“Omar”: Um filme palestiniano de partir o coração

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 4 de Novembro de 2013, aworldtowinns.co.uk

Terno e brutal, Omar é uma história de amor no contexto de uma cruel ocupação israelita. O afecto de umas pessoas pelas outras leva o filme através de trajectórias tensas, de partir o coração, mostrando, com cada desenvolvimento na vida pessoal de Omar, a opressão pela situação política global e as escolhas consentidas às pessoas que vivem nela. As escolhas são totais – a colaboração com o inimigo ou a lealdade para com a luta pela liberdade da Palestina.

Situada na Cisjordânia, a cena de abertura é de Omar a escalar o muro evitando as balas israelitas. O muro, frequentemente chamado Muro do Apartheid, é enorme e intrusivo, uma arma de separação em massa que dá a sensação de se viver encarcerado dentro do muro, e não próximo dele nem à volta dele. Ao longo do filme, Omar escala repetidamente o muro para evitar os lentos postos de fiscalização que, de uma forma diferente, também o separam dos amigos dele, Amjad e Tarek, e da irmã de Tarek, Nadia, a amada de Omar. Durante uma dessas escaladas do muro, ele é barbaramente humilhado e atacado por soldados israelitas.

Amjad e Omar estão a treinar sob a orientação de Tarek que é um combatente da resistência mais experiente. Uma noite eles atingem um soldado israelita e a partir desse momento a escalada de tensão mantém-se ao longo do resto do filme. Omar é preso e torturado nos calabouços escuros da prisão pelos serviços secretos israelitas que querem uma confissão e saber quem eram os cúmplices dele.

Sob a ameaça de 90 anos de prisão pendurada sobre a cabeça de Omar, Rami, o torturador israelita dele, usa o amor de Omar por Nadia e o engano em relação a ela e aos amigos dele para o pressionar a colaborar contra eles. A personagem de Rami está bem desenvolvida – uma visão não perspicaz poderia confundi-lo apenas como uma boa pessoa com um mau emprego. Ele é retratado como razoável, um pai com relações familiares muito como as de qualquer outro ser humano. Ele até fala árabe. Recordemos que o Padrinho também era agradável para com os netos dele!

A expectativa de se saber se Omar trairá ou não os amigos dele e a causa palestiniana é quase subjugada por um sentimento de que quase não há nenhuma saída para pessoas como Omar e a população palestiniana em geral. Devido à ocupação israelita, ele estará sempre fragilizado perante as constantes exigências israelitas de colaboração. E todos os actos que ele faz na sua vida pessoal têm o selo da ocupação a pairar por cima dele como uma nuvem negra.

Mostrado no festival de cinema de Cannes em França no início de 2013, Omar ganhou o Prémio do Júri, o terceiro prémio mais importante do festival depois da Palma de Ouro e do Grande Prémio. A audiência deu a Omar uma ovação em pé.

O produtor Hany Abu-Assad recebeu em 2005 uma nomeação para um prémio da academia [norte-americana] pelo filme dele Paradise Now [Paraíso Agora] e algumas pessoas vêem Omar como uma sequela desse filme. Abu-Assad vê-o sobretudo como uma história de amor como o Othello de Shakespeare, uma dramática história de racismo, amor, tragédia e traição que leva Othello a matar a esposa dele Desdemona porque pensa que ela o está a enganar. Abu-Assad alega fugir de fazer declarações políticas abertas nos seus filmes. Contudo, a criminalidade da ocupação impregna o filme.

O elenco de Omar é todo palestiniano e a esmagadora maioria do dinheiro para produzir o filme, alguns dizem que chega a 90%, veio principalmente de doadores palestinianos. Eles estão orgulhosos por terem feito um filme que é independente do apoio e da influência europeia. A Palestina seleccionou-o como participação dela nos próximos Óscares de Hollywood como melhor filme estrangeiro.

É impossível retirar este filme do contexto real da vida e da história que os palestinianos têm sofrido desde a expulsão deles da sua pátria e do Nakba ou desastre de massacres sionistas e limpeza étnica que teve lugar em 1948. Durante a Nakba, quase um milhão de palestinianos foram brutalmente expulsos da terra, das aldeias e casas deles e fugiram apenas com os pertences que conseguiram levar. Muitos foram violados, torturados e mortos. Centenas de aldeias foram destruídas e recobertas por aldeias sionistas com nomes hebraicos sobre as quais foi construído o estado israelita. O estado de Israel foi construído sobre o sangue e os ossos desses massacres. A Nakba é o que enquadra a vida diária de todos os palestinianos hoje.

Israel é um posto avançado dos interesses norte-americanos no mundo árabe e noutros lugares. Israel é um impositor do sistema imperialista liderado pelos EUA, cujas armas e apoio são cruciais e sem os quais esse estado sionista não poderia existir. Até esse sistema imperialista ser destruído pouco pode mudar para as massas palestinianas que continuarão a viver sob condições de aniquilação.

Os palestinianos têm lutado contínua, corajosa e criativamente durante todos estes longos anos para regressarem à terra deles. Se ver Omar não o fizer sentir ódio pela brutal ocupação israelita, nada mais o fará.