Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 19 de junho de 2017, aworldtowinns.co.uk

Queimados até à morte pelo crime de serem pobres ou membros de uma minoria na Grã-Bretanha capitalista

Os nomes deles leem-se como uma chamada de um registo das Nações Unidas – Mohammed, Khadija, Sheila, Felix, Marco, Antonio... Tinham todas as idades, vieram de dezenas de países e falavam muitos idiomas. Mas pelo menos 79 deles, e talvez mais – excluídos, pobres, refugiados de outros países ou na sua própria terra – todos eles sofreram o mesmo destino, queimados vivos ou a mergulhar para a morte num inferno com uma única fonte: um sistema capitalista assassino baseado no lucro e não nas necessidades humanas.

Quando o incêndio começou num pequeno apartamento na Torre Grenfell de 24 andares, um complexo de habitação social em North Kensington e Chelsea, um dos bairros mais ricos da Grã-Bretanha, inicialmente os residentes pensaram que seria facilmente contido. O que eles não consideraram foi o sistemático minar de quase todos as medidas de segurança que poderiam ter sido tomadas para os proteger.

1) O revestimento que foi usado na renovação do edifício um ano antes não tinha nenhum retardante do fogo – uma prática ilegal em dezenas de países, incluindo nas muito mais pobres Sérvia e Eslováquia. O edifício foi literalmente embrulhado em polietileno inflamável. O fornecedor estima que a versão retardante do fogo teria custado mais umas 5000 libras – menos de 100 libras [113 euros] por vida.

2) Não havia nenhum sistema de aspersão de água na torre – embora o relatório, feito seis anos antes, de uma investigação sobre um incêndio numa outra torre de habitação social em Londres, a Lakanal House, tenha recomendado um reequipamento dos aspersores. O governo tinha concluído que isso seria demasiado caro. Só 18 das 4000 torres de habitação social na Grã-Bretanha têm sistemas de aspersão. Virtualmente todos os arranha-céus de luxo e edifícios de escritórios os têm. Todos os peritos em segurança contra incêndios disseram que os aspersores teriam parado o incêndio ou que pelo menos que o teriam abrandado o suficiente para impedir uma significativa perda de vidas.

3) Nem um único residente relatou ter ouvido o alarme de incêndio – uma vez mais, uma simples medida preventiva barata que é rotineiramente implementada na Grã-Bretanha – à exceção das casas dos pobres.

4) Para além de só haver uma única escada de incêndio, não havia nenhum sistema de ar pressurizado na escada – uma medida que um administrador de edifícios universitários disse ao SNUMAG ser simples, barata e geralmente aplicada em edifícios de escritórios ou de luxo. A entrada de ar pressurizado vindo do cimo das escadarias minimiza o fumo nas escadas enquanto os bombeiros entram e os residentes saem.

Medida atrás de medida – simples, baratas e em que qualquer uma delas teria salvado dezenas de vidas e as casas de provavelmente 600 pessoas – foram sendo omitidas. Por quê?

Devemos dizê-lo claramente: os residentes da Torre Grenfell morreram às mãos da elite dominada pelos conservadores que gerem o Conselho de Kensington, o município responsável pela gestão do complexo de habitações, insensíveis e indiferentes às vidas deles, “os menos relevantes” dos seus residentes – um conselho que rouba centavos em medidas que podem salvar as vidas dos pobres, ao mesmo tempo que o governo deles esbanja 400 milhões de libras a renovar o palácio da Rainha! Um conselho mais preocupado em fazer com que “borrões” na paisagem como estas torres se tornem mais “apresentáveis”, protegendo assim o valor imobiliário das áreas abastadas que as rodeiam que em proteger as vidas daqueles que vivem dentro delas.

As mortes ocorreram às mãos dos reguladores governamentais que escolhem ignorar os conselhos dos especialistas e suspender as regras que mais cedo ou mais tarde estão destinadas a resultar exatamente a terríveis perdas de vida do tipo das que aí ocorreram.

As mortes ocorreram às mãos das grandes empresas que fecham os olhos à maneira como os seus produtos são usados, com os olhos ameaçadoramente focados, em vez disso, nos resultados financeiros.

As mortes ocorreram às mãos dos políticos que supervisionam todo este processo. Às mãos dos conservadores, claro, cujas medidas de austeridade fecharam 10 quartéis de bombeiros em Londres, que retalharam os regulamentos para “deixar o mercado fazer o seu trabalho” e que estão a avançar com o Brexit, entre outras razões, para escaparem declaradamente à “burocracia regulatória” da União Europeia – para evitarem exatamente este tipo de regulamentos! Mas isto também inclui os trabalhistas que nada fizeram na sequência do desastre do incêndio na Lakanal House em 2009, quando eles eram responsáveis pelo Sul de Londres e que, durante os 13 anos em que estiveram no poder até 2010, presidiram à negligência condescendente da habitação social na Grã-Bretanha, não tendo construído praticamente nenhuma nova unidade.

O resultado de tudo isto foi que dezenas de residentes foram apanhadas nos seus apartamentos pelas chamas em rápida ascensão. Uma mãe desesperada atirou do 9º andar o filho embrulhado, o qual foi apanhado por um homem lá em baixo. Outros residentes, perseguidos pelas chamas, saltaram para a morte certa. Muitos deles enviaram mensagens de despedida aos seus entes queridos que nos causam apertos no coração. As pessoas que estavam a ver o incêndio relataram o revirar das suas entranhas ao verem os rostos encostados às janelas dos andares superiores, torturados por um sentimento de impotência dado que nada mais podiam fazer a não ser olhar.

A resposta ao desastre foi tão reveladora do funcionamento assassino deste sistema bárbaro como o foi o início do desastre. Centenas de pessoas correram imediatamente para a zona, saindo dos empregos, conduzindo durante horas, fornecendo apoio às centenas de pessoas que tinham perdido tudo, mesmo quando os bombeiros ainda estavam a combater as chamas. Passadas poucas horas, a mobilização de apoio já tinha fornecido o suficiente na maioria dos bens. Em total contraste com isto, aqueles que era suposto estarem a liderar o apoio tinham feito muito pouco.

O conselho local esteve, dia após dia após dia, largamente ausente. Os jornalistas estrangeiros relatavam incrédulos como, já no sábado, mais de 72 horas após o incêndio, não havia um centro de comando unificado como é rotineiro fazer mesmo em locais distantes atingidos por desastres naturais, como no caso do furacão no Haiti.

Mas o que foi mais condenável em tudo isto foi a resposta de Theresa May, a primeira-ministra britânica. Por fim, na quinta-feira, ela apareceu no local, mas só falou com os dirigentes dos serviços de emergência e há fotografias que a mostram a olhar para o tumulo ainda quente, não tendo falado com um único sobrevivente. Alguns conhecidos sítios noticiosos publicaram a foto dela lado a lado com a infame foto do presidente norte-americano George Bush em que ele contemplava do avião dele a devastação causada pelo furacão Katrina em Nova Orleães – e isto apenas aos sítios noticiosos pró-conservadores! Os defensores de May disseram que ela não tinha ousado encontrar-se com os sobreviventes por temer que eles a vaiassem ou fizessem mais que isso, criando-lhe ainda mais dificuldades políticas quando isso chegasse aos canais televisivos noticiosos – e pondo em risco a capacidade de ela promover o programa dela para o Brexit. Se foi este o cálculo que ela fez, é ainda mais condenável que a aparente indiferença dela.

O Conselho de Kensington anunciou em simultâneo que poderia não conseguir realojar no próprio município os sobreviventes. Já há vários anos que a vertiginosa subida dos custos de habitação, impulsionada em parte pela galopante especulação no mercado imobiliário, se conjugou com as políticas governamentais para expulsar sistematicamente os pobres do centro de Londres. Em vez de ajudarem aqueles que perderam as suas casas e mesmo os seus entes queridos, os políticos estiveram friamente a agarrar a sua oportunidade para se envolverem numa maior “limpeza social” do bairro deles. A fúria que ia crescendo à medida que emergiam os factos por trás da criminosa responsabilidade por estas mortes e destruição transbordou numa efusão de fúria em massa na sexta-feira. Uma manifestação que se dirigiu ao Conselho de Kensington, iniciada por apenas cerca de 100 familiares imediatos e amigos, rapidamente aumentou com muitas mais pessoas a se lhe juntarem. Gritando “Assassinos, assassinos” e “Vocês são uma vergonha”, centenas de manifestantes invadiram a entrada do edifício do Conselho antes de a polícia chegar e os ter forçado a sair. Num esforço para acalmar as águas agitadas, a própria Rainha fez uma visita no dia seguinte e falou com familiares de sobreviventes.

Têm surgido cartazes nas paredes com muitos milhares de inscrições de vizinhos e outras pessoas tocadas pelos acontecimentos. Muitos deles falam sobre como irão sentir a falta dos amigos e entes queridos, mas a fúria também efervescia. Típico disto era um dos cartazes que falava sobre a impotência do seu autor enquanto assistia às chamas a propagarem-se, concluindo: “As memórias deles estarão sempre comigo. RIP [Descansem Em Paz]. Que vão para o inferno todos os que são responsáveis!”

O incêndio abriu algumas feridas profundas que infestam a sociedade britânica. Todas as principais forças políticas organizadas estão a tentar transformar esta tragédia numa oportunidade: poderosos opositores no Partido Conservador que querem afastar May andam aos círculos como abutres e os ativistas do Partido Trabalhista estão a tentar estreitar o alvo da fúria aos conservadores, para afastarem May e talvez mesmo forçarem novas eleições nacionais – embora a maioria das torres se situem em municípios controlados pelos trabalhistas. Um dos maiores, o Conselho de Camden, contratou recentemente a mesma empresa para renovar torres que alojam 700 famílias, muito possivelmente com o mesmo revestimento barato com risco de incêndio. Em todo o país, muitas das cerca de dois milhões de pessoas que vivem em torres semelhantes estão agitadas dado que se interrogam se também elas se poderão tornar em vítimas da mesma lógica assassina que matou tantas pessoas na Torre Grenfell.

Surgindo na sequência do revés eleitoral que Theresa May e os conservadores sofreram, esta crise política enfraqueceu o governo num momento crítico, com as negociações com a União Europeia sobre o Brexit agendadas para começar na segunda-feira, 19 de junho. Rasgou o véu que encobria a maneira como o funcionamento rotineiro da sociedade capitalista lida com o fornecimento de algo tão elementar como o alojamento da população – o facto de que, apesar de tudo o que possam dizer ou fazer qualquer dos partidos parlamentares, para toda a gente no sistema capitalista as residências das pessoas não são casas legítimas delas, mas antes mercadorias, estruturadas pelas divisões de classe e outras que se tornam cada vez mais profundas, mais opressivas e mais mortais à medida que é acumulado o capital produzido pela exploração global. Mesmo no sentido mais imediato, as ações tomadas para garantir a enorme riqueza que é recolhida no mercado imobiliário de Londres – riqueza essa que, em última análise, é produzida pela exploração global do trabalho – pode dizer-se que tem sido o principal fator na situação que levou ao massacre da Torre Grenfell. Só através do socialismo e, em última instância, de uma sociedade global de seres humanos que cooperam livremente – um mundo comunista – poderão ser libertadas todas as facetas do potencial humano para que sejam ultrapassadas estas divisões nefastas e satisfeitas as necessidades humanas no sentido mais vasto e mais emancipatório, bem como satisfeitas as necessidades mais elementares da vida.

Quando as contradições básicas na maneira como a sociedade está organizada explodem à vista de todos, com a intensa fúria e a revulsão generalizada produzida por crimes como o massacre da Torre Grenfell, isto precisa de ser ligado a uma compreensão e a um plano para uma revolução que ponha fim a uma situação que é intolerável para milhões de pessoas nas pátrias imperialistas ricas, bem como para a vasta maioria dos seres humanos no mundo cujas vidas são bloqueadas, diminuídas e muitas vezes prematura e brutalmente terminadas pelo sistema capitalista-imperialista.