Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 26 de Abril de 2010, aworldtowinns.co.uk

Seguem-se excertos do artigo “Um novo olhar à actual situação e às nossas tarefas”, da edição n.º 48 do Haghighat, órgão do Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista).

Um novo olhar à actual situação e às nossas tarefas

Algumas deslocações parciais das forças motrizes e das contradições

Desde o início da recente insurreição que têm estado em acção duas contradições, guiando os acontecimentos e entrelaçando-se uma com a outra, dando lugar à actual crise sem precedentes de legitimidade da República Islâmica do Irão: a contradição entre a maioria do povo e o sistema no seu conjunto e a contradição entre as facções dominantes. Por um lado, as fendas e divisões entre os altos responsáveis forneceram a oportunidade para que o vulcão da fúria popular transbordasse e, por outro, o carácter reaccionário da contradição entre as facções dominantes tem tido um efeito limitador na insurreição popular. Um importante sector das massas tentou lidar com a República Islâmica como um sistema político global, mas os dirigentes da “vaga verde” (o verde islâmico é o símbolo da facção afastada do poder) quiseram marcar alguns pontos para si próprios através de negociações e do controlo e restrição das massas. É claro que o resultado desse confronto político e de classe ainda não está decidido. Mas o génio já está fora da garrafa e ninguém pode voltar a metê-lo lá dentro facilmente.

De facto, à medida que a luta popular se ia desenvolvendo, ia frustrando a maior parte dos cálculos políticos e considerações dos reaccionários rivais. A insurreição das massas foi além do que muita gente pensava ser possível e avançou rapidamente. Atingiu um pico durante os protestos do Ashura (26 de Dezembro), quando as pessoas de todo o mundo reconheceram o carácter de ofensiva desses acontecimentos. Desde então, a paisagem política iraniana e as relações entre o povo e os governantes e facções do regime sofreram mudanças dramáticas. Estes desenvolvimentos foram provocados pela luta e pelo sacrifício popular.

Claramente, a situação no país não pode voltar ao que era no período anterior à insurreição. Os governantes do Irão têm mais consciência disso que qualquer outra pessoa. Estas mudanças transformaram-se em importantes desafios à sobrevivência do sistema político islâmico e intensificaram ainda mais as contradições entre as diferentes facções do regime no que diz respeito à questão de saberem como governar.

Se inicialmente o entrelaçamento das contradições impediu muitos observadores de verem a verdadeira dinâmica da luta popular, no decurso dos últimos meses não só a base principal da insurreição revolucionária popular tem vindo mais à superfície, como também houve alguma alteração das contradições objectivas. Em grande medida, os dirigentes “verdes” perderam o controlo do povo e a contradição entre o povo e todo o sistema dominante veio ofuscar a contradição entre as facções do regime. Agora, esses dirigentes temem o povo mais do que temem a facção dominante.

Pode-se ver isso na reacção dos dirigentes verdes após a batalha do Ashura. O seu medo do povo levou-os à mesa das negociações e a retirarem as suas exigências iniciais. As tácticas a que recorreram nos protestos de 9 de Fevereiro [em que tentaram reivindicar o seu “quinhão” na celebração do aniversário da fundação da Revolução Islâmica] foram uma expressão concentrada desse medo. A situação é tal que as duas facções não conseguem arrefecer a caldeira das contradições entre as facções do sistema e em toda a sociedade. Mas para diminuir a fúria popular, eles atenuaram temporariamente as suas próprias diferenças. Mir-Hussein Moussavi e Mehdi Karoubi [os dirigentes da facção afastada] têm que tentar refrear o movimento popular e, ao mesmo tempo, mostrar que estão com o povo. Eles têm consciência do perigo de poderem vir a perder o apoio popular e sabem que sem a presença do povo a facção dominante nem dará por eles. É esta a contradição que os dirigentes verdes enfrentam desde o início. Agora, aumentou a sua volatilidade política e surgiram divisões entre eles. Isto, por sua vez, tem influenciado a situação e irá impedir qualquer resolução rápida da sua contradição com a facção dominante.

O impulso e força da luta popular e o seu impacto

Se a insurreição popular irá ou não conseguir opor-se aos compromissos da actual liderança e ir além desses reformistas reaccionários, isso irá depender do impulso e da força do movimento popular. Os protestos do Ashura foram um importante ponto de viragem no processo de desenvolvimento da insurreição popular e revelam o potencial revolucionário do povo. A reacção popular durante esses acontecimentos teve um impacto imediato na abordagem das várias forças de classe e políticas, como os Verdes, os nacionalistas religiosos e os sectores mais abastados em geral da sociedade, e forçou as potências imperialistas a procurarem uma forma de resolver a situação e controlar o movimento popular. O Ashura tornou claro que a República Islâmica do Irão na sua actual forma já não é capaz de impor o seu domínio e que a qualquer momento a luta popular pode dar-lhe um golpe fatal. É por isso que estão a emergir várias propostas de “saída da crise”, uma atrás da outra.

No centro de todos estes planos está a tentativa de salvar a máquina do estado e de criar um governo de transição. Todas as forças burguesas estão à procura de uma maneira que lhes permita salvar a máquina do estado da luta das massas e, ao mesmo tempo, oferecer alguma espécie de “mudança” para manterem as massas sossegadas. Certamente que não há nenhum plano fácil que possa resolver a actual crise do poder dominante.

O quadro internacional tornou-se mais complicado por causa da disputa entre as potências imperialistas (e em particular entre os EUA e a China e a Rússia) e das diferenças dentro da classe dominante dos EUA sobre como lidar com a República Islâmica do Irão e com os seus planos para obterem tecnologia nuclear. No teatro interno, factores como os limites na capacidade da facção dominante aguentar face à luta popular, o medo de outras forças burguesas (entre as quais os reformistas dentro do regime e os nacionalistas religiosos) e a sua tendência para chegarem a compromissos e obterem vantagens, e algumas fraquezas dentro das fileiras populares, tudo isto torna difícil prever para onde se encaminha a situação. Contudo, podemos esperar vir a testemunhar mais acontecimentos surpreendentes e explosivos.

O principal problema que a insurreição enfrenta é a ausência de uma liderança revolucionária e de uma organização revolucionária. A frustração que muita gente sentiu com a falta de êxito [em interromper as celebrações do regime, bem como em desenvolver a sua própria luta] a 9 de Fevereiro é uma expressão dessas insuficiências. Actualmente, o quão depressa e quão poderosamente se irá desenvolver o movimento popular depende da resolução desta questão. Apesar da força da insurreição espontânea do povo, ela não poderá avançar de uma forma decisiva se continuar a ser espontânea – se não estiver munida de uma liderança revolucionária e de uma organização revolucionária. Enquanto este problema não for resolvido, através da criação e do fortalecimento de uma liderança comunista, isso representará um papel negativo e prolongará a actual situação através de avanços e recuos.

O papel contraditório dos factores internacionais na actual situação

Desde o início que os factores internacionais têm representado um importante papel em dar forma à crise política da República Islâmica. A crise estrutural do regime piorou com a crise económica internacional. A mútua disputa entre as potências mundiais na sua posição face ao Irão e a tendência das facções rivais do regime para apoiarem diferentes potências imperialistas aumentou enormemente a volatilidade da situação.

A insurreição popular ocorreu numa altura em que a política norte-americana em relação ao Irão tinha sofrido importantes alterações. Barack Obama, com a sua ênfase nas negociações com o regime islâmico, tinha proposto uma estratégia e tácticas diferentes das de George Bush. Essa política intensificou a disputa entre as duas facções do regime e empurrou o bando de Ahmadinejad-Khamenei para a eliminação da outra facção através de um golpe de estado para ganhar a iniciativa. Mas a resistência popular estragou os seus cálculos políticos e fez naufragar os seus planos e o quadro político foi polarizado de uma forma diferente.

O imperialismo norte-americano foi forçado a ter em conta a luta popular na sua política em relação à República Islâmica. Os EUA parecem estar satisfeitos que a República Islâmica, enquanto regime fundamentalista, tenha perdido a sua força e unidade, mas não são favoráveis ao seu colapso total. Na actual situação do mundo e da região, não lhes convém um regime fraco, incapaz e vacilante. O governo norte-americano não encoraja em nenhuma circunstância uma explosão incontrolável das massas. Isto é ainda mais verdadeiro no Irão, onde os comunistas têm desfrutado historicamente de um certo apoio das massas e conseguido influenciar os movimentos de massas.

Os imperialistas norte-americanos querem resolver o problema do futuro regime do Irão à luz dos seus objectivos regionais estratégicos e de longo prazo. Actualmente, os EUA estão a tentar cumprir esses objectivos sobretudo através da influência nos assuntos internos do Irão (em vez da opção militar). Por isso, têm apoiado a opção de um regime islâmico mais moderado com os Verdes, ao mesmo tempo que tentam influenciar a facção dominante através do uso de várias alavancas como as negociações e as sanções e, em algumas ocasiões, de ameaças militares através de Israel.

Porém, a capacidade de acção dos EUA enfrenta obstáculos para além do Irão. A situação global é determinada pelo contexto mais vasto da disputa entre as grandes potências, em particular entre os EUA, a Rússia e a China e, até certo ponto, a Europa. Ao decidir as suas políticas em relação à República Islâmica, a classe dominante dos EUA tem que se debater continuamente com os problemas que existem neste contexto. É por isso que dentro da classe dominante dos EUA há diferentes perspectivas sobre como lidar com a República Islâmica do Irão, e não uma política unificada...

A tarefa política mais importante: construir um novo pólo

Apesar dos golpes que a insurreição popular infligiu à República Islâmica e apesar de os objectivos reaccionários dos líderes verdes terem ficado expostos para muita gente, esta insurreição espontânea sofre de grandes limitações. Ainda está presa dentro dos limites das contradições internas do regime. Enquanto a insurreição popular estiver essencialmente polarizada com base na contradição entre as duas facções, o resultado será um desperdício da energia popular. A tarefa dos comunistas revolucionários não é só apoiar a insurreição ou sequer tentar radicalizá-la dentro do seu quadro actual. Em vez disso, os comunistas revolucionários têm sobretudo que remar contra a maré e tentar transformar esse quadro global.

Na medida em que as massas tenham um entendimento claro e mais profundo de reivindicações como “Separação entre estado e religião”, “Libertação e igualdade para as mulheres” e “Eliminação das instituições especiais de opressão”, isso não só aumentará a sua firmeza na luta como também a sua capacidade para melhor resistirem à nefasta liderança dos Verdes...

Actualmente, o principal obstáculo ao desenvolvimento da luta, incluindo as formas de luta, são as limitações de classe das políticas que lideram a insurreição – i.e. dos líderes verdes conscientemente reaccionários. Sem desafiar essas políticas e sem comunicar às pessoas a orientação fundamental que a insurreição deveria tomar e o verdadeiro potencial que ela tem, os comunistas revolucionários não podem levar a cabo correctamente as suas tarefas nesta situação... Só através da colocação da revolução proletária na ordem do dia como única verdadeira solução científica e correcta é que poderemos oferecer um futuro radioso.

É impossível repolarizar o quadro político sem colocar corajosa e continuamente o comunismo na ordem do dia

Sem uma vasta propaganda comunista e sem a propagação das ideias comunistas, não é possível polarizar verdadeiramente o actual movimento.

A situação é tal que introduzir uma alternativa revolucionária e iluminar as características específicas e o carácter global da sociedade futura se tornaram nas questões mais ardentes do dia. Em que tipo de poder de estado nos podemos basear para resolver os problemas desta sociedade? Como é que podemos destruir o velho estado e substitui-lo por um novo estado? Sob que tipo de liderança pode isso ser possível? Estas são as questões que têm sido levantadas com esta recente insurreição popular, mais que em qualquer outro momento anterior, e elas merecem respostas. Deste ponto de vista, desencadear discussões sobre questões como “o nosso estado e o estado deles” é uma importante condição para intervirmos politicamente na situação, conquistando os elementos mais avançados da sociedade e criando uma opinião pública a uma vasta escala. Para o fazerem, é essencial que os comunistas divulguem os feitos das revoluções proletárias do século XX e um balanço crítico das experiências positivas e negativas desses feitos, que se armem com uma nova síntese comunista científica, que a desenvolvam e apelem a uma revolução na actual fase da luta.

O perigo que ameaça o actual movimento não vem apenas da liderança verde reaccionária. As tendências democrático-burguesas são outro perigo que ameaça a insurreição popular, sobretudo se os comunistas cederem face a elas. Muita gente pensa que, baseando-se em reivindicações mínimas ou propondo reivindicações democráticas deste ou daquele sector ou classe do actual movimento, se podem formar vastas frentes únicas e se pode avançar passo a passo. Isto seria uma outra forma de evitar levantar os problemas mais centrais e imediatos das massas.

É verdade que a sociedade iraniana não se pode desenvolver sem se levar a cabo tarefas democráticas e anti-imperialistas e é deste ponto de vista que se deveria ver o derrube da República Islâmica. Mas os comunistas fazem-no à sua própria maneira, não com base na velha revolução democrático-burguesa mas com base na “revolução de nova democracia” que abrirá caminho ao socialismo...

O actual equilíbrio de forças é frequentemente apresentado como uma razão para se ceder perante as tendências democrático-burguesas de hoje. O argumento é que os comunistas são poucos e não têm qualquer hipótese de vencer e tomar o poder nesta fase da luta, pelo que devem ser realistas, devem afastar grandes aspirações e sonhos e satisfazer-se com um lugar nas fileiras da oposição.

Esta forma de actuação e pensar é uma expressão de recuo face a ser-se pequeno. Ser-se pequeno é uma contradição com que os comunistas se debatem hoje. Porém, esta contradição não pode ser resolvida através do compromisso dos nossos objectivos e da adaptação a programas minimalistas. Só pode ser resolvida através da persistência nesses objectivos e na nossa orientação revolucionária e tendo confiança estratégica neles...

O que se quer dizer com uma liderança comunista e um partido comunista não é a introdução de mais um grupo político ao lado dos já existentes. Trata-se de introduzir uma profunda compreensão do papel e da liderança do partido comunista. E é necessário ter um centro político sério. A compreensão pelas massas da necessidade do partido e da actividade do partido deve ser incrementada para que as massas exijam a construção desse partido. Para isso, o que é necessário é uma compreensão profundamente materialista da necessidade e do papel do partido político para a tomada do poder político e ao longo de todo o período que se lhe seguir, até ao período de transição do socialismo para o comunismo...

Na actual situação, só através da colocação vigorosa do comunismo na ordem do dia e de visarmos a repolarização da insurreição é que poderemos organizar e fortalecer as forças do partido, organizar e alargar as frentes de combate e chegar a uma posição onde possamos falar do início de uma luta revolucionária armada para a tomada do poder.