Pode a “solução de dois estados” libertar o povo palestino?

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 19 de outubro de 2015, aworldtowinns.co.uk

O texto que se segue são excertos de uma entrevista feita a 9 de setembro de 2015 a Ilan Pappé por Khalil Bendib para o Status Audio Journal (www.statushour.com). Pappé é historiador e autor de A Limpeza Étnica da Palestina: Uma História da Palestina Moderna e da Questão Israelo-Palestina. Forçado a sair de Israel, ele é agora presidente do Departamento de História da Universidade de Exeter, na Grã-Bretanha. A versão integral da extensa entrevista está disponível em jadaliyya.com.

A chamada “solução de dois estados” (um estado palestino na Cisjordânia e Gaza a existir ao lado de Israel) é a política defendida pelos EUA e pela Autoridade Palestina. Israel tem às vezes insinuado poder aceitá-la e, às vezes, como agora com o primeiro-ministro Benjamim Netanyahu, tem declarado que Israel nunca a aceitará. Muitos palestinos e apoiantes deles acreditam que é o único passo em frente possível, embora muito do debate tenha sido focado em saber se esse passo poderá ou não acontecer de facto e, nesse caso, como. Pappé discute porque é que isso é um foco errado, e porque é que, se esse conceito fosse implementado, representaria a legitimação e tentativa de estabilização da opressão dos palestinos enquanto povo.

Ilan Pappé: O que está por trás da ideia de uma solução de dois estados é: se o movimento nacional judeu e o movimento nacional palestino chegaram mais ou menos ao mesmo tempo ao mesmo lugar, e foram incapazes de resolver a questão de a quem pertence a terra, e foram incapazes de se reconciliarem, então o que é necessário é uma espécie de adultos sob a forma dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha que vão ajudar estes dois lados a se reconciliarem na base de uma espécie de abordagem norte-americana, tipo empresarial, em que se divide a terra, se divide a responsabilidade, e por aí adiante. E isso é uma forma muito errada de ler toda a história da Palestina, desde a chegada do movimento sionista no final do século XIX até hoje.

Isto não é um conflito entre dois movimentos nacionais que lutam pelo mesmo pedaço de terra. Isto é uma luta entre um movimento de povoadores-colonialistas que chegaram no final do século XIX à Palestina e que continuam ainda hoje a tentar colonizar a Palestina através de obterem a maior parte do território com tão poucas pessoas nativas nele quanto possível. E a luta do povo nativo é uma luta anticolonialista. É preciso voltar a qualquer um dos estudos de casos históricos de que nos lembremos de um movimento anticolonialista que luta contra uma potência colonialista e perguntar: será que, em algum momento, a ideia de dividir a terra entre os colonizadores e os colonizados foi apresentada como solução razoável? Sobretudo por pessoas que eram de esquerda ou que se viam a si mesmas como membros conscienciosos da sociedade?

E a resposta é um rotundo não. Claro que não iriam apoiar a divisão da Argélia entre os colonos franceses e os nativos argelinos. E mesmo em lugares onde houve colonialismo com povoadores, nomeadamente onde houve pessoas brancas que de certa forma não tinham para onde ir, como na África do Sul, se alguém, enquanto progressista, sugerisse hoje que se deveria ter dividido a África do Sul entre a população branca e a população africana, seria considerada no mínimo um louco, e na pior das hipóteses insincero e fascista. Penso que de facto esta lógica – que é tão clara para muitas pessoas em qualquer outro lugar no mundo – de alguma forma não funciona no caso da Palestina.

As duas estão ligadas no sentido em que quando analisamos a situação na Palestina, quando nos perguntamos a nós mesmos: porque é que os palestinos foram expulsos em massa em 1948? Porque é que os palestinos em Israel foram colocados sob domínio militar entre 1948 e 1967? Porque é que esse domínio militar foi transferido de dentro de Israel para a Cisjordânia ocupada e a Faixa de Gaza em 1967? Porque é que os beduínos no sul de Israel e nas aldeias palestinas no norte de Israel, bem como os que vivem em Jerusalém, são hoje sujeitos a uma política de expropriação de terras e a um rígido regulamento nos seus próprios locais de habitação? Então, claro que chegamos a esta questão de saber porque é que Israel se recusa a permitir que os refugiados regressem e impõem um assédio tão desumano em Gaza? Quando fazemos todas estas perguntas e procuramos a razão por que isso é feito, sabemos agora melhor do que alguma vez antes soubemos que a razão para isto é ideológica. É a ideologia sionista.

Trata-se de uma perspetiva sionista partilhada por todos os partidos sionistas. Ora, isto é o obstáculo principal, quase exclusivo, à paz e à reconciliação em Israel e na Palestina. Não lidar com isto, e apenas lidar com a política israelita aqui ou ali, é semelhante a lidar com certas políticas da África do Sul durante o auge do Apartheid sem tocar de forma nenhuma no Apartheid.

Khalil Bendib: No seu livro, On Palestine [Sobre a Palestina], em coautoria com Noam Chomsky, você fala desta expressão, “ortodoxia da paz”, que você acusa de ser uma tendência mais racista que pragmática. Você chega a dizer que, entre os defensores de uma solução de dois estados, “o dicionário da ortodoxia da paz emergiu de uma crença quase religiosa na solução de dois estados. E isso sai diretamente de uma versão contemporânea do 1984 de Orwell.”

IP: Sim. É uma novilíngua. Quer dizer, estou aqui a usar Orwell na referência dele à novilíngua, o tipo de idioma que não só nos incapacita de chamar pá a uma pá, como lhe chama exatamente o oposto. Normalmente, uma realidade cruel é descrita como benevolente na novilíngua de Orwell. E eu penso que o mesmo é verdade em relação a estas palavras que para mim são sagradas. Ou seja, “paz”, “justiça”, “reconciliação” são três das palavras mais sagradas no nosso vocabulário enquanto seres humanos. Elas realmente representam a forma mais elevada da ambição humana de vivermos pacificamente uns com os outros, vivermos numa sociedade que é muito melhor que qualquer outra sociedade. Ora, usar estas expressões para encobrir um processo no terreno que faz exatamente o oposto – em vez de reconciliação, semeia mais dissensão e hostilidade e ódio; em vez de paz, cria a guerra; e em vez de justiça, mantém um sistema de Apartheid – quando estas palavras são usadas como escudo protetor para descrever uma realidade que é exatamente a oposta do que eles querem dizer, isto para mim é de certa forma ainda pior que racismo. Isto é uma espécie de pesadelo orwelliano que eu tenho quando as pessoas começam a usar as palavras dessa forma.

A ideia de uma solução de dois estados começou como uma manobra sionista, israelita, depois de 1967, para reconciliar um problema realmente simples: eles expulsaram milhões de palestinos em 1948, mas por causa do apetite territorial deles, queriam tomar aquelas partes da Palestina que não ocuparam em 1948 – a Cisjordânia e a Faixa de Gaza – mas com esse território vinha outro milhão e meio de palestinos, hoje quase três milhões de palestinos. Para reconciliarem o facto de agora terem a totalidade da terra, mas continuarem com um pesadelo demográfico, no que diz respeito ao movimento sionista, um dos meios que eles têm usado é o processo de paz. O processo de paz foi usado como uma espécie de mensagem para o mundo que diz: “Como podem ver, nós estamos agora a roubar os palestinos nos territórios ocupados de todos os mais básicos direitos humanos e direitos civis. Como podem ver, nós estamos a desapropriar-lhes as terras deles, estamos a construir nelas colonatos judaicos, estamos a expulsá-los de uma forma bastante maciça e encarceramo-los mesmo que eles apenas ousem içar a bandeira palestina.” Ora, o que o processo de paz significa para os israelitas é uma mensagem para o mundo: “Isto é tudo temporário, claro que quando a paz chegar, todas estas medidas serão removidas.”

Ora, claro que se pode compreender porque é que as pessoas no Ocidente terão sucumbido a esta explicação após cinco anos de ocupação, ou após dez anos de ocupação. Eu ainda consigo ver porque é que uma pessoa ainda possa ter a esperança de que os israelitas querem mesmo dizer isso, ou que o mundo tem o poder de forçar Israel a querer dizer isso. Mas, após quase cinquenta anos, continuar agarrado a esta ideia de que isso é uma manobra israelita para aprofundar a colonização das zonas que ocuparam em 1967, e para eliminar qualquer possibilidade de negociarem as zonas que eles ocuparam em 1948, ou o regresso dos refugiados, fazer isso é realmente ficar muito estagnado e dogmático na nossa perceção da realidade. Seria de esperar que as vozes críticas na esquerda norte-americana e europeia estivessem um pouco mais alertas para o tipo de armadilha em que se meteram, a qual Israel muito habilmente lá pôs, de certa forma.

De um ponto de vista erudito, há muitos aspectos da realidade da África do Sul que são diferentes dos da Palestina. Posso mencionar a ausência de qualquer equivalente ao lóbi judeu no caso da África do Sul. Também posso mencionar o Holocausto como algo que altera as regras do jogo na história da Palestina, e não há nada equivalente a isto no caso da África do Sul. E claro que há diferenças na forma como o regime de Apartheid se manifestou na África do Sul e na forma como funcionava o paradigma da limpeza étnica, ou a sua estrutura, em Israel. Mas isto são questões menores que na realidade não minam a comparação fundamental, que é o mais importante.

KB: Uma vez mais, em oposição ao mais “pragmático” Chomsky, você não só coloca o direito de retorno dos palestinos no cerne de uma eventual solução da questão palestina, como também as compensações para o que aconteceu aos palestinos durante os últimos sessenta ou mais anos. Explique-nos como é que isso não é necessariamente apenas um sonho utópico, e como estas duas condições essenciais são centrais para uma verdadeira solução para o futuro da Palestina-Israel.

IP: Sim, de facto. Eu penso que o meu ponto de partida quanto ao direito de retorno é muito diferente daqueles que avaliariam isto de uma forma pragmática. Nomeadamente, será isto possível, ou mesmo a questão – a qual, de qualquer forma, é discutível – será que Israel tem capacidade para absorver esse grande número de pessoas se todos os refugiados quiserem regressar. Eu penso que esta não é agora a questão e essa não é a razão pela qual a estamos a levantar agora. Todos nós temos levantado a questão do direito de retorno. [A negação do] direito de retorno é um sintoma da natureza racista do regime sionista em Israel. É esse o principal problema.

A objeção de Israel ao direito de retorno resulta do mesmo raciocínio ideológico que está por trás da política de judaização da Galileia, da destruição de aldeias beduínas em Naqab no sul de Israel, da bantustização da Cisjordânia e da guetização de Gaza. Resulta da mesma razão, e enquanto sionistas que sempre quiseram isso desde finais do século XIX até hoje, eles querem ter tanta terra quanto possível com tão poucas pessoas quanto possível. E portanto, quando apoiamos o direito de retorno, não estamos apenas a reconhecer um direito individual que a comunidade internacional sancionou na Resolução 194 de 11 de dezembro de 1948. Não estamos apenas a aderir a todas as convenções internacionais sobre o direito de retorno dos refugiados. Não menos importante, recusamo-nos a aceitar como legal, moral e politicamente aceitável a ideia de que as pessoas nativas não têm nenhum direito a estarem na sua própria pátria. E eu penso que é a principal questão.