Greve geral vitoriosa no Nepal dá um duro golpe no velho regime
22 de Setembro de 2003. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Numa greve geral de três dias convocada pelo partido maoista, o povo do Nepal expressou vigorosamente a sua determinação em alcançar uma mudança política completa no país. A bandh constitui um altamente vitorioso tipo de referendo no qual as pessoas deram a sua aprovação activa aos três pontos avançado pelo Partido Comunista do Nepal (Maoista) - uma conferência de mesa redonda, um governo interino e a eleição de uma assembleia constituinte. Ao mesmo tempo, o Exército Popular de Libertação dirigido pelo PCN(M) assestava grandes golpes ao Exército Real em batalhas travadas por todo o país.

"Durante três dias, um país inteiro parou", disse o correspondente em Katmandu da BBC quando terminou a paralisação de 18 a 20 de Setembro. Antes havia relatado que "a primeira coisa que parece diferente durante uma greve geral, ou bandh como são chamadas aqui, é o ar sobre a cidade de Katmandu - está limpo. Num dia de trabalho normal, centenas de milhares de veículos que vomitam vapores de diesel e gasolina tornam este vale elevado num rodopiante caldeirão de poluição... Com todos os transportes parados e a maioria das lojas e comércio fechados, mesmo as ruas principais se transformaram em passeios para as famílias e lugares para os rapares lançarem papagaios e fazerem ousadas manobras de bicicletas."

A BBC chamou à bandh "a acção mais ousada dos maoistas desde o fim das negociações de paz com o governo no mês passado", porque era um claro teste de força política para demonstrar de que lado as massas estão. A conclusão do meio de radiodifusão era inequívoca: "os rebeldes maoistas do Nepal... demonstraram com êxito a sua influência política no reino dos Himalaias".

Camiões abertos do Exército Real carregados de soldados foram virtualmente os únicos veículos a aventurar-se nas ruas. O governo real deu ordens para impedir qualquer manifestação e para "atirar à vista" a qualquer pessoa que violasse o recolher obrigatório nocturno, mas nenhuma repressão poderia obrigar as pessoas a irem trabalhar ou à escola, a abrir as suas lojas, ou de outra forma a fazer a sua vida de sempre. Grandes armazéns, lojas de bairro e vendedores ambulantes, todos respeitaram a paralisação. A situação foi a mesma noutras cidades e vilas. Escolas e escritórios estiveram fechados em todo o lado. Mesmo os voos das linhas aéreas locais foram cancelados. As fábricas de Biratnager, na zona oriental, mantiveram-se silenciosas. Pokhara, uma cidade normalmente atarefada com turistas e montanhistas, esteve paralisada. Uma jovem turista ocidental foi citada dizendo que estava surpreendida e um pouco confusa, mas que sabia que os maoistas não incomodavam os turistas.

O correspondente da BBC disse: "O governo tentou dar um ar de bravura às coisas - os ministros disseram que o nível relativamente baixo de violência mostrava que os maoistas estavam a perder a sua capacidade para atacar à vontade". Vinda do governo, esta declaração é suficiente para desacreditar as afirmações (repetidas até pela BBC) de que o sucesso atordoante da greve geral era devido à "intimidação" maoista. A pacífica greve geral de três dias foi simplesmente uma expressão da vontade popular. Como indicava uma declaração do Partido, a paralisação foi de facto uma grande derrota para as tentativas da monarquia de aterrorizar as pessoas.

Um exemplo das tácticas de terror do velho Estado surgiu na véspera da greve geral, quando o governo informou que tinham sido mortos 57 maoistas numa confrontação militar com o Exército Real na aldeia de Bhawang, no distrito de Rolpa, no Nepal ocidental. O governo tentou fazer parecer isso como uma grande vitória militar. Um jornal democrático, Dharana, escarneceu do relato do governo e disse: "de acordo com a propaganda governamental, os maoistas já sofreram pesadas baixas. Tendo em conta a propaganda governamental do passado, também não há nenhuma base para acreditar nestas notícias". Uma declaração do Camarada Prachanda, Presidente do PCN (Maoista) e chefe supremo do Exército Popular de Libertação do Nepal, rectificou os factos. O Exército Real tinha cercado e atacado uma unidade do EPL que conseguiu romper o cerco e escapar para preparar um contra-ataque. Sete revolucionários, incluindo uma mulher chefe de companhia foram mortos, bem como sete soldados do Exército Real. O Camarada Prachanda concluiu: "Se o inimigo realmente recuperou 57 cadáveres, então ou massacrou revolucionários previamente detidos em sua custódia, como fez durante o período do estado de emergência, ou mostrou o seu carácter cobarde matando civis desarmados". Apelou aos meios de comunicação pró-povo, aos intelectuais e aos activistas dos direitos humanos para investigarem o que realmente aconteceu em Bhawang e trazer a verdade ao povo.

O Camarada Prachanda também mostrou que na batalha de Korchawang, em Rolpa, a 7 e 8 de Setembro, na qual uma grande unidade do Exército Real foi cercada e derrotada (ver Serviço Noticioso AWTW de 15 de Setembro), o EPL apreendeu 13000 balas de M-16 e 4000 munições SLR, bem como uma enorme quantidade de material logístico despejado pelo ar e destinado às tropas governamentais.

Os EUA enviaram armas automáticas M-16 ao velho regime do Nepal durante o período de cessar-fogo que recentemente chegou ao fim após repetidas violações governamentais. Algumas dessas armas, destinadas a modernizar os massacres do povo que o regime tem levado a cabo, já foram capturadas pelos revolucionários maoistas nos distritos de Chitawan e de Kapilbastu.

Um correspondente do jornal maoista Janadesh descobriu um contingente do exército norte-americano a fornecer treino militar à Sexta Divisão do Exército Real (bahini adda) em Baireni, no distrito de Dhading. Este tipo de coisas costumava acontecer em zonas distantes. Com as autoridades do Nepal e dos EUA agora assustadas com o EPL, o treino dos EUA está a ser administrado naquela que é considerada uma área segura perto de Katmandu, numa ilha protegida por um rio. Diz-se que mais de uma dúzia de peritos militares norte-americanos e centenas de soldados do exército do Nepal estão envolvidos em lições em como combater os maoistas nas regiões montanhosas.

O regime mostrou o seu desespero numa decisão de reemitir os avisos de "canto vermelho" da Interpol pedindo a prisão de dirigentes do PCN(M), noticiou o nepalnews.com. Os avisos tinham sido retirados durante o período de cessar-fogo. Eles autorizam a polícia de 181 países a prender esses revolucionários. Esses avisos da Interpol poderiam servir para justificar politicamente uma maior intervenção dos EUA.

A interferência dos EUA está a ficar tão crucial para o regime que os maoistas começaram a desacreditar os seus soldados como "as forças armadas reais americanas". Um ex-ministro do Nepal declarou à BBC a 21 de Setembro: "Não se põe a questão da intervenção estrangeira porque o Nepal ainda não é um estado falhado". Obviamente que já há intervenção estrangeira. Mas ao ecoar as palavras de código de para justificar a intervenção dos EUA e ao acrescentar a palavra "ainda", este representante da classe dominante do Nepal está a admitir a extensão do seu isolamento popular. Nunca foi mais claro que agora é que as massas estão a escrever a história do Nepal.

(Num importante avanço nas comunicações, o Janadesh é agora publicado clandestinamente em quatro locais do país e no estrangeiro. Os maoistas do Nepal começaram a emitir notícias através de rádios FM em três zonas do país - a região oriental, o vale de Katmandu e o ocidente.)

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese