Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 17 de setembro de 2017, aworldtowinns.co.uk

O que está por trás do massacre dos rohingya

Centenas de milhares de rohingya – em números que se aproximam de metade do número calculado em um milhão de membros deste grupo étnico a viver no Myanmar – foram expulsos das casas e do país deles por milícias budistas armadas e pelo exército e a polícia. Estes assassinos deslocaram-se a centenas de aldeias, dispararam sobre as casas e incendiaram aldeias inteiras. O exército colocou minas terrestres antipessoais nos pontos de passagem na fronteira entre o Myanmar e o Bangladesh para matarem ou mutilarem aqueles que fogem e impedir todos de regressarem.

Esta tentativa de eliminar um povo inteiro foi tornada possível pela brutal convergência entre várias forças diferentes na Birmânia e os interesses do imperialismo ocidental, cada um deles com os seus próprios interesses específicos e rivais, mas coincidindo numa rejeição do direito do povo rohingya a viver no Myanmar.

O exército, que de uma maneira ou de outra, direta ou indiretamente, tem dominado o estado desde a altura em que país que já foi chamado Birmânia se tornou independente da Grã-Bretanha em 1948, tem levado a cabo uma guerra contra várias etnias minoritárias ao longo de sete décadas com paragens e reinícios. Durante este período de tempo, tal como sob a monarquia antes da conquista britânica, o clero budista não tem sido apenas uma instituição religiosa mas um pilar do estado.

Nos anos mais recentes, uma parte importante do clero, juntamente com monges budistas e pessoas laicas, estabeleceu um movimento chamado Associação Para a Proteção da Raça e da Religião (conhecido como MaBaTha) que prega que o povo rohingya deve ser eliminado, supostamente por ser a ponta-de-lança de uma movimentação global contra o budismo por parte dos muçulmanos de todo o mundo, citando não só os talibãs (que dinamitaram santuários budistas no Afeganistão) e o Daesh (Estado Islâmico), mas todos “os seguidores de Alá”. O MaBaTha tem criticado o exército e o estado por estes não fazerem mais para eliminar a “ameaça islâmica” rohingya, e foram agora completamente atiçados pelo exército numa campanha planeada e coordenada contra os rohingya, sob o pretexto do que se diz ter sido um ataque em agosto a um posto policial na fronteira do Myanmar.

O terceiro componente desta aliança genocida é Aung San Suu Kyi, dirigente da Liga Nacional para a Democracia e símbolo da oposição à junta militar que em 1962 tomou o poder num golpe de estado. Desde há muito a menina querida dos governos ocidentais e dos cúmplices voluntários e involuntários deles, em 1991 ela foi galardoada com o Prémio Nobel da Paz, uma distinção partilhada com criminosos de guerra nos EUA e em Israel, entre outros. Filha do fundador do exército do país e durante muito tempo líder do seu movimento pela independência, Aung San Suu Kyi ascendeu à proeminência política no movimento estudantil da década de 1980 contra a junta militar, que nessa altura combinava uma convicção proclamada na “Via Birmanesa Para o Socialismo” com a tradição budista e o apoio entre as classes exploradoras tradicionais. A Grã-Bretanha e os EUA começaram a apoiá-la contra a junta como maneira de reafirmarem o controlo ocidental e se oporem à influência soviética e mais recentemente à forte influência chinesa. Desde a eleição dela em 2015 como chefe de estado de facto, independentemente do que ela possa ter feito para restabelecer alguns direitos, ela tem sido objetivamente parte da estabilização de um estado indisputavelmente assassino, onde se inclui o exército, à medida que o Myanmar se desloca mais profundamente para as mãos dos seus antigos amos coloniais e de outros imperialistas cuja supremacia económica e política bloqueia qualquer verdadeiro caminho em frente para o povo desse país.

A súbita reação contra Aung San Suu Kyi entre os comentadores ocidentais e os vencedores do Prémio Nobel da Paz como ela é um exercício de hipocrisia. Mesmo a acusação de que ela tem estado “calada” em relação à chacina dos rohingya é de facto um encobrimento. Na realidade, ela justificou-a publicamente, referindo-se a eles como “bengalis” (ou seja, não birmaneses étnicos) e “terroristas”. Ecoando os ataques do regime de Trump à comunicação social em nome das “notícias falsas”, ela chegou mesmo a chamar aos vídeos que apareceram na comunicação social com aldeias a arder e refugiados em fuga “um enorme iceberg de desinformação”.

