitalista que tinham feito o golpe de estado. Outros afundaram-se na confusão e na desmoralização. E houve ainda outros que se esparramaram no agnosticismo do “quem pode dizer, quem pode saber” e escolheram “esperar para ver”... ou simplesmente continuaram em frente como se este massivo revês realmente não tivesse muita importância.

Foi nestas circunstâncias que Bob Avakian [BA], Presidente do Partido Comunista Revolucionário, EUA, se colocou à altura de preencher uma grande necessidade histórica: fazer uma análise tanto do que tinha acontecido na China como das responsabilidades que isto colocava aos genuínos revolucionários.

Em 1977, BA escreveu uma análise exaustiva do golpe de estado. Explicou que uma linha revisionista tinha vencido na China. Expôs a maneira como essa linha se exprimia em vários campos. Delineou as linhas de demarcação da luta de classes na China e como elas se concentraram nos mais altos níveis de liderança. Defendeu Mao e os seguidores mais próximos dele, o chamado “bando dos quatro”. E levou a cabo uma luta muito complexa e muito baseada nos princípios para fazer com que o Partido Comunista Revolucionário, EUA [PCR,EUA] – o partido que ele liderava e ainda lidera – adotasse uma posição correta em relação a esta questão, apesar de uma muito desleal oposição por parte de uma fação dentro do PCR,EUA.108

Mais ninguém no mundo levou a cabo este tipo de análise e avaliação. BA confrontou profundamente a realidade e a sua complexidade e retirou conclusões científicas: a revolução proletária sofreu a sua segunda grande perda – primeiro a União Soviética e agora a China – e cabe-nos a nós, os genuínos comunistas, aprender, fazer o balanço e, além disso, avançar.

No período que se seguiu ao golpe de estado – estou a falar de 1977-79 – Avakian também escreveu o livro As Contribuições Imortais de Mao Tsétung, em que sintetizou as contribuições qualitativas de Mao para a ciência da revolução, sendo a mais importante delas a teoria e a prática da continuação da revolução sob a ditadura do proletariado.

BA trouxe clareza científica a esta conjuntura crucial e começou a abrir e a traçar o caminho para avançarmos. Defendeu as grandes realizações de Mao e da revolução chinesa, ao mesmo tempo que analisava profundamente, a experiência não só da China como de toda a primeira etapa da revolução comunista.

P: Então, o que nos diz isso sobre o que aconteceu na China?

RL: Beneficiando do trabalho de análise que Bob Avakian levou a cabo durante as três décadas seguintes, agora podemos ver mais claramente dois aspectos de por que houve esta derrota. Por um lado, havia poderosos fatores objetivos a trabalhar contra os revolucionários na China. Já mencionei como o perigo de uma guerra estava a afetar a situação e a luta de classes na China. E, à escala mundial, a força – as forças – do capitalismo continuava a ser mais forte, material e ideologicamente, que a força da recém-nascida revolução comunista. E isto reflete-se no interior da sociedade socialista.

Mas há o outro aspecto do que aconteceu na China. Os fatores objetivos não explicam completamente o golpe de estado. Houve problemas e debilidades reais na abordagem e nas conceções de Mao e dos revolucionários. Essas debilidades não foram – e repito, não foram – a principal causa da derrota na China. Mas contribuíram para a derrota.

Uma vez mais, BA trabalhou e lutou por desenvolver esta avaliação da relação entre os fatores objetivos e subjetivos e a compreensão do que são essas debilidades. É um balanço que resulta de 35 anos de uma profunda e científica discussão e síntese que conduziu a uma nova síntese do comunismo.

Bob Avakian desenvolve uma nova síntese do comunismo

P: Podes falar-nos do período posterior ao golpe de estado na China?

RL: Essencialmente, BA começa este processo de profunda exploração e exame crítico da primeira etapa da revolução comunista, de facto de todo o projeto comunista, com a obra Conquistar o Mundo? Dever e Destino do Proletariado Internacional, que foi escrita em 1981. Daí, ele continuou a investigar e a fazer novas descobertas. E, durante as mais de três décadas passadas desde a contrarrevolução na China, Bob Avakian desenvolveu e apresentou uma nova síntese do comunismo.

E ele tem vindo a fazer isto, cabe-me acrescentar, no contexto do incessante ataque ideológico da burguesia contra o comunismo.

Então, deixem-me falar da nova síntese. Trata-se de um novo quadro global através do qual prosseguir a revolução comunista. E a ligação chave é um avanço no método e na abordagem científicos. Se queremos entender e mudar o mundo ao serviço dos mais altos interesses da humanidade, então precisamos da ciência... precisamos de entender como o mundo realmente é e como o mundo poderia de facto ser radicalmente transformado.109

Avakian também desenvolveu ainda mais o quadro internacionalista do comunismo – lembrem-se, falei sobre os erros cometidos neste aspecto tanto por Estaline como por Mao e sobre como esses erros acabaram por escavar pela base os próprios esforços deles para defenderem e fazerem avançar a revolução – e ele fez avanços extremamente cruciais na estratégia revolucionária.110

Mas, dado o tópico desta entrevista, quero centrar-me nalguns pontos-chave que dizem respeito principalmente ao exercício do poder e à ditadura do proletariado como transição para o comunismo – ainda que estes pontos de que vou falar reflitam os avanços feitos por Avakian no método, sobretudo a necessidade de procurar rigorosamente um entendimento o mais completo possível da verdade e das maneiras de lá chegar. E mesmo aquilo de que vou falar só pode tocar de leve a riqueza e a profundidade de como a nova síntese trata estas questões.

Avakian desenvolveu um novo entendimento de como exercer o poder na sociedade socialista. Ele está concentrado na formulação “um núcleo sólido com muita elasticidade” e concretizado na Constituição para a Nova República Socialista na América do Norte (Projeto de Texto) que o Partido Comunista Revolucionário, EUA, publicou. Como manter o poder, e manter a sociedade a avançar em direção ao comunismo... e, ao mesmo tempo – e isto é parte integral do processo de chegar ao comunismo – como libertar o conjunto da sociedade no esforço para compreender a realidade e o potencial revolucionário dentro da realidade para a transformar e criar um mundo muito diferente e muito melhor?

Isto tem a ver com o socialismo como transição vibrante e dinâmica. Tem a ver com descobrir novas verdades e utilizar as contradições ainda não resolvidas da sociedade socialista – como a questão da plena emancipação da mulher –, utilizando estas contradições como motor para impulsionar a sociedade a avançar. E trata-se de fazer isto juntamente com o avanço da revolução mundial.

BA tem salientado que o trabalho intelectual e o fermento intelectual e cultural são vitais para o tipo de sociedade que o socialismo deve ser... e para se chegar ao comunismo, a um mundo sem classes. O trabalho intelectual soma-se ao acervo de conhecimentos da sociedade e do mundo... e sobre a sociedade e o mundo. O fermento e o debate da vida intelectual e a aplicação do método científico aos problemas e ao pensamento crítico que lhes estão associados – isto é algo que é essencial e indispensável para as massas –, para a capacidade das massas populares conhecerem cada vez mais profundamente o mundo e o poderem transformar cada vez mais profundamente... e se transformarem a si mesmas.

O fermento intelectual e a dissensão contribuem para o espírito crítico e exploratório que tem de penetrar a sociedade socialista, para revelar os problemas e os defeitos da sociedade socialista... e para a interrogar a todos os níveis.111

Aprender com a Revolução Cultural e avançar para além dela

P: Então como é que isto se aplica à experiência da Revolução Cultural?

RL: Bem, isto não foi plenamente valorizado por Mao. Como acabei de dizer, havia uma tendência na orientação de Mao para ver os intelectuais – e, uma vez mais, essa tendência era secundária –, para ver as coisas mais do lado dos problemas ideológicos deles... e não para valorizar plenamente as maneiras como a atividade intelectual pode contribuir para a atmosfera que é necessária na sociedade socialista – para o tipo de sociedade em que as pessoas quereriam viver e prosperar.

Reparem, não se pode eliminar a grande divisão entre o trabalho intelectual e o trabalho manual se não se libertar o fermento intelectual e não se fornecer o espaço e o âmbito concretos para isso – ao mesmo tempo que se está a avançar nalgumas das direções da Revolução Cultural... demolindo as divisões sociais e capacitando os intelectuais a entenderem as desigualdades que se mantêm na sociedade e a se verem a si mesmos e ao trabalho deles à luz mais geral da criação de um mundo novo. Repito, Mao não tinha uma síntese plena da eliminação desta grande divisão na história humana, ainda que a Revolução Cultural tenha sido um avanço histórico.

Ora, um dos principais objetivos da Revolução Cultural foi capacitar as pessoas a aprenderem a distinguir entre a via capitalista e a via socialista. E aqui regressamos a alguns dos pontos que mencionei antes sobre o fermento intelectual. Durante a Revolução Cultural houve um florescimento sem precedentes do debate e da discussão. Lembrem-se que falei de todos aqueles jornais e grandes debates e cartazes de parede. Mas por mais grandioso que tenha sido, ainda assim houve um certo confinamento... uma certa limitação da dissensão. Estou a falar da escala do debate e do florescimento.

Sabem, na China, durante a Revolução Cultural, o comunismo era a “ideologia oficial”. E embora houvesse uma incrível abertura ao debate... ainda assim, certas tendências e correntes de pensamento não eram ouvidas – porque continuava a haver um quadro e um discurso oficiais, digamos assim, mesmo quando as coisas, como tenho estado a explicar, estavam a ficar muito intensas e a abrir-se de par em par.

Há aqui um problema. Nem todas as pessoas eram comunistas... e isso irá acontecer numa sociedade socialista. É necessário criar uma situação em que haja tranquilidade de pensamento e capacidade de levantar críticas e dissensão – mesmo, como salienta Avakian, de pontos de vista opostos ao comunismo e ao socialismo. O estado socialista não só tem de proteger a dissensão – incluindo a dissensão contra o próprio socialismo –, como de a fomentar!

E isto é que é paradoxal... é realmente uma contradição. Estão a ver, esta abordagem na China revolucionária de limitar a dissensão de facto funcionou contra a Revolução Cultural. Trabalhou contra a capacitação das massas para realmente compreenderem todos os pontos de vista presentes... para descobrirem todas as contradições... com as massas a aprenderem através da riqueza do debate, mesmo a partir de pontos de vista opostos ao socialismo.

Ora, isto não é uma orientação sem riscos. De facto, estamos no fio da navalha. Porque haverá seguidores da via capitalista e variantes da contrarrevolução a trabalhar contra nós, a tentar derrubar-nos e a tentar utilizar esta dissensão nesses esforços.

Avakian, numa entrevista de 2012 intitulada O que a humanidade precisa: A revolução e a nova síntese do comunismo, identifica o grande desafio, colocando uma questão crítica que emerge da primeira etapa da revolução comunista... e em relação à qual a nova síntese abriu caminho:

Como é que se dá a correta e necessária prioridade às necessidades fundamentais das massas populares na sociedade – sobretudo às daqueles cujas necessidades económicas, sociais, políticas e culturais foram esmagadas no velho sistema explorador – ao mesmo tempo que não se mina o necessário fermento intelectual e cultural, criatividade e mesmo dissensão que são essenciais para se ter na sociedade o tipo de processo em que tanto as massas populares no seu conjunto, bem como a liderança do partido e do governo, estão a aprender com todo este processo, incluindo com as críticas que são levantadas e com as ideias não convencionais que encontram expressão na atividade intelectual, no campo das artes e por aí adiante – para propiciar um processo mais rico.112

Isso é um enorme avanço, parte de um avanço mais vasto baseado num profundo estudo e debate que é a nova síntese, e fornece uma base real para a esperança sobre um sólido alicerce científico.

O mundo precisa da nova síntese da revolução comunista

P: Raymond, cobrimos muito terreno. Algumas palavras finais?

RL: Falámos longamente sobre toda a primeira etapa da revolução comunista – sobre a luta realmente sublime para criar um mundo completamente novo. E em particular falámos em grande profundidade sobre Mao e a Revolução Cultural, o ponto mais elevado da primeira etapa da revolução comunista. E, sim, ela foi derrotada. Mas o que é notável não é que eles tenham perdido o poder na China nem antes disso na primeira tentativa na União Soviética. Não, quando se pensa naquilo que eles enfrentavam a nível internacional e em termos das marcas de nascença da sociedade em que eles subiram ao poder... quando se aborda tudo isto de um ponto de vista científico... o que é verdadeiramente notável é o quanto tempo eles conseguiram manter o poder e o quão longe conseguiram chegar. O que tem de ser celebrado é a tremenda contribuição que isto constitui para o acervo do conhecimento humano e para a realidade da possibilidade humana.

Mas não podemos limitar-nos a fazer só isso. Reparem, apesar de tudo aquilo de que falámos, num certo sentido eu aqui apenas esquadrinhei a superfície. As pessoas precisam de explorar de uma maneira mais profunda e científica os grandes feitos e lições desta primeira etapa e precisam de estudar muito mais profundamente a nova síntese do comunismo que Bob Avakian desenvolveu. E tudo isto tem de ser enquadrado na luta que enfrentamos neste momento – para realmente transformarmos todo este mundo que é um horror mas que de facto não tem de ser assim. Toda a história do comunismo até agora mostra de uma maneira poderosa que o mundo não tem de ser assim, que não há nada inerente à natureza humana que nos condene a isto nem que a classe dominante que enfrentamos é todo-poderosa. E a ideia geral da nova síntese mostra como, sim, podemos fazer a revolução E podemos ir mais longe e fazer melhor desta vez.

Tudo se resume ao seguinte: o mundo clama urgentemente por uma mudança radical, pela revolução. E é crítico e necessário compreender corretamente o VERDADEIRO caráter, o caráter libertador, da primeira etapa da revolução comunista E imergirmos nas contribuições de Bob Avakian, que fez o balanço dessa etapa e forneceu a direção para uma nova e ainda mais grandiosa etapa... para continuarmos e darmos saltos na jornada para sairmos destas “trevas” da sociedade de classes. Isto tem a ver com a necessidade e a base para um mundo em que os seres humanos possam verdadeiramente florescer. E tem a ver com todos nós nos colocarmos à altura da grande necessidade que temos perante nós: assumir esta ciência e usá-la para transformar a realidade que a humanidade defronta.

 

Notas

1.  Comunismo: O início de uma nova etapa, Um manifesto do Partido Comunista Revolucionário, EUA (Chicago: RCP Publications, 2008), http://paginavermelha.org/docs/comunismo-o-inicio-de-uma-nova-etapa.

2.  O “teste surpresa”, “Everything You’ve Been Told about Communism IS WRONG: Capitalism Is a Failure, Revolution Is the Solution” [“Tudo o que te disseram sobre o comunismo É FALSO: O capitalismo é um fracasso, a revolução é a solução”] está disponível na página internet do Repor a Verdade em http://thisiscommunism.org/pdf/SRS_Communism_Quiz.pdf (em inglês) e em http://revcom.us/i/299/SRS_Communism_Quiz-es.pdf (em castelhano).

3.  Para uma análise da insurreição no Egito e da necessidade de uma verdadeira revolução, ver Samuel Albert, “Egypt, Tunisia and the Arab Revolts: How They Came to an Impasse and How to Get Out of It” [“Egito, Tunísia e as revoltas árabes: Como chegaram a um impasse e como sair dele”], Demarcations: A Journal of Communist Theory and Polemic [Demarcações: Uma Revista de Teoria e Polémica Comunistas], n.º 3 (Inverno de 2014), http://demarcations-journal.org/issue03/egypt-tunisia-and-arab-revolts-impasse.pdf (em inglês) ou http://demarcations-journal.org/translations/spanish--egypt-tunisia-and-arab-revolts-impasse.pdf (em castelhano).

4.  V. I. Lenine nasceu a 22 de abril de 1870 e morreu a 21 de janeiro de 1924. Foi o líder do Partido Bolchevique, que mais tarde se tornou no Partido Comunista da União Soviética. Em 1917, no meio do tumulto da I Guerra Mundial, Lenine liderou a revolução russa que derrubou a velha ordem opressora e que criou o primeiro estado socialista do mundo. Entre as contribuições de Lenine para a ciência da revolução estão a importância decisiva do partido de vanguarda, uma análise do desenvolvimento do capitalismo em imperialismo e uma profunda análise e insistência no internacionalismo e na natureza do estado.

5.  Mao Tsétung nasceu a 26 de dezembro de 1893 e morreu a 9 de setembro de 1976. Em 1935, Mao emergiu como líder claro da revolução chinesa. Ele criou a estratégia da guerra popular. Quando o Exército Popular de Libertação marchou vitoriosamente para Pequim em 1949, Mao proclamou a República Popular da China. Em 1966, Mao iniciou a Grande Revolução Cultural Proletária. Mao fez contribuições vitais para a ciência do comunismo nas esferas da filosofia, economia política, arte e cultura e noutros campos. Mas a maior contribuição dele foi a teoria da continuação da revolução sob ditadura do proletariado.

6.  Karl Marx nasceu a 5 de maio de 1818 e morreu a 14 de março de 1883. Karl Marx fez um avanço histórico-mundial na compreensão humana. Marx desenvolveu a explicação histórica global e científica do desenvolvimento da sociedade humana. Em relação ao capitalismo, Marx identificou a sua contradição fundamental como sendo entre a produção socializada e a propriedade privada. Esta contradição é resolvida através da revolução proletária que derrube o capitalismo e avance para eliminar todas as relações opressoras sociais e de classe e de todas as maneiras de pensar que lhes correspondem. Marx explicou que esta revolução para chegar ao comunismo, um mundo sem classes, envolve as “duas ruturas mais radicais”: com as relações tradicionais de propriedade e com as ideias tradicionais.

7.  O relato clássico de uma testemunha ocular da Comuna de Paris é o de Prosper-Olivier Lissagaray, História da Comuna de 1871 (Lisboa: Edições Dinossauro, 1995), disponível noutra versão em https://teoriadoespacourbano.files.wordpress.com/2013/04/lissagaray-a-comuna-de-pais-1877.pdf. Outras histórias úteis são as de Frank Jellinek, The Paris Commune of 1871 [A Comuna de Paris de 1871] (New York: Grosset & Dunlap, 1965) e de Carolyn J. Eichner, Surmounting the Barricades: Women in the Paris Commune [Vencendo as Barricadas: As Mulheres na Comuna de Paris] (Bloomington, IN: Indiana Univ. Press, 2004). A criativa recriação cinematográfica de 2000 de Peter Watkins, La Commune [no Brasil, Comuna de Paris, 1871], é fascinante de ver: https://www.youtube.com/watch?v=qycKahXz9wE (1ª parte, em francês).

