Tugce Albayrak – Um acto heróico e inspirador

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 15 de Dezembro de 2014, aworldtowinns.co.uk

Na casa de banho de um McDonald’s em Offenbach, Alemanha, na noite de 15 de Novembro, duas adolescentes gritavam por ajuda. Uma estudante de 22 anos, nascida na Alemanha e de origem turca, Tugce Albayrak, ouviu os gritos delas e, sozinha, correu a ajudá-las. Encontrou vários homens a assediar as duas jovens e impediu-os de continuarem.

Mais tarde, quando Tugce saiu do McDonald’s, um dos homens tentou vingar-se dela no parque de estacionamento. Bateu-lhe na cabeça com um taco de beisebol ou com outro objecto muito rígido. Ela caiu inconsciente no chão. Um jovem foi detido e inicialmente admitiu tê-la golpeado na cabeça, mas agora recusa-se a dizer mais alguma coisa.

A história do acto heróico de Tugce, coberta pela comunicação social internacional e por muitos blogues, tocou o coração de centenas de milhares de pessoas em todo o mundo. Com lágrimas e fúria, pessoas de todas as origens e idades vindas de cidades de toda a Alemanha encheram as ruas em manifestações de tributo a Tugce. Organizaram vigílias à luz de velas no hospital onde ela esteve em coma durante duas semanas, antes de os médicos lhe terem pronunciada a morte cerebral. Os pais dela decidiram desligar-lhe o apoio de vida a 28 de Novembro, no 23º aniversário dela.

Num esforço para limpar a sua imagem, a McDonald’s publicou um anúncio de página inteira no Bild, um dos jornais mais vendidos na Alemanha, em turco e alemão: “Lamentamos a perda de uma mulher extraordinária que mostrou coragem e perdeu a sua vida. [...] Neste momento, os nossos pensamentos estão com a família de Tugce Albayrak e desejamos-lhes força neste tempo difícil.” Cinicamente, a McDonald’s acrescentou que condena qualquer tipo de violência, “sobretudo dentro e perto dos nossos restaurantes”.

Face a esta efusão de pessoas vindas de todo o país, o presidente alemão foi obrigado a fazer uma declaração pública à família dela: “Todo o nosso país chora convosco. Onde outras pessoas olharam para o lado, Tugce mostrou uma coragem exemplar.”

A hipocrisia desta declaração é chocante. A opressão das pessoas com origens não alemãs que vivem na Alemanha tem uma longa história enraizada no imperialismo alemão e nas relações estruturais nele embutidas. Os “trabalhadores convidados” vindos da Turquia, que desempenharam um enorme papel na prosperidade alemã após a II Guerra Mundial, nunca foram bem acolhidos na sociedade fechada que é a Alemanha.

A estrutura das relações sociais de opressão da sociedade alemã é não só anti-imigrantes, mas também antimulheres. A opinião pública tradicional desdenha uma mãe trabalhadora como sendo Rabenmutter, uma insensível “mãe corvo” que deveria estar em casa a cuidar dos filhos em vez de os empurrar para fora do seu ninho. Os cuidados infantis primários e as escolas são muitas vezes organizados com horários inflexíveis, tornando difícil às mulheres trabalharem em algo mais que em empregos part-time. Em conjunto com este aspecto das relações patriarcais, a Alemanha é o país com os maiores bordéis da Europa. De facto, o país tem sido chamado de bordel gigante, onde diariamente mais de um milhão de homens pagam por sexo. Devido a isto, as mulheres que saem à noite sem ser acompanhadas por homens são consideradas um alvo para que outros homens as ataquem. O jovem que matou Tugce em defesa dos “direitos” masculinos pode não ter nascido na Alemanha, mas aprendeu muito bem as lições dessa sociedade.

Tugce Albayrak rompeu de muitas formas com alguns destes constrangimentos sociais. Aspirando a ensinar jovens do ensino secundário, ela era uma excelente estudante com toda uma vida à frente dela. Quando salvou as duas adolescentes, tudo isso se extingui, porque ela se recusou olhar para o lado.

Neste momento, já quase 200 mil pessoas assinaram uma petição online para fazer com que o governo alemão homenageie a coragem dela, atribuindo-lhe a Ordem Nacional de Mérito. O que é que, neste caso, tocou as pessoas de uma forma tão profunda?

Segundo muitos dos “bons padrões alemães”, Tugce não era um deles, no entanto, ela defendeu um dos “seus”. Ela afastou-se dos entorpecedores confins da sociedade sobre a forma como as pessoas devem pensar e agir: “trata da tua própria vida”, “mantém a cabeça baixa” e “procura ser o número um”. Ela ousou erguer-se contra o privilégio masculino que a sociedade diz aos homens ser um seu direito nato.

O facto de tantas pessoas terem ficado comovidas com o acto heróico de Tugce mostra que a cultura de opressão, tacanha e sufocante que caracteriza não só a sociedade alemã, mas também os países ocidentais em geral, não é inerente à natureza humana. Emerge de um sistema sob o qual as pessoas são forçadas a viver, e ajuda a perpetuá-lo. O facto de tantas pessoas terem ficado inspiradas por um acto que forneceu um vislumbre de uma forma diferente de pensar e viver mostra o que poderia ser libertado se as pessoas vissem a real possibilidade de sairem dos confins das velhas formas para ajudarem a criar um mundo de respeito mútuo, livre de todas as relações de dominação e exploração.

O acto heróico de Tugce foi inspirador e perspectiva o futuro, foi um manifesto de não-acomodação ao mundo tal como ele existe actualmente.