O que está em causa no confronto na Ucrânia?

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 29 de Abril de 2014, aworldtowinns.co.uk

A Ucrânia na Europa

Em última análise, o que está a acontecer na Ucrânia é um conflito entre reaccionários a todos os níveis – uma classe dominante capitalista monopolista fraca e fragmentada num país que se tornou num ponto focal da disputa entre alianças imperialistas instáveis e em mudança. É isto que torna a situação tão aguda e que lhe dá um potencial letal.

O confronto EUA-Rússia na Ucrânia não é sobre a Ucrânia. É sobre o império. Os propagandistas ocidentais comparam a actuação da Rússia na Ucrânia à invasão da Checoslováquia em 1938 pela Alemanha nazi a pretexto de estar a defender os alemães étnicos, concluindo que o expansionismo russo deve ser parado antes que seja tarde demais. Mas Putin avançou o mesmo argumento do lado oposto: os EUA e os seus aliados estão a seguir o caminho da Alemanha nazi ao tentarem engolir a Europa de Leste e desmantelar a Rússia pela dominação mundial. Apesar de haver importantes diferenças entre as duas épocas, incluindo o papel da própria Alemanha, ambos os lados têm alguma razão.

Desde o colapso da União Soviética (décadas depois de ter deixado de ser socialista e se ter tornado um país capitalista e imperialista) que os EUA têm tentado garantir a sua posição como única superpotência do mundo, através da “restrição” da Rússia. A NATO engoliu antigos países do bloco soviético e estados da URSS até chegar a norte à fronteira da Rússia no Mar Báltico. Em 2008, a aliança militar anunciou a sua intenção de engolir a Ucrânia e a Geórgia, avançando para o cerco à Rússia. A Rússia respondeu ocupando zonas fronteiriças da Geórgia. O Ocidente recuou, mas sem se render.

Em recentes declarações para justificar a anexação russa da Crimeia, Putin pôs a questão em termos de autodefesa. Referindo-se à promessa feita pelo Presidente norte-americano George H. W. Bush a Mikhail Gorbachev de que a NATO não se expandiria para leste se o líder soviético concordasse em aceitar a reunificação alemã, Putin disse: “Eles mentiram-nos muitas vezes, tomaram decisões nas nossas costas, colocaram-nos perante factos consumados. Isto aconteceu com a expansão da NATO para Leste, bem como com a instalação de infra-estruturas militares nas nossas fronteiras [o posicionamento de mísseis norte-americanos na Polónia a pretexto de protegerem a Europa do Irão]. Eles continuam a dizer-nos a mesma coisa: ‘Bem, isto não vos diz respeito’. Isso é fácil de dizer.” (The New York Times, 26 de Março de 2014) Na sua sessão anual de perguntas e respostas à imprensa, ele queixou-se que o Ocidente estava a tratar a Rússia como uma potência derrotada, quando isso não era o caso, e disse: “Vejam a Jugoslávia. Eles dividiram-na e começaram a manipulá-la. Isso é o que eles querem fazer connosco”. Concluiu que a Rússia não teve outra alternativa a não ser impedir a NATO de desalojar a Rússia da sua fortaleza naval na Crimeia e de ocupar o Mar Negro (BBC, 17 de Abril de 2014).

A actuação de Putin na Ucrânia não é simplesmente uma questão de autodefesa. Embora a Rússia tenha uma necessidade intrínseca da Ucrânia que os EUA não têm, ainda mais importante é o lugar da Ucrânia num jogo mais importante e mais vasto: a indústria da Ucrânia (incluindo a produção de armas, aeroespaciais e outras) e a sua localização estratégica (incluindo os gasodutos que a atravessam) são essenciais para a capacidade da Rússia projectar o seu poder económico e militar à escala mundial. Neste momento, a Rússia espera usar o controlo da Ucrânia para enfraquecer ainda mais os constrangimentos norte-americanos sobre a Alemanha. Com o tempo, isto poderá vir a transformar toda a dinâmica de ameaças à hegemonia norte-americana, com tudo o que isto possa implicar para a China, bem como para países como o Irão e a Síria, resultando numa situação mundial diferente.

A comunicação social alemã tem feito a ligação entre os pontos que relacionam dois eventos que produziram a actual atmosfera política: a crise em relação à Ucrânia, onde os EUA querem punir a Rússia à custa das relações comerciais da Alemanha com Moscovo, e a revelação pelo ex-agente da NSA Edward Snowden de que os EUA espiam todas as telecomunicações e todo o tráfico Internet da Alemanha, indo até ao telemóvel pessoal da chanceler alemã Angela Merkel. Em vez de enfraquecer, o rancor está a tornar-se ainda mais amargo porque os EUA têm recusado as exigências do governo dela de que entreguem os registos e as cópias. O que liga os dois eventos é a percepção pública de que os EUA consideram que a Alemanha está a colocar alguns problemas reais.

Num muito notado ensaio no Der Spiegel online, Christiane Hoffmann escreveu: “Os alemães e os russos mantêm uma relação especial. (...) O debate sobre o papel da Rússia na crise ucraniana é mais polarizador que qualquer outro tema da política alemã actual. (...) Vai direito ao centro da questão da identidade da Alemanha. Qual a nossa posição em relação à Rússia? (...) Quanto mais elevadas as vozes de um lado a condenar as acções da Rússia na Ucrânia, mais elevadas se tornam as que defendem uma compreensão mais profunda de uma Rússia tornada humilde e cercada; tal como as vozes que atacam a Rússia por violar o direito internacional na Crimeia, também se elevam as dos alemães que fazem alegações contra o Ocidente. (...) É justo dizer que em relação à questão da sua afiliação com o Ocidente, a Alemanha é uma terra dividida.” (Spiegel.de, 9 de Abril de 2014)

A verdade da afirmação de Hoffmann foi vivamente ilustrada quando o ex-chanceler alemão Gerard Schroeder escolheu celebrar o seu aniversário com Putin. No escândalo daí resultante, algumas importantes figuras alemãs minimizaram o facto dizendo que Schroeder tem pouca relevância actual. Mas o ministro dos negócios estrangeiros Frank-Walter Steinmeier, um aliado próximo da chanceler Merkel no centro da actual política alemã, também exprimiu a sua oposição aos desejos norte-americanos de que Berlim rompa com a Rússia.

Steinmeier começou uma entrevista recente dizendo: “Eu nem sequer quero pensar numa escalada militar entre o Ocidente e o Leste. (...) Porque nós na Europa iríamos pagar o preço disso, todos nós, sem excepção”. (Spiegel.de, 28 de Abril de 2014) Isto só por si assinala algumas diferenças em relação a Obama e aos representantes dele. Depois de uma conversa telefónica com Merkel, Obama começou a alegar que as opções militares “não estão em cima da mesa na Ucrânia” (Washington Examiner, 17 de Abril de 2014). Mas o governo dele tem feito movimentações militares cada vez mais agressivas, antes e depois disso. O comandante norte-americano da NATO, que tem poder para agir sem consultar os outros membros da NATO, enviou aviões AWACs e caças de comando e controlo para sobrevoarem a Polónia e a Roménia, além de navios de guerra para exercícios no Mar Báltico e 600 tropas terrestres norte-americanas para a Polónia, a Lituânia, a Letónia e a Estónia por um período indefinido. Invocando a NATO e não a diplomacia, o Secretário de Estado norte-americano John Kerry avisou: “Posso garantir o seguinte: os Estados Unidos e os nossos aliados irão defender a Ucrânia”. (Reuters, 29 de Abril de 2014)

Os EUA podem muito bem sentir que não têm boas – ou seja, potencialmente vencedoras – opções militares, mas estas manobras militares só podem ser entendidas como uma ameaça de retaliação violenta. Isto não significa um regresso às condições dos anos 1980, altura em que a guerra mundial estava explicitamente em cima da mesa para ambos os lados (lembremo-nos da infame “piada” do ex-presidente norte-americano Ronald Reagan em 1984: “Meus caros concidadãos americanos, é com agrado que vos anuncio que acabo de assinar uma lei que proscreve a Rússia para sempre. Começamos a bombardear daqui a cinco minutos.”). Mas a situação actual é extremamente perigosa porque há tanto em jogo e nenhum dos lados tem condições para aceitar a derrota.