8.  Karl Marx, A Guerra Civil em França (Póvoa de Varzim: Textos Nosso Tempo, 1971), disponível noutra versão em https://www.marxists.org/portugues/marx/1871/guerra_civil/index.htm.

9.  Um importante resumo do significado da Comuna e de controvérsias relacionadas no interior do movimento comunista internacional pode ser encontrado em “The Paris Commune in Perspective: The Bolshevik and Chinese Revolutions as its Continuation and Deepening” [“A Comuna de Paris em perspetiva: As revoluções bolchevique e chinesa como sua continuação e aprofundamento”], no Apêndice: “Democracy: More Than Ever We Can and Must Do Better Than That” [“Democracia: Mais que nunca, podemos e devemos fazer melhor”], em Bob Avakian, Phony Communism Is Dead... Long Live Real Communism [O Falso Comunismo Está Morto... Viva o Verdadeiro Comunismo], 2ª Edição (Chicago: RCP Publications, 2004), p. 141-156. O texto completo de “Democracy: More Than Ever We Can and Must Do Better Than That” está disponível em http://revcom.us/bob_avakian/democracy/ (em inglês) e em http://revcom.us/avakian-es/ba-democracia-mas-que-nunca-es.html (sete excertos em castelhano).

10.  Para uma análise pertinente, ver Bob Avakian, “A Reflection on the ‘Occupy’ Movement: An Inspiring Beginning... And the Need To Go Further” [“Uma reflexão sobre o movimento ‘Ocupar’: Um início inspirador... e a necessidade de ir mais longe”], Revolution/Revolución n.º 250, 13 de novembro de 2011, http://revcom.us/a/250/avakian_on_the_occupy_movement-en.html (em inglês) ou http://revcom.us/a/250/avakian_on_the_occupy_movement-es.html (em castelhano).

11.  Sobre o contexto da I Guerra Mundial, ver Eric Hobsbawm, A Era do Império 1875-1914 (Lisboa: Editorial Presença, 1990), Cap. 13; e Raymond Lotta, America in Decline [América em Declínio] (Chicago: Banner Press, 1984), p. 174-187.

12.  Para uma breve explicação do contexto social da Revolução Bolchevique, ver Sheila Fitzpatrick, A Revolução Russa (Lisboa: Tinta da China, 2017), Cap. 1.

13.  Para um relato de um participante na Revolução de Outubro, ver John Reed, Dez Dias Que Abalaram o Mundo (Edição portuguesa: Jornal do Fundão, 1974. Edição brasileira: Penguin-Companhia, 2010). O filme de 1928 realizado por Sergei M. Eisenstein, Outubro, está disponível online em https://archive.org/details/Eisenstein-October (em inglês). O filme de 1981, Reds [distribuído em Portugal e no Brasil em 1982 com o título original em inglês – NT], de Warren Beatty, é um relato ficcionado da vida de Reed tendo como pano de fundo o extraordinário alcance da Revolução Russa e está disponível dublado em português do Brasil em https://ok.ru/video/209240263232.

Ver também The History of the Civil War in the USSR [A História da Guerra Civil na URSS], Vol. 1 (New York: International Publishers, 1937); e John L. H. Keep, The Russian Revolution: A Study in Mass Mobilization [A Revolução Russa: Um Estudo Sobre a Mobilização de Massas] (New York: W.W. Norton, 1976).

14.  Sobre a Guerra Civil, ver E. H. Carr, Historia da Rússia Soviética: A Revolução Bolchevique 1917-1923, Vol. 2. (Porto: Edições Afrontamento, 1977) e Bruce W. Lincoln, Red Victory: A History of the Russian Civil War [Vitória Vermelha: Uma História da Guerra Civil Russa] (New York: Simon & Schuster, 1989).

15.  Sobre a política e a prática bolcheviques, ver por exemplo, Richard Stites, The Women’s Liberation Movement in Russia: Feminism, Nihilism, and Bolshevism, 1860-1930 [O Movimento de Libertação da Mulher na Rússia: Feminismo, Niilismo e Bolchevismo, 1860-1930] (Princeton, NJ: Princeton Univ. Press, 1978); e Wendy Z. Goldman, Mulher, Estado e Revolução: Política Familiar e Vida Social Soviéticas, 1917-1936 (São Paulo: Boitempo/Iskra Edições, 2014).

16.  O telefilme de 2004 de Katja von Garnier, Pulsos de Ferro (Anjos Rebeldes no Brasil, Iron Jawed Angels no original) centra-se no movimento das sufragistas da década de 1910 nos Estados Unidos e conta a história verídica da prisão de um grupo de mulheres manifestantes e a maneira como, quando entraram em greve da fome, as autoridades as alimentaram à força.

17.  Ver, por exemplo, Marianne Kamp, The New Woman in Uzbekistan: Islam, Modernity, and Unveiling under Communism [A Nova Mulher no Uzbequistão: Islão, Modernidade e o Abandono do Véu no Comunismo] (Seattle, WA: Univ. of Washington Press, 2008); ver também Adrienne Lynn Edgar, “Emancipation of the Unveiled: Turkmen Women Under Soviet Rule, 1924–29” [“A emancipação das mulheres sem véu: As mulheres turcomanas no regime soviético, 1924-29”], The Russian Review 62 (Janeiro de 2003) para uma análise da luta contra o “dote nupcial” e outras práticas feudais e patriarcais semelhantes na Ásia Central.

18.  Sobre a abordagem e os sucessos da revolução bolchevique na expansão da educação às minorias nacionais, na garantia da igualdade de idiomas e na promoção do ensino nos idiomas nativos, ver por exemplo, Jeremy Smith, “The Education of National Minorities: The Early Soviet Experience” [“O Ensino das Minorias Nacionais: A Experiência Soviética Inicial”], Slavonic and East European Review 75, n.º 2 (Abril de 1997).

19.  Ver Terry Martin, Affirmative Action Empire: Nations and Nationalism in the Soviet Union, 1923-1939 [O Império da Ação Afirmativa: Nações e Nacionalismo na União Soviética, 1923-1939] (Ithaca, NY: Cornell Univ. Press, 2001) para aceder a importante material factual sobre a política e a prática em relação às nacionalidades na União Soviética desde 1917 até ao final da II Guerra Mundial.

20.  Ver Arno Mayer, Why Did The Heavens Not Darken [Por Que Não Escureceram Os Céus] (New York: Pantheon, 1988), p. 55-89. Para uma narrativa e um relato visual da criação da Região Autónoma Judaica na União Soviética, ver Robert Weinberg, Stalin’s Forgotten Zion: Birobidzhan and the Making of a Soviet Jewish Homeland [O Sião Esquecido de Estaline: Birobidzhan e a Criação de uma Pátria Judaica Soviética] (Berkeley: Univ. of California Press, 1998).

21.  Ver Cameron McWhirter, Red Summer: The Summer of 1919 and the Awakening of Black America [Verão Vermelho: O Verão de 1919 e o Despertar da América Negra] (New York: St. Martin’s Griffin, 2012); e Robert Whitaker, On the Laps of Gods: The Red Summer of 1919 and the Struggle for Justice That Remade a Nation [Ao Colo dos Deuses: O Verão Vermelho de 1919 e a Luta Pela Justiça Que Refez Uma Nação] (New York: Random House, Inc., 2008).

22.  Ver Philip Foner, ed., Paul Robeson Speaks: The Negro and the Soviet Union [Fala Paul Robeson: Os Negros e a União Soviética] (New York: Citadel, 2002), p. 240; e Martin Duberman, Paul Robeson (New York: Knopf, 1989).

23.  Aleksander Mikhailovich Rodchenko (1891-1956) foi um pintor, escultor, fotógrafo e designer gráfico, um dos fundadores do construtivismo e do design russo. Kazimir Severinovich Malevich (1879-1935), pintor e teórico de arte, foi um pioneiro da arte abstrata geométrica. Sergei Mikhailovich Eisenstein (1898-1948) foi realizador e teórico do cinema. Alexander Petrovich Dovzhenko (1894-1956) foi guionista, realizador e produtor de cinema. Eisenstein e Dovzhenko foram pioneiros na teoria da montagem soviética – a técnica cinematográfica de justaposição brusca e rápida de imagens através da edição.

24.  Sobre a experimentação nas artes, ver Vladimir Tolstoy, Irina Bibikova e Catherine Cooke (eds.), Street Art of the Revolution: Festivals and Celebrations in Russia, 1918–1933 [Arte de Rua da Revolução: Festivais e Festejos na Rússia, 1918–1933] (New York: The Vendome Press, 1990); William G. Rosenberg, ed., Bolshevik Visions: First Phase of the Cultural Revolution in Soviet Russia [Visões Bolcheviques: A Primeira Fase da Revolução Cultural na Rússia Soviética], 2ª Parte (Ann Arbor: Univ. of Michigan Press, 1990); e Richard Stites, Revolutionary Dreams: Utopian Vision and Experimental Life in the Russian Revolution [Sonhos Revolucionários: Visão Utópica e Vida Experimental na Revolução Russa] (New York: Oxford Univ. Press, 1989), https://monoskop.org/images/d/d9/Stites_Richard_Revolutionary_Dreams_Utopian_Vision_and_Experimental_Life_in_the_Russian_Revolution.pdf (em inglês). Para ver obras de arte representativas deste período, ver o sitio internet da exposição de 2013 no Museu de Arte Moderna, Inventing Abstraction, 1910-1925: How a Radical Idea Changed Modern Art [Inventando a Abstração, 1910-1925: Como a Ideia Radical Mudou a Arte Moderna], http://www.moma.org/interactives/exhibitions/2012/inventingabstraction/ (em inglês).

25.  Arno Mayer, The Furies: Violence and Terror in the French and Russian Revolutions [As Fúrias: Violência e Terror nas Revoluções Francesa e Russa] (Princeton, NJ: Princeton Univ. Press, 2001), p. 607.

26.  Sobre a experiência inicial da planificação e industrialização socialistas, ver Maurice Dobb, Soviet Economic Development [O Desenvolvimento Económico Soviético] (London: Routledge & Kegan Paul, 1948), capítulos sobre o primeiro e segundo planos quinquenais; E. H. Carr e R. W. Davies, A History of Soviet Russia: Volume 4: Foundations of a Planned Economy 1926–1929 [História da Rússia Soviética, Vol. 4: As Bases de uma Economia Planificada 1926-1929] (New York: Penguin, 1974); e o livro esgotado de Anna Louise Strong, The Stalin Era [A Era de Estaline] (New York: Mainstream Publishers, 1956), https://www.prisoncensorship.info/archive/books/SovietUnion/StalinEra_StrongAL.pdf (em inglês).

27.  Dobb, Soviet Economic Development, Cap. 9.

28.  Para relatos informativos ver, por exemplo, Maurice Hindus, Red Bread: Collectivization in a Russian Village [Pão Vermelho: A Coletivização Numa Aldeia Russa] (Bloomington, IN: Indiana Univ. Press, 1988); Lynne Viola, The Best Sons of the Fatherland: Workers in the Vanguard of Soviet Collectivization [Os Melhores Filhos da Pátria: Os Operários na Vanguarda da Coletivização Soviética] (New York: Oxford Univ. Press, 1989); e Strong, The Stalin Era.

29.  Ver, por exemplo, Mao Tsétung, A Critique of Soviet Economics [Uma Crítica da Economia Soviética] (New York: Monthly Review Press, 1977), http://marx2mao.com/Mao/CSE58.html (em inglês): e “Sobre as dez grandes relações”, em Mao Tsétung, Obras Escolhidas, Vol. V, (Lisboa: Editora Vento de Leste, 1977), p. 339-365.

30.  Houve uma fome na União Soviética em 1932-1933. Estaline tem sido acusado de provocar intencionalmente a fome para punir os ucranianos. A razão por que isto é falso e não se baseia em factos é abordada em Raymond Lotta, “The Famine of 1933 in the Soviet Union: What Really Happened, Why it was NOT an ‘Intentional Famine’” [“A fome de 1933 na União Soviética: O que realmente aconteceu e por que NÃO foi uma ‘fome intencional’”], disponível no sítio web da Repor a Verdade, http://thisiscommunism.org/ThisIsCommunism/ResearchNotes.html (em inglês).

31.  Sobre a abordagem soviética à construção do socialismo e como Mao viria a romper com ela de uma maneira muito significativa, ver Raymond Lotta, Introduction: “Maoist Economics and the Future of Socialism” [Introdução: “A economia maoista e o futuro do socialismo”], em Maoist Economics and the Revolutionary Road to Communism: The Shanghai Textbook on Political Economy [A Economia Maoista e a Via Revolucionária Para o Comunismo: O Manual de Xangai Sobre Economia Política], Raymond Lotta, ed. (Chicago: Banner Press, 1994), p. iii-xlv, http://thisiscommunism.org/ThisIsCommunism/ShanghaiTextbookIntroduction.html (em inglês).

32.  A palavra “gulag” é o acrónimo em russo de “Direção Geral de Campos Correcionais de Trabalho e Colonatos de Trabalho”, um sistema de campos de detenção e trabalho.

33.  Em parte devido à experiência das anteriores sociedades socialistas e ao que Bob Avakian analisou acerca da importância do estado de direito e da proteção dos direitos individuais, a Constitution for the New Socialist Republic in North America (Draft Proposal) [Constituição Para a Nova República Socialista na América do Norte (Projeto de Texto)] (Chicago: RCP Publications, 2010) abole a pena de morte e estabelece procedimentos estritos para a sua utilização temporária unicamente em caso de guerra, invasão, insurreição e outras circunstancias extraordinárias semelhantes. Além disso, as pessoas não seriam detidas nem reprimidas simplesmente por manifestarem desacordo com a política do governo ou com a forma socialista de governo – teria de ser provado um delito concreto. Para saber mais sobre o sistema jurídico proposto nesta Constituição – uma vez mais, a partir do balanço feito por Bob Avakian dos sucessos e também das debilidades das anteriores sociedades socialistas –, ver a Constituição em http://revcom.us/socialistconstitution/SocialistConstitution-en.pdf (em inglês) ou http://revcom.us/constitucionsocialista/SocialistConstitution-es.pdf (em castelhano).

Para um ensaio exploratório sobre o que estava a acontecer na União Soviética durante o período das purgas, ver An Historic Contradiction: Fundamentally Changing The World Without “Turning Out the Lights” [Uma contradição histórica: Mudar o mundo de uma maneira fundamental sem “apagar as luzes”], Carta 9: “When the Lights Went Out... Really Went Out: Further Findings and Reflections on the 1930s” [“Quando as luzes se apagaram... realmente se apagaram: Descobertas e reflexões adicionais sobre os anos 1930”], http://revcom.us/a/193online/lights_out09-en.html (em inglês) ou http://revcom.us/a/209/lights_out09-es.html (em castelhano).

34.  Walter Johnson, Soul by Soul: Life Inside the Antebellum Slave Market [Alma a Alma: A Vida nos Mercados de Escravos Antes da Guerra Civil Norte-Americana] (Cambridge, MA: Harvard Univ. Press, 2001).

35.  Sobre Jefferson e a escravatura, ver Henry Wiencek, Master of the Mountain: Thomas Jefferson and His Slaves [O Senhor da Montanha: Thomas Jefferson e os Escravos Dele] (New York: Farrar, Straus and Giroux, 2013); e Bob Avakian, “A Question Sharply Posed: Nat Turner or Thomas Jefferson” [“Uma pergunta agudamente colocada: Nat Turner ou Thomas Jefferson”], Revolution/Revolución n.º 301, 14 de abril de 2013, http://revcom.us/a/301/avakian-a-question-sharply-posed-en.html (em inglês) ou http://revcom.us/a/301/avakian-una-pregunta-agudamente-planteada-es.html (em castelhano).

36.  A espúria teoria anticomunista do “totalitarismo” equipara Estaline a Hitler, a ideologia comunista à ideologia fascista e a ditadura do proletariado aos regimes fascistas. Esta teoria é construída sobre distorções grotescas da verdadeira experiência histórica e das verdadeiras metas e métodos da revolução comunista. E é parte crucial do arsenal ideológico da burguesia, em particular a ideia de que o comunismo só pode levar a uma “utopia tornada pesadelo”.

Para entender por que esta teoria é errada, e a conceção do mundo que lhe dá forma, ver a refutação global a Hannah Arendt, talvez a principal proponente desta teoria, em Bob Avakian, Democracy: Can’t We Do Better Than That? [Democracia: Será o Melhor Que Conseguimos Fazer?] (Chicago: Banner Press, 1986), p. 167-190; ver também a refutação a Karl Popper, um outro teórico influente do “totalitarismo”, em Bob Avakian, “Marxism as a Science—Refuting Karl Popper” [“O marxismo como ciência – Refutando Karl Popper”], em Making Revolution And Emancipating Humanity [Fazer a Revolução e Emancipar a Humanidade], Revolution/Revolución n.º 105, 21 de outubro de 2007, http://revcom.us/a/110/makingrevolution06-en.html (em inglês) ou http://revcom.us/a/110/makingrevolution06-es.html (em castelhano).

37.  Mao Tsétung, “Da justa solução das contradições no seio do povo”, em Obras Escolhidas, Vol. V (Lisboa: Editora Vento de Leste, 1977), p. 459-502.

38.  Para uma avaliação global de Estaline, ver Bob Avakian, “The Question of Stalin and ‘Stalinism’” [“A questão de Estaline e do ‘estalinismo’”], em “The End of a Stage—The Beginning of a New Stage” [“O fim de uma etapa – o início de uma nova etapa”], revista Revolution n.º 60, outono de 1990 (Chicago: RCP Publications, 1990), p. 13-18, http://revcom.us/avakian/end_beginning.pdf (em inglês) ou http://revcom.us/avakian-es/BA-El-fin-de-una-etapa-el-comienzo-de-una-nueva-etapa.pdf (em castelhano).

39.  Bob Avakian, “Conquer The World? The International Proletariat Must and Will” [“Conquistar o Mundo? Dever e Destino do Proletariado Internacional”] (1981), http://revcom.us/bob_avakian/conquerworld/ (em inglês) ou http://revcom.us/avakian-es/ba-conquistar-el-mundo-deber-y-destino-del-proletariado-internacional-es.html (em castelhano); Bob Avakian, “Advancing the World Revolutionary Movement: Questions of Strategic Orientation” [“Fazer Avançar o Movimento Revolucionário Mundial: Questões de Orientação Estratégica”], revista Revolution n.º 51, primavera de 1984, http://revcom.us/bob_avakian/advancingworldrevolution/advancingworldrevolution.htm (em inglês) ou http://revcom.us/avakian-es/ba-avanzar-el-movimiento-revolucionario-mundial.html (em castelhano); e a Constituição Para a Nova República Socialista na América do Norte (Projeto de Texto).

40.  Sobre a União Soviética na II Guerra Mundial, a luta militar contra o imperialismo alemão e o papel de Estaline na liderança do esforço de guerra soviético, ver Geoffrey Roberts, Stalin’s Wars: From World War to Cold War, 1939–1953 [As Guerras de Estaline: Da Guerra Mundial à Guerra Fria, 1939-1953] (New Haven: Yale Univ. Press, 2006). Sobre as raízes e o caráter da II Guerra Mundial, ver Raymond Lotta, America in Decline, p. 205-219.

41.  Sobre a restauração do capitalismo na União Soviética em 1956 e o posterior desenvolvimento da União Soviética numa estrutura social-imperialista, ver Raymond Lotta, “Realities of Social Imperialism Versus Dogmas of Cynical Realism: The Dynamics of the Soviet Capital Formation” [“As realidades do social-imperialismo versus os dogmas do realismo cínico: A dinâmica da formação do capital soviético”], em Raymond Lotta vs Albert Szymanski, The Soviet Union: Socialist or Social-Imperialist? Part II, The Question Is Joined [A União Soviética: Socialista ou Social-Imperialista? 2ª Parte, A Questão é Respondida] (Chicago: RCP Publications, 1983), http://bannedthought.net/USSR/RCP-Docs/SUSoSI/SUSoSI-Lotta-Main.pdf (em inglês).

42.  Para conhecer o contexto, ver Jean Chesneaux, et. al, China From the Opium Wars to the 1911 Revolution [A China, das guerras do ópio à revolução de 1911] (New York: Pantheon, 1976), https://pdfsecret.com/download/china-from-the-opium-wars-to-the-1911-revolution_59f705b1d64ab20a7511c9b3_pdf (em inglês).

43.  Um relato clássico disto, em parte baseado em entrevistas a Mao, é o de Edgar Snow, Red Star Over China [Estrela Vermelha Sobre a China] (New York: Grove Press, 1961), https://archive.org/details/EdgarSnowRedStarOverChinaepub (em formato EPUB, em inglês).

44.  Dick Wilson, The Long March [A Longa Marcha] (New York: Viking Press, 1972).

45.  Iris Chang, The Rape Of Nanking: The Forgotten Holocaust Of World War II [O Massacre de Nanquim: O Holocausto Esquecido da II Guerra Mundial] (New York: Basic Books, 2012), https://archive.org/details/TheRapeOfNanking.TheForgottenHolocaustOfWorldWarIIByIrisChang (em inglês, em vários formatos).

46.  Ver Han Suyin, The Morning Deluge: Mao Tsetung & The Chinese Revolution 1893–1954 [O Dilúvio Matutino: Mao Tsétung e a Revolução Chinesa 1893-1954] (Boston: Little, Brown, 1972); Rana Mitter, Forgotten Ally: China’s World War II, 1937–1945 [O Aliado Esquecido: A II Guerra Mundial da China, 1937-1945] (New York: Houghton Mifflin Harcourt, 2013).

47.  Sobre a incidência e o horrendo número de vítimas da fome na China pré-revolucionária, ver Walter Mallory, China: Land of Famine [China: Terra de Fome] (New York: National Geographic Society, 1926); e Carl Riskin, China’s Political Economy [A Economia Política da China] (Oxford: Oxford Univ. Press, 1987), p. 24.

48.  Ver Elisabeth Croll, Feminism and Socialism in China [Feminismo e Socialismo na China] (New York: Schocken Books, 1988), Cap. 2.

49.  Jonathan D. Spence e Annping Chin, The Chinese Century [O Século Chinês] (New York: Random House, 1996), p. 84.

50.  Fredric M. Kaplan, Julian M. Sobin e Stephen Andors, Encyclopedia of China Today [Enciclopédia da China Atual] (New York: Harper & Row, 1979), p. 233.

51.  Ver William Hinton, “The Importance of Land Reform in the Reconstruction of China” [“A Importância da reforma agrária na reconstrução da China”], em Hungry for Profit: The Agribusiness Threat to Farmers, Food, and the Environment [Famintos de lucro: A ameaça da agroindústria aos camponeses, aos alimentos e ao meio ambiente], Fred Magdoff et al. (New York: Monthly Review Press, 2000), p. 216.

No início dos anos 1950, a reforma agrária radical liderada pelo Partido Comunista e baseada na mobilização dos camponeses tinha efetivamente tirado o poder às velhas classes proprietárias rurais. Ver John G. Gurley, China’s Economy and the Maoist Strategy [A Economia da China e a Estratégia Maoista] (New York: Monthly Review Press, 1976), p. 236-241; e Maurice Meisner, Mao’s China and After: A History of the People’s Republic [A China de Mao e Depois: Uma História da República Popular], 3ª Edição (New York: Free Press, 1999), p. 90-102.

52.  Esta descrição é inspirada em William Hinton, Fanshen: A Documentary of Revolution in a Chinese Village [Fanshen: Um Documentário da Revolução Numa Aldeia Chinesa] (New York: Monthly Review Press, 2008), http://anticapitalismfaq.com/misc/Hinton_-_Fanshen.pdf (em inglês). Este livro é um fascinante micro-estudo da revolução agrária de Mao nas suas dimensões económicas, sociais e ideológicas, centrada numa aldeia. Hinton esteve ao lado da revolução chinesa mas assumiu um posição muito errada em relação à última grande batalha de Mao em 1973-76, condenando o chamado “Bando dos Quatro”, que de facto defendeu a linha de Mao e desempenhou um importante papel na luta para impedir a restauração capitalista e continuar a revolução.

Entre outras obras valiosas sobre a revolução agrária contam-se: Isabel Crook e David Crook, Mass Movement in a Chinese Village: Ten-Mile Inn [O Movimento de Massas Numa Aldeia Chinesa: A Pousada das Dez Milhas] (New York: Random House, 1979), http://14.139.206.50:8080/jspui/bitstream/1/1792/1/Crook&Crook%20-%20Revolution%20in%20a%20Chinese%20Village%20Ten%20Mile%20Inn.pdf (em inglês); e o romance de Yuan-tsung Chen, The Dragon’s Village: An Autobiographical Novel of Revolutionary China [A Aldeia do Dragão: Um Romance Autobiográfico da China Revolucionária] (New York: Penguin Books, 1981) que relata o trabalho da reforma agrária nos anos 1950.

53.  Friedrich Engels, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado (Rio de Janeiro: Editorial Vitória, 1964), https://www.marxists.org/portugues/marx/1884/origem/index.htm.

54.  Entre os estudos ocidentais escritos nos anos 1970 sobre a luta pela libertação da mulher na China revolucionária contam-se: Croll, Feminism and Socialism in China; Delia Davin, Woman-Work [Trabalho de Mulher] (Oxford: Oxford Univ. Press, 1976); e Claudie Broyelle, Women’s Liberation in China [A Libertação da Mulher na China] (New York: Harvester Press, 1977).

55.  Ver Kaplan et. al, Encyclopedia of China Today, p. 233.

56.  Ver C. Clark Kissinger, “How Maoist Revolution Wiped Out Drug Addiction in China” [“Como a revolução maoista eliminou a vício da droga na China”], Revolutionary Worker/Obrero Revolucionario n.º 734, 5 de dezembro de 1993, http://revcom.us/a/china/opium.htm (em inglês) ou http://revcom.us/a/china/opium-s.htm (em castelhano).

57.  Mao Tsétung, “Relatório apresentado na II Sessão Plenária do Comité Central eleito pelo VII Congresso do Partido Comunista da China”, em Obras Escolhidas de Mao Tsétung, Tomo IV (Pequim: Edições em Línguas Estrangeiras, 1975), p. 577-8, https://www.marxists.org/reference/archive/mao/selected-works/volume-4/mswv4_58.htm (em inglês) ou https://www.marxists.org/espanol/mao/escritos/RCP49s.html (em castelhano). [Nota do Tradutor (NT)]

58.  Bob Avakian, “The Cultural Revolution in China... Art and Culture... Dissent and Ferment... and Carrying Forward the Revolution Toward Communism” [“A Revolução Cultural na China... Arte e cultura... Dissensão e fermento... e fazer avançar a revolução para o comunismo”], Revolution/Revolución, 19 de fevereiro de 2012, http://revcom.us/a/260/avakian-on-cultural-revolution-in-china-en.html (em inglês) ou http://revcom.us/a/260/avakian-on-cultural-revolution-in-china-es.html (em castelhano).

59.  As diferenças de Mao em relação ao modelo soviético e a articulação por parte dele de um modelo alternativo e de uma abordagem profundamente dialética ao desenvolvimento económico socialista, com base nas experiências e nas lições do Grande Salto em Frente, podem ser vistas a começar a tomar forma em Mao Tsétung, A Critique of Soviet Economics.

60.  Alguns artigos escritos na China nessa altura sobre a experimentação camponesa e o desenvolvimento e luta por formas mais elevadas de cooperação foram coligidos em Socialist Upsurge in China’s Countryside [Auge Socialista nos Campos da China] (Peking: Foreign Languages Press, 1957), https://www.prisoncensorship.info/archive/etext/countries/china/flp1957text.pdf (em inglês). Mao escreveu prefácios e notas para essa coletânea que estão disponíveis em Obras Escolhidas, Vol. V, p. 281-328.

61.  Li Onesto, “When Revolution Has its Day, People See Things a Different Way: How Collective Childcare Liberated Women in Maoist China” [“Quando a revolução vence, as pessoas veem as coisas de uma maneira diferente: Como os cuidados coletivos das crianças libertaram a mulher na China maoista”] Revolutionary Worker n.º 956, 10 de maio de 1998, http://revcom.us/a/v21/1020-029/1024/chdcare.htm (em inglês) ou Obrero Revolucionario n.º 957, 17 de maio de 1998, http://revcom.us/a/v21/1020-029/1024/chdcare_s.htm (em castelhano).

62.  Para aceder a documentação e a uma análise do Grande Salto em Frente e das comunas, ver Isabel Crook e David Crook, The First Years of Yangyi Commune [Os Primeiros Anos da Comuna de Yangyi] (New York: Routledge, 1966); Han Suyin, Wind in the Tower: Mao Tsetung and the Chinese Revolution 1949–1975 [O Vento na Torre: Mao Tsétung e a Revolução Chinesa, 1949-1975] (Boston: Little, Brown, 1976), Cap. 8; Keith Buchanan, The Transformation of the Chinese Earth [A Transformação da Terra Chinesa] (New York: Praeger, 1970); e William Hinton, Through a Glass Darkly: U.S. Views of the Chinese Revolution [Através de um Vidro Escuro: Perspetivas Norte-Americanas da Revolução Chinesa] (New York: Monthly Review Press, 2006).

63.  P. Sainath, “Farmers’ Suicide Rates Soar Above the Rest” [“As taxas de suicídio dos camponeses explodem acima das outras”], The Hindu, 18 de maio de 2013, http://thehindu.com/opinion/columns/sainath/farmers-suicide-rates-soar-above-the-rest/article4725101.ece (em inglês).

64.  UNICEF, Levels & Trends in Child Mortality, Report 2013 [Níveis e Tendências da Mortalidade Infantil, Relatório de 2013], http://who.int/maternal_child_adolescent/documents/levels_trends_child_mortality_2013/en/ (em inglês).

65.  Algumas das intervenções e discursos importantes de Mao no período do Grande Salto em Frente estão coligidos em Roderick MacFarquhar, Timothy Cheek e Eugene Wu, eds., The Secret Speeches of Chairman Mao: From the Hundred Flowers to the Great Leap Forward [Os Discursos Secretos do Presidente Mao: Das Cem Flores ao Grande Salto em Frente] (Cambridge, MA: Harvard Univ. Asia Center, 1989).

66.  Ver YY Kueh, Agricultural Instability in China, 1931–1991: Weather, Technology, and Institutions [Instabilidade Agrícola na China, 1931-1991: O Clima, a Tecnologia e as Instituições] (New York: Oxford Univ. Press, 1995). Os dados das estações meteorológicas chinesas estão resumidos em http://www.famine.unimelb.edu.au/weather_stations.php (em inglês).

67.  Ver Han Suyin, Wind in Tower, Cap. 9-11 sobre a cisão sino-soviética; e Riskin, China’s Political Economy, p. 130-131, sobre a retirada da ajuda soviética.

68.  Ver Buchanan, The Transformation of the Chinese Earth, p. 130-131.

69.  Ver Franz Schurmann, The Logic of World Power: An Inquiry into the Origins, Currents, and Contradictions of World Politics [A Lógica do Poder Mundial: Uma Investigação Sobre as Origens, Correntes e Contradições da Política Mundial] (New York: Pantheon, 1974), p. 330-331; e Han Suyin, Wind in the Tower, p. 170-171.

70.  Ver, por exemplo, Dwight H. Perkins, Agricultural Development in China: 1368–1968 [Desenvolvimento Agrícola na China: 1368-1968] (Edinburgh: Edinburgh Univ. Press, 1969), p. 303.

71.  Madhusree Mukerjee, Churchill’s Secret War: The British Empire and the Ravaging of India during World War II [A Guerra Secreta de Churchill: O Império Britânico e a Devastação da Índia Durante a II Guerra Mundial] (New York: Basic Books, 2010).

72.  Para uma avaliação das alegações sensacionalistas e dos métodos estatísticos duvidosos, ver Daniel Vukovich, “Missing Millions, Excess Deaths, and a Crisis of Chinese Proportions” [“Milhões em falta, mortes em excesso e uma crise de proporções chinesas”], em China and Orientalism: Western Knowledge Production and the PRC [A China e o Orientalismo: A Produção Ocidental de Conhecimento e a República Popular da China] (New York: Routledge, 2011).

Ver também William Hinton, Through a Glass Darkly, p. 241-257; e Utsa Patnaik. “Republic of Hunger” [“República da fome”], em The Republic of Hunger and Other Essays [A República da Fome e Outros Ensaios] (Pontypool, UK: Merlin Press, 2008), http://networkideas.org/featart/apr2004/Republic_Hunger.pdf (em inglês).

73.  Joseph Ball, “Did Mao Really Kill Millions in the Great Leap Forward” [“Terá Mao realmente matado milhões de pessoas no Grande Salto em Frente?”], Monthly Review, setembro de 2006, https://monthlyreview.org/commentary/did-mao-really-kill-millions-in-the-great-leap-forward/ (em inglês) ou numa tradução em português em https://www.facebook.com/desconstruindoideiasanticomunas/posts/1729981907306826:0. Este estudo também apresenta uma importante crítica metodológica da maneira como são obtidos os “resultados estatísticos” da “tese da fome massiva”.

74.  Um estudioso ocidental da agricultura na China, escrevendo em 1975, caracterizou assim o avanço da China revolucionária na produção e distribuição de alimentos: “Primeiro, a China parece ter conseguido eliminar as flutuações mais extremas na produção agrícola, embora sejam necessárias mais algumas décadas de experiência para confirmar plenamente este feito. (...) Segundo, o racionamento de alimentos essenciais significa que todas as pessoas têm garantidos os seus requisitos mínimos, desde que as provisões a nível nacional sejam adequadas. Não se vê na China o fenómeno de zonas ricas a manterem grandes excedentes enquanto dezenas de milhares de pessoas estão a morrer noutros lugares numa região com fome. Porque a China resolveu em grande parte o problema da distribuição de alimentos, tanto ao longo do tempo como entre as pessoas, a nação pode aguentar um período bastante prolongado de estagnação da produção antes de as pessoas começarem a sofrer uma séria desnutrição. O mesmo não se pode dizer de muitas outras nações menos desenvolvidas.” Dwight Perkins, “Constraints Influencing China’s Agricultural Performance” [“Constrangimentos que influenciam o desempenho agrícola da China”] em China: A Reassessment of the Economy, A Compendium of Papers Submitted to the Joint Economic Committee, Congress of the United States [China: Uma Reavaliação da Economia, Uma Compilação de Artigos Submetidos ao Comité Económico Conjunto, Congresso dos Estados Unidos] (Washington, D.C.: U.S. Government Printing Office, 1975), p. 352-353, https://www.jec.senate.gov/reports/94th%20Congress/Other%20Reports/China%20-%20A%20Reassessment%20of%20the%20Economy%20(700).pdf (em inglês).

75.  Os revisionista soviéticos, a partir dos finais dos anos 1950 e até ao colapso da União Soviética, estiveram a promover um modelo de desenvolvimento “socialista” a ser adotado pelos países do Terceiro Mundo. Eles forneciam ajuda à sua implementação e várias forças gravitaram para ela. Um desse países é a República Democrática e Popular da Coreia (Coreia do Norte). Em vários momentos, a liderança deste país autodenominou-se socialista-comunista, mas de facto essa sociedade não tem nada em comum com o socialismo ou o comunismo. Há propriedade de estado, um sistema de segurança social e formas de “participação operária” e “democracia operária”. Mas a Coreia do Norte é essencialmente uma sociedade militarizada e paternalista governada por um estrato circunscrito de capitalistas de estado burocráticos. É uma sociedade em que as massas são mantidas num estado de passividade e asfixia.

Para conhecer a diferença entre o genuíno socialismo e o tipo de sociedade que existe na Coreia do Norte ou em Cuba, ver Bob Avakian, “Three Alternative Worlds” [“Três alternativas para o mundo”], em Observations on Art and Culture, Science and Philosophy [Observações Sobre Arte e Cultura, Ciência e Filosofia] (Chicago: Insight Press, 2005), e em Revolution/Revolución n.º 71, 3 de dezembro de 2006, http://revcom.us/a/071/ba-threeworlds-en.html (em inglês) ou http://revcom.us/a/071/ba-threeworlds-es.html (em castelhano).

76.  Ver a entrevista “Running with the Red Guards: Memories of the Great Proletarian Cultural Revolution” [“Correrias com os Guardas Vermelhos: Recordações da Grande Revolução Cultural Proletária”] Revolutionary Worker/Obrero Revolucionario, 22 de dezembro de 1986, http://thisiscommunism.org/pdf/Running_w_Red_Guards.pdf (em inglês).

77.  Jan Myrdal e Gun Kessle, China: The Revolution Continued [China: A Revolução Continuou] (New York: Pantheon, 1970), especialmente as p. 75-108.

78.  Algum do importante trabalho teórico feito pelos revolucionários maoistas na China sobre estes temas está compilado em Raymond Lotta, ed., And Mao Makes 5: Mao Tsetung’s Last Great Battle [E Com Mao São 5: A Última Grande Batalha de Mao Tsétung] (Chicago: Banner Press, 1978), https://www.marxists.org/history/erol/ncm-5/rcp-mao-5.pdf (em inglês).

79.  V. I. Lenine, Sobre os Sindicatos, o Momento Atual e os Erros de Trotsky (Rio de Janeiro: Editorial Vitória, 1961), https://www.marxists.org/portugues/lenin/1920/12/30.htm. [NT]

80.  Ver o balanço feito em Bob Avakian, Mao Tsetung’s Immortal Contributions [As Contribuições Imortais de Mao Tsétung] (Chicago: RCP Publications, 1979), Cap. 6, http://bannedthought.net/USA/RCP/Avakian/Avakian-MaoTsetungImmortal-Searchable.pdf (em inglês).

81.  Ver Elizabeth J. Perry e Li Xun, Proletarian Power: Shanghai in the Cultural Revolution [Poder Proletário: Xangai na Revolução Cultural] (Boulder: Westview Press, 1997).

82.  Ver a discussão em Raymond Lotta, Nayi Duniya e K.J.A., “Rereading the Cultural Revolution in Order to Bury the Cultural Revolution” [“Reler a Revolução Cultural para enterrar a Revolução Cultural”], em “Alain Badiou’s ‘Politics of Emancipation’—A Communism Locked Within the Confines of the Bourgeois World” [“A ‘política da emancipação’ de Alain Badiou – Um comunismo encerrado dentro dos confins do mundo burguês”], Cap. IV, em Demarcations: A Journal of Communist Theory and Polemic n.º 1 (Verão-Outono de 2009), http://demarcations-journal.org/issue01/demarcations_badiou.html#026 (em inglês) ou http://demarcations-journal.org/translations/Demarcaciones_01.pdf#page=41 (em castelhano).

83.  Ver Mao Tsétung, “Speech to the Albanian Military Delegation” [“Discurso à delegação militar albanesa”], https://www.marxists.org/reference/archive/mao/selected-works/volume-9/mswv9_74.htm (em inglês).

84.  Ver a “Decisão em 16 Pontos” ou “Decisão do Comité Central do Partido Comunista da China Sobre a Grande Revolução Cultural Proletária (Tomada a 8 de agosto de 1966)”, p. 11 (Lisboa: Publicações Nova Aurora, 1975). Disponível online em inglês em http://www.marxists.org/subject/china/peking-review/1966/PR1966-33g.htm ou em castelhano em http://www.marxists.org/espanol/tematica/china/documentos/com.htm.

85.  A luta na Universidade Tsinghua é relatada em William Hinton, Hundred Day War: The Cultural Revolution at Tsinghua University [A Guerra dos Cem Dias: A Revolução Cultural na Universidade Tsinghua] (New York: Monthly Review Press, 1972). Ver a 3ª Parte. “The Working Class Intervenes” [“A classe operária intervém”].

86.  Para uma análise global da Revolução Cultural, ver a entrevista a Bob Avakian, “The Cultural Revolution in China”. Sobre os principais acontecimentos e pontos de viragem da Revolução Cultural, sobretudo nas suas fases iniciais, ver Jean Daubier, História da Revolução Cultural Chinesa (Lisboa: Editorial Presença, 1974).

87.  Sobre a Revolução Cultural nas zonas rurais e os seus efeitos no ensino, incluindo a vasta expansão do ensino secundário, ver Dongping Han, The Unknown Cultural Revolution: Educational Reforms and Their Impact on China’s Rural Development [A Revolução Cultural Desconhecida: As Reformas Educativas e o Impacto Delas no Desenvolvimento Rural da China] (New York: Garland Publishing, 2000), p. 88; e Suzanne Pepper, “Education”, em The Cambridge History of China [A História da China da Cambridge], Vol. XV, Roderick MacFarquhar e John K. Fairbank, eds. (New York: Cambridge Univ. Press, 1991), p. 416.

Para uma discussão mais geral das transformações no ensino, ver Ruth Gamberg, Red and Expert: Education in the People’s Republic of China [Vermelho e Especialista: O Ensino na República Popular da China] (New York: Schocken Books, 1977).

88.  Ver da organização Science for the People [Ciência para o Povo], China: Science Walks on Two Legs [China: A Ciência Caminha Sobre Duas Pernas] (New York: Avon, 1974). Nos anos 1920, foi desenterrada a mais substancial evidência da evolução humana que o mundo alguma vez tinha visto: o homem de Pequim. Depois da revolução, o homem de Pequim fez parte do movimento para levar a ciência ao povo: a história da evolução humana era uma lição de filosofia marxista oferecida às massas. Ver Sigrid Schmalzer, The People's Peking Man: Popular Science and Human Identity in Twentieth-Century China [O Homem de Pequim do Povo: A Ciência Popular e a Identidade Humana na China do Século XX] (Chicago: Univ. of Chicago Press, 2008).

89.  Ver a 2ª Parte da entrevista “Running with the Red Guards: Memories of the Great Proletarian Cultural Revolution”. Sobre o movimento dos “médicos pés-descalços” como parte de um sistema integrado de cuidados de saúde, ver Teh-wei Hu, “Health Care Services in China’s Economic Development” [“Os serviços de cuidados de saúde no desenvolvimento económico da China”], em China’s Development Experience in Comparative Perspective [A Experiência de Desenvolvimento da China Numa Perspetiva Comparada], ed. Robert F. Dernberger (Cambridge, MA: Harvard Univ. Press, 1980).

Ver também o documentário, The Barefoot Doctors of Rural China [Os Médicos Pés-Descalços da China Rural], produzido por Diane Li e Victor Li, em https://www.youtube.com/watch?v=ZtM2_00OTus (em inglês); e o manual do Comité Revolucionário de Saúde da Província de Hunan, A Barefoot Doctor’s Manual: The American Translation of the Official Chinese Paramedical Manual [Manual do Médico Pé-Descalço: A Tradução Norte-Americana do Manual Paramédico Chinês Oficial] (Philadelphia: Running Press, 1977), https://pssurvival.com/PS/Doctor/A_Barefoot_Doctors_Manual_1974.pdf (em inglês).

90.  Para uma visão geral dos cuidados de saúde na China revolucionária, ver Victor W. Sidel e Ruth Sidel, Serve the People: Observations on Medicine in the People’s Republic of China [Servir o Povo: Observações Sobre a Medicina na República Popular da China] (Boston: Beacon Press, 1973).

91.  Ver Donald G. McNeil, Jr, “For Intrigue, Malaria Drug Gets the Prize” [“No meio da intriga, o medicamento para a malária obtém o prémio”], New York Times, 16 de janeiro de 2012, http://www.nytimes.com/2012/01/17/health/for-intrigue-malaria-drug-artemisinin-gets-the-prize.html (em inglês); e “Malaria: Rediscovered Cure” [“Malária: A cura redescoberta”], Médicos Sem Fronteiras, 24 de abril de 2013, em http://www.msf.org/en/article/malaria-rediscovered-cure (em inglês).

92.  Penny Kane, The Second Billion: Population and Family Planning in China [O Segundo Milhar de Milhão: A População e o Planeamento Familiar na China] (New York: Penguin Books, 1987), p. 172 e Cap. 5.

93.  Victor W. Sidel e Ruth Sidel, Serve the People, p. 256-258.

94.  Durante a Revolução Cultural foram feitos, como foi mencionado, grandes avanços na compreensão da economia política do socialismo e de como desenvolver uma economia socialista de uma maneira revolucionária rumo a objetivos revolucionários. Esta compreensão está concentrada num importante manual escrito na China no período de 1972-76 e disponível numa edição em inglês: Maoist Economics and the Revolutionary Road to Communism: The Shanghai Textbook on Political Economy. O ensaio no Epílogo centra-se nas inovações no planeamento e fornece documentação empírica dos impressionantes ganhos económicos alcançados durante a Revolução Cultural: Raymond Lotta, Epílogo: “The Theory and Practice of Maoist Planning: In Defense of a Viable and Visionary Socialism,” [“A teoria e a prática da planificação maoista: Em defesa de um socialismo viável e visionário”], p. 279-332, http://thisiscommunism.org/ThisIsCommunism/ShanghaiTextbookAfterword.html (em inglês).

95.  O Pátio da Cobrança das Rendas – Esculturas de Barro (Pequim: Edições em Línguas Estrangeiras, 1970).

96.  A afirmação infundada de que a China foi um vasto “baldio cultural” durante a Revolução Cultural faz parte da visão convencional dos nossos tempos. Um recente estudo de Paul Clark, The Chinese Cultural Revolution: A History [A Revolução Cultural Chinesa: Uma História] (New York: Cambridge Univ. Press, 2008), analisa em grande detalhe a ópera, o cinema, a dança, as artes visuais, a literatura, a poesia e o teatro e mostra que a Revolução Cultural foi de facto um período de grande criatividade, inovação e produção artística coletiva sem precedentes. Embora esta obra sofra de algum anticomunismo e o autor trabalhe dentro de um enquadramento de modernização nacionalista, é uma estudo de grande valor e bem documentado.

