Síria: Alguns problemas sérios por resolver

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 21 de Janeiro de 2013, aworldtowinns.co.uk

O seguinte texto é uma versão condensada de uma discussão em que o revolucionário sírio Hassan Khaled Chatila deu a perspectiva dele sobre a situação actual no país. É particularmente importante devido à luz que faz sobre a relação entre classes e contradições de classe, por um lado, e os factores ideológicos, por outro.

Durante o último período, tem havido uma vertiginosa ascensão do fundamentalismo islâmico, tanto em termos da sua influência ideológica entre várias classes na que antes era considerada a sociedade laica do Médio Oriente, como da sua força militar organizada. Alguns relatos dizem que desde que os fundamentalistas islâmicos conseguiram dominar claramente a revolta armada, o regime ficou de facto um pouco menos isolado, com algumas pessoas que antes eram favoráveis à oposição ou neutras a verem agora Assad como a melhor das más alternativas. Alguns comentadores ocidentais começaram a dizer coisas como: “A oposição está de facto a ajudar o regime a manter-se” (Peter Harling, analista do Grupo Internacional de Crise). O comentário de Harling reflecte o facto de este desenvolvimento também colocar problemas aos EUA e seus aliados que querem fazer com que a Síria sirva os seus interesses e derrotar qualquer desafio ao seu domínio no Médio Oriente.

Aqui, Chatila discute algumas das contradições de classe que persistem apesar desta situação ideologicamente desfavorável, defendendo que ela não tinha de seguir nesta direcção e que as contradições de classe que em Março de 2011 geraram a revolta contra o regime ainda estão vigentes.

Há uma base para uma estratégia revolucionária assente nos interesses fundamentais da grande maioria do povo sírio em antagonismo com os imperialistas e os grandes exploradores sírios de dentro e fora do regime, o qual, afinal de contas, depende do sistema imperialista mundial. A enorme dificuldade de construir essa estratégia e a transformar numa força material entre o povo é inegável, mas não há nenhuma outra saída para as vastas massas populares e nenhum tipo de regime reaccionário pode fazer desaparecer estas contradições.

A situação na Síria é agora dominada por forças reaccionárias rivais. A classe política [a oposição tradicional, antes tolerada e agora a operar sobretudo a partir do estrangeiro] quer uma intervenção estrangeira, enquanto o Exército Livre Sírio [ELS] é uma mistura heterogénea sem uma clara estratégia política e militar. Toma cidades e bairros e ocupa-os, e depois o regime destrói-os. Isto beneficia o regime e torna possível que ele beneficie integralmente da sua superioridade militar e em armamento. O ELS não faz nenhuma tentativa de mobilizar as massas populares ou de as liderar para estabelecer um poder político revolucionário local.

O regime está agora a usar a entrada de forças islamitas no país para justificar a sua existência como barreira contra elas.

O que começou por ser um movimento social contra o regime tem sido asfixiado pelas forças pró-ocidentais e islamitas. Em suma, a revolta que começou em Daraa a 15 de Março de 2011 foi transformada numa outra coisa qualquer pelo Exército Livre Sírio e pela classe política. É possível que a situação possa deslizar para uma guerra civil religiosa; os fundamentalistas armados estão claramente a tentar provocar uma guerra entre sunitas e alawitas. Muitas pessoas que antes eram favoráveis à oposição já não vêem a queda de Assad como uma boa ideia.

Vocês perguntaram-me sobre o papel das desigualdades regionais e do crescente fosso entre o campo e a cidade, tanto quanto às causas da revolta como ao fornecimento de uma audiência para os fundamentalistas.

Eu responderia da seguinte forma: Durante a última década, o regime usou a ajuda financeira e outros incentivos para encorajar os grandes proprietários a eliminarem os pequenos camponeses. Nisto, tem seguido a estratégia do FMI de desenvolver uma agricultura comercial globalmente competitiva e atrair o investimento estrangeiro. Os camponeses agora sem terras imigram para as grandes cidades na esperança de acumularem dinheiro suficiente para poderem regressar às suas terras. Além disso, durante muito tempo, muitos pequenos camponeses que ainda têm terras [e que cultivam legumes e outros produtos para os mercados urbanos] têm-se mantido nas periferias das vilas e cidades. Assim, há uma população camponesa muito grande à volta de todas as grandes vilas e cidades. O desemprego é muito elevado nas cidades e nos campos, e muitas pessoas passam fome.

O campesinato sírio tem desempenhado um grande papel na revolta, tantos nos campos como nos subúrbios das grandes cidades. As classes médias nas províncias e nas cidades têm andado para cima e para baixo, embora estas certamente também têm desempenhado um importante papel na revolta. Alguns sectores das classes médias mais baixas aderiram à revolta e outros apoiam o regime, sobretudo os sectores mais favorecidos. Os islamitas vão buscar muitos dos seus recrutas às classes mais baixas, mas também aos sectores mais favorecidos, como os engenheiros, médicos, arquitectos e homens de negócios, incluindo os pequenos comerciantes. No passado, as classes mais baixas tendiam a ser nacionalistas árabes ou apoiantes de partidos que se reclamavam de socialistas ou comunistas, e anti-Israel e anti-imperialistas. A Irmandade Muçulmana está profundamente enraizada nas classes médias. Não tenho a certeza sobre quem são os membros do ELS, mas estou certo que muitos deles são das classes médias.

As câmaras de comércio e indústria, que agrupam um grande número de capitalistas médios e grandes, continuam a apoiar o regime, embora a maioria sejam sunitas. A divisão sunitas-alawitas não anula a divisão de classes. Há divisões em linhas tanto religiosas como de classes. Há pequenos, médios e grandes capitalistas sunitas que prosperaram em aliança com o regime burocrata-capitalista. É importante notar que os souks [os mercados tradicionais que são o centro do comércio tanto de retalho como por grosso] nunca fecharam em protesto contra o regime. Não tem havido uma insurreição civil generalizada, nem mesmo entre os sunitas.

A indústria e o comércio são controlados sobretudo por sunitas, bem como por cristãos. As minorias étnicas e religiosas como os alawitas tendem a ser camponesas, e ascendem socialmente tornando-se funcionários governamentais ou soldados. Os alawitas próximos do regime ficaram ricos.

Entre os trabalhadores, incluindo entre a maioria sunita, um grande sector não tem trabalho fixo e certamente não têm contratos regulares de trabalho. Vivem semana a semana das migalhas que os seus empregadores lhes atiram. Trabalham muito próximo dos seus patrões em salões de beleza, garagens e outros pequenos serviços. Isto pode querer dizer que são atraídos pela burguesia. Mas, de qualquer forma, representam um importante papel porque sentem que não têm nada a perder. Quando os seus filhos chegam aos 12 anos de idade, têm normalmente de abandonar a escola e procurar trabalho. Eles estão envolvidos no movimento popular e no movimento islamita.

Da forma como foi organizada, a revolta popular baseou-se nas classes médias mais baixas e nos desesperadamente pobres, bem como noutros sectores das massas. Em cidades de província como Homs [um epicentro da revolta], foram os bairros pobres urbanos e não os quarteirões mais abastados que foram destruídos pelo regime. Em Damasco, todos os bairros pobres foram destruídos.

As aldeias estiveram muito envolvidas nas manifestações e na revolta em geral contra o regime. Uma revolução teria tentado organizar esses camponeses em comité políticos para que exercessem o poder político nos campos e eliminassem o controlo político e administrativo local do regime. Apesar de a topologia do país tornar muito difícil um confronto frontal com o estado, era possível organizar pequenos grupos de guerrilha para que efectuassem ataques eficazes aos centros de poder e depois desaparecessem. Esses camponeses têm desempenhado um papel muito importante na revolta popular, mas não de uma forma revolucionária organizada, e são susceptíveis de ser organizados pelos fundamentalistas, cuja única forma de organização é militar. Os islamitas no ELS não fazem nenhuma tentativa de ganhar os civis para o seu lado, [apesar de] a maioria da população ser muçulmana. As reivindicações políticas e sociais da revolta foram abandonadas.

Surgiu um movimento de massas embrionário a exigir o fim da violência. Por exemplo, houve um famoso incidente em que uma mulher vestida de branco se manifestou sozinha à frente do edifício do parlamento em Damasco e granjeou muito apoio. Pedir o fim de toda a violência não é a solução, mas o crescimento desse sentimento mostra o isolamento do ELS entre o povo. O movimento político e social de massas contra o regime foi soterrado. Com as suas reivindicações de pão, dignidade, liberdade e justiça, teve muita coisa em comum com as revoltas na Tunísia e no Egipto. Na minha opinião, o Exército Livre Sírio abortou essa revolução antes de ela ter podido amadurecer.

Devido à sua natureza híbrida, o ELS poderá desintegrar-se em clãs rivais a combaterem-se uns aos outros. Isso poderá acontecer se não conseguir derrubar o regime, ou mesmo que o consiga. Seria uma chacina mútua. Há ali verdadeiros gangsters.

A Síria está a afundar-se no caos. Os imperialistas ocidentais querem destruir economicamente o país e ver o seu exército feito em pedaços para que não se possa opor a Israel. Quando esta crise política ficar resolvida, a Síria, de uma forma ou de outra, sairá dela completamente destruída. A sua economia ficará ainda mais dependente do mercado mundial. Mas, por outro lado, a base objectiva para a revolução continuará a existir porque os factores desta crise estão profundamente enraizados na sociedade síria. Isto reflectiu-se na revolta iniciada em Março de 2011. Uma transição para uma economia inteiramente neoliberal não pode resolver esta crise e certamente não pode desenvolver uma economia que satisfaça as necessidades do povo. Isso só poderá ser feito esmagando o capitalismo burocrata e o grande capital privado. Por isso, haverá sempre uma base objectiva para a revolução, mas depois há a questão de saber quem irá influenciar o povo. Os fundamentalistas continuarão a atacar os neoliberais, incluindo através de uma luta armada cujos métodos são muitas vezes basicamente “terroristas”.

Devido à força dos islamitas, as potências ocidentais são agora um pouco mais favoráveis a deixarem o regime intacto e talvez mesmo a deixarem Assad no poder. Os EUA têm medo do ELS porque ele pode ir contra os interesses dos norte-americanos e os dos seus aliados regionais.

Esta é a posição da Turquia e do Iraque, e também do Irão, em termos dos países vizinhos, e do Qatar e da Arábia Saudita. Neste momento, nenhum deles está interessado em fornecer ao ELS armas que poderiam alterar a situação. O ELS está a receber menos ajuda militar que nunca. Ninguém lhes quer dar rockets terra-ar.

Embora os sauditas tenham estado a financiar os fundamentalistas, como parte da política deles de desenvolverem um confronto sunitas-xiitas para se oporem à influência iraniana na região, estão preocupados com a ascensão dos jihadistas. Eles sabem que não podem controlar essa gente. A política deles poderá ricochetear se na Síria o fundamentalismo erguer a bandeira anti-EUA.

Os EUA estão mesmo a suavizar um pouco o seu tom em relação a Assad. Hillary Clinton criticou a oposição tradicional, exigindo que ela se una e forme um governo [um governo aceitável para os EUA, o que não tem conseguido fazer de uma forma convincente. Nos círculos políticos ocidentais há um certo ressuscitar da conversa sobre uma “solução política” entre o regime e a oposição].

Em suma, nenhum estado se preocupa com o povo sírio. Eles não se preocupam com os 60 000 mortos, com as 300 000 pessoas forçada a procurar refúgio no estrangeiro ou com os deslocados internos, os quais podem ser quase um milhão de pessoas. Não se preocupam com o facto de que, numa população onde metade das pessoas já viviam abaixo da linha de pobreza definida pela ONU em 2 dólares por dia, a especulação dos preços tem provocado uma verdadeira fome. Os preços do pão, açúcar e óleo de cozinha duplicaram e triplicaram, se é que se consegue sequer encontrar estas coisas. Já para não falar da carne, que de qualquer forma os pobres raramente comem.

A falsa “solidariedade com o povo sírio” que antes enchia a comunicação social ocidental está a desaparecer. Mesmo muitas das pessoas que genuinamente têm querido exprimir a sua solidariedade com o povo sírio ficaram desencorajadas porque não sabem quem apoiar. Isto mostra quão sérios são os problemas.