Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 24 de Novembro de 2008, aworldtowinns.co.uk

Maoistas afegãos: Porque é que as forças de segurança afegãs lideradas pelos EUA são tão brutais, corruptas – e fracas

O seguinte texto, constituído por excertos editados e agrupados dos números 18 e 19 do Shola Jawid – órgão do Partido Comunista (Maoista) do Afeganistão –, é uma continuação do artigo “As forças ‘nacionais’ de segurança do Afeganistão – mais um grande problema para o povo” do nosso serviço noticioso de 27 de Novembro. As explicações entre parênteses são do SNUMAG.

As forças militares do regime podem parecer fortes, mas elas são completamente vazias. Nunca antes na história do Afeganistão os ocupantes organizaram forças tão fantoches. Os britânicos nunca tentaram formar uma força militar fantoche quando dominavam o Afeganistão. Eles limitaram-se a dar apoio militar e financeiro aos Emires (governantes) fantoches. Durante a invasão soviética, a constituição de um exército fantoche foi apenas até ao ponto de treinarem e darem instrução a um sector dos oficiais superiores do exército e da polícia e armarem essas forças com armas vendidas aos regimes lacaios. Porém, as forças armadas do actual regime fantoche foram inteiramente criadas pelos ocupantes. Todos os oficiais e soldados foram treinados pelos ocupantes e a existência e actividade dessas forças dependente inteiramente dos ocupantes. Mesmo a maior parte das suas novas armas e equipamento foi doada pelos invasores. Essas forças não têm uma estratégia própria de guerra e estão completamente ao serviço das forças de ocupação e sob o seu comando.

O regime alega que tem 70 mil membros na sua força policial e que o seu exército totaliza até agora 50 mil tropas. Segundo o calendário estabelecido pela Conferência de Bona de 2001, as fileiras do exército deveriam chegar a 70 mil membros até ao final deste ano. Mas os responsáveis do regime afegão, incluindo Karzai e o seu ministro da defesa, alegam que um exército dessa dimensão não será suficiente para garantir a segurança do país e estão a pedir um exército de pelo menos 150 mil homens. Eles admitem que a decisão da Conferência de Bona se baseou num visão demasiado optimista – a de que a guerra no Afeganistão estaria concluída e não haveria necessidade nenhuma de um grande exército.

Sobre a polícia

Uma parte importante das forças policiais é constituída por grupos subcontratados, sobretudo nas províncias e nas zonas suburbanas. Os oficiais policiais de topo contratam-nos sem definirem quaisquer condições ou regras. Após um pequeno período de treino pelas PRTs (as Equipas de Reconstrução Provincial da ocupação), o qual normalmente demora algumas semanas, são-lhes atribuídas tarefas nas organizações policiais regionais. Um outro sector dessas forças policiais é constituído por membros das milícias ligadas aos senhores da guerra, os quais são agora eles próprios oficiais superiores da polícia.

Não há muitas bases policiais provinciais que tenham pessoal permanente. Em muitos casos, o chefe local da polícia tem de recrutar os seus próprios homens. Tal como os oficiais, os escalões mais baixos dos que vestem uniformes policiais têm outras motivações que não “garantir a segurança” ou mesmo servir o regime. A taxa de deserção entre eles é elevada. Se encontrarem um trabalho melhor, ou se por alguma razão não estiverem contentes com os seus oficiais, ou se não tiverem hipóteses de pilharem e saquearem, abandonarão o lugar.

Já desertaram dezenas de milhares desses homens desde a formação da chamada polícia nacional. Muitos dos ausentes continuam a ser contados como presentes nos seus quartéis e a receber os seus salários. Quando são declarados desaparecidos, diz-se normalmente que desertaram com as suas armas, quer isso seja verdade ou não.

Os que são contratados pela polícia sofrem uma elevada taxa de mortes e ferimentos devido à falta de disciplina e treino. Normalmente, as suas famílias não recebem nenhuma compensação. Aparentemente, a questão da compensação não está coberta pelo contrato. Os sobreviventes são autorizados a registar-se na lista de “familiares dos mártires” e a receber os benefícios a que as famílias têm direito. Quando esses homens são feridos, uma vez mais o seu único recurso é juntarem-se aos outros inválidos de guerra que recebem cerca de 160 afghanis (menos de 3 €) por mês. O resultado é que a maioria dos contratados em grupo para se tornarem membros da polícia são homens indisciplinados que abandonaram as suas famílias ou foram expulsas por elas. Os chefes locais da polícia também preferem empregar esse tipo de pessoas para que se possam aproveitar dessa situação.

Um outro sector das forças policiais é constituído por milícias previamente existentes que seguem líderes tribais. Essas milícias são chamadas Arbaki Yad nas zonas pachtuns que fazem fronteira com o Paquistão. (Os pachtuns são a nacionalidade dominante no Afeganistão e vivem dos dois lados da fronteira.) A utilização dessas milícias na organização policial tem sido desde sempre uma fonte de desentendimento e tensão entre os chauvinistas pachtuns e os reaccionários não-pachtuns do regime, pelo que a sua expansão foi interrompida. As milícias Arbaki Yad não receberam nenhum treino militar formal da actual ocupação. O seu treino limita-se à instrução militar tradicional e tribal ou ao treino que receberam no tempo dos soviéticos. Muitas dessas milícias trabalharam para o regime fantoche soviético nos velhos tempos. Agora, através de ligações aos clãs e às tribos, estão ao serviço do actual regime fantoche norte-americano.

As forças policiais são muito menores em número e muito mais pobremente equipadas e treinadas do que o regime e os seus amos estrangeiros gostam de alegar. Muitos dos seus membros apenas existem nas folhas de salários. Por exemplo, se uma organização policial regional tiver que ter homens, pelo menos 25 deles não estão presentes nos seus postos em nenhum momento. Os salários dos ausentes são partilhados entre esses homens e os seus oficiais. Nalguns casos, os empregados só aparecem no dia de pagamento no fim do mês para receberem os seus salários e assinarem um recibo. O chefe regional e os seus oficiais entregam metade dos seus salários e guardam a outra metade para si próprios.

Se alguém se quiser tornar oficial superior do exército, tudo o que precisa é de um suborno de alguns milhares de dólares. A quantia paga depende do grau e da tarefa recebida. Mas custa muito mais comprar uma posição similar na polícia. Além dos seus rendimentos “directos” (subornos e extorsão), os chefes provinciais da polícia também recebem uma certa parte dos “rendimentos” das delegações e bases regionais. As posições de comando regional e local são vendidas pelo menos uma vez por ano. O preço da posição de chefe da polícia está normalmente nas centenas de milhares de dólares, e se estiver numa rota de passagem de droga, chegará a custar milhões de dólares.

As fileiras da polícia e do exército estão cheias de viciados em droga. Esta primavera, os talibãs conseguiram capturar todos os homens de um posto policial nos arredores de Ghazni (a capital da província central com o mesmo nome) sem dispararem uma única bala. Diz-se que todos os 15 polícias desse posto eram viciados em ópio e estavam incapacitados pelas drogas na altura dessa operação.

Os serviços de informações do regime

Um outro organismo de homens armados que deve ser mencionado é a Supervisão Geral da Segurança Nacional do Afeganistão. A recolha de informações é a função principal desta organização com sede em Cabul e filiais nas províncias, mas também leva a cabo outras tarefas militares.

Um grande número desses homens que estão agora ao serviço dos ocupantes liderados pelos EUA trabalhava na rede de informações dos regimes pró-soviéticos. O actual chefe da organização de segurança do regime Karzai é um antigo membro do Parcham (o partido afegão pró-soviético de Babrak Karmel levado ao poder pela invasão soviética). Ele trabalhava na KHAD (a polícia secreta afegã durante o regime pró-soviético). Muitos dos dirigentes das filiais provinciais são ex-khadistas. E, naturalmente, os que trabalham sob o seu comando são sobretudo agentes treinados pelo KGB soviético e pelo regime de Najibullah (o último presidente do Afeganistão durante a ocupação soviética, que foi durante muito tempo dirigente da KHAD antes de se tornar dirigente do país).

