Se dois alfaiates anunciarem que têm um tecido de linha mágica que só alguns conseguem ver e que quem o consegue ver pode ajudar o povo tibetano, muita gente reconhecerá aí a história de “O rei vai nu”.

Mas os mitos tecidos à volta do dalai-lama são mais enganadores. Em consequência disso, nos países ocidentais muitos intelectuais, estudantes e artistas crêem que o dalai-lama representa uma justa luta de libertação no Tibete. Vários filmes sobre a vida dele e vários espectáculos musicais têm apelado ao regresso dele ao poder.

Segundo a mitologia desse movimento, o Tibete tradicional era uma sociedade harmoniosa e a Revolução Chinesa de 1949 foi uma invasão que iniciou um longo pesadelo para o povo tibetano. Algumas pessoas até acreditam que apoiar o dalai-lama é uma forma de se oporem ao governo norte-americano, por este ter ligações ao governo chinês.

A realidade é bem o contrário.

No antigo Tibete, o dalai-lama era o líder de uma sociedade feudal opressora. Quando a Revolução Chinesa chegou ao Tibete em 1950, os sacerdotes (chamados lamas) e os aristocratas opuseram-se à libertação dos servos, que viviam em condições de escravatura. Durante os anos 50, o dalai-lama (que se manteve no poder) e a família dele estabeleceram uma relação com a CIA, que financiava e abastecia de armas os levantamentos no Tibete e na vizinha região de Kham. Quando o dalai-lama abandonou o país em 1959, foi acompanhado por dois agentes da CIA (o cozinheiro dele e um radiotelegrafista). No exílio, depois de 1959, a família dele conspirou com a CIA para sabotar as mudanças revolucionárias que estavam a transformar a região.

Será que o dalai-lama é um “combatente da liberdade” ou um “humilde monge” (como o mesmo gosta de dizer)? De forma nenhuma! É um fiel servidor de uma ordem social opressora e uma mascote querida da CIA.

Em 1976, um golpe de estado derrubou os revolucionários maoistas na China e, para grande alegria do Ocidente, um novo governo pró-capitalista dirigido por Deng Xiaoping tomou o poder. Esses acontecimentos tiveram graves consequências para o povo tibetano.

Desde essa data, os imperialistas norte-americanos têm aplicado uma táctica “dúplice” face a esse reaccionário governo chinês e nela o dalai-lama tem desempenhado um papel especial.

Por um lado, os imperialistas têm muitos laços, tanto económicos como geoestratégicos, com a China. A restauração capitalista abriu as portas a novos investimentos e formas de domínio e Washington tem feito tudo o que é possível para aproveitar essas oportunidades.

Mas, por outro lado, também pressiona os dirigentes chineses para que sejam mais submissos às suas exigências. Com esse objectivo tem aproveitado a situação no Tibete e promovido o dalai-lama.

Estas tácticas dúplices têm levado muitos progressistas a pensar que apoiar o dalai-lama e a independência do Tibete (ou seja, o Tibete contra a China) é uma posição justa e de oposição ao imperialismo. Na realidade, estão a deixar-se enganar.

O programa do dalai-lama não tem nada a ver com a libertação do povo tibetano. Ele apela a um acordo entre o governo chinês e a antiga classe dominante tibetana (actualmente no exílio). Quer que lhe devolvam alguns privilégios e um certo grau de influência da hierarquia religiosa e, em troca, oferece-se para ajudar a apaziguar a população com a sua filosofia pacifista. Se bem que o governo chinês não tenha mostrado o menor interesse nessas propostas, o dalai-lama continua a apresentá-las em digressões internacionais.

A verdadeira revolução no Tibete, bem como o papel do dalai-lama, não são como a pintam. Na realidade, a única solução para o povo do Tibete é a luta contra os que restauraram o capitalismo na China, contra os imperialistas norte-americanos e contra todas as potências imperialistas que exploram a mão-de-obra e os recursos da região.

Nós, que vivemos nas entranhas da besta imperialista, temos a obrigação de não nos deixarmos enganar; de examinarmos a roupa do imperador.

A 1ª Parte desta série mostra como a antiga sociedade tibetana era um lugar extremamente opressor: a vasta maioria das pessoas vivia escravizada, brutalizada e explorada por uma minúscula classe dominante de aristocratas e altos lamas (sacerdotes budistas).

As 2ª e 3ª Partes descrevem como os maoistas organizaram as classes oprimidas do Tibete para se libertarem – tomando as terras dos antigos exploradores, abolindo privilégios e superstições feudais com séculos de existência e desenvolvendo novas formas colectivas de propriedade e poder.

Na 4ª Parte desta série mostramos que o golpe de estado reaccionário na China em 1976, após a morte de Mao, levou ao poder forças ANTI-maoistas. Esta restauração do capitalismo inverteu as políticas de Mao em todas as áreas. Em resultado disso, a divisão entre ricos e pobres reemergiu nos campos do Tibete, as políticas chauvinistas da maioria étnica chinesa (han) ameaçaram a cultura e os direitos de minorias étnicas como a tibetana e o poder militar do estado voltou-se contra o próprio povo.

Na 5ª Parte discutimos a natureza de classe das forças do dalai-lama no exílio – descrevendo como a classe dominante tibetana exilada ajudou a criar um exército apoiado pela CIA ao estilo dos contras nicaraguenses e como eles organizaram uma sociedade opressora nos campos de exilados tibetanos na Índia.

Na 6ª Parte continuamos essa análise da natureza de classe do dalai-lama – focando especificamente as suas recentes propostas para o Tibete e mostrando como elas nada têm a ver com a libertação do povo tibetano.


Esta série em 6 partes surgiu originalmente em inglês e em castelhano no jornal Revolutionary Worker/Obrero Revolucionario, voz do Partido Comunista Revolucionário, EUA (revcom.us). Ver as datas de publicação e os links originais em cada um dos artigos.

A série está disponível:
em formato PDF: 
em inglês:            revcom.us/a/firstvol/tibet/tib-in.htm
em castelhano:    revcom.us/a/firstvol/tibet/tib-in_s.htm