Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 10 de Maio de 2004, aworldtowinns.co.uk

O 1º de Maio Revolucionário em Berlim

O 1º de Maio de 2004 foi novamente cenário de uma efusão em massa de sentimentos revolucionários e de luta militante contra a classe dominante da Alemanha e contra todo o sistema mundial imperialista de exploração e opressão. Como já quase se tornou uma tradição, ambos os lados deste conflito prepararam as suas forças para a manifestação.

O dia começou com uma manifestação de vários milhares de pessoas que protestaram contra uma marcha organizada pela extrema-direita do Partido Nacional da Alemanha e várias organizações neonazis associadas. Os fascistas tinham-se mobilizado a nível nacional para esta acção do 1º de Maio e tinham mesmo lançado palavras de ordem contra o “capital” e a “globalização”, fazendo lembrar a demagogia dos nazis nos anos 20 e 30. O nome do partido de Hitler era de facto Partido Nacional Socialista da Alemanha. O actual período de grave crise estrutural e de reorganização na Alemanha tem sido acompanhado pelos mais drásticos cortes nos salários e nos programas sociais desde a II Guerra. Isto levou a um descontentamento generalizado e mesmo a alguns protestos das massas. Os nazis de hoje estão a tentar copiar os seus predecessores clamando que a solução para todos os problemas que o imperialismo gera está numa forma “nacional” de “socialismo” baseado na subjugação de qualquer pessoa dita “estrangeira” ou “não-alemã” e na predominância internacional da Alemanha.

A marcha nazi foi originalmente planeada para começar na Ostbahnhof, a menos de 800 metros da Oranienplatz, no bairro de Kreuzberg, o local de início da tradicional manifestação do 1º de Maio Revolucionário. Uma enorme campanha, com o objectivo de mobilizar as massas a virem para a rua e pararem a marcha nazi, convenceu as autoridades municipais de que mudando os nazis para uma zona na parte oriental de Berlim, longe do centro da cidade, daria aos nazis mais hipóteses de realizarem a sua marcha com sucesso. Também mobilizaram vários milhares de polícias apoiados por canhões de água para a facilitar e proteger os nazis. Mas os manifestantes antifascistas deslocaram-se para a nova localização e lutaram por bloquear o caminho que os nazis estavam a planear utilizar. Os manifestantes construíram barricadas, sentaram-se na rua e tentaram mesmo resistir repetidamente aos enormes canhões de água a curta distância. Quando as cargas da polícia à bastonada não conseguiram desimpedir as ruas, os nazis desistiram e voltaram para trás após apenas alguns quarteirões.

À 1h da tarde, as pessoas juntaram-se na Oranienplatz, no bairro do Kreuzberg, preparando-se para a 17ª manifestação anual do 1º de Maio Revolucionário. O principal slogan deste ano era “Lutar Internacionalmente Contra a Exploração e a Opressão, Não Há Libertação Sem Revolução!”. Entre 600 e 700 pessoas de mais de uma dúzia de países e nacionalidades juntaram-se na Oranienplatz para o encontro que precede a manifestação. Entre os principais oradores estavam Haluk Gerger, professor assistente de relações internacionais em Ancara, na Turquia (autor, jornalista, membro fundador da Organização de Direitos Humanos da Turquia e membro da 7ª Delegação do CIE ao Peru) e representantes da Organização de Mulheres 8 de Março do Irão e do Afeganistão, da Coligação 1º de Maio Revolucionário e da Associação de Árabes Antifascistas na Europa. Além disso, foram lidas mensagens à manifestação de várias organizações, incluindo uma mensagem conjunta de apoiantes do Partido Comunista Maoista da Turquia e do Curdistão do Norte, dos Comunistas Revolucionários (Alemanha) e do Centro Maoista do Partido do TKP ML. Entre os folhetos distribuídos aos milhares estava o comunicado do Comité do Movimento Revolucionário Internacionalista sobre o 20º aniversário do MRI.

Ao mesmo tempo que a manifestação descia a Oranienstrasse, no coração do bairro de Kreuzberg e da rebelião das massas em 1987 que inspirou o nascimento da manifestação, os passeios enchiam-se de gente e as fileiras da manifestação elevarem-se a mais de mil pessoas. Dominando o cenário estava uma faixa gigante – cerca de 5 metros de largura por 15 metros de altura – levada bem alto pela rua com as principais palavras de ordem da manifestação em turco e em alemão. Inúmeras outras faixas opunham-se à ocupação do Iraque, declaravam o apoio à Guerra Popular no Nepal e denunciavam a violação e a opressão das mulheres, bem como os ataques racistas e discriminatórios. A manifestação caracterizava-se pela sua composição multinacional, com muitos jovens, mas também com veteranos da luta, gente da classe média e um importante número de proletários, bem como um bastante largo espectro de forças políticas.

Às 4h da tarde, uma segunda manifestação do 1º de Maio Revolucionário, organizada principalmente por forças anarquistas, começou no centro da cidade de Berlim e desfilou para o Kreuzberg com as palavras de ordem “O Nosso Programa é a Resistência, Não aos Assassinatos Imperialistas e ao Terror Social!”, juntando mais de 2000 pessoas. Numa exibição de unidade, os organizadores desta marcha e da manifestação de Oranienplatz concordaram em concluir as duas acções com uma reunião comum na Kottbusser Tor em Kreuzberg e em ler uma declaração conjunta de oposição à guerra imperialista e à exploração.

Um dos elementos-chave da “Batalha do 1º de Maio de 2004” em Berlim foi a tentativa das autoridades municipais de limitar a luta militante de rua que se tornou uma característica anual do 1º de Maio. Tentaram isolar politicamente as duas manifestações do 1º de Maio Revolucionário com uma campanha de imprensa com o objectivo de as mostrar como trabalho de “radicais loucos”, bem como levando a cabo manobras legais típicas para restringir o direito de manifestação e mobilizando um exército policial para hostilizar e intimidar. Este ano juntaram uma nova táctica, patrocinando durante a tarde e a noite um festival de rua em Kreuzberg, o “MyFest”, com vários palcos de música ao vivo, performances, etc. O seu objectivo era afastar os manifestantes da gente “pacífica” que supostamente se oporia a qualquer militância e à política radical. Três palcos foram dedicados à música rap, num esforço para atrair sobretudo os jovens imigrantes. Enquanto no ano passado os organizadores do MyFest coordenaram o seu planeamento com a acção do 1º de Maio Revolucionário, este ano o festival foi utilizado para apoiar os esforços legais para bloquear as manifestações. Essa foi uma táctica para combinar a cenoura com o chicote (de facto, 8000 chicotes e alguns tanques). De acordo com o presidente da Câmara de Kreuzberg, membro do Partido do Socialismo Democrático, esta aproximação poderia ter êxito e pôr fim à luta militante e ao “mito” do 1º de Maio Revolucionário em Berlim.

Mas estava enganado. Não só vários milhares de pessoas participaram nas manifestações do 1º de Maio Revolucionário, como a meio da tarde mais de mil pessoas, sobretudo uma mistura volátil de jovens de diferentes nacionalidades, juntaram-se a uma acção organizada nesse mesmo local, no MyFest, para se oporem às cruas tentativas de repressão política. Quando a polícia começou a formar as suas fileiras para as suas contra-medidas, os jovens tomaram a iniciativa e atacaram primeiro, iniciando horas de batalhas militantes de rua, mais tarde mostradas nas televisões internacionais. No meio da batalha, a bandeira vermelha com a imagem de Mao foi vista repetidamente a esvoaçar desafiadoramente sobre as cabeças dos jovens em batalha e enviando uma mensagem para todo o mundo.