Nepal: uma caminhada ao futuro
12 de Janeiro de 2004. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Um camarada nepalês de Rolpa, que mora na Índia, não tinha podido regressar à sua terra há algum tempo. Há alguns meses atrás, tirando proveito do cessar-fogo, foi ver a sua família e respirar o ar das zonas vermelhas. Posteriormente, quando viajávamos de comboio na Índia, tive a oportunidade de lhe perguntar o que havia lá novo, o que havia mudado. Ele começou a explicar-me e, quando chegámos, percebi que poderia partilhar convosco o que eu tinha ouvido. Eis o que ele me contou:

Rolpa, no Nepal ocidental, é conhecida como um bastião da guerra popular que o Partido Comunista do Nepal (Maoista) tem levado a cabo desde 1996. Agora, o povo dirige a maior parte do interior do país através dos seus comités revolucionários de aldeia, enquanto a monarquia apoiada pelos EUA nem sequer é capaz de controlar completamente muitas das cidades. Mas os camponeses e outros habitantes de Rolpa levantaram-se desde o início, de modo que o poder revolucionário tem vindo a ser desenvolvido aí há um tempo relativamente longo.

Fui de autocarro até à fronteira, mas o resto do caminho foi feito principalmente a pé. Há estradas sujas para autocarros em algumas zonas, mas a cidade mais próxima da minha aldeia está a três dias a pé. Também por causa da presença do ERN (o Exército Real do Nepal), nem todas as estradas de autocarros são seguras, pelo que tivemos de as contornar a pé. Ao todo, tivemos que caminhar aproximadamente três semanas antes de alcançar a minha aldeia.

Não podemos andar sozinhos. Há uma guerra em curso e se encontramos o ERN ou a sua polícia, podemos ter problemas. Também nas nossas zonas, desde que o regime começou a enviar espiões, os camaradas estão muito vigilantes. Se não se viajar com um guia, o comité revolucionário da aldeia tem de ser informado da nossa chegada e estar à nossa espera. Caso contrário podemos ter de esperar até que eles descubram quem nós somos e o que queremos.

Um dos órgãos do novo estado revolucionário é o correio. Todas as aldeias nas zonas vermelhas têm um posto de correios e o número dos seus trabalhadores varia dependendo do tamanho da aldeia e do seu movimento. Mas o nosso correio faz mais que enviar cartas e encomendas. Uma das suas tarefas é levar os doentes para aldeias maiores ou para cidades que tenham melhores instalações médicas. Outra tarefa é transportar as pessoas. Isso é muito importante. Como disse, estamos numa situação de guerra. Toda a gente que vem à aldeia tem de se apresentar no posto de correios. Então, o posto organiza a sua viagem para a próxima aldeia no seu caminho. De facto, os camaradas que trabalham no posto são os que acompanham as pessoas. Às vezes, dependendo do perfil do viajante ou a situação na área, isso pode tomar a forma de uma escolta armada. E, quase sempre, isso significa horas ou mesmo dias de caminhada. O nosso posto também tem uma filial militar para levar munições e outras coisas aos camaradas que estão a lutar. Os camaradas que trabalham nessa filial são principalmente membros da milícia ou do Exército Popular. O posto é quase como uma artéria de comunicações do novo estado.

Nem todos os camaradas que aí trabalham são locais. De facto, são principalmente de outras zonas. Se há realmente muitos trabalhadores postais numa aldeia, eles têm a sua própria cozinha, dormitórios, etc., ou então vivem com as massas. Mas claro que o posto de correios nunca fecha e há guarda à noite.

Uma das decisões do partido foi que os camaradas não trabalhassem obrigatoriamente nas zonas onde nasceram. Isso tem vários aspectos positivos. Um, é que os camaradas ganham uma experiência diversificada. Ficam a conhecer outras regiões do país e os seus povos, e assim a sua visão da revolução, das suas tarefas, objectivos e dimensões fica alargada. Outro aspecto é que embora o Nepal seja pequeno, é um país de muitas nações e nacionalidades. A mistura de pessoas diferentes cria uma situação onde muitos medos e preconceitos são derrubados. As pessoas aprendem uns sobre os outros e o sentimento de unidade é fortalecido. Isto é muito importante, uma vez que as pessoas não tendem a migrar de uma zona do Nepal para outra. Em vez disso, se têm de deixar a sua aldeia para procurar trabalho, vão para a Índia.

De qualquer modo, depois de passar por vários postos, cheguei à minha aldeia. Com os camaradas que me acompanhavam, fui bater à porta do meu pai. Não tinha a certeza se poderia convidá-los ou não. A minha família, embora não seja brâmane, é de castas superiores e os meus camaradas eram todos de castas mais baixas ou intocáveis. Antigamente seria impossível ao meu pai deixá-los entrar em sua casa.

Entrei. O meu pai perguntou-me se vinha só. Disse-lhe que não, mas que os camaradas eram de castas inferiores. Ele disse: "Oh! Venham! A nossa porta está aberta a todos. Pede-lhes para entrar e comer alguma coisa. Devem estar cansados e famintos."

