Os assassinatos na flotilha de Gaza: Israel junta o insulto aos estragos

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 7 de Junho de 2010, aworldtowinns.co.uk

A 5 de Junho, numa mensagem via rádio a exigir a rendição do navio mercante que levava ajuda para Gaza, responsáveis israelitas recusaram-se a chamá-lo de MV Rachel Corrie, a designação legal do navio. Em vez disso, usaram o seu antigo nome, Linda. Recusaram-se a pronunciar o nome que os seus actuais donos lhe deram em homenagem a uma estudante universitária norte-americana, porque foi o exército israelita que a assassinou. Uma escavadora blindada esmagou-a deliberadamente até à morte quando ela estava à frente de uma casa palestiniana que eles estavam prestes a demolir. O facto de, desta vez, uma acção militar israelita se ter efectuado sem perdas de vidas – ao contrário do assassinato de Rachel Corrie em 2003 e do massacre de pelo menos nove pessoas a bordo do navio irmão do MV Rachel Correi, o Mavi Marmara – não desarmou as explosivas contradições envolvidas na actual situação. De facto, Israel parece estar decidido a juntar o insulto aos estragos.

Quanto mais se conhecem os factos que rodearam o seu ataque ao Mavi Marmara, mais se salienta a natureza criminosa dos actos de Israel. Os relatos dos sobreviventes concordam em que os activistas passageiros do navio foram primeiro atacados com gás lacrimogéneo, granadas de choque e munições de aço coberto de borracha e depois com fogo vivo, por mar e por ar (Blogue do jornalista do The New York Times Robert Mackey, 3 de Junho de 2010). Os médicos forenses turcos que examinaram os nove corpos que Israel devolveu descobriram que alguns tinham sido atingidos a muito curta distância, alguns na cabeça, um à queima-roupa. Um homem tinha na mão uma mangueira de incêndio quando foi morto. Um fotógrafo foi atingido na cabeça de cima, quando transportava um homem ferido. Um rapaz de 19 anos foi atingido quatro vezes na cabeça e uma vez no tórax. Nenhuma das balas recuperadas dos corpos tinha sinais de ter ricocheteado antes de atingir as suas vítimas (The New York Times, 3 e 4 de Junho, CNN e The Guardian, 4 de Junho, Washington Post, 5 de Junho de 2010). Isto pelo menos levanta a questão de se saber se houve ou não execuções a sangue frio. Outras 48 pessoas sofreram ferimentos de balas. Alguns sobreviventes hospitalizados entrevistados pelo canal Al-Jazeera mostraram ferimentos de balas nas costas. Também tinham marcas de mordidelas de cães de ataque.

Apesar disto, a “comunidade internacional” encabeçada pelos EUA, pela Grã-Bretanha e pela França tem-se unido cautelosa mas firmemente à volta de Israel. O Presidente norte-americano Barack Obama e o seu governo têm-se recusado a condenar estes assassinatos. Falando em nome do seu governo, a Secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton disse: “Esperamos que o governo israelita leve a cabo uma investigação rápida, imparcial, credível e transparente conforme aos padrões internacionais e que recolha todos os factos à volta deste trágico acontecimento” (Haaretz, 3 de Junho de 2020). O que é provável que resulte de uma tal “investigação” é uma repetição das manifestamente ridículas alegações dos responsáveis israelitas de os activistas mortos serem “mercenários” pagos pela “Al-Qaeda” e ao serviço do “Irão”.

Uma auto-investigação israelita seria um passo atrás na prática anterior. Após a invasão israelita de Gaza em Dezembro de 2008, a ONU encarregou o jurista internacional Richard Goldstone de investigar a conduta de ambos os lados. Quando o relatório dele acabou por ser mais crítico de Israel do que o esperado, Obama minimizou-o por ser “controverso” e o seu governo recusou-se a permitir que fosse levado ao Conselho de Segurança da ONU. De facto, os EUA chegaram mesmo a bloquear a sua discussão no Conselho de Direitos Humanos da ONU. Em oposição ao relatório Goldstone, Israel investigou-se a si próprio e conclui ser inocente na sua invasão de Gaza.

Em vez de exprimir sequer o mais ligeiro pesar, o governo israelita prendeu e processou os cidadãos israelitas (palestinianos) que eles tinham detido em águas internacionais a bordo do Mavi Marmara. O governo e a oposição oficial recusaram dissociar-se de uma conhecida página do Facebook que apela ao assassinato de um deles, uma mulher que foi maltratada e ameaçada de morte pelos seus colegas membros do parlamento israelita. Também divulgaram uma lista de quatro activistas turcos e um nascido nos EUA que iam a bordo desse navio e a quem acusam de ligações à “Al-Qaeda” e de tentarem “formar e treinar uma unidade de comandos para uma organização terrorista palestiniana”. O governo israelita, longe de tentar acalmar a situação, está focado na vingança.

Há um método nesta loucura de Israel, e mesmo as suas acusações mais ridículas têm objectivos graves. Especificamente, há dois impulsos contraditórios em acção no Médio Oriente: um que visa despolarizar a situação e outro que procura activamente tanta polarização quanto possível. O último é o que Israel está a seguir.

O governo turco, apanhado entre a sua posição muito pró-EUA e os seus apelos ao Islão e aos sentimentos pró-palestinianos, têm estado na vanguarda desse primeiro impulso. Promoveu negociações secretas em 2008 para um tratado de paz entre Israel e a Síria. Uma das razões do seu fracasso foi a invasão israelita de Gaza, que deixou embaraçados mesmo regimes mais abertamente pró-EUA como o Egipto e a Jordânia que já há muito que assinaram tratados com Israel. Além disso, embora o governo sírio tenha expressado interesse numa reconciliação com os EUA e na normalizando das relações com Israel, Telavive tem-se recusado a mudar a sua posição sobre a devolução à Síria dos Montes Golã ocupados pelos israelitas. Nos últimos meses, a Turquia juntou-se ao Brasil num esforço para persuadir o Irão a aceitar os controlos internacionais das suas reservas de urânio enriquecido e assim reduzir a tensão internacional em torno do programa nuclear do regime iraniano. O Irão aceitou a proposta; os EUA rejeitaram-na, dizendo que o problema não é o que irá acontecer ao urânio que o Irão já enriqueceu mas sim a sua capacidade de enriquecer mais no futuro. Exigir que a República Islâmica renuncie publicamente sequer à possibilidade de enriquecer o seu próprio urânio é pedir-lhe que cometa suicídio político.

Durante o último ano, reagindo às movimentações diplomáticas da Turquia, Israel foi até ao limite para provocar o governo desse país e humilhar publicamente os seus líderes. O facto de comandos israelitas terem escolhido atacar um navio turco e matar cidadãos turcos tem que ser visto neste contexto. Agora, após os assassinatos no Mavi Marmara, o primeiro-ministro israelita Benjamim Netanyu e o seu governo têm espumado com a boca de forma a escreverem deliberadamente a equação: Flotilha da Liberdade de Gaza = governo turco = Irão. Foi isto o que Netanyahu pretendeu dizer quando ligou a flotilha ao que ele chamou de esforços iranianos para levar para Gaza mísseis capazes de atingirem Telavive e ao declarar que Israel tinha que agir para impedir que Gaza se tornasse “num porto iraniano no Mediterrâneo” (Haaretz, 3 de Junho de 2010). O seu ministro dos negócios estrangeiros Avigdor Lieberman disse que a Turquia estava a ficar como o Irão, que, salientou, tal como a Turquia, também já foi um “bom amigo” de Israel (Guardian, 6 de Junho de 2010).

Parte disto é, claro, propaganda ao serviço de si mesmo que visa retratar Israel como a vítima e não o criminoso, mas é mais que isso. Faz parte de toda uma abordagem que visa levar o que está em jogo até ao limite.

Qual é o papel dos EUA nisto? Os interesses dos EUA e os de Israel não são idênticos. Há contradições reais entre os interesses imediatos de Israel e os fins e objectivos mais vastos dos EUA na sua tentativa de consolidar a hegemonia numa região onde já estão envolvidos em duas guerras. Mas os EUA nunca deixarão de boa vontade o seu único posto avançado e gendarme/xerife fidedigno na região. Pelo menos até agora, não se opuseram aos esforços de Netanyahu – de facto, Telavive e Washington parecem estar mais ou menos unidos na tentativa de não só isolarem a República Islâmica do Irão, como também punir a neutralidade percebida em relação a ela.

Ao mesmo tempo, isto não impede os EUA de se apresentarem como a única força que pode conter a crueldade israelita e minorar o sofrimento do povo palestiniano. Esta abordagem dual é exemplificada pelo vice-presidente norte-americano Joseph Biden. Supostamente embaraçado quando as autoridades israelitas anunciaram a construção de 1600 novas casas para colonos judeus em Telavive durante a sua visita aí para pedir um congelamento desses colonatos, ele tornou-se no mais vociferante defensor governamental norte-americano do massacre no Mavi Marmara. Entrevistado na televisão sobre o bloqueio de Gaza, declarou: “O que é que isto tem de especial?” (Politico, 2 de Junho de 1010). No futuro, é de esperar dos EUA um maior apoio real a Israel e mais actos falsamente pró-palestinianos.

Parte do que torna a situação tão impossível de prever é que há processos em movimento que têm a sua própria lógica. As forças em disputa têm cada uma delas os seus próprios objectivos, mas nenhuma tem o controlo da situação. Por exemplo, os EUA podem querer uma “solução de dois estados” que possa oferecer aquilo a que chama de “horizonte político” aos palestinianos – uma esperança em algo melhor que a ocupação brutal e a pobreza forçada de hoje. Mas dentro do próprio estado de Israel, não há nenhum partido político ou força importante que venha a contemplar qualquer caminho que seja diferente de esmagar ainda mais os palestinianos.

O governo de Netanyahu, de coligação de partidos de “esquerda” e “direita”, inclui alguns dos mais fanáticos extremistas religiosos do mundo, o tipo de pessoas que alguns israelitas chamam de “talibãs” judeus. A porta-voz do partido da oposição, Zipi Livni, apresentada pelo anterior governo israelita como a face de um sionismo laico, moderno e “moderado”, declarou recentemente que o “problema” de Israel não era o fundamentalismo extremista ortodoxo judeu mas o facto de os judeus laicos não terem respondido “à chamada do Judaísmo” (Haaretz e Y-net news, 28 de Maio de 2010).

Num artigo intitulado “O fracasso da instituição judaica norte-americana” na revista New York Review of Books de 10 de Junho de 2010, Peter Beinart, um autor simpatizante de Israel e do judaísmo ortodoxo, lamenta o colapso do que chama o “Iluminismo” ou a “versão liberal-democrática” do Sionismo. Beinart salienta que Netanyahu escreveu que a criação de um estado palestiniano na Cisjordânia seria uma catástrofe equivalente a Auschwitz. Esta é uma posição da qual é difícil de recuar e não é claro o quanto as tropas de choque sionistas a possam aceitar. É significativo que, a 5 de Junho, quando judeus e palestinianos fizeram uma concentração para condenar (suavemente) o ataque ao Mavi Marmara, os judeus ultra-religiosos não só os tenham atacado, como também tenham atirado insultos aos habitantes laicos de Telavive em geral, que acusaram de gastar muito tempo em cafés em vez de lutarem nas linhas da frente.

O mesmo tipo de contradições aplica-se a outros actores neste cenário. A liderança do Hamas tem alegado repetidamente que a sua disputa é com Israel, não com os EUA, e que aceitaria uma coexistência de longo prazo com Israel, mas isso pode ser o tipo de situação que os EUA não estão dispostos a aceitar. O regime iraniano também tem dado sinais contraditórios, como se tentasse equilibrar a sua falta de oposição efectiva à ordem mundial imperialista através de uma retórica hipermilitante contra Israel. Também aqui não se trata apenas de uma questão de conversa. A existência do regime iraniano está ameaçada de várias direcções diferentes e a bandeira do Islão e dos locais santos de Jerusalém é vital à coesão ideológica e à sobrevivência política do regime. Quanto aos EUA, o que querem – manter o seu Israel e também uma menor oposição no Médio Oriente – pode ser exactamente o que não podem obter.

Após a actual crise de Gaza, há no ar muitos pensamentos idealistas. Muita gente sente que é “irrealista” lutar pela criação de um estado único e laico para toda a gente, em vez de um Israel religiosa e etnicamente definido. Contudo, assim que se aceita o direito de Israel a existir como estado judeu, seja por convicção no sionismo ou por pragmatismo, é-se forçado a aceitar a lógica distorcida de tudo aquilo que é feito para proteger esta situação inerentemente injusta. Além disso, também é fútil esperar que as potências ocidentais venham a estar dispostas a fazer qualquer coisa de fundamentalmente positiva em relação a Gaza e aos palestinianos. Embora Hillary Clinton já tenha descrito o cerco a Gaza como “insustentável”, o objectivo dos EUA parece ser torná-lo sustentável. Quaisquer que sejam os ajustes que possam vir a ocorrer – por exemplo, uma co-participação europeia na manutenção do bloqueio a Gaza, tal como sugerido pela França, ou deixar entrar alguns dos produtos agora proibidos – essas potências não vão aparecer para salvarem os palestinianos de uma forma que satisfaça as aspirações nacionais destes. Isto não acontece porque essas potências sejam particularmente pró-judaicas mas sim devido ao papel que Israel desempenha na manutenção do domínio imperialista na região.

Nem as forças e os regimes islâmicos irão constituir um desafio fundamental a esta situação, embora mesmo o desafio limitado que eles constituem pode ser mais do que o Ocidente pode tolerar.

A única verdadeira solução para a situação palestiniana – a criação de um único estado laico para toda a gente – pode parecer irrealista face a todo o poder de fogo reaccionário agregado de todos os lados contra isso, e não é concebível na actual configuração imperialista da região. Mas nenhuma das outras soluções pode ser viável a longo prazo. Seja o que for que venha a acontecer no Médio Oriente, é o actual estado de coisas que não é sustentável.