Os refugiados trazem à Europa a mensagem de um mundo intolerável

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 7 de Setembro de 2015, aworldtowinns.co.uk

Porque é que tantas pessoas são forçadas a deixar as suas casas e a procurar segurança na Europa?

Primeiro, olhemos para alguns pontos particulares: quase metade das mais de 300 mil pessoas que este ano chegaram à Europa até agora vem da Síria. Porque é que estão os habitantes de um país conhecido pela sua grande cultura, um povo orgulhoso de serem sírios e distante das terras mais empobrecidas do Médio Oriente – de facto, são pessoas de todas as classes sociais, incluindo muitos profissionais e outros elementos da classe média – a fugir do país deles, sabendo que muitos morrerão no caminho e poucos podem ter a certeza do que os espera?

Só pessoas que não entendem nada sobre o mundo – ou políticos com as mais malévolas intenções – podem alegar que o objectivo é obter uma forma de vida baseada em benefícios sociais (“segurança social”) na fria, triste e hostil Europa.

A verdadeira resposta é basicamente simples, embora envolva factores complexos: As potências ocidentais transformaram a Síria num desastre tal que uma grande parte dos seus 18 milhões de habitantes foi morta (25 mil pessoas), está desalojada (pelo menos 7,6 milhões em acampamentos e noutros lugares de refúgio na Síria) ou foi forçada a sair do país (mais de 4 milhões de pessoas).

Durante a última década, apesar de o governo reaccionário de Bashar al-Assad ter feito o seu melhor para integrar o país no mercado mundial dominado pelo Ocidente, em grande parte à custa da sua população rural, os EUA têm procurado uma dominação política e não toleram as ligações do regime à Rússia, um imperialismo rival, ou ao Irão, cuja estrutura de poder eles também consideraram ser um problema político.

Sob a cobertura do movimento de 2011 contra o regime de Assad, os EUA usaram o seu dinheiro, armas e agentes para inflamarem uma guerra que visava substituir Assad por outros elementos da classe dominante síria muitas vezes ditos “moderados” ou “pró-ocidentais”. Na perseguição deste objectivo, o Ocidente e os países que se uniram neste projecto, incluindo a Arábia Saudita, o Qatar e a Turquia, cada um com os seus próprios interesses políticos e ideológicos reaccionários, financiaram e armaram grupos islamitas, pondo em movimento forças que estão agora maioritariamente fora de qualquer controlo.

A ascensão dos jihadistas armados, sobretudo o Daesh (ISIS), é considerado um problema para os capitalistas monopolistas que governam os EUA, mas nada mais que isso. Pelo menos até agora, estes imperialistas têm seguido uma política de perpetuar a guerra civil para debilitar o regime de Assad, enquanto também tentam compreender como é que as próprias potências ocidentais podem acabar por recolher os destroços e controlar um futuro regime sírio e ao mesmo tempo colocar os islamitas de joelhos.

As desastrosas consequências desta política eram bastante previsíveis. Mas para os EUA e os seus aliados europeus, não havia nenhuma crise antes de centenas de milhares de sírios aparecerem à porta da Europa.

Como é que, hoje, as potências ocidentais estão a reagir a esta situação? Incrementando a guerra civil que originalmente criou tudo isto! O problema, para eles, não é o que está a acontecer aos sírios mas sim se eles conseguem ou não controlar a Síria, como parte chave da tentativa de controlar e reordenar o Médio Oriente e outras regiões. Estes são os mesmos motivos que levaram às invasões, lideradas pelos EUA, do Afeganistão e do Iraque e que originalmente incendiaram o mundo islâmico.

O chanceler britânico George Osborne disse-o abertamente: para lidar com o “problema” dos refugiados, a Grã-Bretanha iria participar no bombardeamento da Síria. O presidente francês François Hollande apareceu e disse mais ou menos o mesmo.

O Secretário de Estado norte-americano John Kerry aproveitou esta ocasião para advertir a Rússia para não enviar mais ajuda ao regime de Assad. (Significativamente, segundo o jornal The New York Times, uma das principais preocupações de Washington é o fornecimento pela Rússia de novos sistemas de defesa aérea, os quais são inúteis na actual guerra civil mas poderiam ser usados para dissuadir ou enfrentar um ataque global da NATO.) Os EUA anunciaram que iriam incrementar a sua campanha de organização de um exército mercenário na Síria que possa representar directamente os seus interesses.

Em vez de retirarem lições das guerras civis e da forma como a intervenção ocidental tem alimentado as forças jihadistas, os EUA e os seus cúmplices estão apostar no tudo ou nada, fazendo escalar uma situação intolerável e genocida numa tentativa desesperada de saírem por cima de uma forma ou de outra, independentemente do custo humano.

Os interesses imperialistas também estão a determinar a forma como os governos europeus estão a lidar com os refugiados, especialmente os seus contraditórios interesses nacionais e visões políticas sobre como servir esses interesses. A amarga disputa sobre a proposta alemã-sueca para a União Europeia [UE] alocar uma percentagem do actual número total de refugiados a cada país da EU está ligada de perto a diferentes agendas sobre o futuro da UE e às relações de poder entre os países europeus.

O primeiro-ministro britânico David Cameron encobriu a oposição dele à aceitação das quotas obrigatórias de imigrantes com vestes morais. Ele alegou que seria errado o Reino Unido aceitar qualquer dos refugiados que entram na Europa porque “Nós queremos que as pessoas nem sequer façam essa perigosa travessia”. Esta súbita preocupação com vidas não-britânicas fede a hipocrisia. Há muito tempo que Cameron adoptou uma retórica radical contra os imigrantes, incluindo os da UE, pedindo a britânicos comuns, como os proprietários de casas, que policiem o estatuto dos estrangeiros suspeitos e defendendo a criminalização dos imigrantes que trabalham no mercado negro. Agora, ele está a continuar a combinar a loucura anti-imigrantes com a cruzada dele contra uma maior integração política e económica europeia, sobretudo na medida em que isso favorece a Alemanha e a França.

O presidente francês Hollande juntou-se ruidosamente às vozes que criticam a Grã-Bretanha por esta não deixar entrar mais refugiados. A reivindicação dele à superioridade moral é minada pelas cruéis políticas do próprio governo dele em relação aos imigrantes – por exemplo, fazendo encurralar violentamente pessoas na terra de ninguém entre as fronteiras francesa e italiana no verão passado, e a violência policial padronizada contra os Roma (ciganos). A posição que ele anunciou foi quase igual à de Cameron em termos de mesquinhez na salvação de vidas humanas: a França aceitaria algumas dezenas de milhares de pedidos sírios de asilo durante os próximos anos. Mas, ao contrário da Grã-Bretanha, aceitaria a proposta alemã de receber pedidos de asilo de sírios já na Europa e não apenas dos que ainda estão na Síria e nos campos de refugiados nos países adjacentes.

O imperialismo alemão está a usar a situação para tentar melhorar a sua imagem, graças à boa vontade da Chanceler Merkel. Ela dá as boas-vindas aos sírios pela mesma razão que ela foi líder na devastação da Grécia: os interesses económicos e políticos alemães. Muitos comentadores têm salientado que o número de recém-chegados que a Alemanha se disponibilizou a admitir todos os anos corresponde quase exactamente ao número de pessoas necessárias para renovar anualmente a sua mão-de-obra que está a encolher. Está indubitavelmente envolvida uma mistura entre necessidade, oportunidade e outros interesses: a Alemanha não procurou especificamente importar sírios, mas uma vez que eles estão à porta, Merkel pode ter visto uma forma de simultaneamente sustentar a economia do país, pressionar para uma maior integração da UE numa altura em que isto significa uma crescente predominância alemã e elevar a superioridade moral de que a Alemanha precisa (e penosamente lhe falta) para justificar um lugar à cabeça da Europa.

Deve ser salientado que, sob a liderança dos EUA, a Alemanha e a Suécia estão a continuar a desempenhar um papel activo na actual ocupação do Afeganistão com tropas terrestres e a ajudar a estabelecer os alvos dos ataques aéreos. Os afegãos continuam a ser o maior grupo de refugiados no mundo de hoje, e o segundo maior a entrar na Europa.

De uma forma mais geral, nesta situação, Merkel e os parceiros dela têm adoptado uma atitude de tentarem fazer uma grande distinção entre refugiados (os sírios) e imigrantes (os sul-asiáticos, os africanos e outros). A questão é que a alguns podem vir a ser concedidos direitos, quando isso servir os próprios interesses das classes dominantes, enquanto outros são indignos e não têm nenhum direito à justiça. Isto é uma posição extremamente venenosa e potencialmente muito perigosa.

