O rei do Nepal tenta justificar-se
9 de Maio de 2005. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

No seu discurso perante a conferência de Bandung, a cimeira afro-asiática que decorreu em Abril na Indonésia, o monarca nepalês Gyanendra Shah declarou: “Na história dos últimos 200 anos, os reis do Nepal foram sempre inspirados e guiados pelos desejos do povo e nós estamos empenhados em defender o sistema multipartidário, os direitos humanos e a lei internacional”. Esta declaração é uma mentira do princípio ao fim.

Primeiro, nos últimos 200 anos os reis do Nepal foram sempre inspirados pelo imperialismo e pelo expansionismo indiano e estiveram empenhados em defender a autocracia feudal e o capitalismo comprador burocrata. Eles violaram sempre os direitos humanos e nunca cumpriram a lei internacional, antes submeteram-se completamente à Grã-Bretanha e, mais recentemente, à Índia e agora aos EUA.

A violenta unificação do Nepal em 1768 com o Rei Gurkha Prither Narayan Shah implicou a subjugação da maior parte dos povos das várias nacionalidades que constituem o país e estabeleceu a dinastia Shah. Desde então, a classe dominante tem sido da casta brâmane (a casta superior do sistema de dominação que tem origem na Índia) e da nacionalidade Khash (um povo da região de Khasan, no Nepal ocidental).

Quando a dinastia Shah assinou o tratado de Sugauli com a Índia britânica em 1816, entregou quase um terço do território do Nepal e tornou o Nepal numa semicolónia da Grã-Bretanha. A Índia, depois da sua independência da Grã-Bretanha em 1948, pegou onde os britânicos tinham parado em relação ao Nepal.

O infame tratado de 1950 subordinou o Nepal à Índia, mas sob o disfarce de instituir a igualdade entre os dois países. Por exemplo, é suposto que cada país consulte o outro antes de comprar armamento de um terceiro país – mas a Índia nunca se incomodou a pedir o consentimento do seu vizinho mais pobre e fraco, embora o Nepal não o possa fazer sem o OK da Índia. Para dar outro exemplo, os habitantes de cada país têm o direito a viver no outro – mas para a Índia, isso significa poder usar à vontade o trabalho imigrante do Nepal, enquanto os indianos, claro que não vão para o Nepal à procura de trabalho. Esse tratado desencadeou um enorme movimento de protesto. A monarquia nepalesa reprimiu-o e pediu às tropas indianas para prenderem Bhim Dutta Panta, que liderara uma insurreição camponesa na região de Seti-Mahakali. Antes disso, alguns soldados do Exército Real começaram a revoltar-se e a defender o derrube do sistema monárquico, como na revolta de Lakhan Thapa em Gurkha. Ele foi morto.

Houve muitas lutas populares contra o sistema dos panchayats desde 1962, quando os partidos políticos foram proibidos e o país passou a ser governado por conselhos de notáveis conhecidos como panchayats, sendo o rei a verdadeira autoridade. As massas quiseram derrubar a monarquia e estabelecer uma república. A monarquia e os capitalistas burocratas (os grandes empresários dependentes do capital estrangeiro) conspiraram contra o povo e concordaram em realizar um referendo sobre a monarquia. Graças à fraude, o déspota feudal dessa altura declarou que o povo tinha votado numa “reforma dos panchayats”. Gyanendra Shah foi um dos caudilhos desse infame sequestro da vontade do povo em 1980.

Em 1990, o povo revoltou-se novamente contra a monarquia e novamente o povo foi traído. Em 1996, o Partido Comunista do Nepal (Maoista) iniciou uma guerra popular para derrubar um sistema feudal com séculos de existência e estabelecer uma república popular e uma sociedade de nova democracia que avance para o socialismo e ajude a construir um mundo comunista. A autocracia respondeu não só desafiando as aspirações do povo, mas também violando abertamente todos os seus direitos, matando milhares de nepaleses e deixando milhões de pessoas sem casa e sem nenhum modo de ganhar o seu sustento. Ouvir este tipo de rei infame dizer que cumpre a lei internacional e os direitos humanos não passa de uma farsa.

Gyanendra Shah também disse à conferência de Bandung; “A ameaça do terrorismo à democracia no Nepal é real; mas não se limita apenas ao nosso país. É também uma ameaça à paz e à estabilidade da região da Ásia do Sul e para além dela.” E continuou: “O terrorismo não pode ser definido em termos dos países geográficos. Nós vimos como uma pequena sociedade pode servir como terreno de propagação do terrorismo com ramificações globais. A mensagem é clara: a estabilidade de qualquer estado, em particular a de um país mais pequeno e vulnerável, é crítica para a paz e a estabilidade globais.”

Isso é verdade – se virado do avesso. O problema do Nepal é o terrorismo do estado monárquico contra as largas massas do povo nepalês e as suas aspirações aos direitos democráticos – contra o feudalismo e a dominação estrangeira – e a uma nova sociedade. O rei tenta colocar a etiqueta de “terrorista” à luta popular contra a monarquia feudal. Mas a realidade é a oposta. Olhe-se para a história – desde os dias em que os antepassados de Gyanendra mandaram cortar dois quilos e meio de orelhas do povo Newar como castigo pela sua resistência contra eles, ao seu pai Mahendra que, tal como Gyanendra, usurpou o poder ao parlamento eleito dessa altura e impôs o despotismo feudal e o sistema fascista dos panchayats e enviou a sua polícia para lutar ao lado das tropas indianas para esmagarem o movimento camponês por todo o país. Sempre houve terrorismo no Nepal – e nunca vindo do povo mas sempre da monarquia feudal.

Gyanendra Shah define o “terrorismo” como uma ameaça não apenas ao Nepal mas também uma ameaça à paz e estabilidade da região da Ásia do Sul. É verdade que, tal como Gyanendra Shah, nenhum dos governantes da Ásia do Sul é democrático. A questão não é saber se há ou não alguma forma de eleições, mas sim o seu terrorismo para reprimirem os esforços dos povos para se libertarem dos imperialistas, dos capitalistas burocratas e da dominação feudal. A Índia, o Paquistão, o Bangladesh, o Sri Lanka, as Maldivas e o Butão – todos estes países são governados por combinações variadas de senhores feudais e compradores burocratas. As massas desses países não têm nenhum direito verdadeiro. Todos esses regimes – e a estabilidade do domínio reaccionário em toda a região – estão ameaçados pelo exemplo libertador para os povos da região vindo da guerra revolucionária do Nepal.

Embora Gyanendra Shah tivesse podido falar na conferência aos governantes da região, não ousou enfrentar os jornalistas e evitou a conferência de imprensa. A comunicação social estava ansiosa por questioná-lo em pormenor sobre como poderia justificar o seu golpe de estado de 1 de Fevereiro. Os jornalistas certamente teriam preparadas algumas perguntas sobre os 3000 presos políticos e a continuação da censura total da comunicação social. Eles poderiam ter querido interrogá-lo sobre por quanto tempo pensaria conseguir manter-se contra a guerra popular. A esse tipo de perguntas, ele não tem nenhuma resposta.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese