Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 20 de Outubro de 2008, aworldtowinns.co.uk

No 20º aniversário do massacre dos presos políticos iranianos

O vigésimo aniversário do massacre dos presos políticos do Irão foi marcado a 11 de Outubro com reuniões e manifestações em muitas cidades. Entre outras acções, houve actividades preparadas pela Organização 8 de Março de mulheres iranianas e afegãs. Uma reunião na Praça Trafalgar em Londres foi conjugada com uma massiva distribuição de comunicados e com uma exibição de fotografias dirigida às dezenas de milhares de pessoas de todas as nacionalidades que aos sábados atravessam essa praça. Os transeuntes foram encorajados a participar num debate sobre o regime religioso, bem como sobre o perigo da guerra. Em Paris, teve lugar uma reunião política organizada em cooperação com a Associação de Trabalhadores Turcos, que incluiu um documentário e um relato de uma recente greve da fome dos presos curdos no Irão. Também houve manifestações em Haia, em Bremen (Alemanha), na Finlândia e, durante os meses de verão (altura em que começou o massacre de 1988), em Toronto.

O texto que se segue inclui excertos de um artigo da edição de Setembro do Haghighat, órgão do Partido Comunista do Irão (MLM). Foi retirado de um documento que havia circulado anteriormente dentro do partido, relativo aos preparativos para as actividades comemorativas. Os comentários em parênteses são do SNUMAG.

Pela sua brutalidade e envergadura, o massacre de 1988 nas prisões do regime islâmico foi um dos crimes mais horrendos contra revolucionários que a classe dominante iraniana alguma vez cometeu em toda a sua história. Nem sequer as dinastias Pahlavi e Qajar cometeram crimes dessa magnitude. (A dinastia Pahlavi, de 1925 a 1979, teve o seu fim na revolução que acabou por ser sequestrada pelos fundamentalistas islâmicos. A dinastia Qajar, de 1796 a 1925, também foi extremamente cruel.)

Não deixemos a natureza desta questão ser apresentada de forma invertida

O encarceramento, execução e assassinato de revolucionários e outros activistas da oposição é parte integrante da imposição da ditadura contra a classe operária e todas as massas populares pelo estado das classes reaccionárias. O objectivo da repressão de revolucionários comunistas e não-comunistas é não só aniquilá-los mas também reprimir as actividades políticas e os protestos das massas e esmagar os seus sonhos de emancipação e as suas tentativas de alcançarem um mundo diferente deste mundo de exploração e opressão. É por isso que nos devemos esforçar por transformar a questão do massacre dos presos políticos numa das questões centrais de todos os movimentos sociais e, em particular, os dos trabalhadores, das mulheres e dos estudantes.

Hoje em dia, pode-se ver algumas pessoas que eram nessa altura altos funcionários do regime islâmico, inclusive dos órgãos de segurança que prenderam, torturaram e executaram os combatentes e militantes, verterem lágrimas de crocodilo pelo massacre do verão de 1988.

Eles negam que esse massacre era parte integrante do funcionamento do estado da República Islâmica. Tentam lançar as culpas desses assassinatos e outras execuções e do encarceramento de dezenas de milhares de opositores ao regime para uma facção despótica e autoritária dentro da estrutura do poder dominante. Outros culpam a ideologia fundamentalista religiosa do regime. Alegam que o problema pode ser resolvido desalojando essa facção dos círculos dominantes e/ou debilitando essa corrente fundamentalista. Entre os que defendem essas perspectivas reaccionárias estão Akbar Ganji, Abdol Soroush e Mohsen Sazegara. (Os três eram altos funcionários do regime durante os anos de horror da década de 80. Akbar Ganji reciclou-se mais tarde como jornalista “reformista” pró-Khatami. Soroush foi um intelectual teórico da filosofia islâmica do regime. Sazegara foi um dos fundadores dos Pasdaran, os chamados Guardas Revolucionários, a tropa de elite do regime. Todos eles deixaram o país num momento ou noutro e tornaram-se críticos de alguns aspectos do regime. Sazegara está agora a trabalhar de perto com os imperialistas norte-americanos e é um convidado frequente do serviço em persa da emissão de propaganda televisiva do governo dos EUA, a Voz da América.)

A realidade é que, primeiro que tudo, os principais líderes de todas as facções do regime estavam unidos em torno da necessidade de cometer esse massacre. Em segundo lugar, esse crime foi uma parte essencial do funcionamento do sistema feudal-comprador que a República Islâmica do Irão [RII] representa.

Esse massacre e os outros crimes da RII contra o povo não foram ideias e actos de alguns funcionários ou líderes da RII ou de uma facção do poder dominante. Esses crimes foram e continuarão a ser parte integrante do funcionamento do estado dessa classe no seu todo e dos seus esforços para salvarem e protegerem o seu poder político. Foi e será um confronto entre revolução e contra-revolução. Não há dúvida nenhuma que a ideologia religiosa islâmica é uma forma especial de ideologia que corresponde a uma classe exploradora que tem o seu próprio tipo de brutalidade e as suas próprias características. De facto, a experiência da RII tem mostrado que a combinação entre Islão e capitalismo dependente do imperialismo é uma mistura altamente perigosa e horrível.

Devemos compreender profundamente as palavras de ordem “Não esqueceremos nem perdoaremos” e fazer com que as pessoas as compreendam. Do que se trata não é de fazer nenhuma vingança. Trata-se de não esquecermos nunca que é necessária uma imensa dose de sacrifício e coragem para libertar a sociedade.

As condições do massacre de 1988

Nessa altura, a RII foi confrontada com presos que não só se tinham recusado a arrepender-se e a repudiar as suas actividades e ideias revolucionárias, mas que também se tinham tornado mais treinados e politicamente mais conscientes durante o seu cativeiro. Os brutais esforços do regime para produzir presos arrependidos em grande escala tinham sido derrotados por vagas de resistência e luta. Além disso, os presos tinham saído vitoriosos de uma importante greve da fome que tinham levado a cabo em 1986, e isso foi um excelente reflexo do elevado estado de espírito que prevalecia entre eles. De facto, as prisões tinham-se tornado numa robusta trincheira da revolução. É esse o fio vermelho que liga os massacres ocorridos ao longo da década de 80 e o massacre de 1988.

Ao mesmo tempo, o regime enfrentava crises em várias frentes. A Guerra Fria estava a chegar ao fim e os EUA e a União Soviética tinham chegado a acordo para terminarem a guerra Irão-Iraque. Essas duas superpotências, que tinham fornecido armas aos dois países para alimentarem as chamas da guerra, deixaram de ver a sua continuação como estando ao serviço dos seus interesses regionais e tinham começado a pressionar os dois regimes para terminarem a guerra.

Por isso, Khomeini teve que beber a “taça de veneno” (foi assim que ele explicou a sua aceitação de um acordo para terminar a guerra). Além disso, Khomeini estava a morrer e o regime enfrentava a crise de o substituir. E as receitas do petróleo tinham caído para um dos seus níveis mais baixos e mergulhado o regime numa crise económica. As revelações sobre os contactos secretos entre a República Islâmica e os EUA (conhecidos como escândalo “Irão-Contras”, porque a administração Reagan andava a vender armas ao Irão para financiar os seus esquadrões da morte chamados Contras [contra-revolucionários] que combatiam o governo nicaraguense) tinham intensificado as contradições entre as várias facções do regime. As relações entre os EUA e a República Islâmica tinham-se iniciado e desenvolvido secretamente. Os dois regimes tinham chegado a importantes acordos para terminarem a guerra Irão-Iraque e adoptarem as políticas económicas impostas pelo Banco Mundial e pelo FMI.

Com o seu silêncio, os EUA e as potências imperialistas europeias deram à RII e ao regime iraquiano uma luz verde para reprimirem internamente o seu povo. Era “compreensível” para os EUA e os europeus que, nesse momento difícil (o fim da guerra e a adopção dessas políticas económicas contradiziam completamente a sua retórica anterior), a RII precisava de reprimir os comunistas e a oposição revolucionária, e todo o povo em geral, para assegurar a sua estabilidade. Todos os sinais indicam que essas potências estavam de acordo com a RII nessa questão ou que pelo menos que tinham “compreendido” a sua necessidade.

A RII não se limitou à repressão. Eles planearam combinar a repressão com imposturas para comprarem o silêncio da classe média e de forças políticas como os religioso-nacionalistas e alguns intelectuais vacilantes. Akbar Rafsanjani (o primeiro presidente do Irão depois da guerra Irão-Iraque) entrou em cena com a palavra de ordem de criar uma “abertura” política, cultural e literária. O novo governo autorizou a publicação de vários jornais e deu algum espaço a alguns escritores e artistas e a certas forças políticas como o “Nehzate Azadi” (um grupo religioso-nacionalista liderado por Ibrahim Yazdi) e forças semelhantes e, dessa forma, comprou o seu silêncio vergonhoso. Porém, mais tarde essas pessoas tornaram-se elas próprias suas vítimas.

Hoje temos de nos unir amplamente para comemorarmos o vigésimo aniversário do massacre de 1988, dando uma forte e esperançada mensagem às pessoas e aos activistas de hoje e enviando um aviso ao regime e a todos os seus colaboradores. Não podemos responder a este crime apenas homenageando os nossos mártires e exprimindo o nosso ódio pelo inimigo. Temos que retirar, aprender, absorver e aplicar as lições das valiosas experiências dos presos políticos em termos de unidade entre diferentes correntes dentro das prisões de forma a organizarmos a resistência e a luta contra o regime.

Levaremos a cabo uma campanha de agitação e propaganda em torno deste grande crime e organizaremos várias lutas para tornar a verdade sobre este crime parte da consciência das massas populares (sobretudo os jovens), elevar a sua compreensão da verdadeira natureza da RII e da profundidade do ódio do regime pelo proletariado e pelo povo oprimido e familiarizá-las e inspirá-las com as lutas heróicas que os comunistas, os revolucionários e outros amantes da liberdade levaram a cabo contra este regime.