“Queremos o nosso Egipto e não Mubarak”

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 1 de Fevereiro de 2011, aworldtowinns.co.uk

Saber se o reinado de Hosni Mubarak chegará ou não ao fim já não está em causa. A forma como ele sairá e o que resultará desta transição, é sobre isso que se está a lutar.

Quando homens e mulheres, vestidos tanto com fatos de negócios como com sandálias gastas, iam jubilosamente dilatando o volume das manifestações, multiplicando-o por cem numa semana, muita gente pensava que a “marcha de um milhão de pessoas” a 1 de Fevereiro terminaria em vitória. Pensavam que Mubarak iria partir, que os tanques iriam sair das ruas e que o país iria ser deles.

O que os governos dos EUA e da Europa consideram mais importante é aquilo a que eles chamam de “transição ordeira”. Quando o presidente egípcio anunciou que se iria manter no poder até ao final do seu mandato em Setembro, ele alegou que as únicas alternativas eram ou uma transição com ele ou o “caos”. Alguns egípcios ficaram convencidos com o argumento de Mubarak. Os mais ferrenhos apoiantes do regime foram incentivados pela ausência de um pedido do Presidente norte-americano Barack Obama de que Mubarak renunciasse imediatamente.

Mas a “ordem” não é a principal prioridade de muitos dos milhões de egípcios que têm estado a exigir “Mubarak rua!” Eles viram o discurso de Mubarak como um gesto de desafio e desdém pelo povo. Ficaram enfurecidos com o desejo dele de permanecer em terras egípcias até fim dos seus dias. Nas gigantescas manifestações do Cairo e de Alexandria, ele já havia sido pendurado sob a forma de efígie.

Poderia parecer simples para os EUA limitarem-se a deixar cair um autocrata odiado, desacreditado e isolado. O facto de até agora os EUA terem resistido tão obstinadamente a dar esse passo é um sinal de que as coisas não são tão simples, mesmo que os EUA acabem por seguir esse caminho.

Deve ter sido enfurecedor para os egípcios ouvirem a Secretária de Estado Hillary Clinton alegar a 31 de Janeiro que os EUA não podiam dizer a Mubarak que saísse porque isso deveriam ser os egípcios a decidir. É o exército egípcio que tem mantido Mubarak no poder, e são os EUA, em grande parte, que dizem ao exército o que fazer.

Em finais de Janeiro, à medida que crescia a revolta, o chefe das forças armadas egípcias e os seus assessores estiveram em Washington a conferenciar com o governo e os militares norte-americanos. Se lhes tivesse sido dito que Mubarak tinha que sair imediatamente – como aconteceu com o Xá do Irão em 1979 e como pode ter sido o caso do regime de Ben Ali na estrategicamente menos importante Tunísia controlada pelos franceses – então, de uma forma ou de outra, Mubarak teria saído. Mesmo que os EUA se desembaracem dele agora, os acontecimentos já mostraram que essa não tem sido a solução preferida dos EUA.

Independentemente das mudanças que os EUA acabem por ter que aceitar, farão o seu melhor para minimizarem o papel do povo e evitarem encorajar o seu movimento. Essa é uma importante razão para que os EUA prefiram que se deixe que Mubarak tenha uma saída digna e não seja visto como tendo sido afastado pela “rua”, com tudo o que isso poderia significar para outros regimes árabes dependentes dos EUA. Mas, acima de tudo, querem ter a certeza de que, quer Mubarak consiga ou não presidir à transição, o regime que ele construiu e liderou continue tão intacto quanto possível.

O exército não é neutro

Ao mesmo tempo que o apoio de Obama a Mubarak é qualificado e não necessariamente permanente, ele foi efusivo no seu elogio ao exército egípcio e à forma como este tem lidado com o movimento de protesto.

Durante o início da insurreição, até 1 de Fevereiro, a polícia foi incapaz de impedir os manifestantes, embora tenha matado centenas de pessoas e ferido gravemente muitas mais. Em muitos casos, as pessoas atacaram a polícia e puseram-na em fuga. Houve carros blindados que foram atacados e incendiados no Cairo e em Alexandria. Em várias cidades, esquadras da polícia foram assaltadas e destruídas. Uma vaga de pilhagens parece ter sido em grande parte obra da própria polícia.

As pessoas organizaram barreiras de estrada nos bairros e grupos toscamente armados para protegerem as suas vidas e bens. Também se organizaram para se protegerem contra provocadores, limpar as ruas e manter os serviços públicos de saúde e saneamento e para distribuírem chá e comida na Praça Tahrir (da Libertação), no Cairo, um local altamente simbólico assim chamado devido ao golpe de estado militar de 1952 que derrubou a monarquia controlada pelos britânicos, bem como frente à principal mesquita de Alexandria. Elas explicavam orgulhosamente aos jornalistas que a praça e o país agora lhes pertenciam.

Mas o exército continuou omnipresente, mostrando o seu poder. Alinhou veículos blindados nas avenidas e pontes do Cairo e concentrou à volta da praça cerca de cem tanques novos fornecidos pelos EUA. Para impedir as pessoas de convergirem para a capital e para Alexandria, cortou as estradas e os transportes públicos que ligam o Cairo e outras grandes cidades às cidades provinciais. Os soldados revistavam as pessoas à medida que elas entravam na manifestação e verificavam as suas identidades. Havia helicópteros a filmar as multidões de cima. Aviões de combate de fabrico norte-americano e francês sobrevoavam repetidamente a Praça Tahrir. Os militares ergueram um muro protector à volta da residência de Mubarak.

Manter a ordem quando as pessoas querem derrubar o regime não é um acto neutro. Depois do discurso de não demissão de Mubarak, muitos manifestantes subitamente temeram que se ele afinal não se ia demitir, eles poderiam ser perseguidos e punidos.

De quem é o exército?

Se é verdade, como alguns jornalistas suspeitam, que os EUA disseram aos militares egípcios na Praça Tahrir que se deveria abster de uma solução à “Tienanmen”, em que o governo chinês mandou disparar sobre uma praça cheia de manifestantes, não foi porque ninguém na administração Obama ou nos corredores do poder de Washington se preocupem mais com as vidas egípcias do que com os interesses norte-americanos, mas porque se o exército abrir fogo sobre os manifestantes de uma forma prolongada – em vez de tiros para o ar, como tem feito esporadicamente até agora – a situação pode ficar ainda mais fora de controlo político.

Os EUA financiaram, armaram e treinaram essas forças armadas e têm dado uma grande atenção ao seu treino militar e político. É o maior exército árabe e o décimo maior do mundo. Os seus serviços secretos chegam a todos os cantos da sociedade e as suas prisões e câmaras de tortura estão entre as mais medonhas do mundo. É difícil exagerar as ligações entre essas forças armadas e os EUA Quase toda a ajuda financeira dos EUA ao Egipto, 1,3 dos 1,5 milhares de milhões de dólares por ano, vão para as forças armadas. Durante as últimas décadas, o único país em todo o mundo a receber mais ajuda norte-americana tem sido Israel.

O exército não só é o protector último do estado, também é a mais poderosa força económica do Egipto. Tem uma rede de fábricas, hotéis, imóveis e outros negócios. Além disso, há generais aposentados a gerir muitas das empresas do estado, como as fábricas têxteis que têm sido historicamente componentes fundamentais da economia do país, orientada para a exportação, juntamente com a indústria do petróleo administrada pelo estado. Isto faz do exército um parceiro, bem como um facilitador político e militar do domínio do Egipto pelo capital estrangeiro e pelo mercado mundial imperialista.

Há sem dúvida reais diferenças entre o rico e modernizado exército e a polícia de pequenos criminosos do Egipto que andam à procura de subornos nos bolsos das pessoas. A polícia, e não o exército, é há décadas responsável pela repressão ao nível das ruas, e isso tem tido um efeito na forma como o exército é visto. Não foi por acaso que o primeiro dos ministros que Mubarak deitou fora numa tentativa de aplacar as pessoas foi o seu odiado Ministro do Interior.

Além disso, as forças armadas conseguiram preservar uma espécie de aura nacionalista devido ao seu papel na luta contra o domínio britânico, desde o derrube da monarquia à defesa do Egipto contra a invasão britânico-franco-israelita de 1956, altura em que o Egipto nacionalizou o Canal do Suez, antes controlado pelos britânicos. Também é muito considerado por ter defendido em 1967 o país contra a invasão israelita que tomou ao Egipto a Península do Sinai, e pelas suas vitórias militares na guerra de 1973 com Israel, que acabou por fazer com o Egipto recuperasse o Sinai. Muita gente, ao que parece, também está algo confusa por o exército ser composto por conscritos.

Mas o exército e a polícia podem estar a apostar numa divisão de trabalho do tipo “polícia bom, polícia mau”, tão conhecida em todo o mundo. O que é provavelmente mais fundamental nas infundadas esperanças de que o exército irá “apoiar o povo” contra Mubarak é que as pessoas compreendam muito bem o que acontecerá se o exército não o fizer.

Mubarak e o exército

Mubarak respondeu à revolta contra si nomeando o chefe dos serviços secretos como seu vice-presidente – o seu primeiro vice-presidente e portanto o seu sucessor oficial se Mubarak se demitir. Omar Suleiman é há décadas o responsável pela repressão e visita frequentemente Washington e Telavive. Um telegrama diplomático norte-americano divulgado pela WikiLeaks diz que ele é um dos responsáveis egípcios em que o governo dos EUA mais confia. Mubarak nomeou o actual chefe da força aérea Ahmad Shafiq como seu primeiro-ministro. Também se reuniu com os seus chefes militares regionais.

Embora Mubarak, tal como os seus predecessores Gamal Nasser e Anwar Sadar, seja um produto das forças armadas, até agora tem havido pelo menos a pretensão de uma separação entre os militares e o governo. Por exemplo, os oficiais de alta patente não estão autorizados a ser membros do partido de Mubarak e a maior parte dos seus recentes (e agora ex-) ministros têm sido homens de negócios civis e supostos “tecnocratas”. Esta entrada do exército no centro do governo tem dois objectivos: sobrepor-se ao movimento popular e manter Mubarak no poder enquanto for possível, e assegurar que se o autocrata cair os militares irão manter a continuidade do regime. Isto parece reflectir a táctica dúplice dos EUA nesta situação.

Mas mesmo a militarização do governo de Mubarak, embora tenha tido como objectivo ser uma demonstração de força, teve efeitos políticos negativo ao identificar os militares com o poder dos EUA/Mubarak e ao alargar o alvo da fúria popular. Surgiram palavras de ordem a exigir a saída dos generais, para além do próprio Mubarak, todos eles vistos por algumas pessoas como fantoches dos EUA. Causou-lhes repugnância o facto de Suleiman, o principal negociador e colaborador de Mubarak com Israel, estar agora a pedir aos partidos da oposição para negociarem com ele.

As coisas que eles fazem podem desfazê-los a eles próprios

Uma das mais importantes lições que deve ser retirada da nova e inesperada situação no Egipto e em todo o Médio Oriente é que as próprias coisas que os EUA têm feito para manterem a região sob as suas botas criaram enormes problemas para a continuação do domínio norte-americano.

Além do dilema dos EUA em relação ao futuro pessoal de Mubarak, o outro caso mais claro desta contradição é o papel de Israel como factor de instabilidade regional. Como estado colonial e como única sociedade na região com que os EUA podem contar, o domínio norte-americano da região seria muito mais difícil sem esse posto avançado altamente militarizado. A actual situação no mundo árabe faz realçar a centralidade de Israel para os EUA, ainda que ao mesmo tempo também destaque os problemas que Israel cria ao império encabeçado pelos EUA.

Além de terem incendiado completamente a sede de 15 andares do partido de Mubarak e de terem atacado o Ministério do Interior, as multidões sitiaram e atacaram o edifício do Ministério dos Negócios Estrangeiros. As pessoas de todo o Médio Oriente odeiam o que Israel faz aos palestinianos e a solidariedade com a Palestina tem sido uma das características das insurreições no Egipto, na Tunísia e na Jordânia (em que metade da população é palestiniana). Esses regimes e monarquias de estados abertamente “policiais” não só são estados clientes dos EUA num sentido geral, também são bastiões contra os palestinianos e os sentimentos pró-palestinianos dos seus próprios povos. Por exemplo, o regime de Mubarak tem colaborado com Israel no cerco ao povo de Gaza e nas tentativas de controlar a política palestiniana.

A Secretária de Estado de Obama diz estar preocupada por o que vier a seguir a Mubark poder não ser “democrático”. Isto é geralmente interpretado como uma expressão de medo de que a queda de Mubarak possa favorecer a Irmandade Muçulmana Egípcia, o grupo que é historicamente o pai do fundamentalismo islâmico sunita moderno e do “Islão político” em geral. Isso é uma possibilidade. Embora o fundamentalismo islâmico não pretenda romper com o mercado mundial imperialista e com as relações económicas e sociais que esse mercado impõe, o movimento islamita ameaça perturbar o status quo, a actual configuração do Médio Oriente de que depende o domínio norte-americano. Mas, tal como vimos no Irão, no Iraque, no Afeganistão, no Paquistão e noutros lugares, tão mau quanto a ascensão do Islamismo possa ser para os interesses do império norte-americano, também é um desastre para o povo.

No passado, os EUA e Israel ajudaram a construir a Irmandade para minarem os movimentos laicos mais radicais. Até hoje, as relações entre o governo de Mubarak e a Irmandade têm sido complicadas e por vezes ambíguas. A Irmandade foi até recentemente autorizada a manter alguns lugares no parlamento e continua a agir semi-abertamente, mesmo sendo oficialmente ilegal e frequentemente reprimida. Suleiman tem sido tanto o chefe das operações anti-fundamentalistas de Mubarak como um homem que se diz desfrutar do respeito das forças islâmicas. O regime tem reprimido pelo menos tão violentamente, se não mesmo mais, todos os rebentos da oposição laica de esquerda, como sucedeu em 2003 com a oposição à iminente invasão norte-americana do Iraque.

A Irmandade, por seu lado, manteve-se fora da actual revolta até parecer estar à beira da vitória, e mesmo agora insiste que quer representar um papel subordinado e não ascender ao poder – por enquanto. Contudo, a obstinação dos EUA em se agarrarem a Mubarak e a sua determinação em continuarem a humilhar o povo egípcio mesmo após a saída de Mubarak, o papel vacilante de algumas forças laicas e a identificação do regime com Israel, tudo isto são factores que podem acabar por ser favoráveis à expansão da influência do movimento islâmico, sobretudo (mas não só) na ausência de uma alternativa revolucionária.

Poderão os EUA ser uma força pela democracia?

Poderia ser divertido se não fosse tão criminoso ouvir os EUA falarem agora na necessidade de “eleições livres, justas e credíveis” no Egipto, dado que ainda há apenas alguns meses, em Novembro de 2010, quando Mubarak organizou eleições parlamentares que foram tudo menos o que essas palavras descrevem, todo o sistema político ocidental as aceitou. E quando Obama fala em “valores partilhados” entre os EUA e o Egipto, devemos lembrar que o que os EUA há muito partilham com Mubarak não são só as granadas de gás lacrimogéneo, as balas e os tanques usados para reprimir o povo egípcio mas também as câmaras de tortura do regime. Desde 1995 que, às ordens do marido da actual Secretária de Estado Hillary Clinton, o então Presidente Bill Clinton, os EUA têm entregado os seus cativos ao regime de Mubarak para serem torturados num programa da CIA de “capitulações”.

Como poderia ser de outra forma, quando os interesses dos EUA e dos seus aliados europeus requerem o domínio de países como o Egipto por todos os meios possíveis? Os países capitalistas monopolistas não podem actuar de outra forma porque a sua posição no mundo (incluindo as principais fontes da riqueza deles e o seu sucesso na rivalidade entre si) baseia-se na subjugação financeira e política da vasta maioria dos povos do mundo. Dentro desta divisão do mundo, os EUA têm os seus próprios interesses nacionais particulares e as suas neocolónias.

Por isso, os interesses fundamentais das classes dominantes imperialistas, incluindo das dos EUA (e não apenas dos governos de um qualquer presidente ou primeiro-ministro em particular) estão em oposição às reivindicações democráticas dos povos dos países que dominam, a direitos políticos e sobretudo à igualdade das nações e ao direito à autodeterminação das nações oprimidas. Em geral, o imperialismo tende a negar ou a limitar o tipo de formas de governo democrático-burguês (direitos iguais para todos, sobretudo quando expressos em eleições) que em geral têm marcado o domínio capitalista monopolista nos próprios países imperialistas onde todo o propósito dessas estruturas é preservar o sistema e suavizar o funcionamento do que é, na essência, a ditadura da classe capitalista monopolista. Por exemplo, o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair admite agora que o seu governo participou na invasão do Iraque contra a vontade do povo britânico. Como temos visto ultimamente nos EUA, na Grã-Bretanha e noutros países ricos, mesmo aí esses direitos e estruturas fundamentais podem ser alterados ou abandonados quando o domínio e os interesses do capitalismo monopolista o requerem.

É verdade que os EUA se têm preocupado com a estreita base social dos regimes seus clientes no Médio Oriente, e agora que começou uma crise irão pôr algumas reformas em movimento. É revelador que tais desejos não se tenham tornado numa prioridade dos EUA no Egipto até o povo ter empurrado o regime de Mubarak até à beira de um precipício. Como escreveu sobre Tunísia o principal conselheiro político imperialista norte-americano Robert D. Kaplan: “Em termos dos interesses norte-americanos e da paz regional, há muitos perigos na democracia. Não foram os democratas, mas sim os autocratas árabes, Anwar Sadat [antecessor de Mubarak] do Egipto e o [antigo] Rei Hussein da Jordânia que fizeram a paz com Israel. Um autocrata firmemente no poder pode fazer concessões mais facilmente que um fraco líder eleito... De facto, será que queremos realmente que um líder relativamente iluminado como o Rei Abdullah da Jordânia seja debilitado por manifestações de rua? Devemos ter cuidado com o que queremos no Médio Oriente.” (The New York Times, 22 de Janeiro de 2011)

Washington pode por vezes desejar que os regimes seus clientes pudessem desfrutar de mais estabilidade, sendo menos abertamente autocráticos, mas é a manutenção de regimes clientes ou, em alternativa, flexíveis que é o objectivo fundamental dos EUA. Toda a conversa sobre eleições e “democracia” está subordinada a esses interesses. O Líbano é o único país árabe que pode ser razoavelmente descrito como tendo um governo eleito. Porém, este mês, quando o Hezbollah desempenhou um papel decisivo na nomeação de um novo primeiro-ministro por meios inteiramente legais e constitucionais, os EUA ficaram enfurecidos e decididos a punir o país. Quando o Hamas (intimamente ligado à Irmandade Muçulmana do Egipto) ganhou as eleições em Gaza, os EUA e seus aliados gritaram “terrorismo” e têm apoiado o castigo colectivo do povo de Gaza por Israel pela sua impudência. Num tipo diferente de exemplo, está a Turquia, cujo Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP), no governo e um aliado íntimo de Washington, não aceitou os massacres israelitas no grau pretendido por Obama e pelos interesses norte-americanos.

A negação da democracia e as ilusões democráticas

Porém, o facto de as reivindicações democráticas do povo serem ignoradas nos países oprimidos pelo imperialismo é tanto uma fonte de instabilidade e revolta, como de ilusões entre o povo. Os EUA e seus aliados farão o seu melhor para limitarem as vitórias dos movimentos populares por reformas, sobretudo alguns tipos de eleições e direitos, independentemente de quão limitadas tenham que ser para preservar o domínio imperialista. No Egipto, podemos ter a certeza que, quaisquer que sejam as reformas que ocorram, servirão para roubar ao povo a sua maior vitória até agora, o seu salto em frente da passividade política imposta à sua resoluta determinação em criar uma verdadeira mudança.

O problema para o Egipto, tal como para todo o terceiro mundo, não são apenas as estruturas políticas impostas pelo imperialismo, mas toda a estrutura económica e social da sociedade em que se baseiam as instituições políticas. A humilhação e a miséria do povo egípcio intensificaram-se quando o país foi mais plenamente integrado no mercado mundial durante a última década. Mesmo a relativamente elevada taxa de crescimento económico do país, ao mesmo tempo que recebia elogios do FMI e outras instituições imperialistas, trouxe mais sofrimento para a maioria das pessoas.

Nenhum regime se pode opor ao imperialismo de uma forma prolongada e consistente a menos que se liberte da dependência do mercado mundial imperialista na organização da sua economia, bem como na esfera política. Isto implica uma revolução que não seja democrático-burguesa ou, por outras palavras, que não vise obter direitos iguais no contexto da ordem mundial imperialista global, o que em geral é impossível em países estruturalmente oprimidos e dependentes, mas que seja aquilo a que Mao Tsétung chamou Revolução de Nova Democracia, uma revolução para romper as grilhetas do feudalismo e do capitalismo dependente do imperialismo que tornam um país susceptível à subjugação política estrangeira.

Em vez de ficar cada vez mais enredado na globalização imperialista, que depende das classes reaccionárias locais para impor um controlo político que favoreça a subordinação do país ao capital global e a um desenvolvimento desequilibrado, a Nova Democracia é uma transição para todo um novo sistema, o socialismo, que pode romper com o capitalismo mundial, é uma revolução em aliança com os povos do mundo e cujo objectivo final é a derrota do sistema capitalista mundial e a sua substituição por um mundo sem imperialismo nem classes, um mundo de seres humanos livremente associados, o comunismo,

Como os egípcios dizem a quem os quer ouvir, as reivindicações que agora unem as pessoas contra Mubarak são a expressão de uma ardente determinação em recuperarem o seu próprio país. É com isso que os EUA não podem estar de acordo, independentemente de quanto possa ter que ajustar os seus actos para defender os seus interesses no complexo contexto do que é possível e não apenas do que Washington possa querer.

A ideia de um Egipto sem Mubarak é tão entusiasmante para o povo egípcio quanto assustadora para os que governam os EUA e todos os regimes através dos quais os EUA dominam a região. O resultado tem sido um feroz esforço de guerra entre o povo egípcio e os EUA que provavelmente terá consequências de longo alcance para o povo egípcio, para a região e para os EUA.