Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 4 de Outubro de 2004, aworldtowinns.co.uk

O seguinte artigo, assinado pelo economista maoista Raymond Lotta, foi publicado no n.º 1253, de 3 de Outubro de 2004, do jornal Revolutionary Worker/Obrero Revolucionario¸ voz do Partido Comunista Revolucionário, EUA (revcom.us/a/1253/mao_china_hinton.htm em inglês e revcom.us/a/1253/mao_china_hinton_s.htm em castelhano).

Recordando William Hinton (1919-2004)

Por Raymond Lotta

William Hinton morreu a 15 de Maio com 85 anos de idade. Será lembrado como um dos grandes observadores e apoiantes da Revolução chinesa. Não se limitou a ser apenas testemunha da revolução, foi também um participante activo na revolução.

William Hinton escreveu um livro que teve um enorme e inspirador impacto na geração de revolucionários que se tornaram activos no final dos anos 60 e início dos anos 70. Esse livro foi Fanshen, uma extraordinária narrativa da revolução rural liderada pelos comunistas da China no final dos anos 40. Em textos subsequentes, Hinton continuou essa história e trouxe as experiências e as lições da Revolução Cultural de Mao a uma audiência internacional.

Curiosamente, foi um anterior estudo da revolução chinesa que mudou a vida de Bill Hinton. Ainda jovem, no início dos anos 40, leu o livro Estrela Vermelha sobre a China, de Edgar Snow, que descrevia os primeiros anos da revolução chinesa e da liderança de Mao Tsétung. O livro transformou Hinton num socialista marxista e convenceu-o a abandonar as suas visões pacifistas.

No final da 2ª guerra mundial, Hinton foi para a China integrado numa delegação governamental dos EUA (decorriam então efémeras conversações de paz entre os revolucionários chineses e as forças reaccionárias do Kuomintang). Conheceu Mao Tsétung e, em 1947, Hinton, licenciado em agronomia pela Universidade de Cornell, regressou à China como instrutor de tractores. Um ano mais tarde, depois de ensinar durante algum tempo na Universidade do Norte, perto de Changzhi, juntou-se a uma equipa de trabalho sobre a reforma agrária dirigida pelo Partido Comunista num distrito libertado. A sua experiência com os camponeses e membros do partido foram a base de Fanshen.

A revolução maoista triunfou em 1949. Hinton decidiu ficar na China para participar na revolução e contribuir para a nova sociedade. Regressou aos EUA em 1953. Essa era uma época de intensa repressão contra os comunistas e os esquerdistas. As autoridades governamentais dos EUA apreenderam os apontamentos e os diários de Hinton e confiscaram o seu passaporte. Foi hostilizado pelo FBI. Não recuando no seu apoio à causa revolucionária, foi colocado na lista negra e não conseguiu obter um emprego. Proibido de trabalhar, tornou-se fazendeiro na Pensilvânia e continuou a cultivar durante muitos anos. Depois de longos processos legais, Hinton acabou por conseguir recuperar os seus apontamentos e os seus documentos. Acabou de escrever Fanshen, que foi finalmente publicado em 1966.

Como tantas outras pessoas que leram Fanshen, eu descobri-me não só a ser transportado para um outro lugar – a pequena aldeia de Arco Longo na província do Shanxi que Hinton descreveu em vívido detalhe – como também a tornar-me numa espécie de participante indirecto na complexa e libertadora luta das massas camponesas para refazer a sociedade e desafiar os velhos e tenazes hábitos e convicções. Fanshen abriu-nos os olhos para a possibilidade de um futuro diferente para a humanidade. Com a sua prosa de fina textura, Hinton ajudou-nos a ver e a sentir como o comunismo é transformador – até ao mais fundo da experiência humana. Fanshen ajudou-nos a compreender mais profundamente que as revoluções devem ser revoluções das massas, mas que as massas precisam de uma liderança comunista. Também trouxe vivamente o princípio maoista de que os líderes devem tanto dirigir como aprender com as massas e que os próprios líderes devem ser objecto de crítica e transformação revolucionária.

Quando foi publicada a edição brochada de Fanshen, já estava a decorrer um novo capítulo da revolução chinesa: a Revolução Cultural lançada por Mao em 1966. Hinton, que continuou a visitar a China, começou a escrever e a falar acaloradamente sobre as experiências e os objectivos da Revolução Cultural.

Eu convidei Hinton para vir à minha universidade em 1970. Ele ficou connosco durante vários dias e deu uma série de maravilhosas conferências sobre a revolução de nova democracia – a fase de transformação socialista que começara em 1949 – e sobre a Revolução Cultural. Alto e magro e com os seus característicos cabelos brancos, Hinton fez as suas palestras num estilo simples e desarmante. Teve um grande efeito sobre nós. Clarificou-nos o arco histórico da revolução chinesa – as fases que atravessou – e as incríveis inovações da Revolução Cultural. Explicou como as alterações da política do Partido descritas em Fanshen reflectiam a luta entre a linha de Mao e as linhas burguesas que se lhe opunham dentro do Partido Comunista da China. Deu exemplos da luta entre a via socialista e a via capitalista, durante o socialismo. E salientou a ideia de Mao de continuar a revolução contra as novas forças burguesas e de como a Revolução Cultural estava a “bombardear” o seu quartel-general dentro do Partido Comunista. Depois das suas conferências, falou connosco pela noite fora. (Era o tipo de coisa que ele continuaria a fazer em muitos cantos do mundo ao longo da sua vida.) Esses eram tempos em que muitos estudantes de pensamento revolucionário tinham decidido deixar as universidades para levar a política revolucionária aos trabalhadores das comunidades e fábricas vizinhas. Nós participávamos nisso e Hinton ficou entusiasmado e encorajou-nos a continuar o que estávamos a fazer.

Depois de Mao morrer em 1976, as forças direitistas, dirigidas na retaguarda por Deng Xiaoping, organizaram um golpe na China, eliminando a liderança revolucionária maoista e iniciando o processo de restabelecimento do capitalismo. Enquanto Bob Avakian e o Partido Comunista Revolucionário dos EUA avaliavam que o chamado “bando dos quatro” estava a lutar pela linha de Mao e a dirigir a luta contra as forças da restauração capitalista, Hinton apoiou o golpe e o derrube do “bando dos quatro”. Foi uma posição que causou grandes danos. Durante vários anos, Hinton continuou a apoiar o governo chinês, um governo que já não era nem socialista nem revolucionário. Mas quando Deng Xiaoping revelou o seu programa abertamente capitalista, Hinton tomou posições mais correctas, opondo-se ao regime de Deng e argumentando que a China estava a seguir a via capitalista. Continuou a haver diferenças significativas entre Hinton e o PCR sobre a questão do golpe de 1976 na China, e não era claro se Hinton sentia – como o PCR – que era necessária uma revolução totalmente nova, dirigida por um partido comunista totalmente novo, para derrubar o actual regime e a ordem económica e social existente na China. Mas Hinton estava aberto à luta e ao diálogo. Eu tive a sorte de poder trocar pontos de vista com ele em várias conferências internacionais e de o visitar na sua quinta. O PCR continuou a aprender com Bill Hinton até a sua morte – mesmo em questões onde havia forte desacordo, como sobre o “bando dos quatro”.

Hinton viajou para diferentes partes do mundo para expressar a sua solidariedade para com movimentos revolucionários. Durante os últimos anos da sua vida, ele sentia uma responsabilidade especial de apoiar a revolução chinesa contra os ataques e as distorções erguidas contra ela. Em artigos e conferências dadas ao redor do mundo, ele explicou e defendeu a abordagem revolucionária de Mao à reforma agrária e à colectivização. Desmontou as calúnias contra o Grande Salto em Frente e contra as políticas agrícolas de Mao e esteve veementemente contra a vilificação da Revolução Cultural. Essa foi uma importante contribuição na batalha contra a ofensiva ideológica da burguesia contra o comunismo.

Fanshen foi traduzido em dez línguas e estabeleceu-se como um documento clássico da revolução no século XX. Hoje em dia, uma nova geração de revolucionários está a descobrir Fanshen. E esse é talvez o maior tributo a William Hinton. Sentiremos muito a sua falta.