Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 1 de Dezembro de 2008, aworldtowinns.co.uk

Maoistas afegãos: Sobre a situação militar dos talibãs e das outras forças islâmicas antigovernamentais

O texto que se segue inclui excertos editados do n.º 19 (Julho de 2008) do Shola Jawid, órgão do Partido Comunista (Maoista) do Afeganistão. As explicações entre parênteses são do SNUMAG.

Os talibãs fizeram pouco uso de métodos de guerrilha na guerra deles contra o “Estado Islâmico Interino do Afeganistão” liderado por Burhanuddin Rabbani e por Ahmed Shah Massood (o regime de senhores da guerra que subiu ao poder após a queda do regime pró-soviético em 1992 e que acabou por cair para os talibãs em 1996). A maior parte das ofensivas deles tomaram a forma de guerra convencional.

No seu confronto inicial com os EUA e a Grã-Bretanha (após a invasão de Outubro de 2001), eles usaram os mesmos métodos e sofreram grandes perdas. Após dois meses a resistir mais do que os invasores esperavam, eles depressa se retiraram das regiões sob seu controlo. Nessa altura, eles estavam impossibilitados de reorganizar as suas forças para fazerem uma guerra de guerrilhas e continuarem a lutar nas aldeias ou nas montanhas. Além destas questões organizativas e militares, outros importantes factores por trás da sua incapacidade para manterem a luta foram a sua falta de apoio de massas e a baixa moral das suas próprias fileiras devido à suposição generalizada de que era impossível resistir às forças militares superiores lideradas pelos EUA. Essa derrota levou um sector relativamente grande das forças talibãs à traição e a juntar-se ao regime fantoche.

Os talibãs não realizaram operações militares significativas entre essa altura e a ocupação do Iraque pelos EUA em 2003. O início da resistência no Iraque trouxe consigo uma dispersa resistência de guerrilhas dos talibãs e uma crescente actividade dos (histórica e organizativamente distintos) talibãs paquistaneses e árabes e de grupos não-árabes ligados à Al-Qaeda no Paquistão e no Afeganistão.

O amplo movimento nos países ocidentais contra a invasão e ocupação do Iraque pelos EUA e pela Grã-Bretanha também virou cada vez mais a sua atenção para a situação no Afeganistão. Antes, a ocupação do Afeganistão não era uma questão importante nesses protestos, em comparação com a guerra no Iraque. Além do mais, a guerra no Iraque expandiu as divisões entre os imperialistas, em particular entre os EUA e a Rússia, e de certa maneira intensificaram-se as suas contradições. Além disso, os talibãs conseguiram ganhar espaço de manobra devido, por um lado, às ameaças dos EUA contra o Irão e, por outro, ao alarme criado no Paquistão com as relações cada vez mais próximas entre os EUA e a Índia, que Islamabad considera uma ameaça à segurança do Paquistão e mesmo à sua existência. Estes factores criaram novas condições para a cooperação entre os talibãs e certas forças políticas e sectores das classes dominantes do Irão e do Paquistão.

Porém, o factor mais importante no desencadear da ressurreição dos talibãs foram as consequências da ocupação imperialista e do regime que eles instalaram. Esta é a principal razão por que os talibãs se fortaleceram a ponto de se terem tornado em 2006 numa força relativamente grande com bases em grande parte do país. Em particular, o fracasso dos esforços reaccionários de reconstrução pelos imperialistas nas esferas política, económica, cultural e social ajudaram grandemente os antes derrotados e odiados talibãs a recuperarem influência entre as massas e a expandirem as suas actividades militares.

Os talibãs usaram ao máximo o crescente descontentamento das massas com os ocupantes e o seu regime fantoche. Em parte, confiando nas massas em certas regiões e com apoio estrangeiro directo e indirecto, eles conseguiram dar uma forma mais organizada às suas actividades dispersas contra o regime e os exércitos de ocupação e também conquistar novas forças.

Um relatório da principal agência de segurança do país (a Supervisão Geral da Segurança Nacional) entregue ao parlamento do regime reflecte em grande parte a intensificação e expansão das actividades militares dos talibãs. O número total de operações talibãs registadas por essa agência é o seguinte:

Em 1383 (20 de Março de 2004 a 20 de Março de 2005):           1466 acções
Em 1384 (21 de Março de 2005 a 20 de Março de 2006):           1796 acções
Em 1385 (21 de Março de 2006 a 20 de Março de 2007):           3012 acções
Em 1386 (21 de Março de 2007 a 20 de Março de 2008):           4118 acções

Estes números incluem emboscadas e ataques, sabotagens, sequestros, atentados suicidas e outros ataques terroristas, mas não todas as operações militares dos talibãs. Por exemplo, não incluem os inúmeros casos em que, sem luta, os talibãs tomaram aldeias por breves momentos ou mesmo durante um período mais longo. Essas operações são muito importantes para os talibãs. Quando o regime perde o controlo dessas aldeias, os talibãs podem impor as suas próprias regras. Eles fecham as escolas de raparigas e instalam a sua própria versão do sistema de justiça Xariá (religioso), estabelecem impostos islâmicos e recolhem donativos. Também passam a controlar a segurança das herdades de papoilas, a produção de heroína e o tráfico de droga. Passam a ter mais liberdade para dirigir as suas escolas religiosas e recrutar pessoas.

Os métodos de recruta dos talibãs são simples. Eles convidam os habitantes a juntarem-se à jihad (guerra santa) contra os kafires (infiéis). Armam esses voluntários e organizam-nos nas suas fileiras. Nas regiões onde têm um controlo mais estável, exigem que cada grupo de um certo número de famílias (por exemplo 20) ofereça uma pessoa como combatente, ou que pague as despesas anuais de um soldado. Este tipo de recrutamento primitivo faz com que seja fácil que espiões e informadores infiltrem as suas fileiras. Os serviços secretos têm usado a informação que têm obtido desta forma para infligirem sérios golpes aos talibãs, incluindo matar alguns dos seus principais líderes. Mas, em vez de alterarem os seus métodos de recrutamento, os talibãs têm tentado impedir a infiltração castigando brutalmente todos os espiões e informadores que conseguem apanhar. Muitas vezes, isso significa a decapitação. Este tipo de terror teve alguns resultados e parecia ter dificultado um pouco a infiltração, mas não foi muito efectivo. Além disso, deu lugar a tanto descontentamento entre as massas que recentemente o Mulá Omar (líder dos talibãs) ordenou a interrupção das decapitações.

As tácticas de combate dos talibãs

Os talibãs baseiam as suas tácticas militares na experiência das anteriores guerras do Afeganistão e, adicionalmente, nos métodos usados pela Al-Qaeda no Iraque. Os métodos operacionais utilizados para ocupar aldeias e bairros são basicamente iguais aos usados durante a guerra contra a ocupação soviética. Porém, até recentemente, as operações suicidas eram desconhecidas no Afeganistão. Diz-se que o treino inicial para os atentados suicidas no Afeganistão ocorreu no Iraque. As principais operações de guerrilha dos talibãs nas zonas urbanas são atentados suicidas. O ataque de 27 de Abril em Cabul, que forçou o governo de Hamid Karzai a cancelar as suas comemorações (da vitória contra a União Soviética) na capital e noutros locais – uma operação com um impacto político mundial – foi planeado para ser um ataque suicida. O regime está numa crise tal que os membros das suas forças de segurança fugiram quando o tiroteio começou, pelo que os atacantes não acharam necessário detonar as suas bombas e escaparam vivos após a sua bem-sucedida operação.

Os combatentes talibãs não têm armas de defesa aérea. As suas armas e equipamento provêm de três fontes: o material que resta dos seus anos no poder e o que obtêm do Irão e do Paquistão. Certos sectores das potências dominantes nesses dois países apoiam-nos até certo ponto. Além disso, os talibãs desenvolveram uma rede de âmbito quase nacional de compra de armas e munições. Esta é a única actividade talibã que não se limita às zonas pachtuns.

É impossível ter uma ideia do número exacto de combatentes talibãs. Os ocupantes e o regime colocam o seu número em 15 a 20 mil, mas estas estatísticas estão longe de ser fidedignas. Os próprios talibãs não têm divulgado números e de facto é provável que não tenham um número preciso. Isto acontece porque a maioria dos seus combatentes não é permanente. Mesmo os seus combatentes a tempo inteiro não estão organizados separadamente num exército regular. Muitos dos combatentes são a tempo parcial ou alistam-se por um período de tempo limitado (muitas vezes limitado pelas colheitas). Apesar das suas ligações internacionais relativamente vastas, os talibãs e as suas forças de combate têm mantido o seu carácter tribal quanto ao essencial. Isto é um obstáculo à combinação das suas forças num único exército.

Os talibãs sofrem de uma limitação insanável: são conhecidos como a organização mais violentamente chauvinista pachtun do Afeganistão. (Constituindo cerca de 42% da população, os pachtuns são sem dúvida não só o maior grupo étnico mas também historicamente a nacionalidade opressora do país – Afeganistão quer dizer “terra dos pachtuns” na língua farsi.) Durante o seu “Emirado Islâmico”, eles actuaram com uma extraordinária desumanidade e brutalidade contra os não-pachtuns. Reprimiram severamente as pessoas em geral das regiões não-pachtuns e os não-pachtuns das zonas mistas do norte do país. Na cidade norte de Mazar-e Sharif, levaram a cabo uma brutal guerra de limpeza étnica. É por isso que as forças talibãs são quase exclusivamente pachtuns. Além do sul e do leste do país, onde os pachtuns são maioritários, eles também estão activos nas regiões minoritárias pachtuns do ocidente e do norte.

Muitos dos jihadistas anti-soviéticos e das antigas milícias pró-soviéticas que rapidamente capitularam face aos EUA alegam que estes novos invasores ofereceram um raio de esperança para salvarem o país dos talibãs chauvinistas pachtuns. E continuam a fazê-lo ainda hoje. Este factor tem representado um importante papel na disseminação do capitulacionismo entre as nacionalidades não-pachtuns. Durante estes anos de ocupação, esse “raio de esperança” tem perdido muita credibilidade, mas os talibãs ainda não conseguem exercer muita influência entre as nacionalidades não-pachtuns. Os próprios talibãs estão conscientes dessa limitação e é por isso que eles não fazem muitos esforços de recrutamento entre essas nacionalidades.

Os talibãs paquistaneses também emergiram como força importante, capazes de levar a cabo operações militares significativas numa vasta zona. Mas, também no Paquistão, eles são um movimento de uma única nacionalidade, activos apenas nas zonas pachtuns e sobretudo nas zonas tribais. Os talibãs paquistaneses têm representado um importante papel no fortalecimento do movimento talibã no seu todo e participado extensivamente na guerra no Afeganistão. Nalguns casos, as suas acções atraíram mais atenção que as dos seus congéneres afegãos. Por exemplo, a maioria dos ataques suicidas no Afeganistão são realizados por talibãs paquistaneses. As zonas talibãs paquistanesas servem de zona de retaguarda segura aos talibãs afegãos, onde podem descansar, treinar e satisfazer as suas necessidades logísticas.

Sobre as outras forças islâmicas

Entre as outras forças islâmicas que combatem os ocupantes e o regime está o Hezb-e Islami, o Partido Islâmico de Gulbuddin Hekmatyar (O primeiro-ministro do regime islâmico estabelecido após a partida do exército soviético; a facção de Hekmatyar representou um papel chave na redução de Cabul a escombros durante a guerra civil entre antigos jihadistas que se lhe seguiu.) Tal como os talibãs, o partido de Hekmatyar está limitado à zona central dos pachtuns e às zonas minoritárias pachtuns. O Partido Islâmico já foi multi-nacional mas, depois da ocupação, quase todos os seus membros não-pachtuns juntaram-se ao regime de Karzai.

Onde os talibãs são fortes, o Partido Islâmico trabalha entre eles. De facto, os talibãs não permitem que ninguém leve a cabo actividades independentes. Onde o partido é mais forte que os talibãs, eles montam as suas próprias actividades militares. Por exemplo, é amplamente conhecido que o Partido Islâmico e organizações associadas estão por trás de muitas das operações em Ghazni (uma província do centro-leste do Afeganistão).

Hekmatyar tem algum apoio entre os círculos fundamentalistas do Paquistão e entre certos círculos da República Islâmica do Irão. Militarmente, as suas forças tendem hoje a seguir o mesmo modelo que utilizaram durante a guerra contra a ocupação soviética – uma guerra de fricção centrada na colocação de minas e em ataques distantes com foguetes, artilharia e atiradores furtivos. Não levam a cabo operações suicidas.

Algumas palavras sobre a Al-Qaeda no Afeganistão: apesar da dramática presença da Al-Qaeda no Iraque, aparentemente as principais bases da Al-Qaeda ainda estão no Afeganistão e no Paquistão. Porém, essa presença tem diminuído. Nos últimos anos, devido à intensa contradição entre o regime de Parvez Musharraf e a Al-Qaeda, foram infligidos pesadas derrotas à organização Al-Qaeda no Paquistão. Quase mil dos seus dirigentes e quadros no Paquistão foram mortos ou presos e entregues às autoridades norte-americanas.

Em todo o caso, embora seja impossível determinar exactamente o número de forças da Al-Qaeda no Afeganistão, tendo em conta o número de mortos e presos durante os últimos anos, aparentemente são muito menos numerosos que os talibãs e não controlam a oposição fundamentalista em geral. Porém, a sua presença no Afeganistão ainda é relativamente efectiva.

As forças revolucionárias

Como se pode ver, em geral as forças islâmicas monopolizam a resistência militar aos ocupantes e ao regime fantoche. Tanto no país como no estrangeiro, essa resistência militar é considerada islâmica e essencialmente talibã. Por outras palavras, as forças militares revolucionárias não estão presentes no campo de batalha. A experiência mostra que, se continuar a ser assim, a cor islâmica e talibã da resistência apenas se tornará mais forte. Até certo ponto, é possível que desapareçam as condições para a presença das forças armadas revolucionárias no campo de batalha e que todo o movimento revolucionário e comunista seja marginalizado, impossibilitado de afirmar uma influência efectiva na cena política do país durante os próximos anos.

É absolutamente claro que há certos factores objectivos e subjectivos que tornam potencialmente viável que forças militares revolucionárias entrem no campo de batalha contra os ocupantes e o regime. Porém, esses elementos objectivos e subjectivos potencialmente favoráveis não florescem automaticamente. Emergir da actual situação desfavorável requer um trabalho árduo e infatigável de todo o partido e das massas avançadas. Estamos muito conscientes de que, sem essa alteração, não poderemos representar um significativo papel positivo na alteração da situação política do país. Só desencadeando e fazendo avançar vitoriosamente uma guerra popular de resistência nacional revolucionária contra os ocupantes e o regime fantoche conseguiremos levar a cabo uma luta ideológica e política efectiva contra os inimigos da revolução e posicionarmo-nos para fornecermos a liderança revolucionária prática da guerra de resistência em geral e levar esta guerra pela via vitoriosa da revolução de nova democracia.