A Verdadeira História da Revolução Maoista no Tibete

2. O assalto aos céus

A revolução chega ao Tibete

As massas populares tibetanas alinham-se ao longo das ruas da capital tibetana para darem as boas-vindas às unidades do Exército Popular de Libertação que entram em Lhasa em 1951
As massas populares tibetanas alinham-se ao longo das ruas da capital tibetana para darem as boas-vindas às unidades do Exército Popular de Libertação que entram em Lhasa em 1951. (Fonte: Peking Review, 11 de Julho de 1975)

Em 1949, o Exército Popular de Libertação tinha derrotado todos os principais exércitos reaccionários da China central. Tinha chegada a hora dos pobres e oprimidos! Mas as grandes potências mundiais estavam a manobrar para esmagar e “conter” rapidamente essa revolução. As tropas francesas invadiam o Vietname, na fronteira sul da China. Em 1950, uma gigantesca força invasora norte-americana chegou à Coreia com planos para ameaçar a própria China.

As montanhas e as pradarias ocidentais das zonas fronteiriças da China são habitadas por dezenas de grupos étnicos distintos cujas culturas são diferentes da dos han, a maioria étnica da China. Uma classe de proprietários de servos liderada pelos monges-abades dos grandes mosteiros budistas lamaístas tinha vindo a governar localmente uma dessas regiões, o Tibete, como um reino isolado, hermeticamente fechado. Durante a guerra civil chinesa, essa classe dirigente do Tibete conspirou para estabelecer um falso “estado independente”, que na realidade estava debaixo da asa do colonialismo britânico.

Os revolucionários maoistas estavam determinados a levar a revolução ao Tibete – para defenderem as regiões fronteiriças da China contra uma invasão e para libertarem os milhões de servos tibetanos aí oprimidos.

Sem dúvida nenhuma que os experimentados camponeses-soldados de Mao poderiam ter derrotado todos os exércitos dos feudalistas tibetanos.

Mas a revolução enfrentava um problema: a enorme e pouco povoada região do Tibete tinha estado completamente isolada da guerra revolucionária que tinha sacudido o resto da China. Em 1949, não havia nenhuma força entre as massas tibetanas que pudesse levar a cabo uma verdadeira libertação. Ainda não existia nenhum movimento rebelde clandestino entre os servos do Tibete. Não havia quase nenhum comunista tibetano nem mesmo comunistas han que falassem tibetano. As massas dos servos tibetanos nunca tinham ouvido falar na grande revolução que tinha sacudido o resto do país deles. Os servos tibetanos tinham sido ensinados que a miséria e a pobreza deles tinham uma justificação – eram causadas pela própria pecaminosidade deles em vidas anteriores.

Mao Tsétung disse que uma verdadeira revolução tem de se apoiar nas massas – nas necessidades, nos desejos e nos actos das próprias massas oprimidas. O maoismo chama linha de massas a este princípio. Mao disse: “Acontece frequentes vezes que, objectivamente, as massas necessitam de certa mudança mas, subjectivamente, não estão ainda conscientes dessa necessidade, não a desejam ou ainda não estão determinadas a realizá-la. Nesse caso devemos esperar pacientemente. Não devemos realizar tal mudança senão quando, em virtude do nosso trabalho, a maioria das massas se tenha tomado consciente dessa necessidade e esteja desejosa e determinada a realizá-la. Doutro modo, isolamo-nos das massas. Enquanto as massas não estão conscientes e desejosas, toda a espécie de trabalho que requer a sua participação resulta em mera formalidade e termina num fracasso.”1

Em Outubro de 1950, o Exército Popular de Libertação (EPL) avançou pelas pradarias e montanhas do sudoeste da China. Em Chamdo, derrotou facilmente um exército enviado pela classe dominante do Tibete – e então parou. Depois enviou uma mensagem à capital tibetana, Lhasa.

O novo governo revolucionário da China propôs um acordo aos governantes do Tibete: o Tibete juntava-se de novo à república chinesa mas, temporariamente, o regime dos proprietários de servos (chamado Kashag) poderia continuar no poder como governo local, operando sob a direcção do Governo Popular Central. Os maoistas não aboliriam as práticas feudais, nem atacariam a religião lamaísta enquanto o próprio povo não apoiasse essas mudanças. O Exército Popular de Libertação defenderia as fronteiras da China de uma intervenção imperialista e os agentes estrangeiros seriam expulsos de Lhasa. Cerca de metade da população tibetana vivia nas regiões de Tsinghai e Chamdo, que não estavam sob o controlo político do Kashag. Essas regiões não foram abrangidas pela proposta.

Os proprietários de servos assinaram esse “Acordo em 17 Pontos” e, a 26 de Outubro de 1951, o Exército Popular de Libertação entrou pacificamente em Lhasa.

Os dois lados sabiam que o conflito acabaria por chegar. Durante quanto tempo conseguiriam os aristocratas e os mosteiros continuar a escravizar os “seus” servos – quando toda a gente podia agora ver os camponeses han que, usando armas e o maoismo, se tinham libertado de condições semelhantes?

As mais poderosas famílias proprietárias de servos começaram a planear uma insurreição armada. O irmão do dalai-lama foi ao estrangeiro para consolidar laços com a CIA, obter armas e pedir reconhecimento político. Os mosteiros organizaram conferências secretas e propagaram rumores disparatados entre as massas: dizendo, por exemplo, que os revolucionários han usavam sangue de crianças tibetanas raptadas como combustível para os camiões deles. Longas colunas de mulas carregadas de armas norte-americanas começaram a chegar a alguns mosteiros tibetanos, vindas da Índia. A CIA montou centros de treino de combate para os seus agentes tibetanos, que acabaram por ter como base o Campo Hale, no Colorado, situado a grande altitude. Os aviões da CIA despejaram armas na região de Kham, no leste do Tibete.

Recrutando jovens rebeldes para a revolução

Tsomo era uma mulher do povo memba, de uma região fronteiriça do Tibete. Durante a Revolução Cultural, ela contou a história de como conheceu pela primeira vez os revolucionários maoistas. “Sou de uma família de servos, tão pobre que fui levada para trabalhar para outra família. Quando tinha 17 anos, os lamas disseram-nos que fugíssemos para as montanhas porque os han [a etnia maioritária na China – NT] estavam a chegar e que nos matariam, violariam e comeriam as crianças. Nós corremos e escondemo-nos numa falésia. E vimos chegar o Chingdrolmami [o nome tibetano do Exército Popular de Liberação]. Os soldados acamparam perto da nossa aldeia. Estávamos à espera que eles levassem tudo com eles e queimassem os nossos campos e casas; mas, após um ou dois dias, vimos que não tocaram nos nossos campos, pelo que eu desci um pouco para os observar.”

“Eles estavam a trabalhar. Sei agora que estavam a construir uma estrada. (...) A minha mãe disse-me: ‘Não vás’. Mas eu desci de novo no dia seguinte e vi entre eles mulheres em uniforme. Uma delas viu-me a esconder-me atrás de uma pedra e, na minha própria língua, gritou-me para descer e para não ter medo. Ela era uma intérprete.”

Os soldados revolucionários mostraram a Tsomo como estavam a cuidar bem das vacas dos aldeões. Deram leite e manteiga a Tsomo para levar de volta aos aldeões escondidos. Os anciãos acharam que isso não passava de um truque. Mas alguns rapazes foram suficientemente corajosos para regressar com Tsomo. Uma semana depois, os aliviados e curiosos aldeões regressaram às casas deles.

Tsomo disse: “O Chingdrolmami tratou-nos bem, não nos bateu nem nos gritou, ajudou-nos nas colheitas e na debulha, nunca abusou das mulheres. Nunca ninguém nos tinha tratado assim antes. O meu coração começou a inflamar-se com um grande fogo interior – eu queria ser como eles. Disse-lhes: ‘O que é que posso fazer para ajudar?’ Um oficial respondeu-me: ‘Gostarias de aprender alguma coisa? A ler e escrever?’ Eu nunca tinha sonhado que isso pudesse acontecer.”

Tsomo tornou-se estudante do Instituto das Minorias Nacionais em Pequim. Regressou para fazer o perigoso trabalho da reforma agrária na região dela e movimentava-se secretamente de aldeia em aldeia a mobilizar os servos. Durante a Grande Revolução Cultural Proletária tornou-se vice-presidente da Federação de Mulheres do Tibete.