Na sua entrevista, além de não repetir as ameaças militares de Washington (e Londres) à Rússia, Steinmeier também não ameaça Putin com nenhuma punição económica. Isto também é importante porque, embora não dependa das armas alemãs, as esperanças de sucesso da pressão não militar dos EUA contra a Rússia dependem muito directamente da ameaça de corte dos laços económicos da Alemanha com a Rússia. Caso contrário, aquilo a que Obama se refere como “as consequências”, se a Rússia avançar, não se traduz em muito.

Em vez disso, Steinmeier salienta o resultado potencialmente positivo de um acordo russo-europeu: “os investimentos de que a Rússia tão urgentemente precisa vindos de fora do país para a sua modernização”. A modernização da indústria russa em colaboração com a Alemanha e a fusão dos recursos energéticos russos com o capital alemão, criam aos EUA uma verdadeira preocupação.

Embora não minimizando a gravidade da situação (“a pior crise desde o fim da Guerra Fria”) e avisando que “a Rússia está a fazer um jogo perigoso”, Steinmeier nada diz sobre a necessidade de defender a integridade territorial da Ucrânia. Pelo contrário, ele refere “o difícil legado [da Ucrânia] (...) com uma pletora de conflitos étnicos, religiosos, sociais e económicos não resolvidos”, indicando que o problema principal na Ucrânia são as divisões entre os ucranianos. E pior para os EUA, o ministro alemão dos negócios estrangeiros chama ao colapso do acordo de 21 de Fevereiro a raiz dos problemas actuais, tal como Putin. Esse acordo, assinado entre o Presidente Viktor Yanukovych e a oposição e negociado pela Alemanha, a França e a Polónia, previa uma solução negociada para a crise política, com a formação de um governo de unidade, a retirada de ambos os lados das ruas, o desarmamento dos civis e novas eleições presidenciais.

Os EUA quiseram impedir esse tipo de acordo – “Fuck the EU” [“Que se foda a UE”], praguejou a Secretária de Estado Adjunta norte-americana Victoria Nuland no seu infame telefonema ao embaixador norte-americano na Ucrânia, que foi alvo de uma fuga de informação. Embora as circunstâncias da repentina fuga de Yanukovych após o acordo sejam obscuras, Putin salienta correctamente que os EUA fizeram o seu melhor para anular as tentativas russas de ressuscitar o acordo, ao apoiarem abertamente os elementos mais intransigentemente anti-Rússia.

Na sessão de perguntas e respostas, Putin criticou Yanukovych por ignorar o conselho dele de usar a força para assegurar a concretização desse acordo, em vez de se deixar ser afastado por “fascistas”. Isto leva-nos à questão do que está a acontecer dentro da própria Ucrânia. Embora, em última análise, isso seja determinado por este contexto internacional, tem de ser analisado como um processo em si mesmo dentro deste contexto, sobretudo em termos de classes.

O regime apoiado por Washington mantém-se unido pela sua oposição à Rússia. O primeiro-ministro, Arseniy Yatsenyuk, é o homem dos EUA, referido no telefonema de Nuland. O presidente em exercício é Olexander Turchynov. Estes dois homens, cujo futuro depende dos EUA, são membros do Partido da Pátria, liderado pela antiga primeira-ministra Yulia Tymoshenko. Dizer que é um partido de “oligarcas” ucranianos é afirmar o indiscutível. Mas isto é uma questão complicada, porque os capitalistas monopolistas ucranianos, como mais correctamente deveriam ser chamados, não estão unidos, certamente não de uma forma estável.

A Ucrânia na Europa

Em nenhum aspecto esta volatilidade é mais óbvia que na figura da própria Tymoshenko. Uma das mais poderosas dos recentes capitalistas monopolistas do país, e tal como muitos deles, ela ascendeu à riqueza da noite para o dia através de negócios com a Rússia, neste caso passando de proprietária de uma loja de vídeo para encabeçar um gigantesco negócio de energia com o gás russo. Ela é certamente o político mais popular do país e pode ser o único político tradicional com projecção nacional. Educada a falar russo, ela diz que se tornou uma nacionalista ucraniana por convicção. É conhecida pelos seus delírios anti-russos, tendo mesmo sugerido que Obama deveria ameaçar desencadear uma guerra nuclear para manter a Crimeia na Ucrânia. (Entrevista à “Talk to Al Jazeera”, 8 de Março de 2014) Mas ela também foi considerada uma escolha pessoal de Putin nas eleições presidenciais ucranianas de 2010 – e foi apoiada por Merkel. Em finais de Abril, ela foi a Donetsk para “ouvir as reclamações dos manifestantes” [pró-russos] – apresentando-se como a única capaz de gerar uma solução negociada. Uma mutante de nível mundial, ela encarna o desespero e a qualidade mercurial da classe dominante ucraniana.

Estas qualidades dão um significado especial à inclusão no novo governo de Kiev do partido Svoboda (Liberdade), um partido antes chamado Social-Nacionalistas com um símbolo tipo suástica, e do Pravy Sektor (Sector de Direita), uma coligação de formações paramilitares mais ou menos declaradamente fascistas. Os combatentes destes dois grupos despoletaram a partida precipitada de Yanukovych e a introdução do novo regime. Os espancamentos e ameaças de membros do Svoboda no parlamento – bem como a necessidade de enfrentar uma nova situação política – forçaram os deputados do Partido das Regiões do ex-presidente a aprovar o novo governo após a fuga dele. (Os parlamentares do Svoboda também se filmaram a espancar o dirigente de uma estação estatal de radiodifusão para o forçarem a demitir-se, e colocaram isso no YouTube.) Embora seja um pequeno partido baseado sobretudo no extremo ocidente da Ucrânia, o Svoboda detém agora posições-chave, entre as quais as de vice-primeiro-ministro (Oleksandr Sych, um cruzado anti-aborto conhecido pelas suas posições homofóbicas e pelas declarações de que as violações se devem ao estilo de vida das mulheres), de porta-voz adjunto do parlamento (a expressão inglesa para este cargo, “parliamentary whip”/”chicote parlamentar”, aplica-se literalmente), de procurador-geral e na segurança nacional. O dirigente do Sector de Direita é o adjunto para a segurança nacional.

O poder destes homens estende-se para além dos seus cargos governativos. Até certo ponto, pode dizer-se que eles obtiveram os seus lugares devido ao seu poder, o seu controlo de bandos armados, embora isto não seja a história toda. Um factor que os torna tão importantes é que a polícia, os serviços de segurança e as forças armadas estão divididas de alto a baixo por sentimentos e fidelidades pró- e anti-Rússia. Um jornalista descreveu assim a situação: “A agência nacional de informações da Ucrânia, a Agência Estatal de Segurança, conhecida como SBU, está tão infiltrada de informadores russos, que quando o director da CIA John O. Brennan chegou recentemente a Kiev, numa viagem supostamente secreta, a comunicação social controlada pelo estado russo revelou de imediato a visita dele e declarou-a como prova de que Washington estava a impor a sua vontade na Ucrânia.”

“A SBU tem-se vangloriado repetidamente de apanhar alegados operacionais russos no leste do país, mas ainda não tornou pública nenhuma prova sólida que confirme as afirmações de Kiev de que a confusão no leste é orquestrada e financiada por Moscovo, uma falha que tem comprometido os esforços da Ucrânia para contestar, pelo menos no leste da Ucrânia, a própria narrativa de Moscovo de intromissão do Ocidente.”

