Os militares norte-americanos tomam medidas para acabarem com a greve da fome em Guantânamo

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 15 de Abril de 2013, aworldtowinns.co.uk

Depois de semanas a minimizarem a extensão e a seriedade de uma greve da fome no campo prisional norte-americano de Guantânamo, as autoridades tomaram medidas para acabar com ela pela força. Pouco depois das 5h da manhã de 13 de Abril, os guardas entraram na zona comunal com a intenção de forçarem os homens a entrar nas celas individuais. Os presos “resistiram com armas improvisadas” e os guardas dispararam “quatro rajadas não letais”, causando ferimentos, nenhum deles graves, segundo um comunicado do Comando Meridional das forças armados dos EUA, que se recusou a fornecer mais detalhes. Foi dito que as armas eram vassouras e cabos de esfregonas.

As razões dadas para este ataque são mutuamente contraditórias em face disto. O comunicado diz que a acção foi em resposta à obstrução de câmaras de vigilância, janelas e divisórias de vidro pelos presos e, ao mesmo tempo, alega que a “actual greve da fome requeria” que os presos fossem metidos em celas individuais para “exames médicos”. A comunicação social também foi informada de que os presos tiveram de ser isolados uns dos outros para impedir que houvesse “coerção” dos seus companheiros detidos a se juntarem à greve da fome.

Mas as transferências do Campo VI para celas individuais no Campo V, considerado uma unidade de punição, já estavam a decorrer quando ocorreu a rusga. A obstrução das câmaras e janelas tinha começado há vários meses, segundo um responsável militar citado pelo jornal The New York Times (13 de Abril de 2013). A rusga teve lugar passadas poucas horas após a conclusão de uma inspecção da prisão pela Cruz Vermelha Internacional que durou três semanas.

Os advogados dos presos, entre os quais alguns da organização judicial Reprieve de Londres e do Centro para os Direitos Constitucionais [CCR] de Nova Iorque, relataram que a maioria dos 130 homens no Campo VI juntou-se à greve da fome iniciada a 6 de Fevereiro. Uma porta-voz do CCR disse: “Em vez de tratarem das razões da greve da fome – cuja causa imediata foi a revista aos livros do Alcorão e o longo desespero causado por mais de 11 anos de detenção indefinida sem acusações nem julgamentos – o governo respondeu durante o fim-de-semana com uma escalada de violência e vingança. Reunir os homens em rusgas antes da madrugada e forçá-los a entrar em celas individuais é consistente com outras tácticas que o governo está a usar para pressionar os homens a acabarem com a greve, bem como para impedir o fluxo de informação para fora da prisão. Se os homens forem mantidos afastados uns dos outros, eles não podem relatar a situação no seu todo aos seus advogados e os únicos meios disponíveis para contarem a sua versão da história ficam bloqueados.”

A porta-voz do CCR também chamou à revista aos livros do Alcorão uma “provocação”. Os presos têm pedido aos militares para confiscarem os seus Coroes em vez de inspeccionarem periodicamente os presos de uma forma considerada ofensiva, mas os responsáveis do campo têm-se recusado a fazê-lo. Ao mesmo tempo, os militares norte-americanos acusaram os homens de “forjar alegações de abusos do Alcorão” e rotularam a greve da fome de “arma”, insinuando que a tentativa deles de obterem atenção mundial não é um protesto legítimo mas sim parte de uma guerra mais vasta e uma prova de que estes homens são demasiado perigosos para serem libertados.

Muitas fontes indicam que o governo do Presidente norte-americano Barack Obama decidiu tratar estes presos de uma forma mais dura que antes.

O isolamento dos presos uns dos outros está a ser conjugada com acções para aumentar o seu isolamento do mundo exterior. Os voos civis para a base naval norte-americana de Guantânamo estão a ser bloqueados. A única forma de se conseguir lá chegar é através de um voo militar norte-americano, o que requer que os advogados e os jornalistas façam um pedido com antecedência. Uma visita planeada de um jornalista do The New York Times foi cancelada no último minuto e outros jornalistas têm dito que não podem ficar à espera de acesso durante longas semanas. Além disso, já não são autorizadas visitas da comunicação social à própria prisão. Os jornalistas estão proibidos de tirar fotos das mensagens que os presos penduram por cima das cercas ou nas janelas das celas.

Há neste momento um total de 166 homens detidos em Guantânamo. Só três desses presos foram julgados e condenados, passados mais de 11 anos, e só 30 estão em vias de serem julgados. De facto, mais de metade foram “considerados aptos para libertação” pelo governo de Obama, mas ele recusa-se a deixá-los sair. O Alto-Comissário da ONU para os Direitos Humanos reiterou recentemente que “o encarceramento indefinido e continuado de muitos dos detidos é equivalente a detenção arbitrária e é uma clara violação do direito internacional”. Mas, tal como Obama também indicou no caso de Israel, o direito internacional só se aplica onde e quando os EUA querem que se aplique.

Obama prometeu fechar Guantânamo em Janeiro de 2010, mas não há nenhum plano para alguma vez o fazer. Em vez disso, está a ser construído um novo edifício, que supostamente inclui instalações para “presos envelhecidos”, embora a maioria dos presos tenham sido capturados quando eram jovens, alguns deles ainda crianças. Sabe-se que pelo menos sete presos terão cometido suicídio.

Os presos são sujeitos a extremos de calor e frio. Um tribunal norte-americano decidiu recentemente que lhes deveria ser fornecida água potável, que os grevistas da fome dizem ser-lhes negada. Eles também relataram terem sido feridos em “extracções forçadas das celas”, alguns deles várias vezes por dia.

Alguns dos grevistas da fome podem vir a enfrentar a morte no futuro próximo, disseram tanto a Reprieve como o CCR. Em vez de tratamento médico, eles estão a ser sujeitos a alimentação forçada de uma forma que só pode ser considerada tortura deliberada, uma continuação do waterboarding [tortura da água], espancamentos e outras formas de tortura a que eles foram anteriormente sujeitos em Guantânamo e noutros lugares. Os factos sobre este anterior tratamento foram confirmados por um capitão da Marinha dos EUA que geriu um hospital para detidos de Guantânamo, segundo um documento do Projecto Constitucional, liderado por dois proeminentes ex-membros do Congresso dos EUA.

Falando por telefone aos seus advogados da Reprieve, Samir Naji al Hasan Moqbel deu o seguinte testemunho:

“Eu estive em greve da fome desde 10 de Fevereiro e perdi bem mais de 14 quilos. Eu não vou comer até que eles restabeleçam a minha dignidade.”

“Estou detido em Guantânamo há 11 anos e três meses. Nunca fui acusado de nenhum crime. Nunca fui julgado. (...)”

“No mês passado, a 15 de Março, eu estava doente no hospital da prisão e recusei-me a ser alimentado. Uma equipa da ERF (Força de Extracção Extrema), um grupo de oito oficiais da polícia militar com equipamento antimotim, entrou violentamente. Amarraram-me as mãos e os pés à cama. Inseriram-me violentamente um dispositivo intravenoso na minha mão. Passei 26 horas nesse estado, amarrado à cama. Durante esse tempo, não me autorizaram a ir à casa de banho. Inseriram-me um cateter, o que foi doloroso, degradante e desnecessário. Nem sequer me deixaram rezar.”

“Nunca me esquecerei da primeira vez que eles me passaram o tubo de alimentação por cima do meu nariz. Não posso descrever quão doloroso é ser alimentado à força desta forma. À medida que o tubo ia sendo empurrado, tive vontade de vomitar. Queria vomitar mas não conseguia. Sentia dores no meu tórax, garganta e estômago. Nunca tinha sentido uma tal dor antes. (...)”

“Há neste momento tantos de nós em greve da fome que não há membros do pessoal médico suficientemente qualificados para fazerem as alimentações forçadas; nada acontece a intervalos regulares. Eles estão continuamente a alimentar as pessoas só para manterem o ritmo. (...)”

“Quando eles me vêm amarrar à cadeira, se eu me recuso a ser amarrado, eles chamam a equipa da ERF. Assim, eu tenho escolha. Ou exerço o meu direito a protestar contra a minha detenção, e a ser espancado, ou me submeto a uma dolorosa alimentação à força. (...)”

“A situação agora é desesperada. Todos os detidos aqui estão a sofrer profundamente. Pelo menos 40 pessoas aqui estão em greve da fome. As pessoas estão a desfalecer diariamente com esgotamentos. Eu vomitei sangue.”

“E não há nenhum fim à vista para o nosso encarceramento. Negarmo-nos a comer e arriscarmos a morte diariamente foi a escolha que fizemos.”

“Eu só espero que, por causa da dor que estamos a sofrer, os olhos do mundo olhem uma vez mais para Guantânamo, antes que seja demasiado tarde.” (The New York Times, 15 de Abril de 2013).

O grevista da fome Fayiz al-Kandari disse ao seu advogado: “Eu assusto-me quando me vejo ao espelho. Eles que nos matem, porque não temos nada a perder. Nós morremos quando Obama nos deteve indefinidamente. Respeitem-nos ou matem-nos, é uma escolha vossa. Os Estados Unidos têm de tirar a sua máscara e de nos matar.” (Russian Times, 27 de Março de 2013)