A aplicação da linha de massas de Mao às condições particulares do Tibete

Entretanto, Mao instruiu as forças revolucionárias para ganharem as massas para a revolução que se avizinhava – sem provocar uma polarização prematura em que as massas pudessem ficar contra a revolução. Mao escreveu: “O atraso não nos traz prejuízos; pelo contrário, poderá resultar em nosso favor. Deixem que eles [a classe dominante lamaísta] continuem com as suas atrocidades insensatas contra o povo, enquanto nós concentramos as nossas forças em coisas benéficas – produção, comércio, construção de estradas, serviços médicos e trabalho de frente única (unidade com a maioria e educação paciente) para conquistar as massas.”2

Um soldado vermelho diria mais tarde: “Recebemos instruções muito detalhadas sobre como nos comportarmos”.

As massas tibetanas eram demasiado pobres para fornecerem qualquer alimento às tropas revolucionárias. Por isso, os soldados do EPL andavam frequentemente famintos até os seus próprios campos estarem na altura das colheitas. Eles foram ensinados a respeitar a cultura e as crenças tibetanas – mesmo, temporariamente, os fortes temores supersticiosos que dominavam a vida tibetana.

Durante esses primeiros anos, o EPL trabalhou como a grande força de construção que construiu as primeiras estradas que ligaram o Tibete às regiões centrais da China. Uma longa série de campos de trabalho estendia-se ao longo de milhares de quilómetros através de infindáveis montanhas e desfiladeiros. Os soldados han cultivavam a sua própria comida ao lado desses campos, usando novos métodos colectivos. Os servos das zonas vizinhas recebiam salários pelo trabalho deles nas estradas.

Os governantes do velho Tibete tratavam os servos como “animais que falam” e forçavam-nos a fazer trabalhos intermináveis e não pagos – pelo que o comportamento dos soldados do EPL foi um choque para as massas tibetanas. Um servo disse: “Os han trabalhavam connosco lado a lado. Não nos chicoteavam. Pela primeira vez, fui tratado como um ser humano.” Um outro servo descreveu o dia em que um soldado do EPL lhe deu água da própria chávena do soldado: “Eu nem queria acreditar naquilo!” Alguns servos foram ensinados a reparar camiões, tornando-se assim nos primeiros proletários da história do Tibete. Um servo fugido disse: “Percebemos que não era a vontade dos deuses, mas a crueldade de seres humanos como nós que nos mantinha escravos”.

Os campos do EPL depressa se tornaram ímanes para os escravos, servos e monges fugidos. Aos servos jovens que trabalhavam nos campos era-lhes perguntado se queriam ir estudar para ajudarem a libertar o seu povo. Esses tornaram-se nos primeiros estudantes tibetanos nos Institutos das Minorias Nacionais nas cidades do leste da China. Aprenderam a ler, a escrever e contabilidade “para a futura revolução agrária”!

Desta forma, a revolução começou a recrutar activistas que em breve liderariam as massas. O primeiro militante do Partido Comunista no Tibete central foi recrutado em meados dos anos 50. Em Outubro de 1957, o Partido tinha 1000 militantes tibetanos e mais 2000 na Liga Comunista da Juventude. (Ver “Recrutando jovens rebeldes para a revolução”, em anexo.)

Em todas as zonas rurais do leste do Tibete e nos vales à volta de Lhasa, o Exército Popular de Libertação funcionou como uma enorme “máquina semeadora” da revolução – tal como o tinha feito durante a histórica Longa Marcha de Mao nos anos 30.

Qualquer esboço de mudança fazia estremecer aquele reino hermeticamente isolado

Quando a primeira estrada de areia branca ficou completa, chegaram longas caravanas de camiões do EPL, transportando bens importantes como chá e fósforos. A expansão do comércio e sobretudo a disponibilidade de chá barato melhorou a alimentação dos tibetanos comuns. Em meados dos anos 50, já tinham sido instalados os primeiros telefones, telégrafos, estações de rádio e impressoras modernas. Apareceram os primeiros jornais, livros e folhetos, em han e tibetano. A partir de 1955, foram fundadas as primeiras verdadeiras escolas do Tibete. Em Julho de 1957, havia 79 escolas básicas, com 6000 estudantes. Tudo isto começava a melhorar a vida dos pobres e a enfurecer as classes altas que sempre tinham monopolizado todo o comércio, a aprendizagem dos livros e o contacto com o mundo exterior.

Quando equipas de médicos revolucionários começaram a tratar as pessoas, até os monges e as classes altas começaram a aparecer nas primeiras clínicas. A primeira mina de carvão abriu em 1958 e o primeiro alto-forno em 1959. Isto minou as superstições que condenavam a inovação e pregavam que as doenças eram causadas por um comportamento pecaminoso.

Em 1956, nas zonas fronteiriças tiveram início rebeliões armadas cada vez mais intensas e organizadas por proprietários feudais. Essas zonas não estavam cobertas pelo Acordo em 17 Pontos e os servos estavam aí a ser encorajados pelos revolucionários a deixarem de pagar o aluguer das terras aos mosteiros e aos proprietários. Em 1958, um líder comunista no Tsinghai escreveu: “A grande revolução socialista nas zonas pastoris foi uma luta de classes muito violenta, de vida ou morte”.

Algumas forças dentro do Partido Comunista apelaram a um compromisso. Elas sugeriram a desaceleração da reforma agrária e o encerramento das escolas e clínicas, que eram contestadas pelos lamaístas. Os professores e as equipas médicas foram retirados, mas isso não parou as conspirações dos lamaístas.

No final dos anos 50, a classe dominante tibetana avançou para uma rebelião em grande escala. Achava que as intensas lutas que se estavam a desenvolver na China central – o chamado Grande Salto em Frente – poderiam ser uma abertura para afastar o EPL. O apoio da CIA tinha aumentado e estavam disponíveis agentes treinados.

A rebelião dos proprietários de servos desencadeia a revolução

“Na história da humanidade, toda a força reaccionária no limiar da morte lança-se, invariavelmente, numa última e desesperada luta contra as forças revolucionárias.” — Mao Tsétung3

Em Março de 1959, monges armados e soldados tibetanos atacaram a guarnição revolucionária em Lhasa e desencadearam uma rebelião ao longo da fronteira com a Índia. Um monge diria mais tarde: “Disseram-nos a todos que se matássemos um han nos tornaríamos Budas Vivos e teríamos capelas com o nosso nome”. Sem muito apoio entre as massas, os lamaístas rapidamente se entrincheiraram em alguns santuários. A rebelião principal acabou em poucos dias.

Durante a luta, o dalai-lama fugiu para o exílio. Essa fuga é retratada pelos lamaístas como um acontecimento heróico, e mesmo místico. Mas está agora bem documentado que o dalai-lama fugiu numa operação encoberta da CIA. A própria autobiografia do dalai-lama admite que o cozinheiro dele e o operador de rádio dessa viagem eram agentes da CIA. A CIA queria-o fora do Tibete – como símbolo para uma guerra ao estilo dos contras [os bandos contra-revolucionários treinados pela CIA na Nicarágua – NT] contra a revolução maoista.

Derrotados na sua rebelião, grandes sectores do alto clero e da aristocracia seguiram o dalai-lama para sul, rumo à Índia – acompanhados de muitos escravos-servos, guardas armados e colunas de mulas carregadas de riquezas. No total, 13 mil pessoas foram para o exílio, entre elas as forças feudais mais recalcitrantes e os apoiantes delas. De repente, muitos dos Três Amos do Tibete – os lamas ricos, os altos funcionários governamentais e os aristocratas laicos – tinham desaparecido!

As forças revolucionárias mobilizaram-se para extirpar a conspiração feudalista. Mil estudantes tibetanos vieram rapidamente dos Institutos das Minorias Nacionais para ajudarem a organizar a primeira grande vaga da mudança revolucionária no Tibete.

O governo Kashag do dalai-lama tinha apoiado em grande parte essa rebelião contra-revolucionária e foi dissolvido. Em toda a região foram criados novos órgãos de poder chamados “Gabinetes para Suprimir a Rebelião”. O novo governo regional foi chamado “Comité Preparatório da Região Autónoma do Tibete” – nele, trabalharam lado a lado novos quadros tibetanos e quadros han veteranos.

Esta primeira fase da revolução foi chamada “Os Três Contras e as Duas Reduções”. Era contra a conspiração lamaísta, contra o trabalho forçado e contra a escravidão. No passado, os servos pagavam três quartos das colheitas aos seus amos; agora, a revolução lutava por reduzir esse “aluguer da terra” para 20 por cento. A outra redução eliminou as gigantescas dívidas que os servos “deviam” aos amos deles.

