Paris: Milhares de pessoas desafiam proibição e violência policial para apoiarem a Palestina

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 21 de Julho de 2014, aworldtowinns.co.uk

Quando o massacre israelita em Gaza entrou na sua terceira semana, houve marchas e manifestações de solidariedade com o povo palestiniano em muitas cidades em todo o globo. Também em França, a 19 de Julho, houve protestos em cerca de 15 cidades contra os ataques israelitas. Mas o governo francês proibiu a manifestação marcada para Paris nesse dia, ameaçando com detenções e até seis meses de prisão para qualquer pessoa que aparecesse no local de concentração em Barbes, a principal zona comercial dos bairros com grandes comunidades árabes e africanas do norte de Paris.

As barreiras policiais não impediram milhares de jovens e muitas outras pessoas de aparecer. O cerco e depois o ataque brutal à que tinha sido uma manifestação essencialmente não violenta só conseguiram fragmentar a multidão nas tortuosas ruas laterais de um bairro maioritariamente apoiante, para onde as pessoas conseguiram escapar e às vezes enfrentar a polícia durante várias horas. Outros jovens vieram para se lhes juntarem.

O pretexto para a proibição foram os tumultos à volta de duas sinagogas no final de uma outra manifestação a favor dos palestinianos na semana anterior. Depois de não terem conseguido impedir o protesto de 19 de Julho, as autoridades e os seus órgãos de comunicação social tentaram cercar e isolar politicamente os jovens que os tinham desafiado, tentando rotulá-lo como “motim anti-semita”, nas palavras ecoadas pela BBC.

Esta mentira não foi, como muita gente pensou, uma tentativa de apelar aos eleitores judeus, nem sequer apenas uma questão de cumplicidade francesa com Israel. Ao contrário da canção popular, o Presidente francês François Hollande não é um “cúmplice” de Israel. A França é uma potência imperialista que está agora muito activa na tentativa de consolidar e ampliar as suas zonas de influência histórica, o que inclui o envio de tropas para antigas colónias em África onde o Islão está muito difundido. Acima de tudo, a sua recente reviravolta para uma política mais abertamente pró-israelita tem a ver com os próprios interesses predatórios e as aspirações da França no mundo árabe.

Pelo contrário, esta mentira reflecte o dilema de um estado preocupado com a forma como o ódio aos seus próprios crimes e dos seus aliados estrangeiros estão a influenciar aqueles que são os mais oprimidos e explorados na própria França, sobretudo os imigrantes e aos seus filhos que, devido às colónias históricas e à esfera de influência de França, são em grande parte de origem muçulmana.

Era a isso que o Presidente François Hollande se estava a referir quando avisou, ao defender a proibição: “o conflito israelo-palestiniano não pode ser importado”. Também é este o significado por trás da declaração do primeiro-ministro Manuel Valls a justificar a proibição como uma medida contra o que ele chamou anti-semitismo “que alastra na Internet, nas redes sociais, nas nossas zonas da classe operária, entre os jovens que muitas vezes não têm rumo, que não têm consciência da história que esconde o seu ódio aos judeus por trás de uma máscara de anti-sionismo e por trás do ódio ao estado israelita”.

Há muito tempo que em França, tal como em muitos outros países, incluindo em muito do mundo árabe, os esforços para juntar pessoas em defesa dos palestinianos não tinham muito sucesso, reflectindo o declínio na esperança de uma mudança radical entre os palestinianos e os outros árabes neste país (e em todo o globo), bem como em França de uma forma geral. Mas, durante as duas últimas semanas, noite após noite de notícias televisivas que mostravam uma vez mais os explosivos israelitas a matar crianças em Gaza trouxeram as pessoas para as ruas em crescente número, criando uma situação inquietante para o governo francês.

A França tem um sistema político bem oleado em que os partidos reformistas conseguem frequentemente canalizar a indignação pública para canais aceitáveis. Alguns tipos de grandes manifestações contra o massacre em Gaza foram e provavelmente serão autorizados, mas os planos para este protesto em Barbes ameaçavam ser algo que o governo considerou inaceitável e acabou por tentar esmagar uma grande concentração incontrolável de jovens de origem imigrante e dos bairros sociais, alguns estudantes do ensino secundário e universitário e jovens profissionais, bem como trabalhadores de baixos salários e desempregados – e pelo menos tantas mulheres jovens quanto homens.