Surgem contradições entre, por um lado, a densa conjugação Parcham/KHAD que dirige o novo serviço de informações do país e, por outro, a forte conjugação de jihadistas e membros ex-talibãs que dominam o exército e as forças da polícia. Estas contradições levam a mútuas acusações e denúncias e criam dificuldades ao regime.

Tal como o exército e a polícia do regime são utilizadas pelas forças estrangeiras e estão destinadas a servir as estratégias da guerra de ocupação, também a rede de informações está ao serviço dos ocupantes. Por exemplo, os líderes provinciais estão em contacto directo com as Equipas de Reconstrução Provincial (PRTs) dos ocupantes e operam sob as suas instruções.

As empresas privadas afegãs de segurança

Há cerca de 100 empresas desse tipo. Os seus proprietários são senhores da guerra, antigos jihadistas anti-soviéticos e chefes talibãs que agora apoiam o regime Karzai. Calcula-se que empreguem cerca de 10 mil homens armados.

Estas empresas foram criadas como imitação das empresas privadas norte-americanas de segurança. Dizia-se que o seu objectivo inicial era controlar os senhores da guerra e as forças com eles relacionadas. Mas, no contexto da crise que o regime está a atravessar, em vez de restringirem os senhores da guerra, elas tornaram-se numa vantagem destes. A actuação independente destas “empresas” reflecte o carácter e a desordem inerentes ao regime no seu todo.

Normalmente, elas mantêm-se afastadas das operações militares. O seu trabalho principal é proteger as personalidades do regime e os donos de empresas e negócios. Também são responsáveis pela segurança de organismos governamentais e ONGs e pela segurança das estradas. Frequentemente contratadas para uma tarefa, uma região e um período de tempo específicos, elas assemelham-se às empresas de segurança “normais” pelo facto de trabalharem sob contrato e os seus empregados receberem salários. Quando querem mais rendimentos, pilham e saqueiam as pessoas.

Os grupos armados irregulares

Estas organizações são frequentemente chamadas grupos armados não-responsáveis, uma vez que não são responsáveis perante ninguém. A sua existência não é reconhecida oficialmente e não têm nenhuma obrigação legal mas, ao mesmo tempo, não se opõem nem aos ocupantes nem ao regime. Geralmente, são restos de forças jihadistas e milícias relacionadas com vários grupos políticos que trabalham com o regime. (Um programa de desarmamento dirigido a elas teve apenas um sucesso parcial.)

Ao contrário das organizações antes mencionadas, estes grupos não têm que representar nenhum papel importante na segurança e no fortalecimento do governo central. Pelo contrário, elas são um importante factor por trás da instabilidade e fraqueza do regime. Ao mesmo tempo, elas representam um papel no prolongamento da situação de ocupação e no domínio da reacção em geral no país. Muitas zonas distantes do país oficialmente consideradas sob controlo de regime estão na realidade sob o seu controlo. Mas, como não se opõem aos ocupantes, elas são toleradas. Por exemplo, em zonas onde não chega o poder do governo central, estes grupos impedem o aparecimento de uma força de oposição armada ou mesmo de um movimento desarmado anti-ocupação.

A produção e o tráfico de drogas, os sequestros, a tomada de reféns e o assalto à mão armada são as formas com que rotineiramente estes grupos se financiam. Como os diferentes grupos têm o apoio de um ou outro dos homens fortes do regime, eles conseguem manter-se dessa forma. Porém, quando se intensificam as contradições dentro do regime, eles expõem as atrocidades de uns e outros.

Conclusão

O espírito de combate das organizações armadas do regime fantoche é fraco e está cada vez mais em declínio. Os ocupantes planeiam agora duplicar o seu número. Isso poderia ser considerado uma grande força militar. Mas o entendimento generalizado, entre os peritos militares oficiais estrangeiros e entre as massas, é que sem a existência das tropas de ocupação estrangeira, essa imensa força militar não poderia defender o regime fantoche, nem sequer durante um pequeno período de tempo, e o regime fantoche depressa se desmoronaria.