Essa campanha atacou o cerne das relações feudais do Tibete: o trabalho forçado ulag foi abolido. Os escravos nangzen dos nobres e dos mosteiros foram libertados. Subitamente, as massas de escravos-monges foram autorizadas a abandonar os mosteiros. Os esconderijos de armas dos mosteiros foram eliminados e os principais conspiradores foram presos.

Algumas pessoas gostam de falar na “luta pela liberdade religiosa no Tibete” – mas ao longo de toda a história do Tibete, a principal luta em torno da “liberdade” religiosa foi pela liberdade de não crer, de não obedecer aos monges cruéis e às infindáveis superstições deles. Ver milhares de jovens monges a casarem alegremente e a fazerem trabalho manual foi um poderoso golpe contra os temores supersticiosos.

Teve início a libertação das mulheres – sob as então chocantes palavras de ordem “Os homens e as mulheres são iguais”! As mudanças revolucionárias na propriedade ajudaram a atenuar as velhas pressões para a prática da poligamia. Como passou a haver uma grande quantidade de homens disponíveis, as mulheres já não tinham a mesma pressão para aceitarem situações em que os homens podiam ter várias esposas. Com a redistribuição das terras, as mulheres já não tinham a mesma pressão para casarem com vários irmãos de uma família – uma prática que tinha sido usada para limitar a população dependente de pequenas parcelas de terra.

Sem a terra alugada, os enormes mosteiros parasitários começaram a definhar. Cerca de metade dos monges abandonaram-nos e cerca de metade dos mosteiros tiveram de fechar.

Em reuniões de massas, os servos foram encorajados a organizarem Associações de Camponeses e a lutarem pelos seus interesses. Os principais opressores foram convocados, denunciados e punidos. Os registos de dívidas dos proprietários de servos foram queimados em grandes fogueiras. As mulheres desempenharam um papel particularmente activo. Nas fotografias dessa época, vê-se mulheres a liderar essas reuniões e a denunciar os opressores. Pouco depois, os servos tomaram as terras e o gado. Todos os antigos servos, mendigos e escravos receberam vários hectares de terra. Os ex-servos receberam 200 mil novos títulos de propriedade de terras e rebanhos – decorados com bandeiras vermelhas e a imagem do Presidente Mao.

Os servos disseram: “O sol do Kashag apenas iluminava os Três Amos e os esbirros dos proprietários, mas o sol do Partido Comunista e do Presidente Mao ilumina-nos a nós – os pobres”.

Uma aguda luta de classes

Estes actos revolucionários implicaram uma intensa e frequentemente sangrenta luta de classes, com toda a complexidade, heroísmo, erros, avanços e recuos de uma revolução da vida real.

Os revolucionários libertaram o ódio de classe dos servos. Os proprietários de servos contra-atacaram, acusando os revolucionários tibetanos de colaborarem com o estrangeiro e destruírem o sagrado. Em alguns lugares, as forças revolucionárias tinham a supremacia – e enormes mudanças aconteciam nas vidas das pessoas. Noutros lugares, as forças feudais tinham a supremacia – e tentavam eliminar qualquer ameaça. Durante anos, houve execuções, ataques e batalhas implacáveis, de ambos os lados. Como disse Mao Tsétung: “Uma revolução não é o convite para um jantar. (...) Uma revolução é uma insurreição, é um acto de violência pelo qual uma classe derruba outra. (...) Sem empregar um máximo de força, os camponeses não podem liquidar a autoridade dos senhores de terras, autoridade milenária e profundamente enraizada.”4

O exército revolucionário foi uma poderosa força de apoio à insurreição e muitos servos voluntariaram-se para se juntarem ao Exército Popular de Libertação. Mas o Tibete é uma enorme região de vales isolados. Os organizadores nos povoados enormemente dispersos estavam em grande parte por conta própria. Eles arriscaram tudo pelas massas populares e muitas vezes foram mortos por bandos feudais – tal como o Ku Klux Klan matava os escravos libertos nos tempos que se seguiram à guerra civil norte-americana.

