A luta dos operários vidreiros da Marinha Grande

Pelo correspondente local da PV

Os trabalhadores das fábricas Mandata, sucessora da Manuel Pereira Roldão (MPR), e da Jorgen Mortensen estão em greve pelo pagamento dos salários em atraso e contra os despedimentos, ou o próprio encerramento, após o avanço do pedido de falência por parte da empresa italiana, Svema, a fim de se cobrar de uma dívida de 15 mil contos.

A venda de bens por parte da Mandata para fazer face ao pagamento de salários é que desencadeou aquele pedido de falência, ajudado pelo valor elevado do passivo da fábrica, que ascende aos 3,5 milhões de contos. A administração da Mandata garante que a "redução dos 90 postos de trabalho" é a única solução para viabilizar a empresa. Dos milhões de contos que o Raposo meteu aos bolsos para salvar a MPR, pelos vistos, nada resta!

Prepara-se agora a venda da empresa a terceiros, contando-se com a colaboração prestimosa do APMEI, que se recusa a aceitar a proposta dos trabalhadores de receberem agora a indemnização a que têm direito, em caso de despedimento, alegando que a recuperação da empresa é possível, e do SIRME (Sistema de Incentivos à Revitalização e Modernização Empresarial) que se escuda no pedido de declaração de falência interposto pela empresa italiana.

Os trabalhadores da Mandata só aceitam suspender os contratos se lhes garantirem o pagamento das indemnizações a que têm direito, Sérgio Moiteiro, coordenador do STIV, assegura que o sindicato está a preparar-se para defender o melhor possível os interesses dos trabalhadores. Os trabalhadores, fazendo fé na imprensa, terão recebido o salário do mês de Agosto (falta parte dos de Junho e Julho), daqui para a frente não se sabe o que virá, a prevenir, fazem greve a partir de 3 de Setembro.

Quanto aos trabalhadores da Jorgen Mortensen, estes também entram em greve, com paralisações dia sim, dia não, até a garantia do pagamento dos salários em atraso (2 meses), o administrador da empresa alega que, se a situação se mantiver, a única solução será o encerramento.

Perante a situação, Armando Constâncio, vereador da Câmara rosa, tenta negociar com o BCP, detentor de todas as hipotecas da Mortensen, a concessão de um empréstimo de 150 mil contos, oferecendo em contrapartida a marca Stephens, o que o banco rejeita. Experimenta nova tentativa com a CGD que também recusa o empréstimo.

Na Mandata, por seu lado, o sindicato exige que o IAPMEI garanta os "direitos dos trabalhadores" no caso de "despedimento em massa" ou, então, injecte na empresa os 300 mil contos (o que o patrão irá agradecer!) que foram acordados com a administração da Mandata para a viabilizar.

O governador civil de Leiria, Carlos André, em reunião com os trabalhadores declara que "o governo não tem nenhuma responsabilidade neste problema".

Outras empresas do sector manifestam "sintomas de dificuldades" com origem em causas diversas - queixam-se os industriais da cristalaria. Estes têm exigido ao governo a homologação do Plano Estratégico para a Região do Vidro da Marinha Grande (Convir), o qual visa apoiar a promoção das empresas nos mercados internacionais.

"O vidro da Marinha Grande não está em crise" - quem o diz é o ministro da Economia, Luís Braga da Cruz, à saída da cerimónia da assinatura do contrato-programa Consolidação Integrada da Região do Vidro da Marinha Grande (Convir) em 8 de Agosto - e "o futuro do emprego é salvaguardado quando foram mudadas completamente as condições de competitividade das empresas", acrescenta, quando interpelado pelos trabalhadores da Mandata e da Mortensen, no mesmo dia. O secretário de Estado, reunido com os trabalhadores, não dá garantias nenhumas!

O que é o Convir? Um contrato que irá envolver 19 empresas da cristalaria e um investimento de 2,5 milhões de contos, cabendo ao Programa Operacional da Economia (POE) uma comparticipação de 1,9 milhões de contos. O projecto irá vigorar até Dezembro de 2002.

Há quem diga que a expectativa para breve de um "início de crise" no sector da cristalaria está a ser montada pelos industriais do sector que inflaccionam os números obtidos pela cristalaria em 2000 (20,8 milhões de contos em vez de 12,2), como também não corresponderá à verdade o número de trabalhadores no sector, 2500 em vez dos 1949.

O contestário em causa, JMF, empresário vidreiro, em entrevista ao DN de 03. 09. 01: "calculando um rácio de um volume de facturação de 20,8 milhões de contos pelo número de 2.500 trabalhadores, ao preço médio de 2.000 contos que custa cada um, chegar-se-ia a um valor per capita que punha o sector cheio de dinheiro".

Na sua opinião: "passados cinco anos, estamos na mesma", embora se tenha gasto 13,6 milhões de contos (segundo dados fornecidos pelo ministro Pina Moura) em investimento nas empresas. Montante a que se deve acrescentar os 1,5 milhões de contos gastos com a Vitrocristal (o magnata da cristalaria Duarte Raposo de Magalhães, que ficou com a MPR, preside à Vitrocristal-ACE).

Verdade ou não o que tem surgido nos jornais, a realidade é que os patrões do vidro da Marinha Grande têm metido muitos milhões de contos ao bolso, através dos sucessivos programas de recuperação do sector, por meio de falências fraudulentas e, agora, preparam-se para embolsar mais uns milhões, tudo á pala de combater ou evitar a crise, no entanto, os trabalhadores vão diminuindo, de 1994 para cá o sector da cristalaria terá perdido 1.100 trabalhadores, e os que ficam sujeitam-se a ritmos de trabalho intensos e a salários reais encolhidos.

Na última greve, com alguma envergadura, realizada pelos operários vidreiros, finais do ano de 1998, o sindicato manobrou de molde a dividir os operários atrelando-os a um sector dos patrões (os novos patrões, alguns deles antigos dirigentes sindicais e ainda militantes do PCP) contra o outro constituído pelos velhos capitalistas e encabeçado pelo Raposo Magalhães, enquanto que as reivindicações mais sentidas - o fim do trabalho ao Sábado, semana das 35 horas, reforma por inteiro aos 55 anos ou 30 de trabalho, e aumento real de salário - foram completamente torpedeadas.

Os operários vidreiros têm pela frente uma luta árdua que, no momento presente, inicia uma nova etapa.

10 Setembro 2001