O bombista favorito de George Bush

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 9 de Outubro de 2006, aworldtowinns.co.uk

O governo norte-americano sofreu uma conversão surpreendente, descobrindo de repente aquilo a que chama “preocupação com os direitos humanos”. Proclamou que mesmo um homem condenado por ter feito explodir um avião civil não pode ser exposto ao que chama a possibilidade de tortura ou à negação das suas liberdades civis – e está totalmente fora de questão mandá-lo para algum provável covil infernal nas Caraíbas. Porque é que esta invulgar reviravolta dos acontecimentos não está a gerar mais manchetes?

Eis o pano de fundo: um homem faz explodir um avião civil, matando todos os 73 passageiros a bordo, incluindo toda a internacionalmente famosa equipa de esgrima de um país. O seu objectivo é humilhar o governo desse país. Ele é julgado e condenado e vai para a prisão, mas está ligado a uma poderosa organização terrorista internacional e escapa. A sua carreira violenta dura décadas. Finalmente, envelhece e passa despercebido num país amigo onde o regime partilha a sua ideologia. Estabelece-se numa comunidade onde toda a gente o conhece – a sua imagem aparece muito na televisão durante anos, mas ele não tem nenhum problema com as autoridades. Finalmente, talvez chateado por não obter reconhecimento oficial nem recompensas do próprio regime, dá uma entrevista a um jornal e convoca uma conferência de imprensa. Ele é um fanfarrão que se vangloriou publicamente do atentado bombista em várias ocasiões. Por fim, três meses depois, o regime prende-o – não por qualquer coisa séria, mas apenas por ter entrado ilegalmente no país. Mas esse regime não o deixará ser extraditado para enfrentar a justiça pelo atentado bombista contra o avião, porque diz temer que ele “possa ser torturado”. Se tentássemos adivinhar, isso poderia querer dizer espancamentos, sufocações na água, temperaturas extremas, abuso sexual...

Esse regime repentinamente respeitador dos direitos humanos não é outro senão o de George “Bombista Louco” Bush. O terrorista é Luis Posada Carriles, um agente nascido em Cuba que toda a vida trabalhou para o governo norte-americano e que organizou o atentado bombista que em 1973 derrubou um avião das linhas aéreas cubanas que seguia de Caracas para Havana. Também esteve por trás de uma série de atentados em 1997 contra hotéis em Havana que mataram um turista italiano, num esforço para desencorajar os viajantes europeus de visitarem a ilha. Tudo se tornou público porque ele se vangloriou disso em 1998 numa entrevista ao jornal The New York Times.

Tanto Cuba, para onde se dirigia o voo, como a Venezuela, de onde partiu e onde a bomba foi colocada, exigiram que os EUA extraditassem Posada. A propósito, ele tinha-se tornado cidadão venezuelano e era um agente de alto escalão da polícia secreta desse país quando fez explodir o avião. Isso ocorreu décadas antes de Hugo Chávez ser eleito, numa altura em que o governo venezuelano fazia tudo o que os EUA lhe diziam para fazer. Posada nega que ainda fosse funcionário da CIA na altura em que dirigia o “departamento de demolições” da polícia secreta venezuelana. Mas, ficheiros do governo norte-americano recentemente desclassificados mostram que a CIA foi informada com antecedência sobre o plano de Posada para abater o avião – provavelmente pelo próprio Posada – e nada fez. O Secretário de Estado norte-americano de então, Henry Kissinger, foi informado sobre tudo num relatório posterior – e manteve-o em segredo.

O comportamento egocêntrico de Posada em Miami deixou os EUA face a um dilema. Quando a Venezuela pediu que Posada lhe fosse entregue no passado mês de Maio, três meses depois de ele começar a ser visto à volta de Miami, os EUA negaram saber alguma coisa sobre a sua presença. Depois, o seu advogado subiu a parada. Mostrando as folhas de pagamentos para provar que Posada era um funcionário regular da CIA durante os anos 60 e no início dos anos 70 e salientando os seus contactos regulares com a CIA e o FBI depois disso, o advogado exigiu que fosse concedido asilo ao seu cliente com base nos seus serviços.

