Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 12 de Abril de 2004, aworldtowinns.co.uk

“Violência revolucionária submerge o Iraque”

Nas duas primeiras semanas de Abril, a resistência em Falluja manteve três batalhões de fuzileiros dos EUA afastados o tempo suficiente para forçarem as autoridades norte-americanas a pedir um cessar-fogo em vez de pura e simplesmente massacrarem o povo da cidade como haviam planeado. Durante o mesmo período, insurreições dirigidas pelo clérigo xiita Moqtada al-Sadr espalharam-se por grande parte do Iraque central e meridional e tomaram Najaf, Kerbala e Kut. Os membros do Conselho de Governo Iraquiano instalado pelos EUA, ansiosos por mostrar um pouco de distância entre eles e os seus amos, tentaram negociar algum tipo de “solução política”.

O Secretário da Defesa dos EUA, Rumsfeld, continuou a alegar que a resistência iraquiana era composta por “assassinos, quadrilheiros e terroristas” e o seu amo Bush ficou reduzido a argumentar que se tratava de uma guerra santa contra uma “ideologia” estrangeira. Mas é cada vez mais óbvio, mesmo para alguns dos jornalistas estrangeiros mais ignorantes no Iraque, para não falar nas pessoas politicamente conscientes de todo o mundo, que é ridículo aplicar a etiqueta de “terrorista” à insurreição de uma importante parte da população de um país, incluindo alguns dos polícias-fantoches a soldo dos ocupantes. Mesmo a agência noticiosa norte-americana Associated Press, que é largamente pró-sistema, escreveu em título: “Violência revolucionária submerge o Iraque”.

Até agora, embora a resistência tenha beneficiado de uma grande simpatia e apoio, apenas uma minoria relativamente pequena de iraquianos se tornou combatente activa. Um grande sector do povo estava indeciso sobre se na verdade a resistência armada poderia oferecer ou não uma alternativa realista à humilhação nacional e à ocupação a que está sujeito. Agora, mesmo visto de longe, apesar de os combatentes continuarem a ser obviamente uma minoria (como sempre o são em qualquer guerra), é claro que o posicionamento da população mudou radicalmente.

O número de combatentes que emboscaram e mataram os quatro mercenários norte-americanos em Falluja a 31 de Março era reduzido, mas a explosão de alegria que isso gerou envolveu muitos milhares de pessoas. Depois disso, os fuzileiros dos EUA cercaram essa cidade de 300 000 habitantes com a intenção de revistar casa a casa. Queriam não só levar consigo as pessoas que haviam identificado como parecendo estar muito felizes nas imagens noticiosas do incidente, mas também impor um castigo colectivo a toda a cidade que se tornou num símbolo da resistência iraquiana. Mas falharam e esse fracasso teve implicações que cresceram em espiral.

Como disse uma mulher de Falluja a um jornalista: “Quando os norte-americanos chegaram, havia apenas cerca de 50 guerrilheiros. No fim da semana, havia alguns milhares.” Alguns deles eram mulheres. Um funcionário de Falluja que agora trabalha para uma ONG disse, depois de ver os atiradores dos EUA a visar deliberadamente os motoristas das ambulâncias: “Fui um tolo durante 47 anos. Acreditava na civilização europeia e norte-americana.” Ele estava não apenas a refutar os “criadores de opinião” norte-americanos que escreviam sobre a resistência iraquiana dizendo que “os terroristas são inimigos da civilização”. Estava também a descrever o seu próprio processo de desenvolvimento de mudança de barricada nesta guerra.

Em talvez três ocasiões no decurso de cinco dias, as tropas dos EUA tentaram lutar à maneira deles em Falluja, mas nunca puderam reivindicar ter tomado sequer mais que um quarto da cidade e nunca poderiam penetrar no seu centro densamente povoado. Encontraram-se a combater uma guerra urbana do tipo da que mais temiam quando se preparavam para invadir o Iraque. “Quando entramos nas cidades, essa é a pior de todas as situações possíveis” explicou um oficial reformado do Exército. “Tira-nos a maior parte das nossas vantagens” – em particular a sua superioridade tecnológica e as munições de grandes dimensões.

Mas os ocupantes não tinham nenhuma intenção de acabar com o seu próprio terrorismo na sua estratégia de “terrorismo contra terrorismo”. Nem se contiveram com o facto de estarem a matar muitos civis. A 6 de Abril, após o anoitecer, os aviões de guerra dos EUA destruíram quatro casas em Falluja, ao dispararem rockets. Dos 26 mortos, 16 eram crianças e oito mulheres, disse o responsável pelo principal hospital da cidade. A 7 de Abril, os aviões dos EUA atacaram uma mesquita durante as orações da tarde e mataram 40 pessoas. De acordo com um relatório do hospital na semana seguinte, cerca de 600 pessoas foram mortas na cidade, sendo cerca de 350 delas mulheres e crianças. Um número muito maior de pessoas ficou ferido. As autoridades dos EUA disseram ter perdido 70 soldados e matado 700 iraquianos nessa zona.

As linhas de abastecimento norte-americanas foram ameaçadas e por vezes cortadas. A maior parte dos soldados dos EUA mortos na última semana conheceu a morte em ataques a escoltas de abastecimentos entre Falluja e Bagdad, normalmente um passeio de meia hora, e no abate de helicópteros de transporte de tropas, bem como de aviões de ataque. Uma coluna inteira de camiões-cisterna e veículos do exército foi atacada e destruída perto do subúrbio de Al-Ghraib em Bagdad, a 9 de Abril. Este foi o local do infame incidente ocorrido durante a guerra de 1991 levada a cabo pelos EUA em que um míssil de cruzeiro atingiu o que os norte-americanos alegavam ser instalações de guerra química, mas que de facto era uma fábrica de leite em pó. Devido aos combates em redor de Al-Ghraib, os soldados norte-americanos tiveram que retirar das torres de vigia da gigantesca prisão, agora o maior centro de detenção dos EUA.

Os combates foram particularmente intensos numa cidade a meio caminho entre Bagdad e Falluja. Dizia-se que a região de Al-Anbar, a oeste de Falluja e com 1,2 milhões de habitantes, estava sob controlo “limitado” dos EUA, com uma importante batalha em Ramadi a ocorrer. A longa estrada entre Bagdad e Amã, na Jordânia, a mais importante ligação comercial do Iraque por terra, foi cortada. O controlo do exército norte-americano sobre outras estradas de entrada e saída em Bagdad para o norte e o sul, também foi posto em causa. As tropas-fantoches iraquianas abandonaram os postos de controlo das estradas, deixando alguns desses postos decorados com uma imagem de Sadr.

Combinado com a situação instável na maior parte da capital, que é a retaguarda das tropas de outros lugares (especialmente por causa do seu aeroporto e da sede de comando dos EUA), esta perda de controlo tornou-se num problema militar chave para os ocupantes. “Temos absolutamente de recuperar o controlo de Bagdad e de abrir as linhas de comunicação para sul, para o Kuwait e o mar, ou a nossa posição ficará insustentável”, comentou Barry McCaffrey, general durante a guerra do Iraque de 1991.

Os EUA tentaram descrever o cessar-fogo em Falluja como um gesto humanitário, mas a necessidade de lidar com os seus próprios problemas de abastecimento foi uma das razões por que foram forçados a pedi-lo. Desde então, os ataques às linhas de abastecimento dos EUA não cessaram. Por sua vez, os EUA, embora cancelando a maior parte dos bombardeamentos, continuam a usar atiradores especiais para ameaçar grande parte da população, incluindo famílias inteiras, e impedir a evacuação dos feridos. Os atiradores estão a cometer assassinatos continuados, a toda a hora. Os ocupantes autorizaram algumas mulheres e crianças a atravessar as suas barreiras nas estradas. Mas não fizeram o mesmo aos jovens em “idade militar”, tornando-os a todos em potenciais cadáveres se os norte-americanos decidirem declarar que na cidade apenas permanecem “objectivos militares” e mandarem bombardeiros de alta altitude e mísseis levar a cabo o massacre completo que as suas tropas, helicópteros e tanques não têm conseguido fazer até agora. Os fuzileiros – treinados para serem as mais sanguinárias tropas dos EUA – foram oficialmente instruídos para matar todos os homens e rapazes que estejam fora de casa após o anoitecer, quer estejam armados ou não.

Falluja foi forçada a enterrar os seus mortos em dois campos de futebol, porque os EUA ocuparam o principal cemitério da cidade, espezinhando as campas dos mortos do mesmo modo que espezinhavam os vivos em todo o lado.

A alteração sísmica do posicionamento das pessoas também pôde ser vista na insurreição iniciada por Sadr. Como disse um iraquiano a um jornalista: “A divisão no Iraque não é agora entre sunitas e xiitas, mas entre a maioria que odeia os norte-americanos e os quer expulsar e uma minoria ainda decidida a trabalhar com eles.”

Os EUA parecem ter provocado a insurreição liderada por Sadr. De novo, e ironicamente, do mesmo modo que algumas pessoas em Falluja no início tiveram sentimentos ambíguos sobre a invasão dos EUA, uma das bases principais de apoio de Sadr está agora entre os muçulmanos xiitas do bairro degradado de Bagdad conhecido como Cidade de Sadr (em homenagem ao seu pai, um clérigo venerado), onde as tropas dos EUA primeiro apareceram como “libertadores”. O líder da ocupação dos EUA, Paul Bremer, encerrou o jornal de Sadr por este criticar a ocupação, embora o jornal não defendesse o seu derrube violento. Diz-se que Bremer ficou enfurecido pessoalmente devido a um artigo que dizia que ele “estava a seguir o mesmo caminho que Saddam”. E mandou prender um dos colaboradores de Sadr.

Sadr apelou a manifestações de massas contra os ocupantes a 4 de Abril. Em Bagdad, os manifestantes xiitas foram alvejados por helicópteros e tanques na Praça Firdos, a mesma onde as tropas norte-americanas tinham derrubado a estátua de Saddam como parte da sua encenação de “libertação”, há um ano atrás. Helicópteros com metralhadoras perseguiram os grupos de manifestantes enquanto estes lutavam por chegar às suas casas na Cidade de Sadr, disparando aleatoriamente para as ruas, as lojas e as casas. Mais tarde, multidões lideradas pelo Exército do Mahdi, de Sadr, (uma milícia armada que antes era tolerada) tomaram as esquadras da polícia (e as suas armas) na Cidade de Sadr. Cerca de 1000 soldados dos EUA deslocaram-se para lutar contra as centenas de membros da milícia, que usavam tanto armas modernas como caseiras na maior batalha que a capital vira desde o início da ocupação. As autoridades dos EUA disseram que uma patrulha norte-americana tinha sido emboscada por “uma multidão com muitas armas”. Oito GIs e pelo menos 30 iraquianos foram mortos. Porém, durante a semana seguinte, as forças de Sadr pareciam estar a evitar confrontar as tropas de ocupação de Bagdad. Dizia-se que se tinham “derretido” entre a população em geral da Cidade de Sadr.

Em Najaf, cerca de 15 000 manifestantes marcharam até à sede das forças espanholas de ocupação. As tropas abriram fogo, matando pelo menos 20 pessoas e ferindo 150, de acordo com a televisão Al-Jazeera. As forças de Sadr tomaram então a cidade após uma luta renhida, como também o fizeram em Kerbala e Kufa, cidades onde as forças de ocupação eram militarmente mais fracas porque esperavam pouca resistência armada. À medida que o Exército do Mahdi se mobilizava para enfrentar os ocupantes e expulsá-los das cidades do centro e sul do país, de repente encontraram muito mais pessoas desejosas de se juntar aos combatentes da resistência.

Além disso, muitos dos 200 000 polícias, guardas e soldados iraquianos contratados pelos EUA – 20 a 25 por cento, de acordo com as autoridades de ocupação, muitos mais de acordo com relatos locais – “desapareceram, mudaram de lado ou recusaram-se a cooperar”. A primeira unidade do exército-fantoche iraquiano enviada para combate, o 2º Batalhão de 650 homens, um dos quatro das novas Forças Armadas iraquianas criadas pelos EUA e acabados de treinar, recusou-se a obedecer à ordem de entrar em Falluja. Estavam dispostos a receber os salários pagos pelo opressor, mas não a matar e a morrer por ele.

Cerca de 25 000 tropas dos EUA tiveram que ser retiradas da região de Bagdad e enviadas para sul para tentar retomar Kerbala, Najaf e Kut.

Ao mesmo tempo, a 9 de Abril, Bagdad foi também cenário de uma manifestação de 200 000 pessoas contra a ocupação e em defesa de Falluja e da insurreição liderada por Sadr. A maior parte das lojas, escolas, bancos e mesmo escritórios governamentais em Bagdad (incluindo nas áreas sunitas) encerrou nos dias 10 e 11 de Abril.

A capital mobilizou-se para ajudar Falluja e enviou carros e camiões cheios de comida e medicamentos para impedir os norte-americanos de submeterem pela fome os habitantes de Falluja. Milhares de pessoas também foram a pé. Os EUA disseram que essas marchas e colunas também trouxeram armas e novos combatentes. As tropas dos EUA, pelo menos nalgumas ocasiões, tentaram reter produtos médicos como o sangue, que poderia dar algum alívio directo aos feridos. As mesquitas sunitas e xiitas de toda a Bagdad pediram doações de sangue, dinheiro e comida (algumas pessoas deram “a última comida em minha casa”) “para os vossos filhos e irmãos a lutar em Falluja” e “as pessoas boas do Iraque que estão a enfrentar os tiros das forças da coligação”.

A 12 de Abril, as forças de Sadr tinham devolvido o controlo de Najaf à polícia iraquiana e chegado a alguma forma de acordo de cessar-fogo com as tropas dos “aliados” dos EUA. Os soldados norte-americanos estavam preparados para tomar a cidade para as suas próprias mãos, mais fiáveis, e atacar aí o quartel-general de Sadr. Alguns observadores dizem que Sadr não quis e continua a não querer lutar até ao fim. Mas os EUA podem muito bem achar que devem fazê-lo. A política oficial dos EUA é “capturá-lo ou matá-lo”.

Se os norte-americanos entrarem em Najaf, provavelmente terão de o fazer sozinhos. A força multinacional sob comando polaco anunciou que não levará a cabo operações ofensivas.

Os combates revelaram e exacerbaram as fissuras políticas entre os EUA e os seus ditos aliados. Porque esses países enviaram tropas contra o desejo expresso da vasta maioria dos seus povos, os seus governos esperavam que as suas tropas nunca tivessem que participar em nenhum combate real. Diz-se que as tropas japonesas e sul-coreanas se retiraram para as suas instalações. Os soldados ucranianos e cazaques foram afastados de Kut; o Cazaquistão anunciou que as suas forças regressariam a casa em Maio. Os soldados búlgaros retiraram-se de Kerbala e pediram aos EUA para que trouxessem os seus próprios soldados, e alguns deles exigiram ao seu governo que lhes permita voltar para casa.

Face a esta enorme sublevação contra a ocupação, ao desaparecimento das forças iraquianas sob comando dos EUA e à frágil situação dos seus aliados estrangeiros, a classe dominante dos EUA nem sequer considera retirar do Iraque. Pelo contrário, está freneticamente a tentar aumentar o número das suas tropas. O governo dos EUA anunciou que dezenas de milhar de soldados em vias de regressar a casa estão a ser informados que terão de ficar e que serão enviadas mais duas brigadas de combate (10 000 soldados). A 1ª Divisão Blindada dos EUA, cujos soldados estavam à espera de deixar o Iraque, foi deslocada para substituir os ucranianos em Kut.

Um oficial do Pentágono disse que os seus soldados em Falluja e noutros lugares estavam “a escalar um vulcão activo”.

Em entrevistas ao jornal francês Libération, soldados norte-americanos em Falluja disseram que não tinham a certeza de querer ganhar ou perder essa batalha. Se ganharem, disseram, então “seremos só nós” a ocupar a cidade “e a mesma merda irá recomeçar em todo o lado”. O jornal New York Times citou um oficial de alta patente a dizer basicamente a mesma coisa, mas a uma escala maior: “Podemos vencer esses indivíduos e estaremos a provar a nossa determinação. Mas, a menos que o lado político acompanhe, teremos de fazer tudo de novo depois de 1 de Julho e talvez em Setembro e novamente no ano que vem, e novamente e novamente”.

Mas é exactamente o “lado político” – as tentativas dos EUA para criar um governo-fantoche e forças armadas estáveis para escapar aos golpes directos do povo iraquiano e para esconder os seus objectivos imperiais do seu próprio povo e dos outros – que estes desenvolvimentos puseram em ainda maior dúvida. A desmoralização e o medo estão instalados nos corações dos iraquianos com que os norte-americanos pensavam poder contar.

Para os ocupantes, a relação particular entre as questões políticas e militares é agora a seguinte: os EUA, de acordo com a “doutrina Rumsfeld”, tentaram ocupar e manter o Iraque usando um número relativamente pequeno de tropas e dependendo de unidades muito móveis com uma grande capacidade de fogo para vencer os seus inimigos, sem muitas preocupações com as suas linhas de abastecimento, flancos e retaguarda. Essa estratégia militar depende de uma estratégia política.

A melhor descrição dessa estratégia é a de um jogo arriscado em que se os inimigos da ocupação forem atacados de uma forma suficientemente violenta, podem ser esmagados, porque os combatentes activos não sairão reforçados nem substituídos por crescentes números de membros das largas massas. O importante para o opressor é que as suas façanhas militares têm de convencer essas vastas massas de que não vale a pena combater os ocupantes. A resistência em Falluja e em todo o Iraque quebrou essa estratégia política.