“As Alfa [forças especiais], em contraste, parecem estar a funcionar, mas o seu entusiasmo em servir tem sido minado pelo facto de estarem a ser investigadas pelos seus anteriores serviços ao ex-presidente da Ucrânia, o Sr. Yanukovych”. (The New York Times, 14 de Abril de 2014)

Mesmo que as outras forças políticas possam não concordar com a política dos paramilitares fascistas, e possam não confiar neles (tal como o Svoboda e o Sector de Direita odeiam de uma forma especial Tymoshenko e outros membros do sistema político), elas podem confiar nestes homens para lidarem desapiedadamente com qualquer pessoa que entendam ser pró-Rússia, independentemente de o seu estatuto ser elevado ou baixo.

A capacidade de relativamente poucos homens armados pró-Rússia ocuparem escritórios governamentais ucranianos no leste da Ucrânia face à polícia e às forças armadas tem sido surpreendente. Quer sejam civis ou de facto soldados russos, isso não altera a questão, e entrevistas com eles e outras pessoas indicam que pelo menos a maioria são voluntários locais. (Le Monde, Tim Judah a escrever na The New York Review of Books e BBC.co.uk, tudo a 29 de Abril de 2014) Claramente, nesta altura, tem havido uma falta de vontade de lutar contra eles, não só por parte da polícia, que frequentemente se afasta, mas também do exército e mesmo das forças especiais. Muitos recrutas ucranianos estão a servir nas suas regiões de origem e a sua falta de vontade de lutar contra outros ucranianos do leste tem sido notada pelos jornalistas, que também repararam que esta passividade se parece estender para cima a todos os níveis de comando. As demissões e contra-demissões de comandantes das forças armadas também poderão estar relacionadas com divisões no topo. Foram enviados combatentes do Svoboda e do Sector de Direita para dar um sustentáculo ao que as autoridades de Kiev sinistramente chamam “operações antiterroristas”.

Ver civis, incluindo muitos não jovens ou não em forma, a formar filas para se alistarem nas forças armadas nacionais na Ucrânia ocidental também é surpreendente. Porquê chamar voluntários auto-seleccionados em vez de reservistas treinados e organizados? Tem sido amplamente noticiado que as milícias fascistas estão a ser integradas nas forças armadas, e isso poderá ser para ajudar a liderá-las e a forçá-las a um formato político.

Claramente, os EUA dão valor aos serviços destes grupos. O importante senador norte-americano John McCain reuniu-se com o líder do Svoboda em Dezembro passado e o Secretário de Estado Kerry apareceu publicamente numa plataforma do Svoboda em Março. Mas também pode haver sementes de potencial conflito, como talvez se possa ter vislumbrado nos tiros que em Março atingiram um proeminente dirigente do Sector de Direita, num caso que o governo pareceu não ter nenhuma pressa em esclarecer. Estas forças são essencialmente mais nacionalistas ucranianas e anti-Rússia que pró-EUA, e pelo menos nalguns casos não são nada pró-EUA. A ascensão do partido governamental Fidesz e do partido Jobbic na Hungria demonstra que, na Europa de Leste, ser extremamente nacionalista, religioso e anti-semita não exclui necessariamente ser-se pró-Rússia, não só nas questões externas mas mesmo na declarada simpatia para com o que Putin chama a sua “doutrina euro-asiática”, a qual tenta dar um molde ideológico ao desafio ao Ocidente por parte da Rússia.

Quando Putin chama a estes homens um bando de neonazis e anti-semitas, ele tem a história do lado dele. Os nacionalistas ucranianos de hoje, incluindo o Svoboda e o Sector de Direita, consideram-se herdeiros dos nacionalistas ucranianos que se aliaram aos invasores fascistas alemães e romenos no combate à União Soviética durante a II Guerra Mundial. O nacionalismo ucraniano está irremediavelmente entrelaçado com o obscurantismo clerical e antijudaico e com o fanatismo e os pogroms anti-polacos.

