Rei do Nepal faz golpe de estado – “A última loucura da clique feudal”
7 de Fevereiro de 2005. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

A 1 de Fevereiro, o Rei Gyanendra do Nepal tirou a máscara da monarquia constitucional e tomou abertamente todo o poder nas suas próprias mãos. Demitiu o governo que ele próprio tinha nomeado, dissolveu o parlamento e mandou prender os líderes dos partidos parlamentares. Também declarou o estado de emergência e suspendeu os direitos políticos garantidos pela Constituição de 1990 e proibiu especificamente qualquer crítica na comunicação social à monarquia ou ao Exército Real, bem como todas as manifestações e outras formas de protesto. Desencadeando aquilo a que o Partido Comunista do Nepal (Maoista) apelidou de “brutalidade feudal fascista”, os soldados do rei invadiram as ruas de Katmandu e da cidade de Pokhara. Há relatos do exército a disparar sobre estudantes nos seus dormitórios nessas cidades. Crê-se que foram presos centenas de estudantes, bem como outros tantos quadros dos antigos partidos políticos legais, mas esses números são impossíveis de confirmar dado que os soldados ocuparam as instalações da comunicação social e que detiveram mesmo correspondentes estrangeiros. De facto, inicialmente todos os voos foram cancelados e os telefones e ligações internet estiveram cortados durante uma semana.

Respondendo à actuação do rei nesse mesmo dia, o PCN(M) declarou: “A aristocracia feudal é responsável pela lastimosa situação do país e do povo e chegou a altura de a atirar para o caixote do lixo da história. Através da luta de classes de 1990 e dos nove anos da Guerra Popular, as massas nepalesas mostraram para além de qualquer dúvida que conseguem cumprir a sua tarefa histórica de estabelecer uma república... O nosso Partido apela vigorosamente aos partidos políticos de todo o país, às massas intelectuais, à sociedade civil e às massas de todos os níveis e convicções para que criem uma tempestade de revolta nacional unificada, sob a palavra de ordem mínima comum de uma república democrática popular e uma assembleia constituinte, contra esta última loucura da clique feudal.” Nessa declaração, o Presidente Prachanda apelou a “todas as forças políticas e às largas massas para que parem o Nepal” de 2 a 4 de Fevereiro contra a “tentativa do rei para empurrar a sociedade nepalesa do século XXI para trás, para o século XV.”

Durante esses dias, as forças de segurança saíram em força para a rua nas duas principais cidades do país. Os soldados entraram nas fábricas, nas empresas e nas escolas e ordenaram que permanecessem abertas. Não há relatos sobre o que se passou em cidades mais pequenas e nos campos que na sua maior parte estão sob controlo dos maoistas. Imediatamente após esta greve geral, a 4 de Fevereiro, o Camarada Prachanda emitiu outro comunicado e definiu um plano para lutas futuras. Avisou que se o rei não anulasse a sua proclamação, o Partido convocaria uma greve nacional por tempo indefinido, com início a 13 de Fevereiro, no 9º aniversário do início da Guerra Popular, e apelou “às forças políticas, à sociedade civil, à comunidade intelectual, aos jornalistas e a todos os níveis e sectores do povo para que armazenem os bens necessários ao consumo diário e apoiem o nosso movimento por todos os meios que o possam levar à vitória.” O regime anunciou que qualquer pessoa que comprasse comida e combustível extra seria presa. Alguns relatos indicam que helicópteros do Exército Real atacaram o Exército Popular de Libertação no Nepal ocidental.

Esta não foi a primeira vez que Gyanendra demitiu ministros que ele próprio nomeou. Contudo, apesar das suas tentativas para esconder a natureza do seu regime atrás de um parlamento e da vontade dos partidos parlamentares em alinharem com essa farsa, o país permanece em crise política desde que ele foi coroado em 2001, depois do assassinato do seu irmão, o anterior rei. O PCN(M) e a maioria dos nepaleses acreditam que ele esteve por trás do massacre do palácio. Agora, com o seu ataque ao parlamento, Gyanendra está a tentar ganhar um certo apelo populista ao denunciar a corrupção dentro desses partidos – como se ele não estivesse envolvido em todo o tipo de actividades corruptas e assassinatos. Ficou claro para todos que a sociedade está polarizada entre os maoistas e uma monarquia que se baseia em pouco mais que o Exército Real. Com o “auto-golpe” do rei, o país entrou no que Prachanda chamou de “um ponto decisivo, uma batalha decisiva entre autocracia e república”.

Em Agosto passado, o PCN(M) concluiu que o equilíbrio de forças entre as forças revolucionárias e o regime se tinha alterado e que a Guerra Popular tinha entrado na fase da ofensiva estratégica. A “última loucura da clique feudal” reflecte essa situação de vida-ou-morte para o regime. O Partido também avisou em Agosto passado que o avanço do poder popular em direcção à tomada do poder político a nível nacional também aumenta o perigo de uma intervenção expansionista e imperialista indiana. A declaração de 1 de Fevereiro de Prachanda referia a mão da “reacção estrangeira contra o país e o povo” por trás do golpe do rei. “A chama da Guerra Popular continuará a brilhar até que o chamado Exército Real – derrotado em todas as frentes pelo grandioso Exército Popular de Libertação sob a direcção do nosso Partido – seja dissolvido e as suas armas sejam entregues ao EPL”, disse. O presidente do Partido apelou aos soldados e aos oficiais do Exército Real para que desafiem a proclamação do rei, se revoltem e se juntem ao Exército Popular de Libertação para “proteger a independência, a soberania e a integridade geográfica do Nepal”. Também apelou “a todas as forças do mundo favoráveis ao povo para que levantem as suas vozes contra este passo autocrático e a favor do movimento democrático do povo nepalês”.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese