Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 18 de Maio de 2009, aworldtowinns.co.uk

O seguinte artigo foi-nos enviado pelo Movimento Popular Revolucionário, México
(mpr-mexico.blogspot.com/2009/05/influenza-porcina-lo-puerco-es-este.html).

A gripe suína e este sistema obsceno

A nova variante da gripe agora chamada A/H1N1 trouxe a ameaça de uma pandemia global, tendo causado a morte de 58 mexicanos desde 12 de Maio. É muito provável que o surgimento desta doença tenha sido acelerado numa grande quinta capitalista de criação de porcos como as Granjas Carroll em Puebla e Veracruz. Não há dúvida que a natureza do sistema capitalista em que vivemos a tornou ainda mais mortal.

O risco de uma pandemia, semelhante às três principais pandemias do último século, em 1918, 1957 e 1968, que resultaram na morte de milhões de pessoas em todo o mundo, aparece quando, através de uma recombinação ou mutação genética, surge uma nova variante da gripe que é facilmente transmissível entre os seres humanos e contra a qual, porque é nova, as pessoas ainda não desenvolveram resistência.

As indústrias capitalistas de quintas de porcos:
Criado o terreno para novas doenças perigosas

As grandes quintas capitalistas de criação de porcos, que estão organizadas, por definição, segundo o princípio do máximo lucro privado e não da sua utilidade para a sociedade, aceleraram enormemente a recombinação do vírus da gripe (o processo de troca de genes entre diferentes variantes da gripe). Os corpos dos porcos são perfeitos para a criação de novas variantes da gripe. Muitas vezes, os vírus originários de aves, porcos e seres humanos recombinam-se geneticamente neles, produzindo variantes que são transmissíveis entre os seres humanos. Crê-se que foi isso que aconteceu com as anteriores pandemias e a maioria dos cientistas acredita que é esse o caso da nova variante A/H1N1, a qual combina materiais genéticos de porcos, aves e seres humanos.

Este processo tem sido facilitado e acelerado nas últimas décadas pela transformação das tradicionais quintas de criação de porcos em gigantescos complexos industriais como as Granjas Carroll em Puebla e Veracruz, as quais produzem um milhão de porcos por ano. Sufocados por uma intensa sobrepopulação e pelas enormes quantidades de excrementos daí resultantes, os porcos trocam patógenos a um ritmo muito elevado. Um sinal de alarme antecipado ocorreu em 1998 quando uma variante altamente patológica devastou uma vara de suínos numa quinta da Carolina do Norte, nos EUA. Desde então, quase todos os anos começaram a surgir novas variantes. Como relatava em 2003 um artigo de Bernice Wuethrich na revista Science, “após anos de estabilidade, o vírus da gripe suína norte-americana saltou para a via rápida da evolução.”

O ano passado, um relatório do Centro de Investigação Pew, com sede nos EUA, sobre “a produção animal em quintas industriais” avisava: “A ininterrupta reciclagem do vírus (...) em grandes varas, bandos e rebanhos irá aumentar a oportunidade de geração de vírus modernos, através de mutações ou eventos de recombinação que poderão facilitar uma mais efectiva transmissão humano-humano”. Estas investigações têm sido sistematicamente obstruídas pelas grandes empresas industriais desse sector, entre as quais a Smithfield Foods, multada em 1997 nos EUA devido a graves danos ambientais e riscos sanitários. A Smithfield é detentora de metade das acções das Granjas Carroll.

Vários jornalistas presentes em Puebla e Veracruz relataram que as instalações das Granjas Carroll são o inferno na terra. As comunidades vizinhas estão infestadas com o odor fedorento e os enxames de moscas que saem dessas quintas, para além do gás metano produzido nas lagoas de oxigenação ou “biodigestores”, fossas cheias de porcos descartados devido a doenças e feridas ou pisados até à morte. A água preta que neles se vê é uma mistura tóxica de fezes, urina e resíduos de substâncias químicas, agentes biológicos e antibióticos. Em 2003, a Conagua (a comissão mexicana para a água) apresentou abundantes provas de contaminação da água, mas retirou as acusações em 2006, sob pressão da empresa. Há anos que os habitantes locais protestam contra a destruição do meio ambiente e as persistentes doenças gastrointestinais e respiratórias causadas pelas quintas, mas a única resposta do governo foi prender cinco activistas ambientais dessas comunidades, por insistência da empresa, com falsas acusações de roubo e “ataque a vias de passagem”.

Foi exactamente numa dessas zonas, a comunidade chamada La Gloria na municipalidade de Perote, em Vera Cruz, que surgiu uma grave erupção de doenças respiratórias a 9 de Março deste ano. Ela acabou por infectar 616 dos seus 2155 habitantes. Nenhum medicamento estava disponível para tratar os doentes e três crianças morreram.

As pessoas atribuíram a erupção à contaminação causada pela empresa. Um trabalhador municipal da saúde indicou que as investigações preliminares tinham identificado as moscas como sendo o vector (transmissor) da erupção. Embora a empresa e as principais autoridades o tenham negado, mesmo assim foi imposto um cordão sanitário (uma zona limpa à volta do local) e foi feita uma fumigação contra as moscas.

Mortes desnecessárias às mãos de um criminoso sistema de saúde

O próprio Ministro da Saúde, Jose Angel Córdova, disse numa conferência de imprensa televisiva a 27 de Abril que o primeiro caso ou um dos primeiros casos de gripe suína (redefinida com “gripe humana” pela Organização Mundial de Saúde, OMS, para proteger a indústria suína) foi o menino Edgar Hernández. A primeira amostra da doença ficou disponível a 2 de Abril e um relatório de notificação de caso publicado a 30 de Abril pelo Centro para o Controlo de Doenças de Atlanta (EUA) indicava que tinha sido confirmado um caso no México a 15 de Março, sem entrar em mais detalhes.

As autoridades de saúde têm salientado que as principais causas de morte desta epidemia têm sido a demora no tratamento dos doentes. E uma das causas para essa demora foi a criminosa negligência do sistema de saúde mexicano, que desde 2 de Abril tinha uma amostra dessa nova variante da gripe mas que não avisou a população senão 21 dias depois, o que resultou certamente em mortes desnecessárias.

A amostra não foi analisada senão muito mais tarde, parcialmente devido a fatais deficiências no sistema de saúde global, que tem falta de pessoal, de equipamento necessário e de materiais, e parcialmente porque, devido ao desmantelamento do sistema de saúde ocorrido nas últimas décadas, o teste necessário para identificar a nova variante do vírus (a reacção de polimerase em cadeia, ou PCR na sigla inglesa, um processo de amplificação de material genético) não estava disponível no México. Por exemplo, nos anos 90, o governo de Ernesto Zedillo fechou o Instituto Nacional de Higiene e o Instituto Nacional de Virologia, responsáveis pela investigação de variantes de vírus e pelo desenvolvimento de vacinas. O governo seguinte, de Vincente Fox, cortou em 2000 o orçamento para o Birmex, a instituição nacional que antes produzia vacinas, imunoglobulinas (usadas pelo sistema imunitário para combater infecções) e reagentes (substâncias usadas nos testes). Isso ocorreu apesar dos persistentes avisos da comunidade científica sobre o perigo de novos vírus, sobretudo após a erupção da gripe das aves na Ásia em 1997.

A OMS e a Organização Pan-Americana de Saúde questionaram a 11 de Abril as autoridades mexicanas sobre a erupção de casos invulgares de pneumonia (muitas vezes a causa imediata da morte das vítimas de gripe). O governo mexicano respondeu dizendo que “o acontecimento [de Perote] terminou”. As autoridades mexicanas de saúde não enviaram amostras para laboratórios no Canadá e nos EUA (os quais acabariam por confirmar a existência da nova variante da gripe) até terem surgido os casos de gripe atípica na Cidade do México, em San Luis Potosí, na Baja Califórnia e em Oaxaca. No último caso, uma inspecção levada a cabo pela Comissão Estatal de Arbitragem Médica concluiu que devido à sobrelotação, o hospital onde ele ocorreu era como “um vidro de Petri” [um caldo de cultura] para epidemias. As instalações tiveram que cuidar do tratamento de mais de 240 doentes com apenas 120 camas. Só a 22 de Abril, quando já se tinham contabilizado oficialmente cerca de 20 mortes devidas à gripe suína a nível nacional, o Ministro da Saúde insistiu em que isso provavelmente seria apenas “o resto” de uma epidemia sazonal de gripe nos EUA, uma doença comum a que a maioria das pessoas já é resistente. Ele pediu às pessoas que não entrassem em “pânico”.

Faltam: instalações de teste, medicamentos, tratamento atempado e até máscaras faciais

Quando ficou finalmente estabelecido que se tratava de uma nova e potencialmente perigosa variante da gripe, no dia seguinte foi declarada uma emergência sanitária e foram encerradas as escolas do Distrito Federal e do estado à sua volta. O próprio Córdova começou a lançar o pânico ao divulgar informação que era cada vez mais confusa e contraditória a cada dia que passava. Os números subiam e desciam diariamente porque a nova variante estava a ser confundida com outros tipos de gripe e pneumonia comum. O seu gabinete recusou-se a divulgar qualquer informação específica sobre os casos confirmados da nova infecção viral. Embora o discurso do governo insistisse em que estava tudo “sob controlo”, milhares de pessoas viviam uma realidade muito diferente que estava a ser encoberta pela comunicação social. Médicos do conhecido Centro Médico Nacional La Raza do Instituto Mexicano de Segurança Social (IMSS) queixaram-se de nem sequer terem máscaras faciais. Quando Alfonso Morales Escobar levou a mãe ao Hospital Dario Fernández para funcionários governamentais (ISSSTE), com sintomas de gripe que correspondiam aos que as autoridades tinham divulgado e pediu o teste da gripe de que eles se vangloriavam, o médico respondeu-lhe: “Qual teste? As autoridades estão a dizer muitas mentiras. Eles que venham cá ver por si mesmos que não temos nenhuma instalação de testes, nenhum medicamento, nada. Eles acham que é muito fácil enganar as pessoas.” Houve várias denúncias de falta de medicamentos antivirais, de equipamento adequado e de medicamentos noutros hospitais.

O caso de Oscar foi relatado pelo jornal El Pais a 3 de Maio e é altamente ilustrativo da situação. Ele tinha “cinco anos e sete meses. Na 5ª feira, 16 de Abril, a criança ficou doente. A mãe levou-o à clínica n.º 11 da segurança social. ‘Eles não o queriam receber’, disse a tia dele, ‘porque não tinha febre. Disseram-nos que era apenas uma gripe vulgar.’ Nessa tarde, o Oscar começou a vomitar e eles levaram-no para outra clínica da segurança social. Também aí não o quiseram tratar. No dia seguinte, às seis da manhã, o Oscar entrou em convulsões e dessa vez foi admitido numa sala de emergência. Cinco horas depois, o menino já estava gravemente doente com pneumonia. Levaram-no para uma zona de cuidados intensivos, juntamente com outras oito crianças (...) morreu nove dias após os primeiros sintomas, depois de ter sofrido uma terrível provação enquanto andava de hospital em hospital.”

Medidas repressivas e oportunidades para lucros chorudos

A última gota – que sublinha o profundo antagonismo entre o aparelho estatal que serve as classes dominantes e a grande maioria das pessoas – surgiu quando o presidente mexicano Felipe Calderón se aproveitou da emergência sanitária para publicar um novo decreto repressivo que permitia que as autoridades entrassem “em todo e qualquer tipo de escritório ou habitação” sem qualquer ordem do tribunal, isolassem as pessoas contra a sua vontade e “impedissem qualquer ajuntamento”, a pretexto da “existência de um perigo para a segurança interna” que podia incluir, entre outras coisas, a ameaça de “uma insurreição”. O candidato presidencial Marcelo Ebrard, chefe de governo do Distrito Federal, tentou mostrar que podia ser tão “duro” contra as pessoas como qualquer outro, impondo, entre outras medidas, uma proibição de visitas prisionais que implicava o corte do fornecimento de alimentos e água que as famílias levavam aos seus familiares encarcerados. Essa proibição só foi levantada quando os presos e os familiares enfrentaram os guardas prisionais e a polícia.

Embora o número de casos de A/N1H1 no México seja estável ou esteja agora a diminuir, isto não significa necessariamente que estejamos perante o fim desta nova variante da gripe. Muitos especialistas têm dito que provavelmente reaparecerá no próximo inverno, quando for a estação certa para o vírus da gripe florescer. Quanto a medicamentos antivirais efectivos no tratamento dos sintomas da gripe, o destino das pessoas está nas mãos de grandes empresas farmacêuticas como a suíça Roche (fabricante do fosfato de oseltamivir, comercializado sob o nome de Tamiflu) e a britânica GlaxoSmithKline (fabricante do zanomivir, vendido sob o nome de Relenza). Até agora, estas empresas têm-se defendido com êxito da exigência de produção de genéricos mais baratos. A Novartis, com sede na Suíça, e a empresa norte-americana Baxter International alegam estar a assumir a responsabilidade pelo fabrico de uma vacina com a bênção da OMS. O governo mexicano assinou um acordo para que a multinacional Sanofi-Aventis fabricasse vacinas no México antes da actual crise. O valor das acções destas empresas disparou assim que surgiu a possibilidade de lucros chorudos obtidos à custa do sofrimento humano.

Um sistema obsceno – a saúde das pessoas exige um sistema radicalmente diferente

Tudo isto mostra que a pior coisa relacionada com este vírus é o sistema capitalista mundial e s sua expressão no México. As empresas gigantes produzem desperdícios tóxicos que são o suspeito número um de terem facilitado a recombinação desta e de outras doenças potencialmente perigosas, por um lado, e pela falta de vigilância sanitária e pelo desmantelando do único sistema de saúde a que a grande maioria das pessoas tem acesso, por outro, resultando em mortes desnecessárias. A manipulação oficial da crise, para além do discurso oficial, foi deplorável. A produção de medicamentos antivirais e de uma vacina para enfrentar o persistente perigo subjacente continua a estar à mercê dos lucros de um punhado de empresas transnacionais.

Isto reflecte a contradição fundamental do sistema em que vivemos, entre uma produção socializada (com o seu potencial para satisfazer as necessidades de toda a gente) e a apropriação capitalista privada (ou, dito de uma forma mais simples, o facto de o lucro dos capitalistas ser o que determina o que é produzido e como). A produção socializada e tecnicamente avançada da sociedade moderna é inteiramente capaz de produzir o suficiente para alimentar todos os habitantes do planeta (como mostram os estudos da ONU, mesmo os dos anos 60), limitando ao mesmo tempo os danos ecológicos, mas muitas pessoas ainda passam fome e muitas adoecem e morrem devido a esses sistemas de produção que destroem o meio ambiente. Essas preocupações não geram lucros a empresas como a Smithfield Foods e as Granjas Carroll.

O governo não é uma empresa mas, em última análise, serve esses interesses – os interesses dos imperialistas e dos grandes capitalistas e proprietários mexicanos. Isto pode ser claramente visto no colapso do sistema público de saúde. Ele pura e simplesmente não é considerado lucrativo, ou vantajoso para os lucros capitalistas, enquanto existir um sistema privado paralelo onde, com sorte, algumas pessoas podem obter cuidados adequados, se tiverem dinheiro suficiente. Ele também pode ser visto nos frios cálculos governamentais de “custo-benefício”, em relação à emergência sanitária. De que é que esses cavalheiros estão a falar? Se afastarmos a retórica humanitária, as suas políticas são feitas segundo um frio cálculo económico de lucros e perdas. A pergunta que eles se colocaram foi: será que tais-e-tais passos irão ferir a economia e os lucros mais que a expansão da epidemia, resultando em absentismo de funcionários e outras perdas? Esses cavalheiros nem sequer tiveram em consideração as potenciais perdas desnecessárias de vidas humanas. Tudo se resume a dinheiro. Uma vez mais, a moderna produção socializada e tecnologicamente avançada é inteiramente capaz de fornecer o equipamento necessário para confirmar a natureza desta e outras variantes do vírus e de fornecer os cuidados médicos preventivos de alta qualidade e os medicamentos necessários, mas isso não acontece para a vasta maioria das pessoas porque não é consistente com a procura do lucro mais elevado possível. Não é simplesmente uma questão de malícia ou corrupção, embora haja muito disso, e não é por acaso que nesta crise os representantes eleitos de todos os principais partidos políticos tenham mostrado integralmente o antagonismo fundamental entre os interesses que servem e os da vasta maioria das pessoas. No final, o governo tem que servir os interesses do sistema económico prevalecente e a contradição fundamental do sistema entre a produção socializada e a apropriação capitalista privada também se reflecte nas políticas estatais.

Não tem que ser assim e não deve ser assim. A Revolução de Nova Democracia pode retirar a propriedade e o controlo dos principais recursos económicos das mãos de algumas grandes corporações e acabar com o estado que defende e protege o funcionamento deste sistema. As grilhetas da apropriação capitalista precisam de ser eliminadas. As cadeias do domínio imperialista têm que ser quebradas e aberta a porta para o socialismo, com a transformação da apropriação privada em apropriação social, uma apropriação pela sociedade no seu todo, para que o imenso potencial produtivo da economia possa servir as necessidades da humanidade e proteger o planeta, em vez de proteger a sede de lucro de um punhado de pessoas que está a causar tanta destruição e sofrimento desnecessários. Uma tal transformação revolucionária é necessária e possível e esta crise sanitária mais recente mostra que a saúde das pessoas assim o exige.