97.  Os textos de algumas das obras teatrais modelo podem ser encontradas em Lois Wheeler Snow, China On Stage: An American Actress in the People’s Republic [A China no Palco: Uma Atriz Norte-Americana na República Popular] (New York: Vintage, 1973). Ver também Li Onesto, “Yang Ban Xi: Model Revolutionary Works in Revolutionary China” [“Yang Ban Xi: As obras revolucionárias modelo na China revolucionária”], Revolution/Revolución, 18 de junho de 2006, http://thisiscommunism.org/pdf/Yang_Ban_Xi.pdf (em inglês) ou http://revcom.us/a/051/yang-bang-xi-es.html (em castelhano).

Ver também o ensaio de Bai Di sobre dois dos ballets modelo, “Feminism in Revolutionary Model Ballets The White-Haired Girl and The Red Detachment of Women” [“Feminismo nos ballets revolucionários modelo A Menina de Cabelo Branco e O Destacamento Vermelho Feminino”], http://thisiscommunism.org/pdf/final_model_theater-BaiDi.pdf (em inglês), e o filme do ballet O Destacamento Vermelho Feminino, https://www.youtube.com/watch?v=ZHTPcs3lQPU.

98.  Ver Jan Myrdal, Return to a Chinese Village [Regresso a Uma Aldeia Chinesa] (New York: Pantheon, 1984); Jack Chen, A Year in Upper Felicity: Life in a Chinese Village During the Cultural Revolution [Um Ano em Felicidade Suprema: A Vida Numa Aldeia Chinesa Surante a Revolução Cultural] (New York: McMillan Publishing Co., 1973); e Dongping Han, The Unknown Cultural Revolution: Life and Change in a Chinese Village [A Revolução Cultural desconhecida: Vida e Mudança Numa Aldeia Chinesa] (New York: Monthly Review Press, 2008).

99.  Ver Mobo Gao, “Debating the Cultural Revolution: Do We Only Know What We Believe” [“Debatendo a Revolução Cultural: Será que só sabemos aquilo em que acreditamos?”], em Critical Asian Studies 34 (2002): p. 427-430; e Mobo Gao, Gao Village: A Portrait of Rural Life in Modern China [A Aldeia de Gao: Um Retrato da Vida Rural na China Moderna] (Honolulu: Univ. of Hawai’i Press, 1999), Cap. 9.

100.  O que isto significou em termos de experiência de vida é transmitido em reflexões como: “We had a dream that the world can be better than today” [“Tivemos um sonho de que o mundo pode ser melhor que o de hoje”], entrevista do projeto Repor a Verdade a Wang Zheng, Revolution/Revolución n.º 59, 3 de setembro de 2006, http://revcom.us/a/059/some-of-us-en.html (em inglês) ou http://revcom.us/a/059/some-of-us-es.html (em castelhano); e Dongping Han, The Unknown Cultural Revolution. Ver também o vídeo de Dongping Han na BookTV em https://www.c-span.org/video/?290017-1/the-unknown-cultural-revolution (em inglês).

101.  Alguns importantes artigos teóricos produzidos durante a Revolução Cultural sobre a questão da revolucionarização da gestão foram compilados em Stephen Andors, ed., Workers and Workplaces in Revolutionary China [Operários e Locais de Trabalho na China Revolucionária] (White Plains, NY: M.E. Sharpe, 1977). Para ler um estudo escrito com uma perspetiva político-ideológica diferente e que lança luz sobre a revolucionarização da gestão: Stephen Andors, China’s Industrial Revolution: Politics, Planning, and Management 1949 to the Present [A Revolução Industrial da China: Política, Planificação e Gestão, de 1949 ao Presente] (New York: Pantheon, 1977).

102.  Para ler outros relatos como este, ver a valiosa coleção de ensaios escritos por mulheres que cresceram na China maoista: Xueping Zhong, Wang Zheng e Bai Di, eds., Some of Us: Chinese Women Growing Up in the Mao Era [Algumas de Nós: Mulheres Chinesas Que Cresceram na Era de Mao] (New Brunswick, NJ: Rutgers Univ. Press, 2001).

103.  Teh-wei Hu, “Health Care Services in China’s Economic Development”, p. 234.

104.  John Archibald Getty, Origins of the Great Purges: The Soviet Communist Party Reconsidered, 1933–1938 [Origens das Grandes Purgas: O Partido Comunista Soviético Reconsiderado, 1933-1938] (New York: Cambridge Univ. Press, 1987), p. 4-5.

105.  Ver “A Reader Responds to ‘What’s Wrong with “History by Memoir”?’” [“Um leitor responde a ‘O que está errado na «história feita através de autobiografias»?’”], http://revcom.us/a/327/a-reader-responds-to-Whats-Wrong-with-History-by-Memoir-en.html (em inglês) ou http://revcom.us/a/328/un-lector-responde-a-que-esta-mal-con-la-historia-segun-las-reminiscencias-es.html (em castelhano).

106.  Alguns documentos desta luta estão compilados em Raymond Lotta, ed., And Mao Makes 5.

107.  Bob Avakian, The Loss in China and the Revolutionary Legacy of Mao Tsetung [A Perda na China e o Legado Revolucionário de Mao Tsétung] (Chicago: RCP Publications, 1978), https://www.marxists.org/history/erol/ncm-5/avakian-loss.pdf (em inglês) e Mao Tsetung’s Immortal Contributions.

108.  Leia uma análise de Avakian e os documentos chave desta luta em Revolution and Counter-Revolution: The Revisionist Coup in China and the Struggle in the Revolutionary Communist Party, USA [Revolução e Contrarrevolução: O Golpe Revisionista na China e a Luta no Partido Comunista Revolucionário, EUA] (Chicago: RCP Publications, 1978), https://www.marxists.org/history/erol/ncm-5/rcp-split/index.htm (em inglês).

109.  Para saber mais sobre o avanço feito por BA na ciência do comunismo, ver:

– “Uma conversa de Bob Avakian com alguns camaradas sobre epistemologia: Sobre conhecer e transformar o mundo”, http://paginavermelha.org/docs/uma-conversa-de-bob-avakian-com-alguns-camaradas-sobre-epistemologia;

– “Communism as a Science” [“O comunismo como ciência”], apêndice à Constituição do Partido Comunista Revolucionário, EUA (Chicago: RCP Publications, 2008), http://revcom.us/Constitution/constitution.html#Appendix (em inglês) ou http://revcom.us/Constitucion/constitucion.html#Appendix (em castelhano);

Making Revolution and Emancipating Humanity [Fazer a Revolução e Emancipar a Humanidade], 1ª Parte: “Beyond the Narrow Horizon of Bourgeois Right” [“Para além do horizonte estreito do direito burguês”], http://revcom.us/avakian/makingrevolution/index.html (em inglês) ou http://revcom.us/avakian/makingrevolution/makingrevolution-pt1-es.html (em castelhano);

– e Birds Cannot Give Birth to Crocodiles, But Humanity Can Soar Beyond the Horizon [Os Pássaros Não Podem Dar à Luz Crocodilos, Mas a Humanidade Pode Voar Para Além do Horizonte], 1ª Parte: “Revolution and the State” [“A revolução e o estado”], http://revcom.us/avakian/birds/birds01-en.html (em inglês) ou http://revcom.us/avakian/birds/birds01_toc-es.html (em castelhano).

110.  Para saber mais sobre o desenvolvimento do internacionalismo por parte de Bob Avakian, ver Advancing the World Revolutionary Movement: Questions of Strategic Orientation; para saber mais sobre estratégia, ver:

Making Revolution and Emancipating Humanity, 2ª Parte: “Everything We’re Doing Is About Revolution” [“Tudo o que estamos a fazer tem a ver com a revolução”], http://revcom.us/avakian/makingrevolution2/index.html (em inglês) ou http://revcom.us/avakian/makingrevolution2/makingrevolution-pt2-es.html (em castelhano);

– e “On the Strategy for Revolution” [“Sobre a estratégia para a revolução”], Uma declaração do Partido Comunista Revolucionário, EUA, http://revcom.us/a/224online/Statement-on-strategy-en.html (em inglês) ou http://revcom.us/a/224online/Statement-on-strategy-es.html (em castelhano).

111.  Bob Avakian, Observations on Art and Culture, Science and Philosophy (Chicago: Insight Press, 2005). Alguns excertos estão acessíveis em http://revcom.us/avakian/ba-important-works-en.html (em inglês) ou http://revcom.us/a/195/Observaciones-es.html (em castelhano).

112.  Uma entrevista a Bob Avakian feita por A. Brooks, What Humanity Needs: Revolution, and the New Synthesis of Communism [O que a humanidade precisa: A revolução e a nova síntese do comunismo] (Chicago: RCP Publications, 2012), http://revcom.us/avakian/what-humanity-needs/interview.pdf (em inglês) ou http://revcom.us/avakian/what-humanity-needs/entrevista-es.pdf (em castelhano).