Fiquei espantado. A revolução e o novo poder político derrubaram até os preconceitos do meu velho pai. De facto, esta é uma das mudanças mais visíveis. A maioria dos novos camaradas do partido é das castas mais baixas. Antigamente não eram considerados humanos de corpo inteiro. As castas superiores não comeriam com eles nem os deixariam entrar nas suas casas. Agora, estão muito activos e são respeitados. O poder vermelho deu-lhes autoconfiança; sabem que é o seu próprio poder político. Embora sejam jovens na sua maioria, eles têm elevadas responsabilidades e levam-nas a cabo com êxito. A composição do partido antes da guerra, especialmente nos níveis mais elevados, era das classes médias, pessoas com estudos e professores de aldeia. Mas as coisas mudaram, e esses jovens são ao mesmo tempo tão corajosos e maduros que são amados e respeitados por todos.

A situação das mulheres também mudou consideravelmente. Em primeiro lugar, elas são activas no partido, no exército e no novo estado. No exército, embora haja unidades mistas, também há unidades e contingentes compostos só por mulheres, desde as soldados às comandantes políticas e militares. Também se pode ver outras mudanças nas suas vidas. As mulheres são activas em diferentes aspectos da agricultura e fazem tarefas que não lhes era permitido fazer antes. Uma delas era sacrificar animais, especialmente gado. As vacas são animais sagrados para os hindus e as pessoas tendem a não comer a sua carne. Isso também mudou. Mesmo algumas mulheres de meia-idade declararam-me orgulhosamente que comiam carne de vaca.

O modo de falar das pessoas também mudou. Na língua nepalesa, temos três formas de nos dirigirmos às pessoas. A primeira é respeitosa, a segunda é familiar e a terceira é derrogatória. A última é usada para as crianças, as castas mais baixas e às vezes para as mulheres. Hoje em dia, isso também mudou. A forma derrogatória de dirigir a palavra praticamente deixou de ser usada. As pessoas só usam qualquer uma das primeiras duas. Mas, e mais importante, as pessoas tratam-se umas às outras na base da igualdade. Antes, as crianças e as mulheres falavam aos seus pais ou maridos usando a forma respeitosa enquanto eles lhes respondiam de um modo derrogatório. Agora isso mudou. Todas as pessoas usam a mesma forma quando falam umas com as outras, ou formalmente ou de uma forma familiar.

Também se deram alguns golpes sérios nas tradições contra a mulher. Por exemplo, antigamente as pessoas apenas celebravam o nascimento dos rapazes. Agora, o nascimento de todas as crianças é celebrado nas nossas zonas.

Uma das outras responsabilidades do novo estado revolucionário é a construção. Um dos projectos que começou logo no início da guerra foi a construção de estradas e de aquedutos para levar água corrente para mais próximo das aldeias. Este último projecto ganhou os corações de muitas mulheres que antigamente tinham de caminhar muitas horas para trazer água potável para casa.

A construção de escolas e a luta contra o analfabetismo são outras tarefas. Quando eu era criança, tínhamos de caminhar várias horas para conseguirmos estudar. Agora, estamos a tentar construir uma escola em cada aldeia. É claro que há o problema da falta de professores. Mas durante a emergência [quando a monarquia declarou o estado de emergência e lançou uma brutal campanha de repressão], o estado reaccionário começou a perseguir muitos simpatizantes da revolução nas cidades. Como resultado, muitos estudantes e intelectuais vieram para as nossas zonas. Isso foi uma boa ajuda para as aldeias de várias maneiras, incluindo porque ajudam no ensino nas escolas.

Outra responsabilidade é a criação de indústrias locais. O Nepal importa quase tudo da Índia e a indústria do nosso país é muito atrasada. Quando ia para a minha aldeia, vi alguns jovens, incluindo estudantes, a construir uma máquina para bombear água de poços profundos. Alguns engenheiros vêm de vez em quando de Katmandu para ajudar e supervisionar. Também há pequenas indústrias caseiras. Por exemplo, numa das aldeias, as pessoas aprenderam a fazer velas para pôr à venda no mercado. E que ardem muito bem. Como em muitas aldeias não há electricidade, as velas são muito importantes.

Outra indústria é a do calçado. Numa das aldeias, havia um homem que fazia bons sapatos. Os aldeões juntaram-se e pediram-lhe que os ensinasse a fazer sapatos. Agora estão a produzir sapatos para o mercado. Também usam couro, agora que as vacas já não são sagradas. Biscoitos e batatas fritas são outros artigos produzidos pelas indústrias caseiras. Um contingente do Exército Popular de Libertação estava a atravessar uma aldeia e viu batatas na loja local. Ficaram surpreendidos porque o antigo estado [a monarquia] bloqueou as zonas sob controlo do partido e muitas coisas não estão disponíveis nas aldeias. Os camponeses disseram-lhes que agora as faziam eles mesmos. Os soldados disseram que eram mais deliciosas que as batatas indianas importadas.

Claro que estas indústrias não se podem desenvolver muito rapidamente. Estamos numa situação de guerra e não temos paredes à volta das nossas zonas. Por vezes o Exército Real entra nelas. Durante a emergência, por várias vezes o ERN veio à minha aldeia e destruiu a porta da nossa casa. O meu pai arranjava a porta de cada vez que era destruída, mas finalmente desistiu. Era caro e eles podiam vir e derrubá-la novamente. Quando vêm, se podem, queimam e partem tudo. Até queimam os mantimentos. Mas, desde que a guerra começou, as vidas das pessoas ficaram mais ricas, de modo que os crimes do inimigo fazem com que as pessoas, especialmente as das classes mais baixas e as mulheres, lutem com muito mais determinação por um mundo que sabem que será seu.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese