O Sharon de Israel, o Israel de Sharon

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 13 de Janeiro de 2014, aworldtowinns.co.uk

Quando Ariel Sharon morreu a 11 de Janeiro, após oito anos em coma, a maioria dos políticos e da comunicação social ocidental, quando eram minimamente críticos, chamaram-lhe “controverso” ou “causador de divisões”, referindo-se sobretudo à opinião pública israelita. Apesar disto, trataram o acontecimento com grande solenidade e respeito. Era como se fosse “uma morte na família”, como lamentou o vice-presidente norte-americano Joseph Biden na cerimónia evocativa em Telavive, que ficou conhecida pelos lugares vazios que o público não encheu.

O que os estadistas israelitas e ocidentais sentiram que deveria ser considerado muito memorável e unificador em relação a Sharon foram as qualidades dele de “guerreiro” – a “coragem” dele e a “Estrela Polar” dele, como disse Biden, o compromisso dele para com a causa sionista. Isto revela muito daquilo contra o que o povo palestiniano está a lutar. Não há nenhuma controvérsia em relação aos factos. Sharon construiu uma identidade como carniceiro em grande escala. Não há dois lados contraditórios na história dele, apenas dois lados diferentes no mundo real, divididos pelo facto de o povo palestiniano dever ou não dever ser esmagado.

A carreira militar de Sharon começou com a Naqba, a expulsão armada dos palestinianos das suas casas que marcou a fundação de Israel em 1948. Depois, como jovem oficial em rápida ascensão, ele fundou e comandou a Unidade 101 do Exército Israelita. A missão dessa unidade era levar a cabo ataques de represália contra aldeias fora do que era então Israel e punir os civis por acolherem “infiltrados” – combatentes palestinianos, contrabandistas e muitas vezes pessoas desarmadas que tentavam regressar às suas casas. Em 1953, liderou um ataque contra uma aldeia chamado Qibya.

A aldeia era guardada por uma dúzia ou menos de homens armados. A unidade de Sharon, com centenas de soldados, bloqueou a aldeia por todos os lados, disparou morteiros e rockets e depois entrou. Matou 69 pessoas. Mais de metade dos mortos (The New York Times, 13 de Janeiro de 2014), e talvez mesmo até dois terços, eram mulheres e crianças. Muitos deles morreram nas suas casas, sobre as quais os soldados dispararam e que depois demoliram sem verificarem quem estava lá dentro. Os atacantes sofreram apenas um soldado ligeiramente ferido. Esta foi a “batalha” que trouxe a Sharon a proeminência enquanto “guerreiro” simbólico de Israel, para citar o título da autobiografia dele.

Sharon foi um estratega implacável. Porém, não foi apenas um monstro e compreendeu os objectivos políticos da sua guerra. “As ordens eram inteiramente claras: Qibya deveria tornar-se num exemplo para toda a gente”, escreveu o historiador israelita Benny Morris em Israel's Border Wars [As Guerras Fronteiriças de Israel]. O credo de Sharon como soldado era o seguinte: fazer uma questão especial em matar não só combatentes mas também civis para demonstrar o poder e a desumanidade israelita, aterrorizar o povo palestiniano até à submissão. A ONU condenou o massacre mas Sharon foi promovido para ajudar a reorganizar e a moldar o exército israelita. A Unidade 101 foi dissolvida, mas tornou-se num modelo para as tácticas e o espírito das forças armadas israelitas.

A verdadeira coragem na busca da justiça está entre os inimigos de Israel. Após esses anos em que o próprio Sharon não esteve directamente envolvido na luta, os fedayeen palestinianos obtiveram algumas vitórias tácticas importantes enfrentando condições esmagadoras, por exemplo na célebre batalha de Karameh em 1968. A mais famosa campanha de Sharon foi quando ele liderou a invasão do Egipto em 1973. Na cidade do Suez, os operários fabris e outras pessoas, armadas e organizadas à pressa por oficiais nacionalistas do exército e por militantes de esquerda dos Comités de Resistência Popular, saíram à rua para impedir o exército israelita de tomar a cidade. Armados sobretudo com espingardas e RPGs, eles destruíram tanques, cercaram os invasores e capturaram muitos soldados profissionais, ajudando a deter a ofensiva israelita rumo ao Cairo. Embora Israel tenha acabado por vencer essa guerra, isso destruiu o mito da invencibilidade sionista.

Em 1982, Sharon repetiu Qibya a uma escala ainda mais massiva. Com o apoio dos EUA, desencadeou e liderou uma invasão do Líbano. O pretexto era que Israel estava a proteger a sua própria segurança afastando os combatentes palestinianos da fronteira. Depois, as forças armadas israelitas avançaram muito para norte até Beirute, onde forçaram a liderança da Organização para a Libertação da Palestina [OLP] e milhares dos seus combatentes a deixar o país em navios. O governo norte-americano, supostamente agindo como mediador, afirmou garantir a segurança dos civis palestinianos deixados para trás.

Os EUA e Israel tinham a esperança de vir a dirigir o país através de uma aliança com o Partido Falangista, de base cristã, cujo líder Bashir Gamayel estava decidido a tornar-se presidente do país. Bashir tinha concordado em deixar Israel ocupar o sul do Líbano, o que Israel fez. Mas, entretanto, Bashir foi assassinado.

No dia em que Bashir foi morto, Sharon reuniu-se com a família dele, um dos mais poderosos clãs do Líbano, supostamente para prestar as suas condolências. Segundo a revista Time, “Sharon disse aos Gemayel que o exército israelita iria avançar para Beirute Ocidental e que esperava que as forças cristãs entrassem nos campos de refugiados palestinianos. Aparentemente, Sharon também discutiu com os Geymayel a necessidade de os falangistas se vingarem pelo assassinato de Bashir, mas os detalhes da conversa não são conhecidos” (Time, 21 de Fevereiro de 1983). O governo israelita culpou a OLP pelo assassinato, embora soubesse que isso não era verdade.

O exército israelita cercou os campos de refugiados palestinianos adjacentes conhecidos como Sabra e Shatila. Impediu toda a gente de sair, mas deixou os milicianos falangistas entrar. Os foguetes israelitas iluminaram o céu nocturno. O líder falangista da operação, Elie Hobeika, e o comandante de campo israelita presente no local, General Brigadeiro Amos Yanon, estavam juntos num terraço a observar.

Um tenente israelita disse depois a uma comissão do Knesset (o parlamento israelita) que, uma hora depois da milícia falangista ter entrado nas ruas estreitas do campo de refugiados, um oficial no campo comunicou por rádio a pedir instruções sobre o que fazer com as mulheres e crianças. Hobeika respondeu: “Esta é a última vez que você me vai fazer uma pergunta dessas. Você sabe exactamente o que fazer”. O general israelita sabia dessa troca de palavras (ver http://electronicintifada.net/people/indictsharonnet). Quando, vinte anos depois, um tribunal belga se preparava para julgar Sharon, Yanon e Hobeika pelo massacre, o falangista disse em sua própria defesa que iria testemunhar que os israelitas sabiam e aprovaram tudo. Ele foi morto por um carro-bomba e o caso foi arquivado a insistência dos EUA.

Também há indícios de que o próprio exército israelita matou muitos palestinianos, mesmo depois de o massacre ter terminado no campo de refugiados. Só foram encontrados cerca de 600 corpos em Sabra e Shatila, embora se saiba que quase 2000 pessoas desapareceram e que o número real pode ter sido ainda mais elevado. O jornalista britânico Robert Fisk, que chegou ao local pouco depois da saída dos falangistas, escreveu que os israelitas levaram “provavelmente bem mais de mil” homens e rapazes palestinianos para o estádio desportivo vizinho. Quando ele regressou, eles tinham desaparecido e as famílias deles não os conseguiram encontrar. Depois de conversar com testemunhas, ele concluiu que os israelitas tinham matado os prisioneiros e os tinham enterrado em campas secretas. (Robert Fisk, The Independent, reimpresso pela revista Counterpunch, 28 de Novembro de 2001.)

Os factos essenciais sobre Sabra e Shatila foram revelados pelo relatório da comissão criada pelo parlamento israelita após um clamor público sem precedentes em Israel nos dias que se seguiram ao massacre. Contudo, a comissão Kahan chegou à conclusão que o massacre tinha sido obra apenas dos falangistas, enquanto Sharon e outros oficiais eram culpados de não o terem impedido. Essa comissão defendeu que Sharon tinha “responsabilidade pessoal” e que o primeiro-ministro israelita Menachem Begin era “indirectamente responsável” por não ter tido em conta a negligência de Sharon.

Isso foi tanto um mero bofetão na mão como um encobrimento. Embora Sharon tenha certamente uma responsabilidade pessoal, o massacre não se deveu a negligência ou indiferença dele – nem sequer à responsabilidade criminal pessoal dele. Foi cometido como parte da política geral israelita em relação aos palestinianos e aos seus vizinhos, políticas essas que levaram a três invasões do Líbano e a horrores permanentes contra os palestinianos. Elas são o resultado natural do próprio Sionismo – soluções lógicas para o problema da criação e salvaguarda de um estado judaico baseado na fantasia racista de um povo judaico misticamente definido a nível mundial de alguma forma reunido numa única nação e dotado de um direito genético inato a uma terra já habitada há milhares de anos.

Como consequência, Sharon foi forçada a demitir-se de Ministro da Defesa, mas Begin manteve-o no governo. Begin terá dito a Sharon: “Você é jovem. Você ainda tem muito para fazer”. Ele manteve-se um pilar do sistema político de Israel, bem como o seu principal general, e continuou o trabalho dele como primeiro-ministro até um ataque cardíaco o ter deixado quase morto em 2006. A “responsabilidade pessoal” dele foi aprovada pela classe dominante de Israel no seu todo e por uma grande parte do eleitorado. Nunca houve nenhum perigo de ele vir a enfrentar um julgamento internacional pelos seus crimes. Os EUA nunca deixaram que isso acontecesse.

Sharon usou as várias posições governamentais que ocupou para conquistar para si próprio o cognome de pai do movimento dos colonatos judaicos. O governo israelita financiou e protegeu os “colonos” judeus que se apoderaram de terras ainda ocupadas e cultivadas por palestinianos na Cisjordânia. Em 1998, ele disse-lhes para “correrem e apoderarem-se de tantas colinas quantos puderem, porque tudo o que tomarmos será nosso” (Reuters, 12 de Janeiro de 2014). Esses colonatos são postos avançados armados do estado sionista no que resta dos territórios palestinianos.

Mas o que mais tornou Sharon “controverso”, sobretudo no Israel de hoje, é que ele supostamente se voltou contra o movimento dos colonatos. Em 2005, ele enviou tropas israelitas para evacuarem as famílias judias que se recusavam a abandonar a Faixa de Gaza que Israel tinha invadido e tomado em 1967.

O movimento de evacuação desencadeou uma crise ideológica num movimento que até então pensava ter direito a tudo o que quisesse devido ao que considerava ser a promessa de Deus. Algumas famílias ainda estão enfurecidas por terem perdido as suas quintas e negócios altamente subsidiados em Gaza. Talvez elas se ressintam de terem sido de boa vontade a carne para canhão sionista. Mas a evacuação não representou um desvio em relação aos objectivos por trás do apoio do estado ao movimento dos colonatos.

Ela permitiu ao estado israelita consolidar a sua posição militar, de forma a que as suas tropas já não estivessem forçadas a defender algumas centenas de famílias. A ideia era enviar os colonos deslocados para engrossarem as cidades judaicas mais viáveis na Cisjordânia.

E ainda mais importante foi o objectivo político do que Sharon chamou “separação”. Para Sharon, isto foi uma mudança de táctica, não uma mudança de objectivo. Tony Blair, que ficou conhecido por mentir ao público britânico para obter apoio à invasão do Iraque e que foi recompensado tornando-se no enviado do Quarteto, uma instituição criada pelos EUA, Grã-Bretanha, UE, ONU e Rússia para supervisionar as negociações israelo-palestinianas, disse despudoradamente a verdade na cerimónia evocativa de Ariel Sharon. Blair disse que ele quis corrigir o conceito falso mas amplamente aceite de que Sharon “mudou de homem de guerra para homem de paz. Ele nunca mudou. O objectivo estratégico dele nunca oscilou. O estado de Israel (...) tinha de ser preservado para as gerações futuras. Quando isso implicava lutar, ele lutou. Quando implicava fazer a paz, ele procurou a paz com a mesma determinação férrea.”

