O filme “12 Anos Escravo” – Uma conversa

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 17 de Fevereiro de 2014, aworldtowinns.co.uk

12 Anos Escravo [12 Anos de Escravidão, no Brasil] é um dos mais importantes filmes que as pessoas em muitos países estão a ver e sobre o qual estão a falar hoje. Baseado na autobiografia de Solomon Northup, um músico negro do estado de Nova Iorque que em 1841 foi sequestrado e vendido como escravo. Depois de ganhar importantes prémios nos EUA, a Academia Britânica de Cinema (Bafta) nomeou-o recentemente como o melhor filme britânico do ano e o actor principal Chiwetel Ejiofor como melhor actor. (Tanti Steve McQueen, cujo passo em frente como realizador foi o seu filme Hunger [Fome], de 2008, sobre o grevista da fome irlandês Bobby Sands, como Ejiofor são ambos britânicos provenientes da diáspora africana). Depois de ter estreado na América do Norte em finais de 2013, está a passar em toda a Europa e América do Sul e será lançado em breve nalguns países do Médio Oriente e da Ásia.

Publicamos de seguida excertos de uma extensa e detalhada conversa sobre este filme com Carl Dix, do Partido Comunista Revolucionário, EUA. Surgiu na edição n.º 330 (17 de Fevereiro de 2014) do jornal Revolution/Revolución do PCR,EUA (revcom.us).

Carl Dix: É muito importante e muito bom que milhões de pessoas estejam a ver esta história sobre a escravatura, a ver esta história sobre a história deste país, a verdadeira história deste país, e um filme que está muito bem feito, baseado na realidade da escravatura, com um elenco (...) e basicamente com pessoas que realmente sentiam que esta história precisava de sair. Quero dizer, toda a gente, do realizador ao argumentista e às pessoas nele, sentiam que precisávamos de divulgar esta história, para ser vista por milhões de pessoas neste país. E depois, a forma como eles o fizeram e deram vida à brutalidade, à desumanização que caracterizou a escravatura, eu achei que foi... que foi simplesmente surpreendente. Aqui está um homem livre que foi sequestrado para a escravatura, que acorda acorrentado e descobre que está com outros, alguns dos quais estão numa situação semelhante e outros que já eram escravizados e estavam a ser vendidos rio abaixo, até ao Luisiana onde é como se não houvesse nenhuma saída disso.

E depois há as coisas pelas quais ele está a passar, e depois há as coisas pelas quais todas as pessoas que estão escravizadas estão a passar – como a separação da família logo no início e a forma cavalheiresca como isso é feito e como com isso se relacionam as pessoas envolvidas no comércio de escravos em diferentes momentos, desde o comprador inicial ao vendedor. A mulher chega à plantação e está a soluçar por causa dos filhos dela e a patroa diz: “Você vai superar isso. Desaparecerá em pouco tempo”. Como se isso realmente não tivesse importância para ela, ela não é um verdadeiro ser humano pelo que não se preocupará durante muito tempo por os seus filhos terem sido afastados dela e não ter nenhuma ideia sobre para onde eles acabaram por ir e sobre que destino os espera.

E depois, mesmo algumas das coisas que, nalgum sentido, podem parecer menores mas que de facto têm o seu próprio significado, (...) como quando a família estava a ser separada de facto, o individuo que estava a comprar a mãe estava a tentar persuadi-lo a chegar a um acordo para levar as crianças. E o individuo tipo, (...) não me lembro das palavras exactas que ele usou, mas a humanidade dele só ia até ao limite de uma moeda. Por outras palavras: “Oh yeah, eu tenho humanidade, mas isso é distorcido pelo facto de que isto é propriedade e eu estou aqui para obter o melhor lucro por essa propriedade e se você não consegue corresponder então, sim, eu levo estas crianças, eu vou mandá-las sabe-se lá para que inferno porque é assim que isto funciona. É nisto que isto se baseia e isto ultrapassa qualquer outra consideração.”

E depois a forma como as pessoas eram forçadas não só a sofrer a brutalidade, mas mesmo que não fosse como se tu estivesses a viver directamente essa experiencia, tu vivia-la porque tinhas de assistir enquanto estas coisas estavam a ocorrer, tinhas de viver a tua vida e saber que não havia nada que pudesses fazer em relação a isso. E isto aparece em várias cenas: a cena onde Solomon é forçado a chicotear Patsey e ele não o quer fazer mas depois é tipo, ambos seremos chicoteados se eu não o fizer e ela está a dizer eu prefiro que tu o faças em vez de ser ele a fazê-lo, pelo que ele o faz mas delicadamente de forma a não o fazer realmente e depois é tipo “Eu vou matar-te a ti e a todos os pretos, todas as pessoas que eu possuo, todos os meus escravos, se não o fizeres”. Pelo que é como se não tivesses nenhuma escolha. E depois as outras pessoas têm de assistir a isso.

Revolution: Podemos regressar um pouco ao início do filme? Desde o início que ele é escravo e nós vemos o que está a acontecer. E depois recua para o modo como ele lá chegou. Tem havido muitos filmes onde os escravos estão de certa forma neles ou em parte deles, ou que são mesmo sobre a escravatura mas em que as personagens principais não são de facto escravos. As personagens principais são outras pessoas e depois surge esta questão da escravatura. Este é a história dele e começa com ele já escravo.

CD: Yeah, isso é na verdade muito importante porque eu acho que há uma convicção na indústria cinematográfica de que não se pode fazer isso. Não se pode centrar um filme na experiência dos que são escravizados. Ou, também noutras situações, surge a mesma coisa: bem, nós não podemos centrar isto na experiência dos que são oprimidos e brutalizados, temos de conceber outra forma de fazer a história e chegar a ela com os olhos talvez de alguém que simpatize com isso. E embora haja coisas que não podem ser concretizadas nesse quadro – não é que seja sempre mau fazer isso – neste filme estamos ali mesmo com Solomon. Ele acorda acorrentado e nós estamos a sentir isso.

Na realidade, fez-me lembrar uma sátira de Richard Pryor sobre de onde vem o humor com negros. Acho que é no álbum Bicentennial dele, e ele diz: “Vocês todos sabem onde começou o humor com negros, não? Começou nos navios de escravos. Há lá dois indivíduos a remar e um deles começa a rir e o outro diz: Qual é a graça? E o outro diz: Ontem eu era rei”. E não é a mesma coisa, mas é como se ontem ele fosse um homem livre a tocar violino e a desfrutar a vida com a família dele, um membro respeitado da comunidade, e depois acorda acorrentado. E então ele começa a protestar e eles batem-lhe, que esta é agora a tua situação e tudo o que eras ontem, agora és propriedade nossa. Talvez tivesses sido Solomon, mas já não és mais, já não és Solomon Northup, nós vamos dar-te um nome e tu estás agora numa nova situação e não há nada que possas fazer em relação a isso.

E então tu estás ali, muito próximo da brutalidade, e não podes fazer nada em relação a isso. Como na cena onde um dos brancos, Tibeats, se mete com Solomon sobre o facto de Solomon não seguir as instruções dele à risca – ele tinha andado a pensar nisso há algum tempo porque sentia que “este é um escravo que não sabe o lugar dele, que não reconhece a minha superioridade” – mesmo sobre coisas como por onde levar o produto, a madeira, por água. E é como se fosse: “Oh, você não pode fazer isso. E aqui está esta pessoa escravizada que desafia a minha autoridade – e depois, ainda pior, mostra que eu estou errado.” E isso é uma afronta à escravatura – um homem negro, propriedade, a fazer frente a um homem branco – Tibeats é co-proprietário de Solomon; o outro individuo, Ford, tem uma hipoteca sobre Solomon. Pelo que quando Solomon se recusa a ser espancado e resiste, isso é uma potencial ofensa mortal, e ele chega com os homens dele para tirar a vida a Solomon por essa afronta, e a única coisa que salvou a vida de Solomon nesse momento foi que ele era um bem valioso para Ford.

Então, não os deixa matá-lo. Mas ele é amarrado e isso é pura tortura. Porque ele basicamente tinha de estar em pontas dos pés para evitar ser estrangulado, amarrado como um porco, e é aí deixado no que parece ser um período prolongado. Não sei quanto tempo decorreu, mas parecia um período prolongado de tempo. Então, todas as outras pessoas, todas as outras pessoas que estavam escravizadas, tinham de seguir a vida delas à volta disso. Toda a gente sabia que não podiam ir lá e cortar as cordas. Quer dizer, uma mulher chega e dá-lhe água, e ela faz isso de uma forma engenhosa, olhando para o lado para ver se estava a ser vista, porque mesmo isso, mesmo dar água a uma pessoa naquela situação, poderia ser visto como uma afronta.

E isto é o essencial: o facto de ele viver ou morrer depende do facto de ser propriedade, e neste caso ele só vive porque um dos donos dele não o quer matar. E também se fala mesmo sobre quem tinha direito a violar as mulheres escravizadas. Na plantação em que Solomon estava, Patsey pertencia ao proprietário. Se outro homem branco tivesse querido violar uma das mulheres escravas, ele teria sabido (...) se estivesse ligado à plantação, ele teria sabido afastar-se de Patsey, mas não porque talvez Patsey tivesse relutância, não correspondesse aos seus avanços pelo que não a poderia forçar. Afaste-se para longe de Patsey porque ela pertence a Epps, mas qualquer outra pessoa é um alvo e pode ser violada por qualquer pessoa ligada à plantação. Um homem branco não ligado à plantação, (...) se for apanhado a forçar mulheres escravizadas, então isso é uma violação. Mas não é uma violação da mulher que ele força, é uma violação dos direitos de propriedade de qualquer homem branco a possui-la. E isto é algo... isto é realmente visível no filme.

Revolution: Uma das coisas quando se está a falar sobre a cena onde Solomon está ali pendurado e todas as pessoas estão a fazer o trabalho delas – por um lado, é claro que se elas intervêm vão ficar em dificuldades. Mas coloca a questão, acho que para toda a gente que vê isto, de como é que se pode estar ali e estar a ver isto a ocorrer? Isto é um exemplo que somos forçados a ver, mas quantas vezes onde coisas como esta aconteceram – é claro que isto era uma ocorrência regular, era assim que as coisas eram feitas, e em que as pessoas eram postas numa situação tal que sentiam que não podiam erguer-se e não o faziam – ou raramente o fizeram. E claro que o preço de se manifestar contra isto era frequentemente a morte ou um castigo extremo. Mas coloca a questão, pensei eu, de que quando se está a ver isto, como é que se pode simplesmente ficar a ver enquanto decorrem esses horrores. E o que seria preciso para romper com isso? Não sei, pensei que havia algumas questões que se põem, não só historicamente, mas...

CD: Eu penso que isso é real porque tu vês aquela cena com os olhos de hoje, e a ilegitimidade da autoridade que estava a impor aquela barbaridade, aquela brutalidade, aquela barbaridade, é realmente clara. E às vezes hoje, para muitas pessoas, a brutalidade que está a ser imposta em toda a sociedade não é tão claramente ilegítima. E tantas pessoas se estão a pôr de lado enquanto uma brutalidade indescritível e uma força ilegítima estão a ser usadas contra as pessoas. E temos... isto precisa de ser mudado: bem, isto é apenas a forma como as coisas são, ou mesmo, estas coisas são feitas por alguma razão – bem, esperem um minuto: porque é que isto está a acontecer, porque é que mais de dois milhões de pessoas estão na prisão [nos EUA hoje]? Porque é que centenas de milhares de pessoas estão na prisão por simples posse de droga? Porque é que as pessoas que são condenadas e presas devido a isso são desproporcionadamente negros e latino-americanos? Isto são coisas que as pessoas têm de começar a ver com olhos tão claros quanto aqueles que aplicamos a: é claramente mau enforcar uma pessoa porque ela basicamente respondeu à forma como estão a desorganizá-la por ter dito alguma verdade – esta foi a “afronta” de Solomon. Mas um negro, um negro escravizado, de facto qualquer negro no Sul nessa altura, não tinha nenhum direito a resistir a um branco. E isso é mesmo mostrado no final do filme – nos procedimentos legais em torno das pessoas que sequestraram Solomon, um ou dois deles foram julgados em Washington, DC, e Solomon não foi autorizado a testemunhar contra eles porque era negro.

Revolution: Uma coisa importante sobre este filme é que as pessoas hoje não têm uma sensação real, uma sensação viva, do que isto significou, em que é que toda esta riqueza e poder se baseiam de facto. E as pessoas deveriam realmente ler o livro, bem como ver o filme, para obterem realmente uma sensação viva disto.