Turquia: O “Erdogan assassino” e o estado assassino devem ser parados

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 12 de Outubro de 2015, aworldtowinns.co.uk

Pelo menos 97 pessoas foram mortas num atentado a 10 de Outubro num evento político contra a recusa do Presidente Recep Tayyip Erdogan de reiniciar as conversações de paz com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) e contra a repressão da oposição. Erdogan rapidamente chamou ao massacre um “crime odioso contra a unidade do nosso país”. Desde que ocorreram as explosões, o governo dele tem usado isto para reforçar ainda mais o regime dele e o estado como a única forma de unir o país face a um caos sangrento.

A manifestação em Ancara, a capital do país, foi organizada por uma coligação de forças de esquerda e outras organizações lideradas pelo Partido Democrático Popular (HDP), como parte da sua campanha para as eleições parlamentares de 1 de Novembro. Quando uma grande multidão se estava a juntar frente à principal estação de comboios, primeiro uma e depois outra bomba recheadas de grânulos metálicos explodiram a cerca de cinquenta metros uma da outra. As testemunhas recordariam mais tarde que, ao contrário do que é o procedimento policial “normal” na Turquia, as forças de segurança estavam ausentes e ninguém foi revistado ao entrar na zona da concentração. Não muito depois, a polícia interveio – atacando as pessoas que estavam a tentar mover os feridos para zonas seguras, disparando as suas armas para o ar e atirando balas de borracha, gás lacrimogéneo e granadas de choque. Durante cerca de 30 minutos não apareceu nenhuma ambulância. Centenas de pessoas ficaram feridas, muitas delas muito gravemente. O HDP estima o número de mortos em 128.

No dia seguinte, a polícia turca afastou de uma forma brutal os activistas do HDP e outros activistas e familiares das vítimas que queriam colocar flores no local do massacre, uma vez mais usando gás lacrimogéneo e atacando as pessoas que já tinham sofrido uma perda terrível. As pessoas gritaram “Erdogan assassino, polícias assassinos, estado assassino” à medida que mais tarde marchavam nessa tarde em Ancara, Istambul, Diyarbakir (Curdistão turco), França, Alemanha e Suíça.

Inicialmente, o primeiro-ministro Ahmet Davutoglu anunciou que o Daesh (Estado Islâmico), o Partido-Frente de Libertação Popular Revolucionária (DHKP-C) e o próprio PKK eram suspeitos do atentado. Pode-se ver isto como uma piada estupidamente má, sobretudo dado que o próprio regime tem identificado o HDP com o PKK. Mas a grave insinuação era de que o movimento curdo tinha matado os seus próprios apoiantes e simpatizantes em geral para dividir a Turquia.

Dias depois, o regime anunciou que estava a centrar a sua investigação no Daesh e fez rusgas a vários suspeitos. Mas, nas horas que se seguiram ao atentado, aproveitou a situação para lançar ataques aéreos a posições do PKK. Reajustando a sua anterior posição de resposta armada à recusa do regime em negociar, o PKK ordenou aos seus combatentes para cessarem temporariamente os ataques e voltarem para os seus acampamentos.

O massacre de Ancara ocorreu numa atmosfera pré-eleitoral cada vez mais polarizada. A entrada em Junho passado do HDP no parlamento retirou a maioria ao Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP) de Erdogan, ao ir buscar votos a ex-apoiantes do AKP. Erdogan viu-se impossibilitado de conseguir uma maioria parlamentar para apoiar as propostas de emendas constitucionais que visavam promover o programa islamita do AKP e reforçar a unidade do estado. A ausência de uma maioria governamental tornou necessárias novas eleições.

Independentemente de qual possa ter sido o papel do AKP no massacre de Ancara, o que é certo é que a determinação de Erdogan em se tornar a ele próprio e ao regime dele na única alternativa ao caos sangrento foi ela própria um importante factor a causar isto. O AKP tem feito tudo o que pode para alimentar tanto o tradicional chauvinismo turco (anticurdo) como o Islamismo. Erdogan tenta debilitar o PKK e o movimento curdo tanto política como militarmente, para o empurrar ainda mais para a orla do actual sistema político.

Ao apresentarem esta situação como um conflito entre uma ditadura corrupta pessoal e a democracia liberal, o HDP e os outros partidos de esquerda estão a cometer um sério erro quanto às necessidades que fazem mover a classe dominante turca e o seu estado. Uma das mais agudas contradições existentes é entre a intensificação do impulso do AKP para islamizar a Turquia e o apoio às forças islamitas na Síria, numa tentativa de emergir como líder do mundo islâmico (ou pelo menos do mundo sunita), por um lado, e o facto de o Islamismo se ter tornado num grande problema para os EUA e a actual ordem mundial imperialista, por outro. Isto já levou os EUA, que nunca foram amigos dos curdos nem de nenhum outro povo oprimido, a se aliarem ao PYD, um afiliado sírio do PKK, na luta contra o Daesh.

Os EUA estão simultaneamente incomodados com o regime de Erdogan e, pelo menos por agora, presos a ele. O súbito incremento da contenda entre os EUA e a Rússia na Síria tornou isto ainda mais claro. Embora os porta-vozes do Presidente Barack Obama censurem a Rússia por não estar a atacar suficientemente o Daesh, Washington tem-se queixado muito pouco em público da política de Erdogan de concentrar os ataques do regime dele no PKK. Se depois deste massacre Erdogan conseguir convencer um sector suficiente da classe dominante turca e do povo da Turquia de que não há nenhuma alternativa viável ao governo dele, pode pensar em poder continuar a jogar o jogo duplo dele com os EUA.

O HDP está a chamar as pessoas a responderem ao massacre com os votos delas e a continua a fazer pressão por reformas para democratizar o estado que, no mínimo, criou as condições para este crime poder acontecer. Erdogan tem usado as negociações de paz, a guerra, as eleições e a repressão aberta para criar esta situação. O regime já mostrou que o estado pode usar o seu poder militar para ganhar votos, enquanto o HDP tem estado dependente de ser deixado ajudar a manter a Turquia unida e de obter apoio norte-americano para o fazer. Estes objectivos não servem os interesses do povo mais que os métodos com que eles estão a ser prosseguidos.

A política eleitoral adoptada por grande parte da oposição ao regime baseia-se em ilusões extremamente perigosas sobre a natureza do estado e do sistema imperialista mundial em que ele está embutido. Essas ilusões são a roupagem necessária a um estado reaccionário estável, especialmente quando as acções do AKP estão a conduzir a fracturas na legitimidade do estado. As tentativas de Erdogan de usar os acontecimentos e recorrer a medidas extremas não significam que as coisas estejam sob o controlo dele. Antes pelo contrário. O massacre de Ancara chama a atenção para a possibilidade do tipo de colapso do estado que ocorreu no Iraque ou na Síria. Porém, estas mesmas contradições poderiam dar a uma luta decidida contra o regime um impacto muito maior e abrir caminho à possibilidade de uma revolução.

O regime precisa enormemente das ilusões das pessoas para reforçar o seu controlo num jogo arriscado em que pode ganhar ou perder tudo. Esta fraqueza poderia ser exposta e aproveitada, em vez de se tentar dar a um imperador que vai nu alguma “roupagem democrática”. Nesta situação extremamente difícil e perigosa, conseguir levar a cabo uma luta efectiva e coerente contra os crescentes crimes do regime depende de muitos factores, mas acima de tudo de uma compreensão do que está realmente em jogo.