Salva-vidas espanhóis: Quando salvar vidas se torna num ato político ilegal

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 7 de abril de 2017, aworldtowinns.co.uk

Alguns salva-vidas espanhóis costumavam patrulhar uma praia mediterrânica prístina não muito longe de Barcelona. Mas ficarem simplesmente sentados a ver as notícias na televisão sobre pessoas que se afogavam a uns meros 15 metros das costas da Grécia parecia-lhes ultrajante e inaceitável quando essas mortes eram evitáveis. Por isso, em setembro de 2015 decidiram agir e partir para a ilha grega de Lesbos. Inicialmente as únicas ferramentas deles para salvarem vidas eram barbatanas de natação e roupas de mergulho.

A eles juntaram-se outros salva-vidas de vários países da Europa, trabalhando ao lado de pescadores gregos para fornecerem os cuidados médicos e as necessidades básicas àqueles que iam conseguindo salvar. Mas depois os governos da Europa começaram a dar novos passos para criar uma Europa Fortaleza que mantenha afastados os refugiados que fogem à miséria e à guerra que eles próprios ajudaram a criar. Na Grécia começou a haver um apertar das regras.

Em janeiro de 2016, dois salva-vidas da Dinamarca e três bombeiros de Espanha foram presos numa campanha de intimidação iniciada pelas autoridades gregas contra os muitos voluntários em Lesbos. “Foi aberta uma investigação preliminar”, disse um porta-voz da guarda costeira, acrescentando que os suspeitos seriam provavelmente acusados de “tentativa de facilitar a entrada de migrantes ilegais”. A acusação de tráfico de pessoas pode resultar em dez anos de prisão.

Libertados depois de alguns dias na prisão, os salva-vidas acusados disseram ter sido tratados como “terroristas” e mantidos numa cela minúscula e imunda. Outros salva-vidas foram detidos e mantidos durante um breve período sob acusações falsas de roubo de coletes salva-vidas deixados para trás por refugiados. Eles tinham a intenção de usar os coletes como camas. A polícia também passa regularmente multas de estacionamento aos veículos dos salva-vidas que eles estacionam quando estão a tentar salvar pessoas.

Quando a Europa fechou a rota Turquia/Grécia e acabou com as operações de busca e salvamento, exacerbando o que já era uma catástrofe humana para os migrantes que fogem à guerra e ao terror nas pátrias deles, os salva-vidas espanhóis perceberam que era necessário expandir as suas capacidades de salvamento. Eles mudaram o enfoque deles para o litoral perto da Líbia, onde as condições de pesadelo criaram uma vaga no fluxo de migrantes. Criaram uma organização não lucrativa chamada Braços Abertos ProActiva e receberam generosas contribuições de doadores individuais. Um empresário italiano chegou mesmo a doar o seu iate de luxo Astral, de 30 metros, que foi rapidamente remodelado para salvar vidas.

Numa ocasião, trabalhando desenfreadamente do amanhecer ao anoitecer, a tripulação do Astral rebocou um bote de borracha sobrelotado e um barco de madeira furado, cheios de centenas de pessoas, para um porto de Itália, salvando 1000 pessoas que fugiam à opressão, entre as quais crianças e os pais delas. Quatro mulheres grávidas deram à luz enquanto estavam a ser rebocadas para o porto. A tripulação relatou momentos pungentes sobre como os que sobreviveram andavam delicadamente nas pontas dos pés sobre os corpos inanimados dos que não tinham conseguido sobreviver. (5 de outubro de 2016, Dailymail.co.uk)

Segundo um porta-voz da ONU, William Spindler, o número de pessoas que fogem através do Mediterrâneo diminuiu significativamente o ano passado (1.015.078 em 2015 e 327.800 entre janeiro e outubro de 2016). Porém, a taxa de mortalidade disparou de 1 em 269 refugiados em 2015 para 1 em 88 em 2016 [mais que o triplo]. Na jornada marítima entre a Líbia e Itália, a taxa escalou para uma morte para cada 47 sobreviventes. A rota Líbia-Itália é particularmente perigosa. Há uma deliberada ausência de mecanismos robustos de busca e salvamento por parte dos governos europeus, e os traficantes de pessoas estão a usar botes insufláveis baratos que por vezes não conseguem aguentar a duração da jornada, ou barcos de madeira cheios de pessoas e suscetíveis de capotar sob a ação das ondas.

Apesar da pequena dimensão do navio de salvamento Astral e do pequeno número de organizadores a tempo inteiro e de voluntários ocasionais, estes heroicos salva-vidas estão a contribuir para um dos mais importantes trabalhos humanitários no Mediterrâneo, ao lado de outras ONG como a SeaWatch, os Médicos Sem Fronteiras e a SOSMéditerranée. Eles salvaram mais de 140 mil pessoas e continuam a fazer o seu trabalho crucial numa das mais perigosas rotas para a Europa. A missão deles é: “Não queremos perder nem mais uma vida para o mar, nem queremos permitir que o mar silencie as injustiças que aí acontecem.”

Mas o afogamento de milhares de pessoas no mar é exatamente aquilo com que os governos europeus estão a contar para impedirem a chegada destas vítimas do funcionamento ávido e injusto do sistema capitalista-imperialista. Fabrice Leggeri, dirigente da Frontex (a agência responsável pelas fronteiras externas da União Europeia), atacou as operações de salvamento das ONG e alegou que salvar vidas é um “fator de atração” que atrai mais pessoas para a Europa. Ele acusou as ONG de darem prioridade às operações de salvamento em vez de cooperarem com a polícia contra os migrantes. Vindo de uma agência policial, isto foi uma ameaça. Os Médicos Sem Fronteiras rotularam as acusações como “extremamente sérias e nefastas”, declarando que seguir essa diretiva significaria deixar as pessoas a se afogarem. (21 de fevereiro e 5 de abril de 2017, TheGuardian.com). Salvar vidas significa agir contra estes governos e, mais que isso, pôr fim ao sistema que produziu e prospera em todo o mundo sobre condições que tantas pessoas consideram intoleráveis.