Peru: Novas Acções da Guerrilha Maoista (Agosto de 2001)

Nas últimas semanas a intensa actividade das forças de guerrilha do Partido Comunista do Peru (PCP, também referido na imprensa como "Sendero Luminoso") levou a que o governo e a imprensa peruanos já não pudessem esconder a existência e a força do exército guerrilheiro maoista. Durante os últimos anos o governo, com a cumplicidade dos órgãos ditos de informação, têm feito crer que os maoistas estariam derrotados, escondendo toda a sua actividade recente e mesmo o reforço político, ideológico e militar do PCP nos últimos tempos.

Note-se que estas acções da guerrilha maoista acontecem pouco tempo após a eleição do novo presidente Alejandro Toledo e antes da tomada de posse do novo governo peruano.

Exército e Polícia Derrotados na Selva de Satipo

Uma patrulha conjunta do Exército peruano e da Direcção Contra o Terrorismo (DIRCOTE) da Polícia peruana foi emboscada a 7 de Agosto no distrito do Rio Tambo, província de Satipo, departamento de Junin (300 km a nordeste de Lima). A patrulha tinha vindo de Lima no dia anterior em perseguição dos combatentes maoistas que se encontravam junto dos membros da comunidade ashaninka de Cutivireni. Recorde-se que os maoistas sempre tiveram grande apoio entre os ashaninkas, havendo mesmo destacamentos guerrilheiros compostos por membros dessa etnia. Os ashaninkas são conhecidos pela sua resistência quer às forças coloniais espanholas, quer aos invasores modernos que tentaram escravizá-los e tomar-lhes os territórios.

De um combate de mais de 5 horas resultaram 4 agentes mortos e pelo menos 3 feridos. Os restantes membros da patrulha tiveram de ser evacuados por via aérea, deixando para trás os corpos dos polícias mortos.

Uma operação foi lançada nos dias seguintes, para recuperar os corpos dos polícias mortos. Apesar dos reforços policiais e militares vindos de Lima e de Huancayo, a polícia não se atreveu a entrar imediatamente na zona da emboscada, limitando-se a patrulhar as redondezas da selva. Os helicópteros que sobrevoaram inicialmente a região foram atacados e tiveram de se refugiar. Os corpos apenas foram recuperados no dia 12.

Supostamente, a coluna guerrilheira é a mesma que há algum tempo atrás emboscou um helicóptero do Exército e abateu pelo menos 9 soldados e 4 oficiais de alta patente, numa acção que se tornou uma das maiores derrotas dos serviços secretos peruanos (o famigerado SIN).

Torres de Alta-Tensão Derrubados em Ayacucho

Entretanto, a 16 de Agosto duas torres eléctricas de alta-tensão nos arredores de Ayacucho foram derrubados, numa acção que o Governo também atribuiu à guerrilha maoista do Partido Comunista do Peru. O resultado foi um apagão generalizado na região. recorde-se que este tipo de acções sempre foi um dos mais eficazes actos de propaganda usados pela guerrilha.

Ataques no Alto Huallaga

No fim de semana de 18 e 19 de Agosto, uma coluna guerrilheira entrou na localidade de La Unidad no Alto Huallaga. Desta acção resultou gravemente ferido Luis Bustamente, supostamente um representante local do Governo.

Explosões em Lima

No início de Agosto, uma série de explosões na capital do Peru, Lima, foi atribuída a um grupo paramilitar, mas há suspeitas de que possam também ser acções do PCP.

Greves de Fome nas Prisões

A 13 de Agosto entraram em greve de fome mais de 300 presos políticos da prisão de máxima segurança Miguel Castro Grande, em Lima, pedindo a revogação das fascistas leis "antiterrorismo" que, por exemplo, permitem julgamentos sumários em tribunais militares. A greve de fome segue-se a uma sublevação em que os presos acenderam fogueiras nos telhados e penduraram faixas exigindo que "Acabem com as prisões perpétuas" e que sejam realizados "Novos julgamentos em tribunais civis". A polícia respondeu com gás lacrimogéneo e disparos, supostamente para o ar.

Uma revolta semelhante ocorreu na prisão de El Milagro, na cidade de Trujillo.

No Peru há oficialmente mais de 4000 presos políticos acusados de "terrorismo", mais de mil dos quais foram julgados sumariamente em tribunais militares e condenados por "juizes" militares encapuçados a prisão perpétua, sem qualquer possibilidade de defesa. A esmagadora maioria desses presos políticos é acusada de pertencer ao Partido Comunista do Peru.

Governo Obrigado a Reconhecer a Força dos Maoistas

Estas acções já levaram o analista político reaccionário Carlos Tapia a reconhecer que "nos últimos tempos se tem notado em Lima e em várias zonas do país uma perigosa reactivação do Sendero Luminoso" e que "há condições para o desenvolvimento de projectos violentistas por parte do Sendero e de outros grupos".

Embora o Ministro do Interior Fernando Rospigliosi tenha afirmado tratar-se apenas de "restos do Sendero" e negado a existência de um "recrudescimento terrorista" o Ministro da Defesa David Waisman teve de reconhecer tratar-se de um "ressurgimento da subversão".

Mas na sequência dos combates em Satipo, Rospigliosi acabou por anunciar que o Governo estava a pensar na reabertura das bases militares de contra-insurgência encerradas durante o regime de Fujimori. E a 23 de Agosto o recém-eleito Presidente Toledo reconhecia que o Governo tinha que combater os revolucionários, anunciando a "decisão do Governo democrático de entrar em força e terminar com a subversão".

Toledo também participou num encontro de ronderos (membros das milícias paramilitares criadas para combater a guerrilha) e defendeu que as rondas deveriam ser reactivadas e "reenquadradas". Os líderes ronderos, pediam a declaração do estado de emergência nas zonas onde a guerrilha havia reiniciado as suas acções.

Mais informação sobre o Peru (em espanhol ou em inglês): www.csrp.org ou revcom.us