“Por vezes desejava ser cão, porque, na Europa, os cães têm uma vida melhor que os estrangeiros como nós”

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 9 de Junho de 2014, aworldtowinns.co.uk

Na véspera das eleições para o Parlamento Europeu, o governo francês mobilizou a polícia de choque CRS e escavadoras para demolirem um complexo improvisado de campos de imigrantes nos arredores da cidade de Calais, no norte do país, e dispersarem os seus habitantes. Muitas centenas de pessoas, principalmente refugiados de países que sofrem guerras acicatadas pelos EUA e pela Europa, tinham-se agrupado para se ajudarem uns aos outros a se manterem vivos enquanto esperavam pela oportunidade de saltarem para um camião e conseguirem atravessar o Canal da Mancha para procurarem trabalho.

O pretexto oficial do governo para o ataque foi que os imigrantes eram um perigo de saúde pública. Supostamente, alguns deles sofriam de sarna, uma doença de pele facilmente prevenível com água potável e redes de saneamento – das quais o próprio governo os tinha privado quando, há vários anos, arrasou o centro de refugiados da Cruz Vermelha que aí havia.

A polícia maltratou os habitantes do local e outras pessoas que tinham ido ajudar os migrantes. Alguns dias mais tarde, após a maioria ganha pelo partido anti-imigrantes Frente Nacional nas eleições francesas para o Parlamento Europeu, “Somos todos filhos de imigrantes” foi o principal slogan dos protestos de rua dos estudantes do ensino secundário em meia dezena de cidades francesas. Posteriormente, várias centenas de pessoas deslocaram-se até Calais, numa demonstração de apoio aos refugiados.

Um anterior lugar de agrupamento de migrantes tinha sido a Praça Villemin, em Paris, onde migrantes afegãos se refugiaram em 2009, antes de terem sido dispersos pela polícia e de alguns deles, sem outro lugar para onde ir, se terem mudado para Calais. O fotógrafo francês Mathieu Pernot passou nessa altura algum tempo com eles.

As fotografias dele mostram jovens embrulhados em sacos-cama ou em plásticos, com as cabeças cobertas para protegerem os olhos da luz da madrugada: “Invisíveis, silenciosos e anónimos, reduzidos às suas formas mais simples, eles dormem e escondem-se do olhar público, afastando-se de um mundo que já não os quer ver. Tanto presentes como ausentes, eles fazem-nos lembrar os corpos que se nos deparam nos campos de batalha de uma guerra que já não vemos.”

O trabalho de Pernot está marcado por uma determinação em ligar os temas do seu trabalho ao passar do tempo, de forma a criar uma inter-relação entre o que eles aparentam, a representação artística da exclusão e opressão deles e a própria interioridade e perspectiva deles.

Em 2012, um migrante afegão chamado Jawad encheu alguns cadernos que Pernot lhe tinha dado com este relato de como ele tinha ido parar a Paris. No mundo actual, poucos países produziram mais refugiados e migrantes que o Afeganistão, desde os dias da ocupação soviética ao inferno que o seu povo sofre agora após a invasão e ocupação liderada pelos EUA.

A Minha Jornada

O meu nome é Jawad. Sou do Afeganistão e tenho 26 anos. Nasci em 1986 num bairro da classe operária em Cabul. Em 1989, o meu pai, Moudjahidin, recebeu ameaças do governo afegão e tivemos de deixar Cabul para o Irão. Eu não pude ir à escola porque os meus pais não tinham autorizações de residência. Eles usaram os documentos de identificação de outra pessoa para me porem em aulas nocturnas com algumas pessoas mais velhas. Graças a isso, sei ler e escrever. Quando acabei essas aulas, quis inscrever-me numa universidade islâmica, mas uma vez mais não me autorizaram devido à minha nacionalidade afegã, embora as pessoas de qualquer outro lugar do mundo se possam inscrever. O governo iraniano é muito injusto; não quer refugiados afegãos no país e por isso não recebemos nenhuma ajuda de ninguém. Eu já vivia há dezassetes anos no Irão quando fui preso pela polícia e mandado de volta para o Afeganistão. Foi então que decidi partir para a Europa. Eu e alguns outros afegãos pedimos a um contrabandista de pessoas que nos levasse até à Turquia.

Depois de ter conseguido fazer-nos atravessar a fronteira iraniana, o contrabandista meteu-nos num carro na cidade de Van. Durante vinte e quatro horas, viajámos como ovelhas com alguns migrantes paquistaneses no veículo, sem nada para comer nem beber. Chegámos totalmente exaustos a Istambul, onde ficámos três dias. O contrabandista levou-nos para Esmirna num autocarro e deixou-nos numa casa. Uma noite, ele levou-nos para uma floresta que demorou três horas a atravessar, antes de finalmente chegarmos à costa a meio da noite. Ele foi-se embora, sozinho, numa lancha e simplesmente deixou-nos ali. Passamos lá a noite. No dia seguinte, trouxe-nos um pouco de pão e água e um barco pneumático, que encheu de ar e escondeu no matagal. Pouco depois, chegaram alguns polícias e descobriram o nosso barco. Ficámos assustados e fomos esconder-nos nas montanhas. Não nos restava nenhuma comida nem água. Tínhamos fome e sede. Não sabíamos o que se estava a passar e chamámos o contrabandista. Durante a noite, descemos da montanha e regressámos à costa. Sem comida nem água, estávamos a perder todas as esperanças. Eu sonhei que estava a comer pão. Não sabíamos que fazer e rezámos a Deus para nos ajudar. Subitamente, o contrabandista chegou com algumas garrafas de água! Tornou-se no nosso anjo da guarda! Ele decidiu levar-nos de volta à cidade, mas fez com que nos perdêssemos na floresta. Vagueámos pelos campos durante várias horas. Uma dúzia dos meus amigos decidiu partir por conta própria noutra direcção. Perguntaram-me se eu queria ir com eles, mas eu preferi manter-me no grupo do contrabandista. Agora já só restávamos vinte de nós no grupo, em vez dos trinta com que tínhamos começado. Caminhámos e acabámos por encontrar um celeiro em que passámos a noite.

No dia seguinte, partimos de novo e passámos por uma aldeia, rastejando com as mãos e os joelhos no chão com medo de sermos vistos pelos habitantes da aldeia. Chegámos a um túnel por baixo de uma via rápida e passámos aí todo o dia. Nessa noite, uma outra pessoa veio buscar-nos num carro e deixou-nos numa cidade que não conhecíamos. Quando saímos do carro, um homem veio falar connosco, mas nós não sabíamos o que ele estava a dizer. Ele começou a gritar: “Polícia! Polícia!” Todos nós nos dispersámos rapidamente e fugimos em todas as direcções. Acabámos por encontrar o nosso contrabandista, que nos levou até uma praia. Ele encheu o barco e fez-nos entrar a todos lá para dentro. Apontou para uma luz do outro lado do mar e disse-nos que era a Grécia. O nosso pequeno barco navegou através de um mar muito grande.

À medida que nos aproximávamos da costa grega, fomos observando o sol a elevar-se sobre o mar. O meu pensamento era que estávamos a deixar a escuridão e o infortúnio para trás de nós e a dirigirmo-nos para a luz e um mundo melhor. Mas, pouco depois, a polícia grega descobriu-nos e aproximou-se de nós no barco deles. O homem que estava a conduzir o nosso barco decidiu furá-lo para que fossemos classificados como estando a afogarmo-nos e para que os gregos não nos pudessem mandar de volta para a Turquia. Saltámos para dentro de água e nadámos até à costa. Havia uma mulher grávida no barco e ela não sabia nadar, pelo que se agarrou a um lado do barco pneumático que se estava a esvaziar rapidamente e esperou que a polícia chegasse e a apanhasse. Quando chegámos à margem, subimos, à espera de encontrar uma cidade. Lá em cima, encontrámos uma estrada que levava a Samos. De lá esperávamos chegar a Atenas, mas infelizmente a polícia prendeu-nos e levou-nos para um campo de refugiados que era como uma prisão.

Foi nesse campo que eu conheci um afegão que me perguntou se eu queria ir para a Noruega com ele, porque tinha ouvido dizer que era um país que acolhia pessoas na nossa situação. Para lá chegarmos, teríamos de atravessar a Macedónia, a Sérvia, a Hungria, a Áustria, a Alemanha, a Dinamarca e a Suécia. Atravessei a Macedónia e cheguei à Sérvia. Juntamente com os meus amigos, fui preso na cidade sérvia de Nis. Fomos levados a um juiz que nos multou a todos em 70 euros e nos condenou a dez dias de prisão. Ao chegarmos ao centro de detenção, disseram-nos que nos despíssemos à frente de toda a gente e depois fomos sujeitos a uma revista a todo o corpo, que eu achei realmente difícil de suportar. Passei dez dias na prisão, trancado com assassinos e passadores de droga. Havia uma contagem de pessoas três vezes ao dia. Esses dez dias pesaram-me como cem anos.

Quando saímos da prisão, não nos deram nenhum documento que nos permitisse circular livremente na Sérvia. A polícia de Nis apenas nos disse que se fôssemos novamente presos na Sérvia, deveríamos simplesmente dizer à outra polícia que entrasse em contacto com eles. Na manhã seguinte, apanhámos o comboio para Subotica, na fronteira húngara, e fomos novamente presos nessa noite e levados a tribunal na manhã seguinte. Dissemos ao juiz que tínhamos estado na prisão em Nis, mas isso não nos ajudou. O magistrado disse que ou pagávamos ou regressávamos à prisão. A prisão de Subotica era pior que a de Nis. Só nos deixavam sair das nossas celas uma hora por dia para caminharmos à volta do pátio. Só nos deixavam lavar uma vez por semana e só podíamos passar dois minutos na casa de banho.

Depois de sairmos da prisão, conseguimos atravessar a fronteira para a Hungria, mas assim que lá chegámos fomos novamente presos e levados para um campo de refugiados em Bekescsaba. Nesse campo, tínhamos de fazer fila só para conseguir uma banana, uma maçã ou uma pêra. Tínhamos de assinar dois ou três documentos só para podermos comer uma peça de fruta. Estávamos sob observação constante de câmaras CCTV e de guardas brutais que espancavam todas as pessoas que tentavam escapar. Não tínhamos direito a responder-lhes nem a fazer nenhuma pergunta. Não conseguíamos perceber se éramos refugiados ou prisioneiros. Apesar da presença dos guardas, eu consegui passar por baixo das barreiras de arame farpado e fugir do campo.

Dali fui para Budapeste e depois para Viena, onde apanhei um comboio para Hamburgo sem comprar bilhete. Escondi-me num armário por baixo de um dos beliches da carruagem-cama. A meio da noite, a mulher idosa que estava a dormir no beliche por cima de mim apercebeu-se que eu estava lá e chamou o revisor de bilhetes para que ele pudesse chamar a polícia. Implorei-lhe que não o fizesse! Acabei por conseguir chegar a Hamburgo sem ser preso. Eu estava só e comecei a caminhar. Procurei um comboio que me levasse para a Dinamarca. Uma vez mais, fui parado pela polícia. Podia ter fugido, mas estava tão esfomeado e cansado que me entreguei a eles. Levaram-me para uma esquadra da polícia e apresentaram-me um documento escrito em dari [a língua afegã – NT] que dizia que eu era um criminoso. Perguntei-lhes porque é que eles me consideravam um criminoso quando eu não tinha feito nada de errado. Eles disseram-me que entrar na Alemanha sem os documentos adequados era um crime. Como não tinha alternativa, assinei o documento. A minha situação estava a ficar pior a cada dia que passava. Na Hungria tive de assinar um papel para comer uma maçã e na Alemanha assinei um papel para reconhecer que eu era um criminoso. Terminadas as formalidades administrativas, a polícia mandou-me para uma prisão realmente dura. Senti-me muito triste e rezei a Deus para me devolver a minha liberdade. Ele deve ter-me ouvido porque no dia seguinte saí da prisão. Deram-me a morada de um campo de refugiados onde eu poderia pedir asilo.