Nos novos Institutos das Minorias Nacionais também começou uma aguda luta – muitas vezes em torno de divisões de classe. Alguns estudantes tibetanos de origem aristocrática pretendiam tornar-se numa nova elite – alguns deles ressentiram-se quando a reforma agrária afectou as famílias deles de proprietários de servos no Tibete. Eles também rejeitavam os movimentos pela igualdade social: exigiam ter criados que fizessem as camas e limpassem os quartos deles e recusavam misturar-se com os colegas estudantes com antecedentes de escravos ou servos. Questões semelhantes dividiram as novas escolas na própria capital tibetana, Lhasa: os estudantes aristocratas exigiam que os estudantes escravos levassem os livros dos seus “amos”. Foram enviados lamas para “vigiarem a educação” e organizarem orações antes e depois das sessões de estudo. Estas lutas iniciais prepararam os estudantes das classes dos servos, escravos e mendigos para o dia em que essas questões fossem resolvidas em toda a sociedade tibetana.

Mesmo com a maioria das terras dividida em parcelas individuais, nos campos foram feitas algumas tentativas de experimentação de formas colectivas socialistas. Mao disse que a via para a libertação nos campos requer novas formas de cooperação entre as massas. No Tibete, foram formadas novas “equipas de ajuda mútua” que partilhavam equipamento agrícola e animais, trabalhavam os campos em conjunto e juntavam o seu trabalho para escavar canais e erigir represas, recolher fertilizante e construir novas estradas.

Através destas grandes tempestades de luta, a revolução maoista criou para si própria uma larga base entre os recém-libertados servos do Tibete.

Na 3ª Parte: Uma revolução dentro da revolução

A tempestade da luta de classes no Tibete desagradou a algumas forças poderosas dentro do próprio Partido Comunista da China. Essas forças, chamadas revisionistas, opunham-se à linha revolucionária de Mao e agrupavam-se em torno do líder do partido Liu Shao-chi, do general Lin Piao e de Deng Xiaoping [que liderou a China após o golpe de estado de 1976 – NT]. Elas tinham uma visão completamente diferente (e bastante capitalista) do que devia ser feito no Tibete.

Os revisionistas não viam muitas razões para se mobilizar as massas para derrubarem os proprietários feudais. Eles eram “chauvinistas han” que desprezavam as massas populares tibetanas – consideravam-nas desesperadamente atrasadas e supersticiosas. Achavam que os estudantes tibetanos nos Institutos das Minorias Nacionais deviam ser treinados como gestores e não como organizadores revolucionários. Achavam que o Tibete devia ser governado pelas classes altas educadas, apoiando-se nos meios militares para manterem a região “sob controlo”.

Para esses revisionistas, a luta de classes maoista não passava de uma “perturbação” nos planos deles de exploração do Tibete. Quando olhavam para o Tibete, apenas viam uma fronteira que precisava de ser defendida, recursos minerais para explorarem e um potencial “celeiro” que poderia ajudar a alimentar o resto da China. Eles achavam que desenvolver indústrias independentes ou uma agricultura diversificada era um processo “ineficiente” e um desperdício de tempo. Os revisionistas pensavam poder chegar a um acordo de longo prazo com a classe dominante lamaísta – que fosse lucrativo para ambos.

Mas, nessa época, esses seguidores da via capitalista não detinham todo o poder. Mao estava decidido a liderar as massas populares numa revolução total. Ele lutou para que fosse aplicada uma abordagem revolucionária no Tibete e nas outras regiões das minorias nacionais.

Logo em 1953, Mao escreveu na directiva Critiquemos o Chauvinismo Han: “Em alguns locais, as relações entre as nacionalidades estão longe de se poderem considerar normais. Para os comunistas, isto é uma situação intolerável. Temos de ir ao fundo da questão e criticar as ideias do chauvinismo han que se manifestam nas relações entre as nacionalidades e que existem em elevado grau entre muitos membros e quadros do Partido, nomeadamente, as ideias da burguesia e dos grandes senhores de terras (...). Por outras palavras, as ideias burguesas predominam nas cabeças desses camaradas e elementos do povo que não tiveram uma educação marxista e que não aprenderam a política relativa às nacionalidades definida pelo Comité Central.”5

