A Verdadeira História da Revolução Maoista no Tibete

1. Quando os dalai-lamas governavam – um inferno na Terra

Um clima cruel, uma sociedade sem piedade

O Tibete é um dos lugares mais remotos do mundo. Situa-se num planalto de alta montanha bem no coração da Ásia. Está separado da Ásia do Sul pelos Himalaias, as montanhas mais altas do mundo. Inúmeros desfiladeiros cavados pelos rios e pelo menos seis diferentes cordilheiras de montanhas dividem esta região em vales isolados. Antes de todas as mudanças que chegaram com a revolução chinesa de 1949, não havia no Tibete nenhuma estrada em que os veículos de rodas pudessem andar. Todas as viagens eram feitas através de sinuosos e perigosos caminhos de montanha – em mulas, a pé ou em iaques (animais de montanha que parecem vacas peludas). O comércio, as comunicações e um governo centralizado eram quase impossíveis de manter.

A maior parte do Tibete está acima da linha das árvores. O ar é muito rarefeito. Aí não crescem a maioria das culturas e das árvores. Era uma luta dura cultivar alimentos e mesmo encontrar lenha para fazer fogo.

Por altura da revolução, a população do Tibete vivia extremamente dispersa. Cerca de dois ou três milhões de tibetanos viviam numa área quase igual a metade dos Estados Unidos – 3,9 milhões de quilómetros quadrados [cerca de 40 vezes Portugal ou metade do Brasil – NT]. As aldeias, mosteiros e acampamentos nómadas estavam frequentemente separados por muitos dias de viagem árdua.

Os revolucionários maoistas viram que havia “Três Grandes Carências” no velho Tibete: carência de combustível, carência de comunicações e carência de pessoas. Os revolucionários concluíram que essas “Três Grandes Carências” não eram causadas pelas condições físicas, mas sobretudo pelo sistema social. Os maoistas disseram que as “Três Grandes Carências” eram causadas pelas “Três Abundâncias” da sociedade tibetana: “abundância de pobreza, abundância de opressão e abundância de temor ao sobrenatural”.

A sociedade de classes no velho Tibete

Antes das mudanças revolucionárias iniciadas em 1949, o Tibete era uma sociedade feudal. Havia duas classes principais: os servos e os aristocratas proprietários dos servos. O povo vivia como os servos na Europa da “Idade das Trevas”, ou como os escravos e os meeiros africanos no Sul dos Estados Unidos.

Os servos tibetanos raspavam as colheitas de cevada da terra dura com arados e foices de madeira. Criavam cabras, ovelhas e iaques para obterem leite, manteiga, queijo e carne. Os aristocratas e os lamas dos mosteiros eram proprietários das pessoas, da terra e da maioria dos animais. Forçavam os servos a entregar a maioria dos cereais e exigiam todo o tipo de trabalhos forçados (chamados ulag). Entre os servos, tanto os homens como as mulheres participavam no trabalho duro, incluindo o ulag. Os povos nómadas dispersos pelas áridas terras altas do Tibete ocidental também eram propriedade dos senhores feudais e dos lamas.

O irmão mais velho do dalai-lama, Thubten Jigme Norbu, alegou que na ordem social lamaísta, “não havia nenhum sistema de classes e a mobilidade de classe para classe tornava impossível qualquer preconceito de classe”. Mas a própria existência dessa ordem religiosa baseava-se num sistema de classes rígido e brutal.

Os servos eram tratados como seres “inferiores” menosprezados – tal como eram tratados os negros no sistema de segregação racial conhecido como Jim Crow do Sul dos Estados Unidos. Os servos não podiam sentar-se nos mesmos sítios, usar o mesmo vocabulário ou comer com os mesmos talheres que os seus proprietários. Tocar num dos pertences dos amos poderia mesmo ser punido com chicotadas. Os amos e os servos estavam tão distantes uns dos outros que em muitas partes do Tibete falavam idiomas diferentes.

Era costume um servo pôr-se de joelhos e mãos no chão para que o seu amo pudesse usar as suas costas para montar um cavalo. O estudioso do Tibete A. Tom Grunfeld descreveu uma menina da classe dominante que habitualmente fazia com que os criados a levassem escada acima e escada abaixo por pura preguiça. Frequentemente, os amos atravessavam os riachos às costas dos seus servos.

No Tibete, a única coisa pior que um servo era um “escravo pessoal” que nem sequer tinha direito a cultivar nenhuma cultura para si próprio. Estes escravos eram frequentemente espancados, obrigados a passar fome e a trabalhar até à morte. Um amo podia transformar um servo em escravo quando quisesse. Na capital do Tibete, Lhasa, havia rotineiramente crianças a ser compradas e vendidas. Cerca de 5% dos tibetanos eram considerados escravos pessoais. E pelo menos outros 10% eram monges pobres que na realidade eram “escravos em túnicas”.

O sistema lamaísta tentava impedir qualquer fuga. Os escravos foragidos não podiam ir simplesmente estabelecer-se nas vastas terras vazias. Alguns ex-servos explicaram à escritora revolucionária Anna Louise Strong que, antes da libertação, “não se podia viver no Tibete sem um amo. Seríamos apanhados como criminosos a não ser que tivéssemos um dono legal.”

A vida de uma escrava no Tibete

No final dos anos 50, numa altura em que as primeiras vagas de libertação varriam o Tibete, uma ex-escrava de 36 anos de idade, Lando, subiu à frente de uma audiência de antigos servos e escravos para testemunhar.

Quando Lando tinha apenas oito anos de idade, o pai dela foi chicoteado até ficar paralisado. O encarregado veio até à cama dele para lhe ordenar que regressasse ao trabalho. Como o pai de Lando não se conseguiu levantar, o encarregado chicoteou-o até à morte por “fingir” – na própria cama dele!

O encarregado afastou-se do morto e agarrou em Lando e levou-a com ele como escrava. Ela dormia no celeiro com as ovelhas que a encarregaram de cuidar. Foi repetidamente violada pelo amo dela e espancada até à inconsciência pela esposa ciumenta dele. Acabou por ficar grávida e foi vendida a outro amo para esconder a “vergonha”. Lando viveu nesse tormento durante 28 anos.

Nunca lhe autorizaram qualquer contacto com a família dela. Rezou muitas vezes pela morte, mas tinha medo de cometer suicídio porque temia que isso fizesse com que renascesse numa reencarnação ainda pior. Quando chegou a libertação, equipas de revolucionários foram ter com os escravos e os servos para os organizar para acabarem com a opressão deles. Mas Lando nunca tinha ouvido a palavra “opressão” e a princípio não entendeu o que queria dizer. Ela sempre tinha pensado que o sofrimento dela era por própria culpa dela – devido ao seu inevitável carma.

Ao ouvir a história de Lando, a reunião de servos libertados lamentou e gritou “Abaixo a servidão!” Nessa altura, Lando já se tinha tornado numa activista revolucionária e numa líder regional.

De Anna Louise Strong, When Serfs Stood Up in Tibet [Quando os Servos Se Ergueram no Tibete], Cap. VI, marxists.org/reference/archive/strong-anna-louise/1959/tibet/

Nascer mulher – prova de pecados passados?

O dalai-lama escreveu: “No Tibete não havia nenhuma discriminação especial contra as mulheres”. O biógrafo autorizado do dalai-lama, Robert Hicks, alega que as mulheres tibetanas estavam contentes com a situação delas e que “influenciavam os seus maridos”. Mas, no Tibete, nascer mulher era considerado um castigo por comportamento “ímpio” (pecador) numa vida anterior. No velho Tibete, a palavra para “mulher”, kiemen, significava “nascimento inferior”. Dizia-se às mulheres que rezassem: “Possa eu rejeitar um corpo feminino e renascer homem”.

A superstição lamaísta associava as mulheres ao mal e ao pecado. Dizia-se: “Em cada dez mulheres encontrarás nove diabos”. Tudo o que as mulheres tocassem era considerado contaminado – pelo que foram criados todos os tipos de tabus sobre as mulheres. As mulheres estavam proibidas de tocar em medicamentos. A escritora Han Suyin relatou: “Nenhuma mulher estava autorizada a tocar nos bens de um lama, nem podia construir uma parede, porque ‘a parede cairia’. (...) Uma viúva era um ser desprezível, um diabo em vida. Nenhuma mulher estava autorizada a usar instrumentos de ferro ou a tocar no ferro. A religião proibia-as de erguerem os olhos acima dos joelhos de um homem, tal como os servos e os escravos não estavam autorizados a erguer os olhos até à face dos nobres ou dos grandes lamas.”

Os monges das principais seitas do Budismo Tibetano rejeitavam a intimidade sexual (ou mesmo o contacto) com mulheres, como parte dos seus planos de santidade. Antes da revolução, nenhuma mulher tinha alguma vez posto os pés na maior parte dos mosteiros ou nos palácios do dalai-lama.

Há relatos de mulheres queimadas por darem à luz gémeos ou por praticarem a religião tradicional pré-budista (conhecida como Bon). Os gémeos eram considerados prova de que a mulher tinha acasalado com um mau espírito. Os rituais e a medicina popular da Bon eram considerados “bruxaria”. Como noutras sociedades feudais, as mulheres da classe alta eram vendidas em casamentos arranjados. A tradição permitia que um marido cortasse a ponta do nariz da mulher caso descobrisse que ela tinha dormido com outra pessoa. As práticas patriarcais incluíam a poliginia (em que um homem rico podia ter muitas mulheres) e, nas famílias nobres das terras mais pobres, a poliandria (em que uma mulher era forçada a ser esposa de vários irmãos).

Entre as classes mais baixas, a vida familiar era semelhante à da escravatura no Sul dos EUA. (Ver “A vida de uma escrava no Tibete”, em anexo.) Os servos não podiam casar nem sair de uma propriedade sem autorização do amo. Os amos transferiam à sua vontade os servos de uma propriedade para outra, separando para sempre as famílias deles. A violação das servas era comum – no sistema ulag, um senhor feudal podia exigir “esposas” temporárias.

Os três amos

O povo tibetano chamava aos seus governantes “os três grandes amos” porque a classe dominante dos proprietários de servos estava organizada em três instituições: os lamas dos mosteiros possuíam 37% das terras aráveis e de pastoreio do velho Tibete; a aristocracia laica 25%; e os restantes 38% estavam nas mãos dos agentes governamentais nomeados pelos conselheiros do dalai-lama.

Cerca de 2% da população do Tibete pertencia a essa classe alta e mais 3% eram seus funcionários, encarregados, mordomos, gerentes das propriedades e oficiais dos exércitos privados. A ger-ba, uma minúscula elite de cerca de 200 famílias, governava no topo do sistema. Han Suyin escreveu: “Apenas 626 pessoas possuíam 93% de toda a terra e riqueza e 70% de todos os iaques do Tibete. Entre essas 626 pessoas estavam 333 dirigentes de mosteiros e responsáveis religiosos e 287 autoridades laicas (incluindo nobres do exército tibetano) e seis ministros do governo”.

Os comerciantes e os artesãos também pertenciam a um aristocrata. Um quarto da população da capital Lhasa sobrevivia a mendigar aos peregrinos religiosos. Não havia nenhuma indústria moderna nem uma classe operária. Até os fósforos e os pregos tinham de ser importados. Antes da revolução, ninguém no Tibete alguma vez tinha recebido salário pelo seu trabalho.

A essência desse sistema era a exploração. Os servos trabalhavam 16 a 18 horas por dia para enriquecerem os amos deles – recebendo apenas cerca de um terço da comida que produziam.

A. Tom Grunfeld escreveu: “Essas propriedades eram extremamente lucrativas. Um antigo aristocrata disse que uma ‘pequena’ propriedade consistiria tipicamente em alguns milhares de ovelhas, mil iaques, um número indeterminado de nómadas e duzentos servos agrícolas. A produção anual consistiria em mais de 36 toneladas de cereais, mais de 1800 kg de lã e quase 500 kg de manteiga. (...) Os funcionários governamentais tinham ‘poderes ilimitados de extorsão’ e podiam fazer uma fortuna com os poderes deles, extraindo subornos em troca de não encarcerarem nem castigarem as pessoas. (...) Também podiam extorquir aos camponeses mais dinheiro que o dos impostos oficiais”.

Os proprietários dos servos eram parasitas. Um observador, Sir Charles Bell, descreveu um funcionário típico que passava uma hora por dia nas tarefas oficiais dele. Nas suas festas, a classe alta passava dias a comer, jogar e descansar. Os lamas aristocratas também nunca trabalhavam. Passavam os dias a cantar, a memorizar dogmas religiosos e a não fazer nada.

Os mosteiros: praças-fortes do feudalismo

Os defensores do velho Tibete retratam o Budismo Lamaísta como a essência da cultura do povo tibetano. Mas na realidade não é mais que a ideologia de um sistema social opressor específico. A própria religião lamaísta é exactamente tão antiga quanto a sociedade feudal de classes. O primeiro rei tibetano, Songsten-gampo, estabeleceu um sistema feudal unificado no Tibete, por volta do ano 650. Casou-se com princesas da China e do Nepal para aprender com elas as práticas feudais de fora do Tibete. Essas princesas trouxeram o Budismo Tântrico para o Tibete, onde foi fundido com as antigas crenças animistas para criar uma nova religião, o Lamaísmo.

Essa nova religião teve de ser imposta pela violência ao povo pela classe dominante durante o século e meio seguinte. O rei Trosong Detsen decretou: “Quem apontar um dedo a um monge terá o dedo cortado; quem disser mal dos monges e da política budista do rei terá os lábios cortados; quem olhar desconfiadamente terá os olhos arrancados (...)” (Grunfeld, pág. 33).

Entre os séculos XIII e XVII, teve lugar uma sangrenta consolidação do poder e os abades dos grandes mosteiros tomaram o poder global. Como esses abades praticavam um celibato misógino (anti-mulher), o novo sistema político deles não se podia basear na sucessão hereditária de pai para filho. Por isso, os lamas criaram uma nova doutrina na religião deles: anunciaram que conseguiam identificar crianças recém-nascidas que seriam reencarnações dos altos lamas mortos. Centenas de altos lamas foram declarados “Budas Vivos” (Bodhisattvas) que supostamente governavam há séculos, mudando ocasionalmente para novos corpos quando se gastavam os velhos corpos hospedeiros.

Disseram que o símbolo central desse sistema, os vários homens chamados dalai-lamas, eram o antigo deus tibetano da natureza, Chenrezig, que pura e simplesmente tinha reaparecido em 14 corpos diferentes ao longo dos séculos. Na realidade, apenas 3 dos 14 dalai-lamas governaram de facto. Não houve nenhum dalai-lama adulto no trono do Tibete entre 1751 e 1950 durante 77% do tempo. Os abades mais poderosos governavam como conselheiros “regentes” que ensinavam, manipulavam e chegavam a assassinar as crianças-reis dalai-lamas.

Os mosteiros tibetanos não eram nenhuns Shangri-Las santos e de compaixão, como nas actuais fantasias New Age. Esses mosteiros eram escuras fortalezas de exploração feudal – aldeias armadas de monges, que incluíam depósitos militares e exércitos privados. Os peregrinos iam para alguns santuários para rezarem por uma vida melhor. Mas a principal actividade dos mosteiros era roubar os camponeses vizinhos. O enorme e ocioso clero religioso cultivava pouca comida – alimentá-los era um grande fardo para o povo.

Os maiores mosteiros alojavam milhares de monges. Cada mosteiro “pai” criava dezenas (ou mesmo centenas) de pequenas praças-fortes dispersas pelos vales das montanhas. Por exemplo, o enorme mosteiro de Drepung alojava 7000 monges e era proprietário de 40 mil pessoas em 185 diferentes propriedades com 300 pastos.

Os mosteiros também criaram inúmeros impostos religiosos para roubarem o povo – incluindo impostos sobre cortes de cabelo, janelas, soleiras de portas, sobre crianças ou bezerros recém-nascidos, sobre bebés nascidos com pálpebras duplas... e assim sucessivamente. Um quarto dos rendimentos de Drepung vinha dos juros do dinheiro emprestado aos servos camponeses. Os mosteiros também exigiam aos servos que entregassem um grande número de rapazes para servirem como crianças-monges.

As relações de classe do Tibete foram reproduzidas dentro dos mosteiros: a maior parte dos monges eram escravos e criados dos abades superiores e viviam vidas semi-esfomeadas de trabalho servil, cânticos de orações e espancamentos rotineiros. Os monges superiores podiam obrigar os monges pobres a fazerem os seus exames religiosos ou a prestarem serviços sexuais. (Na seita tibetana mais poderosa, o sexo homossexual era considerado um sinal de sagrada distância em relação às mulheres.) As freiras constituíam uma pequena percentagem do clero.

Depois da libertação, Anna Louise Strong perguntou a um jovem monge, Lobsang Telé, se a vida do mosteiro seguia os ensinamentos budistas sobre a compaixão. O jovem lama respondeu que nas salas das escrituras ouvia muita conversa sobre generosidade para com todas as criaturas vivas, mas que a ele o tinham chicoteado pelo menos mil vezes. “Se algum lama da classe alta se abstém de nos chicotear”, disse ele a Strong, “isso já é muito bom. Eu nunca vi um lama superior a dar comida a nenhum lama pobre que tivesse fome. Eles tratavam os leigos crentes da mesma forma ou ainda pior”.

Nos dias de hoje, o dalai-lama é “apresentado” internacionalmente como um homem santo não-materialista. Na realidade, o dalai-lama era o maior proprietário de servos do Tibete. Legalmente, possuía todo o país e todos os seus habitantes. Na prática, a família dele controlava directamente 27 solares, 36 pastos, 6170 servos de campo e 102 escravos domésticos.

Quando se movia de palácio em palácio, o dalai-lama seguia num trono transportado por dezenas de escravos. As tropas dele marchavam ao som de “It's a Long Way To Tipperary”, uma canção que tinham aprendido com os seus instrutores imperialistas britânicos. Ao mesmo tempo, os guarda-costas do dalai-lama, todos com mais de dois metros de altura, ombros almofadados, caras pintadas e longos chicotes, espancavam as pessoas para as afastar do caminho. Este ritual é descrito na autobiografia do dalai-lama.

Da primeira vez que fugiu para a Índia em 1950, os conselheiros do dalai-lama enviaram à frente várias centenas de mulas carregadas de barras de ouro e prata para assegurarem o conforto dele no exílio. Depois da segunda vez que fugiu, em 1959, a revista Peking Review noticiou que a família dele tinha deixado para trás grandes quantidades de ouro e prata, mais de 20 331 jóias e 14 676 peças de roupa.

Uma pobreza amarga, uma morte precoce

As pessoas viviam constantemente com frio e fome. Os servos recolhiam interminavelmente a escassa madeira existente para os amos deles. Mas as próprias cabanas deles só eram aquecidas por pequenos fogões de cozinha a excrementos de iaque. Antes da revolução não havia electricidade no Tibete. A escuridão só era iluminada por trémulas lamparinas de manteiga de iaque.

Os servos ficavam frequentemente doentes de desnutrição. A comida tradicional das massas populares é uma polpa feita de chá, manteiga de iaque e uma farinha de cevada chamada tsampa. Os servos raramente comiam carne. Um estudo feito em 1940 no Tibete oriental dizia que 38% das casas nunca tinham qualquer chá – e apenas bebiam ervas selvagens ou “chá branco” (água fervida). Setenta e cinco por cento das famílias eram por vezes forçadas a comer relva. Metade das pessoas não tinha possibilidade de obter manteiga – a principal fonte de proteínas disponível.

Entretanto, um importante santuário, o Jokka Kang, queimava diariamente quatro toneladas de ofertas de manteiga de iaque. Calcula-se que um terço de toda a manteiga produzida no Tibete se transformava em fumo em quase 3000 templos, sem contar com os pequenos altares em cada casa.

No velho Tibete, não se sabia nada sobre higiene básica, saúde pública ou o facto de os germes causarem doenças. As pessoas comuns não tinham sanitas, esgotos ou casas de banho. Os lamas ensinavam que a doença e a morte eram causadas pela “impiedade” pecadora. Diziam que os cânticos, a obediência, dar dinheiro aos monges e engolir rolos de papel de oração eram as únicas verdadeiras protecções contra as doenças.

As antigas superstições do Tibete, as práticas feudais e o baixo nível das forças produtivas faziam com que as pessoas sofressem terrivelmente com doenças. A maioria das crianças morria antes do primeiro aniversário delas. Mesmo a maioria dos dalai-lamas não chegou aos 18 anos de idade e morreu antes das respectivas coroações. Um terço da população tinha varíola. Em 1925, uma epidemia de varíola matou 7000 pessoas em Lhasa. Não se sabe quantas morreram no campo. A lepra, a tuberculose, a papeira, o tétano, a cegueira e as úlceras eram muito comuns. Os hábitos sexuais feudais propagavam as doenças venéreas, incluindo nos mosteiros. Antes da revolução, cerca de 90% da população estava infectada – causando uma generalizada esterilidade e morte. Depois, sob a liderança de Mao Tsétung, a revolução conseguiu reduzir enormemente essas enfermidades – mas isso implicou uma intensa luta de classes contra os lamas e as superstições religiosas deles. Os monges denunciaram os antibióticos e as campanhas de saúde pública, dizendo que era pecado matar os piolhos ou mesmo os germes! Os monges denunciaram o Exército Popular de Libertação por este eliminar as grandes matilhas de cães selvagens infestados de raiva que aterrorizavam as pessoas em todo o Tibete. (Ainda hoje, uma das “acusações” contra a revolução maoista é que “matava cães”!)

Crânios e ossos de pessoas torturadas, um amo carregado por um servo, um servo exausto dorme ao lado de um cão, instrumentos de tortura
Reminiscências de um passado amargo.
Em cima: crânios e ossos de pessoas torturadas, um amo carregado por um servo. Em baixo: um servo exausto dorme ao lado de um cão, instrumentos de tortura. (Fonte: Peking Review, 4 de Julho de 1975)

A violência dos lamas

No velho Tibete, as classes altas pregavam uma não-violência budista mística. Mas, como todas as classes dominantes da história, praticavam uma violência reaccionária para manterem o seu domínio delas.

