Porque é que a França interveio no Mali e porque é que isso só pode ser mau para o povo maliano

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 13 de Fevereiro de 2013, aworldtowinns.co.uk

A intervenção militar francesa no Mali – que levou ao norte do país um inferno de arrogância e poder aéreo imperialista – fez os governantes e a imprensa francesa regozijarem-se sobre vitórias fáceis e o aparente apoio de muitos malianos, e também da maioria dos franceses, alegando que “não há outra solução”. Uma pequena manifestação de malianos na capital, a cidade meridional de Bamako, contestou esta charada de “libertação” com cartazes escritos à mão que diziam: “Abaixo os interesses imperialistas! Abaixo a ECOWAS!”

Esta crise no Mali revela um turbilhão de contradições em toda a região da África Ocidental e do Norte conhecida como Sahel-Saara que nenhum exército ou estado imperialista começará sequer a resolver. De facto, o papel deles irá certamente acelerar as contradições que resultaram numa guerra e numa ocupação multinacional do Mali encabeçada pelo imperialismo francês. É os imperialistas é que são largamente responsáveis pelas vidas empobrecidas, muito curtas e destruídas que a maioria dos malianos levam.

A causa imediata da guerra foi desencadeada pela descida, vinda do norte, de uma aliança de forças islâmicas armadas que na primavera passada tinham tomado o controlo das principais cidades do norte do país. No início de Janeiro de 2013, avançaram até aos limites da região sul, onde o estado central do Mali tem o seu quartel-general, onde vive 90 por cento da população e onde tem a maioria dos seus recursos. Até agora, a crise demorou a desenvolver-se, com pegadas coloniais e imperialistas francesas, juntamente com as de muitas outras potências, por todo o lado.

Em Março de 2012, pouco antes das eleições nacionais, alguns oficiais mais novos do exército, alguns deles treinados e armados pelos EUA, fizeram um golpe de estado e desalojaram o Presidente maliano Amadou Toumani Touré, alegadamente porque ele não tinha tomado uma posição suficientemente forte contra a mais recente revolta da minoria tuaregue, em Janeiro de 2012. Pouco tempo depois, o Movimento Nacional para a Libertação de Azawad (MNLA), reforçado por um grande número de deserções do próprio exército maliano, entre os quais alguns oficiais tuaregues, declarou a independência do norte do país, sob o nome de Azawad. Touré fugiu para o Senegal.

Touré, um amigo de Muammar Khaddafi que apoiou o governo líbio e se opôs à intervenção francesa aí, alegou ter avisado a NATO de que derrubar Khaddafi teria efeitos destabilizadores na região. O governo interino que substituiu Touré em Bamako tem pouca legitimidade entre a população. O exército nacional, rapidamente ultrapassado pela ofensiva no norte, ficou debilitado, disfuncional e dividido, tal como o resto do estado maliano.

O plano francês de intervenção já estava em preparação, mas foi acelerado quando os jihadistas desceram para as cidades do sul do Mali numa torrente de 300 carrinhas pick-up. O governo francês tinha feito aprovar em Dezembro de 2012  uma resolução no Conselho de Segurança da ONU que autorizava uma intervenção militar, sobretudo de soldados africanos da ECOWAS (Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental) que a França comandaria e treinaria. Os países vizinhos, Níger, Burkina Faso e Nigéria, andaram a arrastar os pés até as condições de financiamento dessa força mercenária terrestre inteiramente africana serem definidas. Na reunião de 29 de Janeiro de 2013 da União Africana em Addis Abeba foi prometida uma primeira soma de 470 milhões de dólares, sobretudo de potências imperialistas.

Os franceses recrutaram a ajuda dessas tropas da África Ocidental sob a capa de serem os africanos “a resolver os seus próprios assuntos” de forma a “restabelecerem pacificamente [!] a integridade territorial do Mali”. Isto queria dizer, pelo menos por causa da opinião pública, expulsar os jihadistas islamitas do norte do Mali, os quais, segundo alguns relatos, tinham afastado o MNLA, de base tuaregue, e imposto a sua autoridade. O objectivo dos imperialistas franceses também é claramente preparar o terreno para um reforço do aparelho de estado central do Mali, em linha com o fortalecimento dos interesses franceses na sua zona de influência histórica. A imprensa alternativa de França está a contestar François Hollande pela sua hipocrisia, dado que há menos de um ano trás, durante a campanha dele para a presidência francesa, foi ouvido a insistir no fim da “FrancAfrique” (a relação privilegiada de França com as suas ex-colónias na África Ocidental e a interferência nos seus assuntos internos).