Em 1956, Mao levantou novamente a questão no famoso discurso dele Sobre as Dez Grandes Relações: “O nosso esforço principal incide na luta contra o chauvinismo han. O nacionalismo local é também de combater, mas, de um modo geral, não é esse o ponto essencial. (...) No passado, os dominantes reaccionários, e sobretudo os da nacionalidade han, criaram barreiras de toda a espécie entre as várias nacionalidades e maltratavam as minorias nacionais. Mesmo entre as massas trabalhadoras não é fácil apagar rapidamente as consequências disso. (...) O ar na atmosfera, as florestas sob o sol, as riquezas do subsolo são outros tantos factores importantes, necessários à edificação socialista. Ora, nenhum factor material pode ser explorado e utilizado sem ser através do factor humano. Nós devemos estabelecer boas relações entre os han e as minorias nacionais e consolidar a união de todas as nacionalidades, de modo a conjugar os nossos esforços na edificação da nossa grande pátria socialista.”6

As tempestades da revolução no Tibete depois de 1959 foram um grande passo em frente para a linha de Mao. Ao mesmo tempo que os servos lutavam pela terra, intensificava-se a luta dentro da própria vanguarda comunista sobre o quão longe deveriam ir esses movimentos. Em muitos lugares do Tibete ainda havia ricos e pobres, mesmo depois da distribuição das terras. Os costumes e outras práticas feudais de todos os tipos ainda eram muito fortes. As novas organizações revolucionárias tinham acabado de ser criadas. A revolução ainda tinha um longo caminho a percorrer.

No início dos anos 60, as forças revisionistas pediram “cinco anos de consolidação” dentro do Tibete – o que para eles significava um arrefecimento da luta. Algumas experiências socialistas no Tibete, como as primeiras Comunas rurais e muitas fábricas novas, foram abandonadas.

Os revisionistas não obtiveram os “cinco anos de consolidação” para reprimirem as massas do Tibete. Em 1965, emergiu uma aguda luta entre as duas linhas dentro do próprio Comité Central do Partido Comunista. O Presidente Mao desencadeou uma “revolução dentro da revolução” sem precedentes, chamada Grande Revolução Cultural Proletária.

Na 3ª Parte desta série, iremos examinar como as tempestades da Grande Revolução Cultural Proletária sacudiram o Tibete.

Continua na 3ª Parte: Os Guardas Vermelhos e as Comunas Populares

NOTAS

1.  Mao Tsétung, “A Frente Única no Trabalho Cultural”, 30 de Outubro de 1944, em Obras Escolhidas, Tomo III, 2ª Edição, p. 287-288 (Pequim: Edições em Línguas Estrangeiras, 1975), marxists.org/portugues/mao/1944/10/30.htm.

2.  Mao Tsétung, “Sobre a Política para o Nosso Trabalho no Tibete – Directiva do Comité Central do Partido Comunista da China”, 6 de Abril de 1952, em Obras Escolhidas, Vol. V, p. 84, (Lisboa: Editora Vento de Leste, 1977), disponível em:

3.  Mao Tsétung, “A Viragem da Segunda Guerra Mundial”, 12 de Outubro de 1942, em Obras Escolhidas, Tomo III, 2ª Edição, p. 154 (Pequim: Edições em Línguas Estrangeiras, 1975), marxists.org/portugues/mao/1942/10/12.htm.

4.  Mao Tsétung, “Relatório sobre uma Investigação Feita no Hunan a Respeito do Movimento Camponês”, Março de 1927, em Obras Escolhidas, Tomo I, 3ª Edição, p. 28-29 (Pequim: Edições em Línguas Estrangeiras, 1975), marxists.org/portugues/mao/1927/03/hunan.htm.

5.  Mao Tsétung, “Critiquemos o Chauvinismo Han”, 16 de Março de 1953, em Obras Escolhidas, Vol. V, p. 101-102 (Lisboa: Editora Vento de Leste, 1977), disponível em:

6.  Mao Tsétung, “Sobre as Dez Grandes Relações”, 25 de Abtil de 1956, em Obras Escolhidas, Vol. V, p. 352-353, (Lisboa: Editora Vento de Leste, 1977), disponível em:

Publicado originalmente no jornal Revolutionary Worker/Obrero Revolucionario n.º 749, 27 de Março de 1994, e posteriormente republicado apenas em inglês no n.º 945, 22 de Fevereiro de 1998:

O anexo “Recrutando jovens rebeldes para a revolução” foi publicado no n.º 749, 27 de Março de 1994:

A série completa está disponível através do índice ou em PDF: PDF