O Paquistão inundado: O que isso significa para o povo e quem são os responsáveis

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 30 de Agosto de 2010, aworldtowinns.co.uk

“Quando a água chegou, mudámos as nossas mulheres e filhos para zonas mais elevadas. Três das minhas filhas ficaram para trás para ajudarem os homens a carregar todos os bens que pudéssemos levar connosco. (...) Passados alguns minutos, a corrente ficou demasiado forte e as águas subiram até à altura da cabeça”. Foi assim que um camponês de Sardaryab, uma aldeia no noroeste do Paquistão, perdeu duas das suas filhas, de 16 e 17 anos. Ele só conseguiu salvar a filha mais nova. “Os corpos das outras filhas foram encontrados três dias depois a cerca de 6 quilómetros rio abaixo, atirados para a margem pelas águas que retrocediam.”

Omar, um outro camponês, descreveu da seguinte forma os acontecimentos na sua aldeia: “Nós víamos a água a subir em toda a zona entre a minha aldeia e o rio. A princípio, pensámos que era água das chuvas, mas ela continuava a subir”, disse ele. Toda a gente correu para a linha ferroviária vizinha que está numa zona elevada. Mas Omar atrasou-se ligeiramente.

“Três das nossas mulheres foram arrastadas pela água pelos pés. Salvámos duas delas, mas não a terceira, a esposa do meu irmão. Encontrámos o corpo dela dois dias depois.” (BBC, 5 de Agosto de 2010)

Este é o tipo de histórias que nos contam as famílias paquistanesas que perderam os seus entes queridos ou as suas casas ou ainda a totalidade dos poucos bens que haviam juntado durante toda a sua vida. Milhões de pessoas tiveram que abandonar as terras que trabalhavam para irem para lugares aparentemente mais seguros ou para campos de refugiados.

As cheias começaram no noroeste montanhoso do Paquistão em finais de Julho, quando as excepcionalmente fortes chuvas da monção fizeram com que o curso superior do rio Indus extravasasse as suas margens.

As notícias indicam que morreram pelo menos 1600 pessoas. Um número estimado em seis milhões de pessoas ficou sem casa. Diz-se que entre 17 e 20 milhões dos 166 milhões de habitantes do Paquistão foram directamente afectados e 6 milhões têm necessidade urgente de alimentos. Dezenas de milhares de aldeias estiveram debaixo de água durante dias ou mesmo semanas e o processo continua. Os rios que de norte a sul cortam o país a meio estão a começar a retroceder, à medida que as águas se escoam para o Oceano Índico, mas supõe-se que demorem mais uma ou duas semanas antes de regressarem ao normal – e mesmo então, nalguns leitos de cheia, elas ficarão aprisionadas e aí permanecerão durante algum tempo. (Mapa: bbc.co.uk/news/world-south-asia-11128511)

Estes números não são, por si só, suficientes para transmitir todas as dimensões da catástrofe humana. O que temos visto e ouvido é apenas o início do desastre que milhões de vítimas enfrentam. O gado é uma importante fonte de rendimentos, mas inúmeras cabeças de gado morreram nas cheias. No início de Agosto, cerca de 14 por cento das terras aráveis do país estavam afectadas, segundo o Programa Alimentar Mundial da ONU. Mesmo muitas pessoas cujos campos podiam ser replantados perderam os seus locais de armazenamento e agora há falta de alimentos e sementes para a colheita a seguir à monção. Para uma grande percentagem dos que sobreviveram às cheias, sobreviver às suas consequências não será um desafio menor. O impacto destas perdas será fortemente sentido pelas massas paquistanesas durante os próximos anos ou mesmo décadas.

Diz a Dra. Marie Lall: “Isto não foi nenhum acontecimento cataclísmico, mas sim um evento que cresceu durante três semanas. O facto de 25 por cento do país ter ficado ou estar debaixo de água não é compreendido. O reduzido número de mortos, em termos relativos, mascara o desastre no terreno. A crise destruiu colheitas, matou gado e danificou casas e infra-estruturas. Os preços dos alimentos dispararam e não haverá uma colheita normal. E a situação vai piorar. Os camponeses vão passar fome.” (BBC, 21 de Agosto de 2010)

Foi noticiado que dos pelo menos 6 milhões de pessoas que ficaram sem casa, menos de 10 por cento estão nos acampamentos montados nas províncias. Os acampamentos consistem em tendas para 6 a 7 pessoas, sem qualquer tipo de saneamento ou serviço de saúde. Um outro aspecto do desastre são as doenças trazidas pelas águas. A ONU disse que estão em risco milhões de crianças no Paquistão. Responsáveis da Província de Sindh disseram que dos milhões de deslocados, um quarto sofre de algum tipo de enfermidade relacionada com as cheias.

A falta de serviços de saneamento e a desnutrição que se irá seguir às cheias também poderão vir a aumentar o número de vítimas durante os tempos mais próximos.

Os que deixaram de ter casa estão a viver à beira das estradas mais elevadas com os poucos bens que conseguiram salvar. Cidades como Sukkur, situada nas margens do Indus, transformaram-se em grandes campos de refugiados à medida que um crescente número de pessoas aí foi procurando abrigo.

Ao mesmo tempo, as pessoas que já viviam em campos para deslocados, como os 40 mil refugiados afegãos que vivem em Azakhel, nas margens dos rios Cabul e Swat, no noroeste do Paquistão, foram novamente obrigados a fugir.

Quem são os responsáveis?

O que é que tornou as cheias tão desumanas e porque é que 20 milhões de paquistaneses, na sua maioria pobres, tiveram que sofrer tanto?

Sem as chuvas anuais da monção, a agricultura em muita da Ásia e do Sul da Ásia não seria tão produtiva. Mas as cheias da monção são frequentemente mortais e destrutivas. Este ano, as chuvas originaram cheias particularmente perigosas na China, na Coreia e no subcontinente sul-asiático.

As monções são causadas pelas diferenças de temperatura entre a terra e o mar. Durante o verão, quando está calor, o planalto do Tibete aquece o ar circundante que sobe e arrasta consigo o ar húmido do mar. Este ar húmido também aquece e sobe. À medida que arrefece na atmosfera superior, a humidade vai-se condensando em chuva.

Segundo o centro meteorológico da BBC, a existência “de mais ar a mover-se em espiral na atmosfera superior arrasta mais ar húmido, criando nuvens maiores e uma chuva mais intensa”. “As características deste ano implicaram que mais ar húmido que o habitual fosse arrastado para cima. O efeito passou em poucos dias, mas a chuva adicional do início da estação causou fortes cheias.” (BBC, 16 de Agosto de 2010)

O Indus, com quase 3,2 mil quilómetros de extensão, é um dos maiores rios do mundo. O seu vale foi um dos locais onde os seres humanos primeiro abandonaram os seus hábitos nómadas e começaram a criar gado e cultivar. Hoje em dia, vivem nele 100 milhões de pessoas que dependem do rio para a água potável e a irrigação. As cheias não são um fenómeno estranho para aqueles cujas famílias aqui vivem há séculos, mas este ano surgiram enxurradas sem paralelo na história recente.

Um país saqueado num planeta saqueado

Há indícios credíveis de o aquecimento global poder ser responsável para estas cheias mais intensas. “O Prof. Martin Gibling da Universidade de Dalhousie em Halifax, no Canadá, um perito em rios que trabalhou nessa região, pensa que mudanças na força da monção devidas às alterações climáticas podem estar na sua origem. Ele explica: ‘A intensidade da monção é de certa forma sensível à temperatura da superfície do Oceano Índico.’ Nos momentos de clima mais frio, é recolhida menos humidade no oceano, a monção enfraquece e a corrente do rio Indus reduz-se.” (BBC Ciência e Ambiente, 13 de Agosto de 2010)

E, hoje em dia, as temperaturas do mar estão a aumentar.

Stefan Rahmstorf, um professor de física dos oceanos na Universidade de Potsdam, na Alemanha, defende que a ocorrência de chuva extrema se tornará mais frequente e intensa num clima mais quente.

“Por cada grau celsius de aquecimento nas massas de ar saturado fica disponível mais 7 por cento de água para a chuva. O risco de seca também aumenta com o aquecimento: mesmo nos locais onde a chuva não diminui, o aumento da evaporação seca as terras.”

Ele avisa que os acontecimentos meteorológicos extremos já estão a ocorrer após uma subida da temperatura global de apenas 0,8 °C. “Com uma fraca reacção como a que foi dada em Dezembro passado pelos governos em Copenhaga, estaremos a caminhar para 3 a 4 °C de aquecimento global. Isto será provavelmente superior à capacidade de adaptação de muitas sociedades e ecossistemas. E, sem nenhuma acção, o planeta pode mesmo chegar a aquecer 5 a 7 °C no final deste século – e mais depois disso. Caminhar conscientemente por essa estrada abaixo seria uma loucura.” (The Guardian, 16 de Agosto de 2010)

Mas embora o aquecimento global possa ter culpas pelas piores cheias de sempre do Paquistão, por si só não pode ser considerado responsável por tanto sofrimento humano.

Também há a questão de se saber como é que os rios são controlados para se evitar estes desastres. Por exemplo, alguns países ricos reduzem o risco de cheias construindo diques que funcionam como barreiras ao longo das partes vulneráveis dos rios, reduzindo as hipóteses de eles extravasarem as margens nas suas cheias mais extremas. Um sistema desse tipo pode funcionar ou não no rio Indus, mas as actuais autoridades do Paquistão (e da Índia), tal como os colonialistas britânicos antes da independência em 1947, não fizeram nada de sério para impedir esses possíveis desastres. Sistemas básicos como um conjunto de represas para capturarem as chuvas da monção e o escoamento dos degelos estão totalmente ausentes. Nem há sequer um sistema de aviso das cheias.

A falta de um sistema adequado de drenagem ou, na maioria dos locais, a sua total ausência, é outro factor que contribui para isso. As massas paquistanesas, sobretudo as das zonas pobres, têm que lidar com as enchentes de água mesmo quando só há um par de horas de chuva forte. Nesses casos, não é incomum morrer uma dezena de pessoas. Muitas vezes, a água cobre as ruas e vielas durante dias ou mesmo semanas, criando condições para a proliferação de insectos, entre os quais os mosquitos vectores da malária.

Além disso, o rio Indus está estrangulado com os sedimentos da erosão dos Himalaias. Pouco foi feito para limpar o seu leito ou para pelo menos reduzir a dimensão da formação de sedimentos em pontos críticos, de forma a permitir que as suas águas se desloquem rapidamente para o mar e os sedimentos não se acumulem tanto.

Outro problema que piora a situação é a desflorestação. As raízes das árvores ajudam a impedir que as terras ao redor das águas sejam levadas pelos rios e ribeiros. Mas, durante o último meio século, cada vez mais sedimentos têm sido empurrados para os rios à medida que as florestas têm sido deitadas abaixo.

A desflorestação do noroeste do país e ao longo do rio Indus tem sido um negócio muito bom para as quadrilhas legais e ilegais que durante as últimas décadas têm feito milhares de milhões de rupias por ano com a venda de madeira. “Uma das mais poderosas e desumanas organizações dentro do Paquistão, a máfia da madeira, está envolvida no abate ilegal. (...) A ligação do grupo a políticos locais e federais é comentada há anos na comunicação social. Os constantes avisos sobre a máfia da madeira quase sempre incluem a menção do aumento da susceptibilidade das regiões desflorestadas às cheias, deslizamentos de terras e erosão dos solos.” (The Guardian, comentário de Kamila Shamsie, 5 de Agosto de 2010)

É impossível que as operações de desflorestação extensiva no noroeste do país tivessem ocorrido sem o apoio ou pelo menos o consentimento do exército paquistanês, cujas forças aí estão concentradas, em parte como consequência da invasão e ocupação norte-americana do Afeganistão. O exército é sem dúvida a mais poderosa instituição económica do Paquistão e o centro da sua classe dominante, bem como o coração do estado.

O jugo de classe e o domínio estrangeiro

No meio deste desastre, sempre que as autoridades agem em nome de controlarem as cheias, os sues interesses de classe levam-nos a tornar as coisas ainda piores para o povo, a muitos níveis. O exército, os grandes proprietários e as autoridades locais e nacionais são frequentemente as mesmas pessoas, ou da mesma família, ou de qualquer forma estão ligadas por interesses comuns.

Quando começaram as cheias no noroeste do país (na que foi recentemente rebaptizada Província de Khyber-Pakhtunkhwa), elas chegaram com pouco aviso prévio. Mas demorou dias e semanas até toda a força das cheias descer rio abaixo. Este período de tempo não foi usado para avisar as pessoas e para, juntamente com elas, se tomar medidas preventivas ou outras. Pelo contrário, quando o exército foi mobilizado, foi por vezes em segredo porque não queriam que as pessoas soubessem o que eles estavam a fazer. Na Província do Punjab, uma tradicional planície de cheias entrecruzada por represas, canais e comportas, há relatos de que os proprietários e o exército escolheram quais as barragens a explodir e quais as terras a inundar com base em quem eram os proprietários dos campos e na localização das bases militares (Ver o The New York Times de 23 de Agosto de 2010).

O jovem romancista paquistanês Ali Sethi testemunhou um incidente na Província de Sindh em que os proprietários e o exército decidiram abrir deliberadamente um furo numa represa de estrada. Inundaram uma zona adjacente, no etnicamente oprimido e vizinho Baluchistão, que ficou sob três metros de água. O escritor foi aconselhado a não denunciar este incidente para evitar a ira da Direcção dos Inter-Serviços de Inteligência (ISI), a organização mais poderosa do país. A inundação deliberada do Baluchistão salvou os campos de arroz de um grande proprietário e político de Sindh e uma base aérea militar do lado de Sindh. Nesta base está situada uma frota de jactos de combate F-16 fornecidos pelos EUA. Os habitantes locais acreditam que também aloja algumas das aeronaves não tripuladas norte-americanas amplamente odiadas e responsáveis por muitas mortes de civis no Paquistão e no Afeganistão.

Como escreveu Sethi, o Paquistão “é um lugar onde os camponeses se afogam em campos de arroz que não possuem, onde as aldeias de lama e tijolo são submersas para salvar cidades ligeiramente menos dispensáveis e onde aldeias agonizantes estão próximas de bases aéreas que alojam os mais sofisticados jactos do mundo”. Por trás do exército paquistanês que controla o Paquistão, salienta ele, estão os seus “financiadores norte-americanos” (International Herald Tribune, 27 de Agosto de 2010).

O papel do governo e os protestos populares

Após este desastre, e tal como acontecera com os anteriores, as autoridades foram largamente inúteis na ajuda as vítimas das cheias. Enquanto milhões de pessoas tentavam fugir das suas casas e aldeias, os líderes do Paquistão andavam às voltas excitados por poderem usar esta oportunidade de implorar donativos dos países imperialistas ricos. Mas isto não fez nem podia fazer muito para ajudar as pessoas. Fora os momentos em que os jornalistas e as suas máquinas fotográficas estavam presentes, as pessoas foram deixadas a si próprias a lidar com as cheias e as suas consequências. A inacção só se veio juntar à ira e frustração populares.

Alguns analistas lançaram avisos de que o governo do Paquistão poderia vir a enfrentar uma agitação social semelhante à que surgiu em 1971 quando “as autoridades responderam tardiamente a um ciclone devastador. Um movimento secessionista no Paquistão Oriental capitalizou a fúria popular, lutando com êxito pela independência com o nome de Bangladesh, (...) embora a secessão não tenha sido devida apenas à devastação causada pelo ciclone Bhola. Com as cheias, a perda e o sofrimento que estamos actualmente a testemunhar no subcontinente, temos de nos lembrar que o Paquistão é agora tão volátil e precário como o era há 40 anos.” (Delwar Hussain, The Guardian, 15 de Agosto de 2010)

O que as autoridades têm estado a dizer às vítimas das cheias é que devem limitar-se a ser pacientes e esperar que o nível das águas baixe para que possam voltar às suas casas. Tem havido inúmeros relatos de fúria e protestos de grupos de pessoas frustradas com a inacção governamental. Por exemplo:

“Dezenas de homens e algumas mulheres tentaram bloquear hoje cinco faixas de trânsito nos arredores de Sukkur, na província meridional de Sindh. Os camponeses lançaram fogo à palha e ameaçaram abordar os motoristas com paus.” Um manifestante disse: “Saímos das nossas casas sem nada e agora estamos aqui sem roupas e sem comida e as nossas crianças estão a viver à beira da estrada.”

“Ontem à noite, centenas de camponeses do Punjab, a província mais populosa e mais atingida do país, queimaram pneus e gritaram ‘Abaixo o governo’. ‘Nós estamos aqui a morrer à fome. Não apareceu ninguém para nos ajudar’, disse Hafiz Shabbir, um manifestante em Kot Addu.” (The Guardian, 16 de Agosto de 2010)

“Na nossa viagem de regresso ao noroeste, as duas estradas principais tinham sido novamente bloqueadas. Desta vez, eram residentes furiosos a protestar contra um corte de energia que já ia no seu terceiro dia. (...) ‘Continuamos a chamar o governo e a linha telefónica deles está ocupada, ocupada’, gritou um dos manifestantes, ao mesmo tempo que dos pneus em chamas se erguiam nuvens negras.”

“Um residente de Nowshera, Fazal Karim, frustrado com a inacção governamental disse: ‘Eu tenho estado a pedir às pessoas para tirarem as suas camisas para fazermos um protesto [de pessoas sem camisa].’” (BBC, 20 de Agosto de 2010)

Porque é que não pôde chegar mais ajuda?

Uma vítima disse à BBC: “Nós chamámos o governo e pedimos-lhe ajuda. Eles disseram que não tinham nenhumas instalações na nossa zona, nem helicópteros nem pessoas que nos pudessem ajudar”. Um advogado paquistanês da cidade inundada de Nowshera disse-o ironicamente: “Temos a bomba atómica mas não temos helicópteros nem barcos de salvamento, nem máquinas que limpem as estradas e construam rapidamente pontes temporárias” (BBC, 5 e 9 de Agosto de 2010).

Será verdade que não havia recursos disponíveis?

O exército paquistanês, o sétimo maior do mundo, tem 650 mil membros. O porta-voz do exército do Paquistão, General Athar Abbas, disse a 20 de Agosto à BBC que tinha mobilizado 60 mil tropas para as operações de ajuda, mas mesmo este número relativamente pequeno pode ter sido exagerado. Ele também disse que o exército paquistanês só tinha 45 helicópteros. Contudo, há uma enorme concentração de aeronaves dos EUA e da NATO (sobretudo da Grã-Bretanha) a curta distância, do outro lado da fronteira com o Afeganistão, incluindo helicópteros de transporte Huey e outros aviões que podiam ser particularmente úteis em operações de emergência civil. O General Abbas disse que o exército norte-americano tinha enviado 15 helicópteros. A 30 de Agosto, um mês após o início das cheias, o sítio internet do Departamento de Defesa dos EUA gabava-se de que esse número ia ser aumentado... para 19.

O problema não é a falta de recursos, mas sim que os interesses de quem os controla e todo o sistema imperialista estão em contradição antagónica com os interesses das massas populares de todo o mundo.

Os EUA – e o seu parceiro júnior no crime, o exército paquistanês – até podem aparecer e admitir que as suas armas e tecnologia apenas existem para oprimir o povo e que não se preocupam com o que acontece aos milhões de pessoas pobres e simples do Paquistão – excepto quando a “instabilidade” ameaça os seus interesses.

O que acontece quando a “ajuda” realmente chega?

Nos casos em que são distribuídos alguns abastecimentos de emergência, caso não sejam pura e simplesmente atirados descuidada e desumanamente do céu sobre os refugiados, eles são muitas vezes distribuídos à porta das casas dos políticos pelos seus colaboradores ou por polícias que decidem arbitrariamente quem pode e quem não pode obter ajuda, um cenário que pode levar as pessoas a uma fúria extrema.

Uma outra vítima das cheias, Karm Khan, disse: “Durante três dias esperei aqui do amanhecer ao anoitecer, mas não recebi um único grão de trigo. Eles só os dão aos seus potenciais eleitores.” (BBC, 5 de Agosto de 2010)

Em geral, a natureza da “ajuda externa” é tal que mesmo quando não causa danos efectivos às pessoas ao destruir-lhes as suas fontes de rendimentos, ou de outras formas, pode fazer muito pouco para ajudar as massas. Neste caso, temos um outro exemplo de como o objectivo da “ajuda” imperialista é aumentar a sua influência nos países afectados e fortalecer os seus agentes locais, e não ajudar o povo. Os EUA fornecem milhares de milhões de dólares em ajuda externa – ao exército paquistanês.

Neste preciso momento, milhões de vítimas das cheias do Paquistão estão a lutar pela sobrevivência. Elas – e toda a gente – irão julgar o que é que os governantes deste mundo fazem para ajudar a salvar as suas vidas.