Então, com o apoio de informações e logístico norte-americano e britânico e o acordo do governo argelino para deixar a França usar o seu espaço aéreo, os franceses entraram no norte do Mali a 11 de Janeiro. No que eles disseram ser um acto de vingança, as forças jihadistas atacaram uma instalação de produção de gás da BP no sul da Argélia e fizeram cerca de 40 reféns estrangeiros. O governo argelino não perdeu tempo a negociar e acabou brutalmente com a operação no seu deserto meridional, bombardeando jipes com reféns a bordo que se retiravam para a Líbia e matando cerca de 70 pessoas. Muitas pessoas acreditam que a Argélia, que tem o maior exército da África do Norte, está a agir pelos seus próprios interesses regionais.

A 11 de Fevereiro de 2013, enquanto as tropas francesas e malianas, com alguma ajuda de soldados da África Ocidental, tomavam o controlo das cidades do norte – sobretudo através da superioridade aérea e com poucos combates no terreno – as forças do Mujao Islâmico reentraram na cidade de Gao por barco no Rio Níger e atacaram a esquadra da polícia. Os combates duraram poucas horas, com o apoio do poder aéreo francês e, significativamente, pela primeira vez envolveu bombistas suicidas. As tropas francesas e malianas deslocaram-se para as zonas montanhosas da província oriental de Kidal, para onde se assumiu que as forças islâmicas se iriam retirar. Muito do debate em todo o mundo centrou-se no “novo” Sahelistão – por outras palavras, o potencial “atolamento” do exército francês no Mali, com Hollande a rever o calendário de retirada das tropas francesas quase numa base diária. Parece familiar?

Uma dependência neocolonial governada por um estado fraco

O Mali – um país de grandes dimensões situado geograficamente no coração do império colonial francês na África Ocidental e um dos mais pobres do mundo – tornou-se formalmente independente de França em 1960, mas manteve uma relação dependente (ainda que por vezes tensa) desde essa altura, com a sua economia atrofiada pelo domínio imperialista e pelas instituições financeiras internacionais. Depois da independência, chegou ao poder Modibo Keita, um dirigente de inclinações “socialistas” e pró-soviético. Ele era um aliado próximo de Kwame Nkrumah do Gana e de Sekou Touré da Guiné, com ligações a Cuba e à China e aos movimentos de libertação da Argélia e outros em África. Keita foi derrubado em 1968 e substituído por um regime mais submisso ao imperialismo, no primeiro de vários golpes militares que tiveram lugar durante os últimos 45 anos, reflectindo a fraqueza e a instabilidade do estado maliano. Uma constituição multipartidária só foi adoptada em 1992, depois de uma revolta liderada por estudantes contra o governo e de uma revolta dos tuaregues ter sido brutalmente reprimida em 1991 pelo predecessor de Touré.

Para o povo maliano, tem sido uma história de pobreza esmagadora enraizada nas relações neocoloniais de domínio e dependência sob a supervisão de governos dependentes e do FMI. Isto tem mantido o desenvolvimento das forças produtivas do país num nível muito baixo. O imenso território do Mali espalha-se pelo deserto do Saara a norte e pelas pradarias do Sahel no sul e é dividido pelo Vale do Rio Níger. Só 4 por cento das terras são cultiváveis, mas 80 por cento das pessoas estão envolvidos na agricultura, quer no cultivo quer no pastoreio de animais e na pesca.

Uma característica do colonialismo francês foi a política de agricultura de monoculturas de rendimento rápido – por exemplo, amendoim no Senegal e, no Mali, algodão para satisfazer as próprias necessidades têxteis da França. Assim, em vez de uma agricultura alimentar variada para satisfazer principalmente as necessidades locais, os camponeses são agenciados para cultivarem algodão atrás de mais algodão, num esforço para promover as receitas nacionais da exportação, mas nesse processo ficam acorrentados aos distribuidores estrangeiros e aos voláteis mercados imperialistas, tal como muitos países em África e no resto do terceiro mundo. Quando os preços dos mercados mundiais de algodão começaram a descer em finais dos anos 1990, devido parcialmente à baixa subsidiada dos preços do algodão europeu e norte-americano, os camponeses malianos foram os que sofreram e a dívida nacional cresceu.