Moralmente, se alguns seres humanos nascem com direitos, se alguns podem ser recompensados e outros não terem nenhum direito à justiça, então onde é que isto acaba? Não poderão estes mesmos argumentos ser usados para justificar a repressão nas fronteiras, as expulsões em massa e pior? Politicamente, isto significa que a Alemanha irá aceitar algumas pessoas, frequentemente da classe média e profissionais treinados, considerados “assimiláveis” e expulsar ou bloquear as restantes? Estarão a Hungria, com a sua violência aberta tipo Gestapo, a Áustria, com a sua posição intermitente, e lugares como a Grécia que é usada para fazer o trabalho sujo para a Alemanha e outros países europeus mais abastados, a restringir e a reprimir a migração em massa?

Quando era conhecido que 3000 pessoas se afogaram ao tentarem atravessar o Mediterrâneo em 2014 e que foram registadas 2500 mortes no mar nos primeiros seis meses deste ano – mais de 700 só num navio que se virou – não houve nenhuma crise política na Europa. Nenhum chefe de estado na Europa ou nas outras principais potências imperialistas ergueu a sua voz para clamar que isso era intolerável. Cameron disse mais ou menos que seria melhor se elas se afogassem que chegassem à Grã-Bretanha, e Hollande, envergonhado, agitou-se por atrás dele. Merkel ficou sobretudo silenciosa. Não houve nenhuma “crise de imigração” até centenas de milhares de pessoas terem literalmente marchado pelo meio da Europa. Porque é que devemos acreditar que qualquer destas classes dominantes tem agora as mais leves motivações humanitárias?

Quer sejam chamados refugiados ou imigrantes, estes viajantes estão a trazer uma mensagem: o mundo tornou-se insuportável. Embora isso seja sentido de uma forma muito mais nítida nalguns lugares que noutros, o problema não é nenhum grupo particular de pessoas ou país, mas o mundo inteiro tal como ele hoje existe, a ordem global. A própria ideia de “proteger” as fronteiras europeias e norte-americanas é ilegítima. É uma tentativa de justificar e impor essa ordem ao declararem que aqueles que por acaso nasceram no lugar “errado” não podem esperar desfrutar dos privilégios partilhados por aqueles cujo lugar “legítimo” por acaso são os países onde a classe dominante é enriquecida por esta ordem e que compraram alguma paz social com as migalhas dela.

A atitude das classes dominantes, abertamente contra os estrangeiros nalguns países e mais hipócrita mas ainda assim violentamente imperialista-nacionalista noutros, tem encorajado enormemente os ataques físicos não oficiais aos imigrantes, em paralelo com o uso oficial de gás lacrimogéneo, granadas, espancamentos, cães e arame farpado. As ideias mais vis e potencialmente genocidas tornaram-se populares. Os partidos governamentais na Grã-Bretanha, em França e noutros países mais abastados alegam que não podem ser vistos como muito a favor dos imigrantes para evitarem provocar a ascensão dos partidos fascistas. Este raciocínio é inteiramente corrupto porque equivale a usar a ameaça de algo pior para justificar políticas horrendas e injustificáveis. O que é verdade é que os termos do debate da imigração que os principais partidos aceitaram, juntamente com outros factores, tornam provável que os partidos fascistas venham a beneficiar grandemente desta situação, a qual é provável que venha a ficar ainda mais aguda apesar dos esforços de Merkel e de outros para usarem isto para sua vantagem. Mas, ao mesmo tempo, muitos milhares de pessoas têm saído à rua para darem calorosamente as boas-vindas aos recém-chegados, na Alemanha, na Áustria e noutros países, incluindo naqueles cujos governos são abertamente hostis aos imigrantes.

Numa manifestação em Paris, milhares de pessoas gritaram: “Abram as fronteiras, queremos ar”. Também houve manifestações de solidariedade em Espanha, na Polónia e na Grã-Bretanha, e um grande protesto está previsto em antecipação da reunião dos ministros da União Europeia em Londres a 14 de Setembro. Estas pessoas têm razão e milhões mais deveriam ser mobilizadas para se juntarem a elas. Estas crises revelam o melhor e o pior das pessoas, revelando caminhos futuros divergentes mas igualmente possíveis para estas sociedades e para o mundo.