Esses serviços incluíam o envolvimento de Posada no escândalo Irão-Contras em meados dos anos 80, quando o Presidente norte-americano Ronald Reagan enviou dois helicópteros israelitas carregados de mísseis norte-americanos de ponta, uma Bíblia autografada e um bolo ao Aiatola Khomeini do Irão. Em troca, o Irão enviou dinheiro para financiar os Contras, os esquadrões da morte dirigidos pela CIA que trabalhavam para derrubar o governo da Nicarágua de que os EUA não gostavam. Posada trabalhou para fazer chegar esse dinheiro aos mercenários de El Salvador, onde também estava intimamente ligado aos esquadrões da morte dirigidos pela CIA que aí combatiam a guerrilha.

Outros como Posada estão a viver bem em Miami. Jeb Bush, irmão do presidente norte-americano, é bem conhecido pelos muitos favores que lhes fez. O parceiro de Posada no atentado contra o voo 455 das linhas aéreas cubanas, Orlando Bosch, foi perdoado pelo primeiro governo Bush e uma rua de Miami recebeu o seu nome. A princípio, os acontecimentos pareciam confirmar o optimismo de Posada. Embora os agentes da Segurança Nacional dos EUA o tivessem detido, o juiz decidiu que um homem acusado apenas de entrar nos EUA com um passaporte falso não podia ficar indefinidamente na prisão e ordenou que fosse libertado se o governo não o declarasse terrorista. O governo recusou-se a fazê-lo. Mas no mundo pós-11 de Setembro, onde uma “guerra contra o terrorismo” é a justificação para destruir país atrás de país, George Bush não podia escapar apenas com dar uma medalha a este bombista. Em vez disso, o governo norte-americano descobriu de repente uma “preocupação com os direitos humanos”.

Isto quer dizer que o governo norte-americano, que é responsável pela parte de Cuba “amiga dos direitos humanos”, o campo de concentração de Guantânamo numa ponta da ilha, não aguenta enviar um ser humano para Havana, onde os seus “direitos humanos” poderiam não ser respeitados. Os EUA também excluíram terminantemente enviar Posada para a Venezuela, sem se preocuparem sequer em discutir porque é que alguém que enfrenta um julgamento estaria aí pior que nos EUA, onde as pessoas podem ser chamadas de “combatentes inimigos” e ser-lhes negado qualquer direito legal.

Mas, os responsáveis do governo Bush disseram à comunicação social que Posada é simplesmente demasiado “radioactivo” de manter, dado que ele teima em viver aberta e ostensivamente em Miami. A 6 de Outubro, o Departamento de Justiça dos EUA anunciou que Posada não seria nem extraditado nem libertado. Agora, os EUA estão a tentar encontrar algum outro país para onde o enviar, um país onde possa viver a sua vida em conforto e dignidade. Tem-se especulado que os EUA gostariam que ele fosse acolhido por El Salvador, talvez como gesto de gratidão do poder salvadorenho com quem ele ainda mantém ligações, por ter ajudado a manter esse país como parte do “mundo livre”.

O objectivo do governo norte-americano em tudo isto, tal como no derrube do voo 455 por Posada, é humilhar e tentar destabilizar Cuba – e agora a Venezuela. Não tem nada a ver com proteger quaisquer direitos, apenas com o que os Estados Unidos acreditam ser o seu “direito” atribuído por deus a controlarem esses países. A sua mensagem é: o poder define o que é correcto. Proteger Posada é uma forma de ameaçar com muito mais violência contra esses regimes. Afinal de contas, o governo norte-americano não se limita a contratar pessoas para fazerem explodir aviões – despeja bombas de aviões.

(Para aceder a documentação fidedigna sobre Posada e a CIA, vá ao Arquivo de Segurança Nacional da Universidade George Washington – em www.gwu.edu/~nsarchiv/.)