Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 27 de Abril de 2009, aworldtowinns.co.uk

Algumas ideias sobre como encarar a epidemia de gripe A

É impossível prever a expansão, a severidade e as consequências da epidemia de gripe suína [agora chamada gripe A – NT] que teve início no México. Mas as epidemias de gripe têm ocorrido com regularidade – incluindo três pandemias (epidemias globais) no século XX – e os cientistas e as autoridades de saúde pública há muito que sabiam que eram inevitáveis novas pandemias. Alguns dos possíveis parâmetros e vias de desenvolvimento de uma tal situação podem ser compreendidos cientificamente, tanto a nível biológico como social.

Há dois factores distintos e essencialmente independentes em operação. Um deles é a natureza e evolução da própria doença, que não é causada pela actividade humana. Embora os factores sociais – por exemplo, a criação industrial de porcos – possam em teoria ter desempenhado um papel que contribuiu para o aparecimento desta doença específica, não foram os seres humanos que inventaram os vírus nem a vulnerabilidade humana e animal a eles.

O outro factor é exactamente o oposto: em que tipo de sociedades vivem as pessoas, o que é que guia a organização económica dessas sociedades e das suas relações sociais e políticas. Em suma, se o primeiro factor está relacionado com fenómenos naturais, em si mesmo, o segundo tem a ver com o mundo capitalista e imperialista em que eles ocorrem.

Em relação ao primeiro factor, sabe-se alguma informação crucial: não é invulgar que pessoas nas quintas apanhem gripe por contágio com porcos, mas a que agora se está a chamar de gripe suína é nova e nunca antes foi detectada em porcos. Os vírus estão em mutação constante e diferentes tipos de vírus podem trocar material genético entre si. A actual gripe suína tem elementos genéticos que parecem ter vindo de suínos, de aves e de seres humanos. O que a torna diferente da gripe suína clássica é que ela pode ser prontamente transmitida entre seres humanos. O seu epicentro (o local onde se centrou a erupção original) não foi rural, mas sim a Cidade do México, uma enorme e densa concentração de pessoas.

Há outras questões biológicas de vida e morte que continuam a ser desconhecidas:

• Quão facilmente se propaga a doença entre seres humanos, quantas das pessoas expostas ao vírus ficam doentes e que percentagem das que se tornam doentes morre dela?

• Porque é que houve tantos casos graves e mortais no México, enquanto todos os casos que ocorreram até agora noutros países foram moderados? Terá sido devido a outros factores no México, tais como a presença de outras infecções que actuam em paralelo com a gripe suína? Estará o vírus a sofrer uma mutação que o torna menos grave? Haverá novas vagas desta crise?

• Até agora, a maioria das pessoas que morreram devido à doença têm sido jovens adultos, e nenhum deles nem muito velho nem muito jovem. O que é que isto nos diz sobre a forma como a doença afecta o corpo humano – será que obriga as defesas naturais do corpo, o sistema imunitário, a reagirem de uma forma tal que, em vez de combaterem a doença, matam o paciente? O que é que isso significa para a forma como ela pode ser tratada assim que as pessoas adoecem?

O seguinte artigo foi extraído da 1ª Parte de “A gripe das aves num mundo imperialista”, do SNUMAG de 15 de Janeiro de 2007. A actual epidemia, e uma possível pandemia, de gripe suína não é semelhante à possível epidemia de gripe das aves que esse artigo analisava. Mas, no que diz respeito à forma como esse artigo focava a experiência histórica e o conhecimento científico em geral sobre as epidemias virais em seres humanos, continua a ser pertinente. O artigo dá ênfase a um cenário de pior caso possível, não como previsão mas porque as autoridades mundiais e o sistema social que elas representam podem ser julgadas por quão séria e efectivamente elas trabalharem para impedirem e nos prepararem para uma tal catástrofe. Os mesmos padrões aplicam-se agora, independentemente da forma como evoluir esta crise específica.

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Sabe-se agora que os vírus da gripe causaram muitas pandemias nos últimos cem anos, entre as quais três pandemias globais de gripe no século XX. (Uma pandemia é uma epidemia de grandes dimensões.) A de 1968-70, usualmente denominada “gripe de Hong Kong”, foi a mais moderada, matando cerca de um milhão de pessoas em todo o mundo. A de 1957-58, chamada “gripe asiática”, aniquilou cerca do dobro desse número. A mais mortal, em 1918-20, designada “gripe espanhola” (embora haja indícios de ter surgido primeiro nos EUA), matou entre 20 e 100 milhões de pessoas – ninguém tem a certeza. Nenhuma outra doença na história aniquilou tanta gente tão rapidamente.

Um grande número de peritos acredita que, mais cedo ou mais tarde, vai voltar a acontecer uma dessas mutações. David Nabarro, um alto funcionário da Organização Mundial de Saúde (OMS) e o coordenador da ONU para a gripe, disse: “Tenho a certeza que irá ocorrer uma nova pandemia de gripe. Segundo a história natural destas coisas, tenho quase a certeza de que em breve haverá uma outra pandemia.”