Algumas pessoas que raramente ou mesmo nunca tinham participado em qualquer tipo de manifestação política sentiram que desta vez tinham de lá estar porque sentiam uma ligação entre a sua própria opressão e a opressão dos palestinianos. Os actos do próprio governo francês fizeram por salientar isso. A proibição e a ameaça de brutalidade ajudaram a tornar um slogan, antes gritado quase rotineiramente em manifestações, numa descrição precisa, se não mesmo poética, da forma como muitas pessoas se sentiam sobre a sua própria situação e sobre o que elas queriam fazer em relação a isso: “Somos todos palestinianos”, de alguma forma entrando na mesma luta contra os mesmos inimigos.

Embora haja bastante anti-semitismo em França, incluindo entre os jovens de todas as nacionalidades, e por vezes os judeus, as lojas de judeus e as sinagogas sejam alvos, esta manifestação não tinha a ver com isso. A sua bandeira era a bandeira da Palestina, uma nação oprimida, e o seu alvo era Israel e o governo francês. Só era “anti-semita” para aqueles, como o primeiro-ministro francês, que alegam que não há nenhuma razão legítima para a oposição ao que Israel está a fazer aos palestinianos. Não foi como as grandes manifestações fundamentalistas católicas, homofóbicas, orgulhosamente patriarcais e frequentemente anti-republicanas (tanto nas formas de fascismo e monarquismo) – e, a propósito, anti-semitas – que o presidente “socialista” da República Francesa achou muito menos perturbadoras que estes jovens que pediam justiça.

Se a maioria dos participantes neste protesto proibido tinha uma origem islâmica, isso não era certamente porque os outros tivessem sido excluídos – todos os que vieram foram bem acolhidos. Foi a Liga Judaica de Defesa (no seu sítio na internet) e não os pró-palestinianos que ameaçou com violência contra os pequenos grupos nesta manifestação que levavam cartazes onde se lia “Judeus pela Justiça para a Palestina”. O problema não é algumas pessoas sentirem uma ligação especial à Palestina mas sim não haver um número suficiente de outras pessoas que reconhecem a justiça da causa palestiniana, pelo menos não o suficiente para se arriscarem como estes jovens fizeram.

Mas o Islão está a exercer um crescente fascínio entre eles, e um factor para isso são as próprias políticas e propaganda do estado francês.

É revelador que alguns comentadores reaccionários se estejam a referir à revolta de 2005 dos jovens dos guetos de França como a “Intifada francesa” e a apelar ao governo francês para tratar a segunda e terceira gerações de jovens imigrantes da forma como Israel trata os palestinianos, como um elemento estrangeiro a ser murado e deixado de fora. Ainda que nessa revolta a religião não tenha representado o papel que tem hoje entre os jovens imigrantes.

Apesar do carácter esmagadoramente laico do protesto de 19 de Julho, quando algumas pessoas começaram a gritar “Allahu Akbar” (Deus é grande), isso foi amplamente repetido. Algumas pessoas levavam bandeiras turcas para associar o apoio à Palestina ao partido islamita reaccionário no governo desse país. E, tal como os islamitas, as vergonhosamente poucas pessoas auto-intituladas de esquerda que nela participaram não tiveram nada melhor a oferecer a não ser ir atrás do Hamas, uma organização que nasceu e ainda vive para o objectivo de um regime religioso e não para a libertação de nenhum povo.

Algumas mulheres estudantes universitárias salafistas proclamaram: “Estamos aqui para dizer à Palestina que nós despertámos para vocês”. Face aos acontecimentos das últimas semanas, demasiadas pessoas continuam adormecidas. Mas ser atraído para a religião não é ficar acordado.

O facto de estas jovens e muitos outros jovens terem adoptado o fundamentalismo islâmico significa que rejeitaram a opressão francesa e alguns aspectos da mentalidade de escravo apenas para se escravizarem perante uma outra perspectiva mundial opressora, a da religião. A esperança deles em que o Islão ofereça uma saída para a opressão é uma ilusão.

Mesmo antes de Israel existir, os governos franceses tentavam apresentar a sua missão colonial como uma luta para civilizar as populações islâmicas. Mas a vilipendiação das populações islâmicas como arma nas mãos da classe dominante imperialista francesa nas suas manobras no estrangeiro e em casa é apenas um lado da questão. O outro lado é o que é necessário para que mais pessoas despertem de sentirem que têm de escolher entre a república imperialista e a “comunidade dos crentes” islâmicos cujas promessas não são menos mentira.