Embora os fundamentalistas budistas tenham por vezes olhado Aung San Suu Kyi com desconfiança devido às ligações ocidentais dela, esta posição por parte dela não é nova. Ela nunca se opôs às leis que negam a cidadania aos rohingya, restringindo o casamento entre budistas e não-budistas, recusando o direito dos muçulmanos a votarem ou a se candidatarem a lugares oficiais, não lhes permitindo o acesso ao ensino e aos cuidados médicos e outras doutrinas do que só pode ser chamado fascismo budista. (Quem achar que esta expressão é um exagero deve ver esta entrevista com um proeminente monge budista do Myanmar: www.theguardian.com/world/video/2017/sep/08/the-battle-for-myanmar-buddhist-spirit-video.) Ela, no mínimo, alinhou com as “Leis de Proteção da Raça e da Religião” adotadas como parte da legislação que possibilitou a transformação dela em 2015 de preso político em dirigente do país. E ela continua a desfrutar do apoio dos governos da Grã-Bretanha e dos EUA, o que só pode querer dizer que é vista como estando a servir os interesses deles nesta situação.

Trump, que tão livremente ameaça regimes que o governo dele visa, chegando mesmo a ameaçar “uma opção militar” contra a Venezuela porque “as pessoas estão a sofrer e elas estão a morrer”, neste momento não vê nenhum problema no massacre dos rohingya. Tal como ele declarou que havia “pessoas boas” entre os nazis e membros do Ku Klux Klan que desfilaram em Charlottesville, Virgínia, a Casa Branca pediu às “autoridades birmanesas de segurança para respeitarem o estado de direito, acabarem com a violência e pararem o deslocamento de civis de todas as comunidades”, como se isto fosse um confronto entre “comunidades” e não basicamente uma guerra do estado e de turbas apoiadas pelo estado contra uma comunidade oprimida. Num implícito “assobio de cachorro” (apoio codificado) ao governo do Myanmar, os EUA recusaram-se a chamar os rohingya pelo nome deles.

O termo “royhingya” é um anátema para os governantes do Myanmar porque significa pessoas do estado de Rakhine no Myanmar, um dos mais pobres do país onde algumas famílias rohingya viveram durante muitos séculos e a maioria delas há muitas gerações. Embora os colonialistas britânicos tenham reduzido o poder do clero budista e exibido um desrespeito deliberado por qualquer religião que não fosse a deles próprios, também é verdade que eles empregaram a mesma estratégia de “dividir para reinar” na Birmânia, tal como o fizeram na Índia, em África e noutros lugares, frequentemente favorecendo uma minoria particular contra outros grupos étnicos. Isto alimentou rivalidades reacionárias e a longo prazo por vezes genocidas entre diferentes etnias. Na Birmânia, os britânicos excluíram a elite e os exploradores locais da administração colonial, chegando mesmo a encher as posições subalternas, como os polícias e os jornaleiros e também os trabalhos administrativos de topo, com britânicos ou outras pessoas trazidas do vizinho Bengala (então parte da Índia, agora dividido entre a Índia e o Bangladesh). Não é de surpreender que o movimento pela independência do país se tenha tornado largamente entrelaçado com o budismo.

Mas a ascensão hoje do fundamentalismo budista representa mais que apenas a continuação desta história. O que está a acontecer no Myanmar tem paralelo em desenvolvimentos na vizinha Tailândia e no Sri Lanka, também países de maioria budista onde as transformações económicas e sociais produzidas por uma economia imperialista globalizada estão a corroer a ordem tradicional e as suas relações sociais, ideologia e valores. Os governantes desses países, tal como os fundamentalistas religiosos em todo o lado, embora em circunstâncias variadas, estão a tentar proteger e/ou reforçar os seus interesses reacionários no contexto do mesmo sistema global que está em simultâneo a minar as condições dos governos deles. Apesar do ódio mútuo entre eles, há impressionantes paralelos entre esta corrente do budismo e as suas congéneres fundamentalistas islâmicas, cristãs e judaicas. (De uma maneira mais geral, veja o capítulo “Por que está a crescer o fundamentalismo religioso no mundo de hoje?” em Away With All Gods: Unchaining the Mind and Radically Changing the World [Fora Com Todos os Deuses: Libertar a Mente e Mudar Radicalmente o Mundo], de Bob Avakian. Isto também é discutido na recém-publicada palestra dele O problema, a solução e os desafios que enfrentamos (http://revcom.us/avakian/bob_avakian-the-problem-the-solution-and-the-challenges-before-us-en.html).

A comunicação social global tem fornecido imagens horripilantes de aldeias a arder, filas infinitas de pessoas a abrir caminho por diques lamacentos de campos de arroz para chegarem ao rio que divide o Myanmar do Bangladesh e depois em barcos de pesca atravessando para o outro lado, onde irão tentar sobreviver em cabanas fizeram de lona e paus. A maioria destas pessoas são mulheres e crianças. Muitas das mulheres não só testemunharam as casas delas a arder, como foram sujeitas a violações, e as agências de auxílio reportaram que 1300 das crianças rohingya nos campos de refugiados no Bangladesh estão sem qualquer dos pais. Contudo, mesmo com tudo isto acontecer em plena vista do mundo, nenhuma das grandes potências mundiais tomou uma verdadeira posição contra isto. O que permanece escondido da maioria das pessoas é a maneira como este crime repugnante está ligado à herança do colonialismo e à continuação da dominação global pelo imperialismo.