O sistema lamaísta de governo foi forjado em lutas sangrentas. Sabe-se que os primeiros lamas assassinaram o último rei tibetano, Lang Darma, no século X. Depois, durante séculos, levaram a cabo guerras civis que incluíram massacres mútuos de mosteiros inteiros. No século XX, o 13º dalai-lama trouxe instrutores imperialistas britânicos para modernizarem o exército nacional dele. Ofereceu mesmo algumas das tropas dele para ajudarem os britânicos na I Guerra Mundial.

Estes factos históricos só provam que as doutrinas lamaístas de “compaixão” e “não-violência” são uma hipocrisia.

A antiga classe dominante nega que houvesse luta de classes no velho Tibete. Um relato típico de Gyaltsen Gyaltag, um representante do dalai-lama na Europa, diz: “Antes de 1950, os tibetanos nunca passaram fome e as injustiças sociais nunca resultaram numa insurreição popular”. É verdade que há poucos registos escritos da luta de classes. A razão disso é que o Lamaísmo impediu que fossem escritas quaisquer histórias verdadeiras. Apenas foram registadas as disputas sobre dogmas religiosos.

Mas as montanhas do Tibete estavam cheias de bandidos foragidos e cada propriedade tinha os seus próprios soldados armados. Isto só prova que uma luta constante – por vezes aberta, por vezes escondida – definia a sociedade tibetana e as suas relações de poder.

Os historiadores revolucionários documentaram insurreições dos servos tibetanos em 1908, 1918, 1931 e nos anos 40. Numa famosa insurreição em 1918, 150 famílias de servos do município de Thridug, no norte do Tibete, ergueram-se lideradas por uma mulher, Hor Lhamo. Mataram o dirigente do município, sob as palavras de ordem: “Abaixo os funcionários! Abolição de todo o trabalho forçado ulag!”

A violência diária no velho Tibete era dirigida contra as massas populares. Cada amo castigava os “seus” servos e organizava bandos armados para imporem o seu domínio. Esquadrões de monges brutalizavam as massas populares. Eram chamados “Barras de Ferro” devido às grandes barras metálicas que usavam para bater nas pessoas.

Era crime “sair do seu lugar” – como pescar ou caçar ovelhas selvagens que os lamaístas consideravam “sagradas”. Era mesmo crime que um servo recorresse das decisões do seu amo junto de outra autoridade. Quando os servos fugiam, os bandos dos seus amos perseguiam-nos. Cada propriedade tinha o seu próprio calabouço e câmara de tortura. Introduziam pimenta sob as pálpebras e espigas debaixo das unhas. Ligavam as pernas dos servos com pequenas grilhetas e libertavam-nos para que andassem a coxear para o resto da vida.

Grunfeld escreveu: “As crenças budistas excluem tirar a vida, pelo que chicotear uma pessoa até à beira da morte e libertá-la para morrer noutro lugar permitia então aos responsáveis tibetanos que justificassem a morte como ‘um acto de Deus’. Outras formas brutais de castigo incluíam cortar as mãos pelos pulsos, arrancar olhos com ferros incandescentes, pendurar pelos polegares ou estropiar o ofensor, cosê-lo numa bolsa e atirar a bolsa ao rio”.

Como sinais do poder dos lamas, as cerimónias tradicionais usavam partes dos corpos de pessoas que tinham morrido: flautas feitas de ossos de coxas humanas, tigelas feitas de crânios, tambores feitos de pele humana. Depois da revolução, foi encontrado no palácio do dalai-lama um rosário feito de 108 crânios diferentes. Depois da libertação, os servos relataram extensivamente que os lamas faziam sacrifícios humanos rituais – incluindo enterrar filhos de servos vivos nas cerimónias da primeira pedra dos mosteiros. Os antigos servos testemunharam que pelo menos 21 pessoas tinham sido sacrificadas pelos monges em 1948 na esperança de impedirem a vitória da revolução maoista.

Usar o carma para justificar a opressão

Uma crença central do lamaísmo é a reencarnação e o carma. Dizem que cada ser vivo é habitado por uma alma imortal que nasceu e renasceu muitas vezes. Após cada morte, supostamente a alma obtém um novo corpo.

Segundo o dogma do carma, cada alma recebe a vida que merece: um comportamento piedoso conduz a um bom carma – e com isso vem uma subida de estatuto social na vida seguinte. Um comportamento ímpio (pecador) conduz a um mau carma e a próxima vida poderá ser como insecto (ou como mulher).