Mas o que está a acontecer na Ucrânia não é motivado por um conflito étnico e religioso, embora frequentemente se exprima ao longo dessas linhas de divisão. A oposição ao estado russo não á exactamente o mesmo que estar contra os russos étnicos, embora as duas oposições estejam inevitavelmente relacionadas aos olhos de algumas pessoas. Não é óbvio que um lado seja mais anti-semita que o outro, embora tanto os EUA como a Rússia tenham tentado retratar isto como a questão motivadora. A ideologia desempenha um papel extremamente importante – os patriarcas rivais da Igreja Ortodoxa baseados em Kiev e Moscovo apelaram ambos a deus para golpear os seguidores um do outro nas suas homilias da Páscoa, que poderiam parecer auto-paródias se não estivessem em jogo muitas vidas humanas – mas nem o nacionalismo ucraniano nem o nacionalismo russo são melhores que o outro como ideologia ou programa político, e muito menos nas actuais circunstâncias. Também há poderosos apelos a um egoísmo estreito e cínico. O PIB per capita ucraniano, o padrão de vida medido pelo Índice de Desenvolvimento Humano, a taxa de natalidade, a esperança de vida e a população, tudo isto têm decaído desde os tempos soviéticos. Só a emigração tem aumentado. Muitas pessoas, sobretudo entre as classes médias educadas, sonham com um estilo de vida europeu ocidental, enquanto outras pessoas têm a esperança de que a Rússia venha em seu socorro.

Além disso, um enfoque no fascismo tem levado algumas forças da esquerda ou da “sociedade civil” a apoiarem políticos como Tymoshenko, com a esperança de que eles mantenham controlada a extrema-direita. Ironicamente, este mesmo prisma tem levado outras forças a apoiar a Rússia. Isto não é uma conceptualização correcta do que está a acontecer – o conflito principal não é entre os proponentes de uma forma de governo abertamente terrorista ou uma democrático-burguesa.

De uma forma mais fundamental, o problema é o próprio capitalismo. Hoje em dia, esse sistema tem vindo a produzir uma combinação explosiva entre uma população desesperada que não só está profundamente descontente com a sua sorte na vida, como também está ressentida e sente-se enganada, e uma classe dominante capitalista dividida e desesperada não só por sobreviver enquanto capitalistas face aos capitais ocidental e russo, mas também por de alguma forma se libertar da dominação deles e se expandir.

A corrupção omnipresente entre a classe dominante ucraniana pode ser um crime de oportunidade, mas também revela a falta do tipo de oportunidades empresariais que trouxeram uma riqueza muito mais fabulosa aos países capitalistas mais bem-sucedidos. Uma vista de olhos pela economia da Ucrânia explica alguns dos factores por trás da fraqueza e das fracturas da sua classe capitalista.

Por razões históricas, a economia está estruturalmente ligada à da Rússia de duas formas. As suas empresas de aço, betão, construção naval e aeroespacial estão ajustadas para servirem as necessidades e especificações russas, e estas indústrias pesadas não podem ser lucrativas sem uma energia barata – a russa. A agricultura moderna do país, orientada para a exportação, também está dependente da energia, e nesta altura também dependente dos mercados de leste. Pode ser que seja possível reestruturar completamente a economia da Ucrânia, mas não é claro como é que isso poderia ser feito a curto prazo ou nas condições da tensa economia imperialista global de hoje. Neste momento, a Ucrânia faz a Grécia parecer próspera e financeira e fiscalmente sã. Embora o Ocidente e a Rússia tenham vindo a acenar com os seus poderosos fundos, e certamente ambos prefiram perder muitos milhares de milhões a perder a Ucrânia, não é claro o que é que eles realmente poderiam fazer de uma forma fundamental.

O que está a acontecer na Ucrânia não tem a ver com a economia num sentido compreendido de uma forma estreita de lucro ou perda imediata. A Rússia e o Ocidente estão a lutar pelo controlo de um país falido. A longo prazo, eles pretendem pilhá-lo, e o saque poderá ser muito opulento, mas esta não é a preocupação imediata deles. Nenhum capitalista individual, e muito menos nenhuma potência imperialista, pode jogar à defensiva. Todas elas enfrentam a compulsão para se expandirem ou morrerem às mãos do mercado e, à escala mundial, as formações capitalistas imperialistas rivais de base nacional são barreiras à expansão das outras.

Neste sentido, a Ucrânia pode ser considerada um sinal do que o capitalismo tem para oferecer no mundo de hoje.