Mas o que foi essa conversa de “paz” se não outra tentativa de esmagar os palestinianos por outros meios? Sharon liderou a evacuação unilateral de Gaza de forma a debilitar e não a fortalecer a autoridade da OLP. Ele nunca considerou ser uma questão de princípio negociar com os palestinianos. Ele tinha-se recusado a apertar a mão do presidente da OLP Yasser Arafat quando Arafat aceitou o plano norte-americano de uma “solução de dois estados”, e manteve Arafat prisioneiro na sua própria casa até ao dia em que ele morreu em circunstâncias que nunca foram clarificadas.

Se Sharon chegou a acreditar na necessidade de uma “solução de dois estados”, tal como os EUA acreditavam nessa altura – e devido ao seu subsequente ataque cardíaco ninguém pode saber exactamente o que ele tinha em mente ou o que ele teria feito depois – o plano era (e ainda é) criar um estado “palestiniano” que não seria mais que um grande centro de detenção. Essa mesma perspectiva ligava a construção por Israel de um muro à volta da Cisjordânia, que começou com Sharon, à política dele de “separação” que significou que, em vez de ocupar a Faixa de Gaza, Israel a iria cercar e iria buscar os seus habitantes sempre que considerasse necessário.

Quer um mini-estado “palestiniano” venha ou não a ser autorizado a emergir, o que Sharon tentou fazer avançar, e a que os EUA ainda dão valor, é o “processo de paz”. Este “processo” só tem uma direcção – contra os palestinianos. O número de colonos na Cisjordânia aumentou em um terço durante os anos que Sharon passou em coma, sem fim à vista. Mais, baseia-se numa ilusão: os EUA têm a mesma probabilidade de virem a proteger os palestinianos no futuro que em Sabra e Shatila. Mais importante, fornece uma cobertura política a regimes árabes reaccionários aliados de Washington, como a Arábia Saudita e o Egipto.

Mas também causa alguma fricção ideológica a alguns israelitas que se opõem à interferência com o que eles consideram ser o plano de Deus. Eles odeiam sequer fingir considerar os palestinianos como merecedores de direitos. O facto de haver contradições reais entre Israel e os EUA, deve-se a que embora os EUA não possam abandonar o estado judaico, um posto avançado fiel numa região cada vez mais volátil, os EUA também se preocupam com a estabilidade regional que Israel frequentemente põe em perigo. Para os EUA e a UE, a cerimónia evocativa de Sharon – onde eles elogiaram este assassino em massa como “homem de paz” – foi uma ocasião para delicadamente darem uma cotovelada ao governo israelita para reavivar o “processo de paz”.

Isto foi mal recebido entre muitos israelitas. Apenas alguns milhares foram ao funeral dele. Muitos odiavam Sharon. Alguns envergonhados pela brutalidade descarada e rejubilante dele, embora não consigam imaginar uma alternativa aceitável para o estado judaico. Outros, sobretudo os do chamado movimento religioso nacional, consideravam-no um traidor. Embora colidam, ambas as correntes operam dentro dos limites dos interesses mais vastos do estado de colonatos. Foi por isso que um sionista laico e de mente sóbria como Sharon patrocinou fanáticos religiosos judeus alucinados quando isso serviu os objectivos de Israel.

O conceito de um estado multinacional e não-religioso antes defendido pela OLP foi dinamitado pela actual paisagem política, e em não pequeno grau devido a Sharon e às políticas que ele representou. Ele fez a parte dele – sob as asas dos EUA, claro – para criar as condições, por vezes deliberadamente, em que o fundamentalismo islâmico se está a impulsionar para a vanguarda da luta contra o Sionismo.

Na cerimónia evocativa de Sharon, o actual primeiro-ministro israelita, Benjamim Netanyahu, disse: “A tua memória fará sempre parte desta nação”. Isto é verdade: os actos criminosos de Sharon foram totalmente consistentes com a criminalidade do projecto sionista, e serão sempre sinónimo de Israel e das potências imperialistas que serve.