Nesse campo havia um edifício encantador onde fiquei durante alguns dias. Tendo passado várias semanas sem comer muito bem, finalmente tive alguma comida decente. Foi realmente agradável para mim. Mas quando comecei a pensar que a polícia alemã me poderia prender e deportar de volta para a Hungria, pensei para mim mesmo que a comida talvez tivesse sido envenenada! O governador do campo deu-me um documento com um bilhete de comboio para eu entrar noutro campo em Neumunster dois ou três dias depois. Fiquei nesse campo, que era confortável, durante quase três meses. Havia um ginásio no qual eu treinava. Gostei de participar numa corrida pelas ruas da cidade. Uma manhã, muito cedo, um polícia bateu à porta do nosso quarto e pediu para ver os nossos documentos. Mostrei-lhe os meus documentos e ele disse-me que eu tinha de voltar para a Hungria. Disse-me que fizesse as minhas malas e eu disse-lhe que não tinha nenhuma. Ele inspeccionou o meu guarda-roupa, viu que eu não tinha nada e então disse-me que o seguisse. Levou-me para um centro de remoção de imigrantes no aeroporto e lá eu esperei até as 10h da manhã. Eles obrigaram-me a entrar num avião para Budapeste. Durante o voo de duas horas, pensei para mim mesmo que tinha perdido todos os meus amigos e toda a minha vida na Alemanha.

No avião, decidi ir para França assim que pudesse. Um amigo no campo que eu tinha acabado de deixar tinha-me dito que era um país acolhedor. O avião aterrou em Budapeste ao meio dia e eu esperei no aeroporto até à 1h da manhã. Era noite e eu tive de entrar num autocarro cheio de pessoas infelizes que, tal como eu, tinham fugido da Hungria e que agora se viam a regressar para lá. Às 8h, o autocarro levou-nos para o campo de Bekescsaba. Passei lá uma noite e tentei escapar novamente na manhã seguinte. Mas cortei a mão no arame farpado e sangrei muito. Como estava ferido, deixei os guardas apanharem-me sem fazer nenhuma objecção. Eles levaram-me de volta para o campo sem tratarem da minha mão. Quando fui à procura do governador para lhe mostrar o corte, ele finalmente decidiu enviar-me para o hospital. Passei cerca de uma dúzia de dias no campo. As autoridades deram-me um cartão que me permitia entrar no campo de Debrecen. Era para pessoas à procura de asilo. Fiquei lá vinte e cinco dias. A vida lá era realmente difícil. Os nossos direitos não eram respeitados. Era mais como uma prisão, com a única diferença que se podia sair. Às vezes, a polícia vinha com seis ou sete cães para revistar os quartos à procura de objectos proibidos. Quando lhes perguntámos porque é que vinham com cães, disseram-nos que não eram cães, mas colegas de trabalho! Não gostei de viver na Hungria, pelo que os meus amigos e eu decidimos partir para França.

Decidimos ir de táxi. Primeiro, fomos para a Áustria, depois para Itália, onde saímos em Milão. Daí, apanhámos o comboio para Ventimiglia e atravessámos a pé a fronteira italo-francesa. Tivemos de atravessar um túnel ferroviário estreito. Se tivesse aparecido um comboio enquanto estávamos naquele túnel, eu não estaria a escrever esta história.

Quando chegámos a França, descobrimos o Mónaco, uma cidade muito bonita e antiga. Havia muitas laranjeiras bonitas nas ruas, mas nós estávamos mais interessados em comer as laranjas que em olhar para elas. Comemos algumas e pusemos outras nos nossos sacos. Quando estávamos a caminho, encontrámos um árabe. Perguntámos-lhe como chegar a Paris. Ele disse-nos para irmos no autocarro n.º 100 para Nice e apanharmos um comboio dali para a capital. Mas, em Nice, quando estávamos a perguntar como apanhar o comboio para Paris, ninguém nos entendia. Ficámos admirados por perceber que as pessoas em Nice não conheciam Paris, uma cidade que é muito conhecida em todo o mundo! Descobrimos alguém que finalmente nos entendeu. Ele também aproveitou a oportunidade para nos ensinar a pronunciar Paris... Nessa noite, ainda estávamos em Nice, e estava muito frio e a chover. As nossas roupas estavam ensopadas. Tínhamos fome e não tínhamos dinheiro suficiente para chegar a Paris. Decidimos ir a uma igreja e pedir abrigo lá, mas o padre não nos deixou entrar. Implorámos-lhe, mas ele pediu que fossemos embora. Era como se a porta de Deus se tivesse fechado para nós. Partimos para a estação a pensar que “o inimigo de Deus”, a polícia, nos poderia prender, o que pelo menos nos daria um telhado durante a noite. Fomos presos na estação. O polícia pediu-nos os documentos, que nós não tínhamos. Nesse momento, o meu pensamento foi que éramos refugiados sem pátria. A polícia algemou-nos, com as mãos atrás das costas, obrigou-nos a entrar num carro da polícia e ligou as luzes azuis intermitentes.