Nos anos 1990, com os planos de reajustamento estrutural do FMI, o Mali passou a pertencer à categoria dos Países Pobres Altamente Endividados, o que após seis anos de apertar do cinto supostamente a troco do alívio da dívida – mas na realidade para reduzir as perdas dos países ricos – resultou em pagamentos do serviço da dívida ainda mais elevados que antes. O filme independente de 2006, Bamako, de Abderrahmane Sissako, encenou um falso julgamento improvisado do FMI, do Banco Mundial e dos interesses ocidentais, mostrando os efeitos devastadores do ajuste estrutural no Mali. (http://artthreat.net/2007/04/bamako-film-puts-the-world-bank-on-trial-and-wins/).

Uma burguesia relativamente pequena no estado ou à volta dele ficou rica com os lucros das minas de ouro da zona oriental do país (ainda que 80 por cento seja retirado para fora do país, sobretudo pelas multinacionais sul-africanas e canadianas, o Mali é o terceiro maior produtor de ouro de África). Ela também beneficia de uma extensa ajuda de doadores externos e retira lucros das vastas redes de tráfico de drogas e outros bens. Apesar disto, o próprio estado tem promovido muito pouco desenvolvimento infra-estrutural ou outro no norte e sul do país e nunca teve muito apoio da população. Por exemplo, dos cerca de 15 000 quilómetros de estradas, menos de 2000 km estão pavimentados. Os cuidados de saúde são terríveis e a esperança de vida é de apenas 49 anos (com apenas 2 por cento da população a passar dos 65 anos de idade).

No essencial, a minúscula elite educada viaja para Dakar, Abidjan ou Paris para estudar e poucas escolas novas foram construídas nas últimas décadas, resultando numa taxa de alfabetização incrivelmente baixa, sobretudo entre as mulheres. Menos de 30 por cento da população vota nas eleições nacionais. Manter as massas analfabetas e ignorantes é também, em parte, uma estratégia política, segundo alguns estudiosos: o estado teme a ascensão de estudantes politicamente astutos e dos estratos educados que são mais prováveis que denunciem e se oponham a esta situação.

Assim, embora muitos malianos tenham inicialmente acolhido bem a operação de “salvação” pelas forças francesas das reaccionárias e intoleráveis extorsões, amputações e supressão das liberdades fundamentais pelo domínio jihadista das cidades do norte, é importante compreender a mão pesada do imperialismo no altamente distorcido desenvolvimento económico do Mali que há muito tempo é alvo da oposição e denúncia dos movimentos políticos revolucionários e nacionalistas contra o regime e da região.

Os grupos étnicos, a questão nacional e o Islão

A minoria tuaregue, relacionada com os berberes das montanhas do litoral do Norte de África, é constituída por vários grupos tribais diferentes. Juntamente com os habitantes de origem árabe, calcula-se que os tuaregues constituam 10 por cento do total de 15 milhões de habitantes e vivem principalmente no norte do país. Desde 1960, os tuaregues levaram a cabo quatro revoltas distintas contra o governo central maliano e o seu abandono da região norte, centradas em torno da reivindicação de uma autonomia local. Essencialmente criadores de gado nómadas, eles estão espalhados por uma área mais ou menos contígua em vários países – a Argélia, a Líbia e o Níger, e também o Mali.

Com significativos investimentos no Mali e ligações tanto ao estado maliano como ao movimento pela autonomia do norte do país, Khaddafi também tinha incorporado tuaregues no exército líbio. Assim, depois da invasão imperialista de Março de 2011 liderada pelos jactos Mirage do então presidente francês Nicolas Sarkozy e do subsequente desmoronar do governo de Khaddafi, os tuaregues apoderaram-se de armas líbias modernas e dirigiram-se para o norte do Mali, segundo muitos relatos. Embora provavelmente isto seja apenas uma das razões do abundante abastecimento de armas e equipamento no Mali, é um princípio de explicação da razão por que o insuficientemente organizado exército maliano foi facilmente derrotado quando o movimento tuaregue tomou as cidades do norte e declarou a independência de Azawad.

Posteriormente, forças jihadistas também fortemente armadas e bem equipadas, organizadas em grupos como o Ansar-al-Dine, o Mujao e a Al-Qaeda do Magrebe Islâmico (AQMI), tomaram o poder militar à medida que o MNLA se retirava e, segundo alguns relatos, se prontificava a negociar. Os franceses afirmam que estão a bombardear apenas os grupos jihadistas (com numerosas vítimas civis) e muitas pessoas no interior dos círculos políticos franceses defendem conversações com o MNLA, enquanto outras dizem que o MNLA é apenas uma cobertura política dos jihadistas que se instalaram na importante cidade de Timbuktu, bem como em Gao e noutras cidades ao longo do Rio Níger. Os chefes de clãs, que se disputam entre si, ainda têm um grande peso nas estruturas sociais dos territórios do norte e diz-se que são outro factor na aparentemente constante reconfiguração de alianças e divisões entre os grupos armados islâmicos. Aparentemente, os residentes locais disseram aos jornalistas que o grupo armado que invadiu e tomou Konna no passado mês de Abril de 2012 era constituído por tuaregues de pele clara e árabes, bem como por negros que falam vários idiomas diferentes, do Mali e dos vizinhos Níger e Nigéria. Segundo os relatos da imprensa, nas milícias também estão envolvidos cidadãos canadianos e franceses.

Assim que os franceses iniciaram os seus ataques aéreos em meados de Janeiro e expulsaram as forças islâmicas para as zonas do deserto, alguns soldados mais excitados do exército maliano levaram a cabo actos de retaliação contra pessoas que eles suspeitavam de apoiar os islamitas (o que talvez não deixe de ter uma ligação ao facto de o exército ter sido derrotado por eles um ano antes). Isto ajudou a alimentar relatos na imprensa de que por trás da guerra estariam conflitos étnicos. Além disso, os residentes locais atacaram furiosamente sobretudo lojas árabes, muitas delas geridas por comerciantes da vizinha Mauritânia com uma longa história de presença no Mali. Quando essas lojas foram saqueadas, nalgumas delas foram encontrados grandes esconderijos de munições que os comerciantes tinham armazenado por vontade própria ou sob pressão das forças islâmicas. Isto aumentou a suspeita de que os comerciantes árabes tinham apoiado os islamitas durante a ocupação de 10 meses.

Na realidade, a intromissão imperialista avivou a possibilidade de estas divisões assumirem formas sórdidas entre o povo. O comércio afro-árabe de escravos, que é anterior à colonização, também deixou a sua marca nas divisões étnicas entre o norte e o sul. Muitos malianos são rápidos a dizer que têm convivido há séculos com inúmeros grupos tribais e idiomas diferentes, sobretudo negros, mas também mestiços (Peul) e de pele clara, e que estas diferenças étnicas não são o factor principal que motiva esta crise como por vezes a comunicação social insinua.

Noventa por cento do povo maliano são muçulmanos sunitas, sendo os restantes 10 por cento sobretudo animistas. Assim, a maioria da população local das cidades do norte não viu inicialmente nenhuma forte distinção entre eles e os islamitas, e não lhes opôs muita resistência. Porém, as notícias dizem que a maioria da população rapidamente se virou contra os fundamentalistas que lhe tornaram a vida miserável, proibindo a rádio e a televisão (incluindo os jogos de futebol na televisão!), espancando mulheres, cortando mãos por “blasfémia” ou por “comportamento moral dissoluto” e procedendo a execuções ao abrigo da nova e muito mais severa versão da lei islâmica que eles rapidamente impuseram à população.

No processo de apoderação estrangeira das terras de África, os recursos e as zonas de influência que também tem beneficiado as reduzidas classes dominantes e elites parasitárias, as relações de domínio imperialista e dependência organizada misturaram-se com o que restou das relações sociais pré-capitalistas. No Mali, isto inclui um passado de escravidão não muito longínquo, que não foi legalmente abolido senão em 1905. Os estudiosos descrevem um sistema tipo castas em que alguns grupos tribais/étnicos eram vassalos (frequentemente chamados de escravos) de outros, incluindo entre os tuaregues. Há relatos de que a actual guerra também criou o terreno social para os “senhores” do norte recuperarem os seus antigos vassalos, ou os filhos deles, ainda considerados como pertencendo a castas inferiores, incitando assim um maior ressentimento.

No Islão, o código social tradicional de poligamia e casamentos infantis, bem como de mutilação genital feminina, representa um enorme fardo opressor sobre as mulheres malianas. Em cima disto, quando os fundamentalistas islâmicos ocuparam as cidades do norte, começaram a chicotear mulheres em público por não se cobrirem totalmente com o recém-imposto véu, segundo alguns relatos quer fossem jovens, avós ou grávidas. Subitamente, as mulheres nem sequer eram autorizadas a falar com os seus próprios irmãos em público.

Alguns estudiosos defendem que a islamização do estado maliano já estava a decorrer de facto há algum tempo e que na prática a lei muçulmana na forma da Xariá já está misturada com a “jurisprudência moderna”. A ausência do estado da vida diária da maioria da população, incrementada com o golpe de estado de 2012, criou um vazio em que as forças islâmicas “moderadas” do Conselho Supremo Islâmico se impuseram mais vigorosamente, tanto através do fornecimento de serviços às populações como da entrada em lugares no governo. O jornal The New York Times noticiou que elas se opõem aos jihadistas e que já desempenharam um importante papel político junto do governo maliano ao negociarem os resgates de vários milhões de euros pagos pela libertação de reféns capturados no norte pela AQMI durante a última década.

Um centro de tráfico com a cumplicidade do estado que alimenta o parasitismo, os senhores da guerra e os jihadistas

Numa palavra, o norte está inundado de dinheiro e armas, mas não tem uma única estrada pavimentada nem electricidade. Além de não desenvolver a região, o deposto governo central de Bamako é acusado de tolerar as redes criminosas de tráfico organizado, com as quais muito lucra. Aparentemente, os funcionários das alfândegas são generosamente compensados ou inexistentes na porosa zona fronteiriça que o Mali partilha com a Mauritânia, a Argélia e o Níger e diz-se que alguns burocratas de Bamako ficaram ricos devido a outras fontes que não as dos seus salários do estado.

As rotas comerciais velhas de séculos transformaram-se em canais para os cigarros, as drogas e outras formas de tráfico na região norte, no vórtice do sul da Argélia e do Saara líbio, do Níger e do oeste da Mauritânia. Além da cocaína, da resina de maconha marroquina e de uma quantidade significativa de “actividades” de resgate através da captura de reféns, nos últimos anos o tráfico expandiu-se às armas, devido à mutável situação política no Norte de África. O controlo do contrabando também parece estar interligado às revoltas políticas tuaregues. Estão em jogo grandes lucros, tanto do tráfico como dos impostos que as inúmeras redes que controlam as rotas impõem umas às outras quando os produtos se deslocam através da região. Para tentar manter a sua autoridade e controlo sobre o norte, em 2006 o governo maliano usou essas rivalidades para pôr os grupos de rebeldes tuaregues uns contra os outros.

Os interesses geopolíticos que estão em jogo no Mali

O Mali tem fronteiras com sete países da África Ocidental e do Norte, todos ex-colónias francesas, e a dinâmica do conflito é claramente regional na sua natureza. Estendendo-se do Senegal na costa ocidental através do Sahel até ao Sudão e ao Chade, o Islão é historicamente a principal religião e a maioria dos países tem movimentos islâmicos radicalizados.

Quaisquer que sejam os objectivos imediatos declarados de França e os meios beligerantes para os alcançar, a França tem acelerado claramente os seus esforços para reforçar a sua influência no Saara-Sahel. Ao contrário da imagem criada depois de se ter recusado a juntar-se à guerra contra o Iraque iniciada pelo ex-presidente G. W. Bush, o estado francês não tem estado militarmente inactivo. Longe disso. Sarkozky enviou tropas para o Afeganistão e para o conflito na Costa do Marfim, e recentemente enviou forças especiais para a Somália. A deslocação para o norte do Mali de 2000 soldados mercenários chadianos, que não fazem parte da ECOWAS mas têm muita experiência ao lado de França em conflitos anteriores na República Centro-Africana, também figura nos seus planos estratégicos, salientam os especialistas. Apesar da conversa sobre o fim da “Francafrique”, o jornal económico Les Echos escreveu que no Mali o que está em jogo para a França é a sua futura presença em África.

Uma nova ordem política e o papel das potências imperialistas dentro dela estão a ser disputados e reconfigurados na região. A desagregação da antiga ordem pós-independência dos estados do Sahel-Saara foi acelerada pelas insurreições de massas contra Mubarak no Egipto (pró-EUA) e Ben Ali na Tunísia (pró-França). Também há a instabilidade e a abertura que a queda de Khaddafi na Líbia criou, juntamente com outros conflitos armados no Sahel, nomeadamente no Sudão. E o antagonismo entre o imperialismo ocidental e o Islão político que molda muitos dos desenvolvimentos no Médio Oriente também está a influenciar a dinâmica interna e a luta em torno desta reformulação das configurações políticas na África Ocidental e do Norte.

A Argélia, também uma colónia francesa até a França ter perdido uma violenta guerra de independência, é considerada por muitos como tendo um papel chave nas maquinações por trás da crise no Mali. Preocupando-se que a França possa vir a descobrir-se atolada no Mali, tal como os EUA no Afeganistão, o jornal Le Monde escreveu que a França deveria basear-se no exército argelino. Ao mesmo tempo, os vínculos da Argélia aos EUA tornaram-se gradualmente mais fortes devido à “luta contra o terrorismo” desde os anos 1990 quando o exército argelino procedeu a massacres de civis e jihadistas armados após a vitória eleitoral islamita. Isto incluiu significativos fornecimentos de armas.

Os EUA têm cada vez mais um importante papel nesta reconfiguração geopolítica da região, através das bases dos seus serviços secretos activas em vários países, treinando soldados e solidificando laços com a liderança de várias forças armadas da África Ocidental. O comando EUA-África, ou Africom, foi criado em 2008 pelo governo de George W. Bush, expressamente com o objectivo de monitorar as forças islamitas e impedir a sua implantação em qualquer estado da África Ocidental onde elas pudessem encontrar abrigo. Segundo Rudoph Atallah, o ex-director para África dos serviços norte-americanos de contraterrorismo, o Sahel é uma “região destabilizada por conflitos étnicos onde, se estes não forem rapidamente tratados, muitos grupos descontentes serão recrutados pela Al-Qaida”. Ele disse que a intervenção militar é uma abordagem que os EUA estão a considerar para o Mali, ao mesmo tempo que apoiam a França e a ajudam a pagar a conta. Já há drones norte-americanos a sobrevoar os céus malianos. De facto, parece que os imperialistas estão a destabilizar activamente a região para obterem um resultado mais do seu agrado, às vezes cooperando e às vezes agindo sozinhos. Já há enormes campos de refugiados malianos que fogem aos combates, espalhando-se ao longo das fronteiras e causando tensões com estados vizinhos.

Os interesses económicos, e particularmente a exploração de novas fontes de energia, também reforçam a disputa pela reformulação dos estados e das configurações políticas no Sahel. A França depende fortemente dos depósitos de urânio no Níger para a sua energia nuclear. Vários países imperialistas, bem como a Argélia, o Qatar e a China (que é uma presença cada vez mais agressiva em toda a África), têm os olhos postos nos inexplorados campos de gás e petróleo e nos depósitos de urânio que aparentemente existem sob as areias do deserto do norte do Mali. A China construiu recentemente uma terceira ponte em Bamako e em muitos países africanos tem combinado uma penetração comercial com o desenvolvimento de infra-estruturas.

Para o povo do Mali, nada de bom pode sair nem da intervenção militar imperialista francesa, com ou sem tropas da África Ocidental ou da ONU para projectar uma imagem diferente, nem do domínio religioso. De facto, o domínio imperialista tem criado as condições para que o obscurantismo persista e cresça sob novas formas. O imperialismo e o domínio islâmico mantêm o povo maliano numa posição de subordinação permanente aos interesses dominantes e a todo o conjunto de relações económicas e sociais com que ele precisa de romper para criar uma sociedade radicalmente diferente.