Dado que, por definição, poucas pessoas estariam imunes a uma nova variante da gripe, o número de pessoas que irá adoecer pode vir a ser extremamente elevado – na casa das centenas de milhões ou mesmo milhares de milhões. Quão doentes – ou seja, quantas pessoas morrerão com ela – é outro factor que não pode ser previsto, uma vez que a nova forma da doença ainda não emergiu. Num dos extremos da escala das doenças infecciosas virulentas, algumas não são perigosas a nível mundial porque são demasiado letais – as pessoas que ficam doentes morrem depressa demais para que elas se espalhem efectivamente. Um exemplo disso é o vírus do Ébola. No outro extremo da escala, as variedades sazonais comuns da gripe afectam milhões e milhares de milhões de pessoas todos os anos mas, a não ser que elas estejam fragilizadas por outras razões, relativamente poucas pessoas morrem devido a isso.

A gripe de 1918 percorreu o mundo em várias vagas. A primeira demorou nove meses a infectar quase todos os países. No início, o vírus da gripe estava no seu estado mais letal. À medida que continuou a sua mutação, foi enfraquecendo. Por isso, o número de mortes variou de lugar para lugar, dependendo do momento em que a doença os atingia – e atingiu muitos lugares duas e três vezes. Na Turquia e no Irão, o número de mortos foi muito elevado. Em certas zonas do centro da Índia, onde a taxa de mortalidade era a mais alta do mundo, os registos coloniais britânicos indicam que morreu quase oito por cento da população – e os números reais podem ter sido mais elevados. O Japão e algumas ilhas conseguiram evitar o pior limitando as viagens, mas outras ilhas e populações isoladas foram devastadas. A Europa e os EUA foram duramente atingidos. Em França, morreram cerca de 400 mil pessoas. Algumas cidades norte-americanas foram muito afectadas. Noutras, como em Filadélfia, quase todas as famílias tiveram alguém doente. Carros puxados a cavalo percorriam todas as ruas com pregoeiros a gritar: “Tragam os vossos mortos!”; foram usadas pás mecanizadas para abrir valas comuns. A vida industrial e económica da cidade ficou quase totalmente paralisada. Como descreveu John Barry em The Great Influenza [A Grande Gripe], a estrutura política e social da cidade estava à beira do colapso quando de repente a doença desapareceu.

Num período de dois anos em que quase toda a população mundial esteve exposta à doença, um número suficiente elevado de pessoas desenvolveu uma resistência e ela desapareceu completamente. Um estudo recente, que envolveu o exame dos tecidos de um cadáver congelado há muito tempo, revelou que a gripe de 1918 teve origem nas aves. A opinião científica actualmente prevalecente é de que provavelmente todos os vírus humanos da gripe tiveram origem nas aves. [Os porcos podem servir de estação de transbordo, numa cadeia de mutações virais.]

Um estudo publicado na revista médica internacional The Lancet (21 de Dezembro de 2006) estimava o número de mortes que uma hipotética nova erupção de uma gripe semelhante causaria hoje, com base numa análise estatística das mortes registadas em 1918-20. O número proposto é de 62 milhões de mortos. O estudo concluía que provavelmente esse seria um “limite superior” – o pior cenário.

Mas, apesar deste número aterrador ter feito manchetes, o estudo ia muito mais fundo. Os investigadores estudaram a relação entre essas mortes e a pobreza. A relação não era directa por muitas razões, algumas delas a aleatoriedade e outros factores não relacionados com a classe social (por exemplo, a densidade local de população – os navios militares norte-americanos que se dirigiam para a Europa tornaram-se caixões flutuantes). Não havia então nenhuma cura nem tratamento efectivo para a gripe “espanhola”, numa altura em que até a sua causa era um mistério, pelo que os cuidados médicos não eram relevantes. De facto, o estudo diz que as razões para a relação entre os rendimentos das pessoas e o facto de morrerem continuam a não ser completamente compreendidas. Os autores acreditam que a saúde geral das vítimas, a alimentação e outras doenças (“co-infecções”) representaram o papel principal – embora não o único – na determinação de quem sobreviveu ou não.

Porque é que a experiência da gripe de 1918 é pertinente ao olharmos para o que pode vir a acontecer agora? Não deu a ciência médica enormes passos desde então?

Em primeiro lugar, não é completamente claro o que é que a medicina poderá fazer se emergir uma nova pandemia letal de gripe. O artigo da The Lancet diz que, mesmo com uma preparação antecipada, poderão passar facilmente seis meses entre o aparecimento da doença e o desenvolvimento e produção de uma vacina efectiva. É realmente verdade que a medicina contemporânea possui algumas ferramentas potencialmente poderosas, sobretudo os antivirais como o Tamiflu que não conseguem curar a gripe mas que mostraram ser eficazes na ajuda a pessoas infectadas com as actuais variantes da gripe. Também há medicamentos antibacterianos que poderiam prevenir ou tratar as pneumonias que surgem após uma infecção viral e que podem ter sido a principal causa de morte em 1918-20. Os anti-inflamatórios também poderiam ajudar a evitar a morte de pessoas doentes, porque o seu próprio sistema imunitário reagirá fortemente. Mas a OMS tem avisado que mesmo alguns dos melhores sistemas médicos do mundo poderão ficar sobrecarregados e provavelmente colapsar.

Alem disso, a grande preocupação do estudo tem por base mais as realidades sociais do que as possíveis insuficiências da ciência contemporânea face a esse desafio. A sua análise estatística das mortes de 1918-20 levou-os a concluírem: “O fardo da próxima pandemia de gripe estará esmagadoramente centrado nos países em desenvolvimento”. Cerca de “96 por cento dessas mortes irão ocorrer nos países em desenvolvimento”, disseram eles.

A comparação que o estudo faz entre 1918 e hoje é válida: “A iniquidade [desigualdade] na saúde é pouco menor agora que em 1918 e é pouco provável que os avanços médicos dos últimos 96 anos venham a beneficiar muito do mundo em desenvolvimento em qualquer futura pandemia... É pouco provável que, durante uma pandemia, as grandes reservas de antibióticos e antivirais venham a estar à disposição da maioria dos países com poucos recursos. Por isso, talvez a melhor estimativa para a mortalidade numa possível pandemia em 2007 seja a mortalidade de 1918 – uma acusação bastante condenatória da iniquidade global dos sistemas de saúde.”

Em países onde outras doenças já estão muito difundidas, a análise que o relatório faz da experiência da gripe de 1918 torna horrivelmente claro que muitos milhões de pessoas estão em sério risco. Sabe-se que a malária, por exemplo, deixa as pessoas particularmente vulneráveis a morrer de gripe. E, no mundo actual, quase quinhentos milhões de pessoas têm malária. Outro factor do nosso tempo é a existência sem precedentes de quase 40 milhões de pessoas com VIH/SIDA – e com um sistema imunitário enfraquecido ou inexistente. Estes são os pontos de partida para cenários quase demasiado horrendos para os enfrentarmos.

A malária e a SIDA são doenças sobretudo (embora longe de o serem exclusivamente, sobretudo no caso da última) de países pobres. Este foi um factor que levou os autores do estudo a concluírem que a África e a Ásia poderão vir a ser os locais onde ocorrerão mais mortes.

Porém, a questão decisiva, ao contrário do que diz o estudo, não é a pobreza mas sim o sistema social. Os autores acham que as diferenças entre os rendimentos per capita (por pessoa) determinam cerca de metade das diferenças nas taxas de mortalidade entre os diversos países. No entanto, quando a China ainda era um país socialista, sob a liderança de Mao, embora os rendimentos per capita fossem menores que os actuais, a situação de saúde das pessoas era muito melhor da que é hoje. Em apenas algumas décadas de revolução, a China eliminou muitas das doenças que antes vitimavam a sua população. Na época em que a sociedade chinesa se guiava pelo princípio de “Servir o povo”, a distribuição de recursos, a participação consciente e a mobilização das massas populares de muitas formas diferentes fizeram com que a esperança média de vida mais que duplicasse. Desde o momento da restauração do capitalismo (nos factos, se não mesmo nas palavras), quando a direita tomou o poder após a morte de Mao, o sistema de saúde nas zonas rurais foi extensamente desmantelado e deixou dois terços da população – 800 milhões de pessoas – com reduzido acesso aos cuidados de saúde. Guiadas pelo novo princípio de que “Ficar rico é glorioso”, quando uma epidemia do vírus SARS atingiu as zonas rurais da China em 2003, em vez de tudo fazerem para a travarem, as autoridades encobriram-na para protegerem os negócios e o seu próprio poder.

Também no que diz respeito à questão do sistema social, embora o estudo faça uma distinção crucial justamente entre o que chama de “países em desenvolvimento” e “países desenvolvidos”, concluindo que o perigo é muito diferente nesses dois casos, a diferença entre eles não é apenas o seu grau de desenvolvimento. Uma característica principal do actual sistema económico, social e político globalizado é o domínio da maioria dos países e povos do mundo pelos capitalistas monopolistas de um punhado de países imperialistas. A diferença crucial não são os rendimentos dos países, mas sim que nos países dominados a economia – e, em última análise, quase tudo o resto – responde às necessidades do capital financeiro estrangeiro.

É inevitável que surjam novas doenças potencialmente perigosas em qualquer sistema social, mesmo num futuro distante. Certamente que não foi o capitalismo que criou a gripe das aves. Mas a forma como os seres humanos estão organizados no mundo imperialista de hoje é um enorme obstáculo a que se possa resolver o problema.