Na cidade, os transeuntes devem ter pensado que a polícia tinha prendido algumas pessoas perigosas, mas nós éramos apenas refugiados! Levaram-nos para a esquadra da polícia, detiveram-nos numa cela e algemaram uma das nossas mãos a uma barra presa bastante alto na parede. Quando lhes pedimos que nos tirassem as algemas porque elas nos estavam a magoar (e de qualquer forma, nós não podíamos fugir), eles limitaram-se a rir de nós. Então levaram-nos para outra cela onde passámos a noite. Não havia absolutamente nada dentro dela e nós estávamos completamente ensopados. Pedimos uma manta. O polícia limitou-se a fazer troça de nós como resposta. Dormimos no chão da cela nas nossas roupas molhadas. Enquanto me preparava para dormir, pensei no meu amigo afegão que me tinha fito que a França era um país acolhedor.

No dia seguinte, o polícia regressou com um intérprete que falava dari. Eles perguntaram-nos várias vezes se queríamos ficar em França ou ir para Inglaterra e de cada vez eu disse-lhes que queria ficar em França. Ele deu-nos uma folha de papel e deixou-nos sair da esquadra da polícia. Regressámos à estação onde encontrámos um companheiro afegão que estava a ter alguns problemas. Ele explicou-nos que tinha comprado um bilhete de comboio, mas um polícia tinha-o confiscado e tinha-o levado para a prisão na noite anterior. No dia seguinte, o bilhete dele tinha expirado. Como não tínhamos dinheiro suficiente para comprar um bilhete, tentámos saltar para o comboio, mas o revisor impediu-nos. Assim, passámos outra noite a dormir desconfortavelmente em Nice. No dia seguinte, entrámos num comboio, mas fomos apanhados pelo revisor, a quem eu implorei que nos deixasse ir até Paris. Ofereci-me para lhe dar o meu casaco, os meus sapatos e o meu anel de turquesa, que era um presente do meu pai. Cheguei a oferecer-me para trabalhar no comboio (a limpar as casas de banho, por exemplo), mas ele recusou e tivemos de descer do comboio em Cannes. Na estação de Cannes, conseguimos apanhar um autocarro que pensávamos que ia para Paris, mas tínhamos cometido um erro e, em vez disso, estávamos num autocarro para turistas. Chegámos a uma cidade realmente bonita, mas eu não sabia onde estava. Explicámos ao condutor que queríamos chegar a Paris. Ele ficou realmente admirado e explicou que tínhamos de voltar a Saint-Raphael, onde poderíamos apanhar um comboio para Paris. Em Saint-Raphael, tentámos entrar furtivamente no comboio sem bilhete, mas os revisores estavam a ver-nos. Estávamos realmente azarados nesse dia! E continuava a chover. Procurámos um local e dormimos no terraço de um café. No dia seguinte, regressámos à estação e, graças a Deus, conseguimos apanhar o comboio para Paris. Nesta cidade, pedimos asilo e dormimos desconfortavelmente em caixotes de papelão. A nossa situação era muito má. Por vezes desejava ser cão, porque, na Europa, os cães têm uma vida melhor que os estrangeiros como nós.

Texto traduzido do livro Les Migrants [Os Migrantes], Guingamp, GwinZegal, 2012. Para ver o trabalho de Pernot, vá a www.mathieupernot.com. Veja também “Os imigrantes devem ser criminalizados ou apoiados?” no SNUMAG de 10 de Março de 2014.