Na realidade, isso da reencarnação não existe. As pessoas mortas não regressam em novos corpos. Mas, no Tibete, a crença na reencarnação teve terríveis consequências reais. As pessoas intrigadas pelo misticismo tibetano precisam de perceber a função social que essas crenças lamaístas serviam dentro do Tibete: o Budismo Lamaísta foi criado, implementado e perpetuado para impor uma extrema opressão feudal sobre o povo.

Os lamaístas contam hoje a história de um antigo rei tibetano que queria fechar o fosso entre ricos e pobres. O rei perguntou a um académico religioso por que é que os esforços dele tinham fracassado. “Diz-se que o sábio lhe explicou que o fosso entre ricos e pobres não podia ser fechado à força, porque as actuais condições de vida são sempre consequência de actos de vidas anteriores e por isso o curso da vida não podia ser mudado arbitrariamente”.

Grunfield escreveu: “De um ponto de vista puramente laico, esta doutrina deve ser sempre vista como uma das formas mais engenhosas e perniciosas de controlo social jamais inventado. Para o tibetano comum, a aceitação dessa doutrina excluía a possibilidade de alguma vez mudar o seu destino nesta vida. A doutrina do carma ensina que se alguém nasce escravo, isso não é culpa do esclavagista mas antes do próprio escravo por ter cometido alguma falta numa vida anterior. Por outro lado, o esclavagista apenas está a ser recompensado pelas boas acções dele numa vida anterior. Para o escravo, tentar romper as grilhetas que o prendem equivale a uma autocondenação a renascer numa vida pior que a que já padece. Certamente este não é o material de que são feitas as revoluções (...).”

Os abades-lamas feudalistas do Tibete ensinavam que o lama supremo deles era um único ser divino deus e rei – cujo domínio e sistema impiedoso era uma exigência dos mecanismos naturais do universo. Esses mitos e superstições ensinavam que não podia haver nenhuma mudança social, que o sofrimento tem uma justificação e que para deixarem de sofrer as pessoas tinham de tolerar pacientemente o sofrimento. Isto é quase exactamente o mesmo que a igreja católica medieval da Europa dizia às pessoas em defesa de um sistema feudal semelhante.

Também tal como na Europa medieval, os feudalistas do Tibete tentaram reprimir tudo o que pudesse minar o sistema “fechado” deles. Todos os observadores concordam em que, antes da revolução maoista, não havia jornais, revistas, livros impressos ou literatura não-religiosa de qualquer tipo no Tibete. O único jornal em língua tibetana era publicado em Kalimpong por um cristão tibetano convertido. As fontes de notícias do mundo exterior eram os viajantes e duas dezenas de rádios de onda curta que apenas pertenciam a membros da classe dominante.

As massas criaram um folclore, mas o idioma escrito estava reservado aos dogmas e disputas religiosas. As massas populares e provavelmente a maioria dos monges eram mantidos completamente analfabetos. A educação, as notícias do exterior e a experimentação eram consideradas suspeitas e maléficas.

Os defensores do lamaísmo agem como se essa religião fosse a essência da cultura (e mesmo da existência) do povo tibetano. Isso não é verdade. Tal como todas as coisas na sociedade e na natureza, o Budismo Lamaísta teve um início e terá um fim. Houve culturas e ideologias no Tibete antes do lamaísmo. Depois surgiram esta cultura e esta religião feudais conjugadas com a exploração feudal. Era inevitável que a cultura lamaísta se estilhaçasse com o fim dessas relações feudais.

De facto, quando em 1950 surgiu a revolução maoista, esse sistema já estava a apodrecer por dentro. Mesmo o dalai-lama admite que a população do Tibete estava em declínio. Estima-se que havia cerca de 10 milhões de tibetanos há mil anos, quando o Budismo foi inicialmente introduzido – por altura da revolução maoista restavam apenas dois ou três milhões. Os maoistas estimaram que o declínio se tinha acelerado: a população tinha-se reduzido a metade durante os 150 anos anteriores.

O sistema lamaísta sobrecarregava as pessoas com uma enorme exploração. Impunha o fardo especial do apoio a um clero enorme, parasita e que não se reproduzia, de cerca de 200 mil pessoas – que absorvia 20% ou mais dos homens da região. O sistema reprimia o desenvolvimento das forças produtivas: impedia o uso de arados de ferro, a exploração de minas de carvão ou de combustíveis, a pesca e a caça e as inovações médicas e sanitárias de qualquer tipo. A fome, a esterilidade causada pelas doenças venéreas e a poliandria mantinham baixas as taxas de natalidade.

O invólucro místico do lamaísmo não consegue esconder que a velha sociedade tibetana era uma ditadura dos proprietários sobre os servos. Não há nada que possa ser romantizado nessa sociedade. Os servos e os escravos precisavam de uma revolução!

Na 2ª Parte: A revolução maoista chega ao Tibete

Nas décadas de 30 e 40 surgiu uma guerra popular revolucionária entre os camponeses da China central. Sob a direcção do Partido Comunista e do seu Presidente Mao Tsétung, em 1949 a revolução tomou o poder de estado nas zonas densamente povoadas do leste da China. Por essa altura, as manobras norte-americanas já começavam a surgir na fronteira da China com a Coreia e os imperialistas franceses estavam a iniciar a sua invasão colonialista do Vietname, na fronteira meridional da China. Os revolucionários maoistas desejavam claramente libertar os oprimidos de toda a China e afugentar os agressores estrangeiros das regiões fronteiriças da China.

Mas o Tibete colocava um problema particular: até 1950, essa enorme região tinha estado quase completamente isolada do vendaval revolucionário que sacudiu o resto da China. Não havia quase nenhum comunista tibetano. Não havia nenhum movimento comunista clandestino entre os servos do Tibete. De facto, os servos do Tibete não tinham ideia nenhuma que estava a ocorrer uma revolução noutras zonas do seu país, ou mesmo que uma coisa como uma “revolução” fosse possível.

A influência do sistema lamaísta e da sua religião era extremamente forte no Tibete. Não podia ser quebrada pura e simplesmente com as tropas revolucionárias da maioria étnica han a chegarem e a “declararem” que o feudalismo estava abolido! Mao Tsétung rejeitava a abordagem “comandista” de “fazer as coisas em nome das massas”. A revolução maoista confia nas massas.

Na 2ª Parte desta série, discutiremos como a revolução maoista ganhou raízes no Tibete e como resultou em grandes tempestades de massas que varreram a opressão lamaísta.

Continua na 2ª Parte: O assalto aos céus

Fontes:

  • The Anguish of Tibet [A Angústia do Tibete], ed. por Petra Kelly, Gert Bastian e Pat Aeillo, Parallax Press, Berkeley, 1991. Uma colecção de ensaios pró-lamaístas.
  • Avedon, John F., “In Exile from the Land of Snows” [“No exílio vindo da terra das neves”], em The Anguish of Tibet. Avedon, autor e jornalista da revista Newsweek, é um destacado apologista do lamaísmo.
  • Dalai-lama, Liberdade no Exílio – Uma Autobiografia do Dalai-Lama do Tibete, Inquérito, Portugal, 1992, e Siciliano, Brasil, 1992.
  • Grunfeld, A. Tom, The Making of Modern Tibet [A Criação do Tibete Moderno], Zed Books, 1987.
  • Grunfeld, A. Tom, “Tibet: Myths and Realities” [“Tibete: Mitos e realidades”], New China, Outono de 1975.
  • Gyaltag, Gyaltsen, “An Historical Overview” [“Uma perspectiva histórica”], um ensaio publicado em The Anguish of Tibet. Gyaltsen Gyaltag é um representante do dalai-lama na Europa.
  • Han Suyin, Lhasa, the Open City – A Journey to Tibet [Lhasa, A Cidade Aberta – Uma Jornada ao Tibete], Putnam, 1977.
  • Hicks, Roger, Hidden Tibet – The Land and Its People [O Tibete Escondido – A Terra e o Seu Povo], Element Books, Dorset, 1988.
  • “Tibet – From Serfdom to Socialism” [“Tibete – Da servidão ao socialismo”], China Reconstructs, reproduzido em Anna Louise Strong, When Serfs Stood Up in Tibet [Quando os Servos Se Ergueram no Tibete], Anexo IV, New World Press, Peiking, 1959, marxists.org/reference/archive/strong-anna-louise/1959/tibet/ch17.htm.
  • “Tibet's Big Leap – No Return to the Old System” [“O grande salto do Tibete – Sem regresso ao velho sistema”], Peking Review, 4 de Julho de 1975, p. 27-29, marxists.org/subject//china/peking-review/1975/PR1975-27.pdf.

Publicado originalmente no jornal Revolutionary Worker/Obrero Revolucionario n.º 748, 20 de Março de 1994, e posteriormente republicado apenas em inglês no n.º 944, 15 de Fevereiro de 1998:

O anexo “A vida de uma escrava no Tibete” foi publicado no n.º 748, 20 de Março de 1994:

A série completa está disponível através do índice ou em PDF: PDF