Nepal: O massacre de apoiantes maoistas em Dang
14 de Abril de 2008. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

Na noite de 7 de Abril, a imprensa nepalesa começou por relatar que membros maoistas da Liga Comunista da Juventude (LCJ) tinham emboscado na cidade de Dang o candidato Khum Bahadur Khadka, do Partido do Congresso do Nepal, cercando o seu carro e disparando. Morreram sete membros da LCJ e 25 ficaram feridos. Segundo o jornal Kathmandu Post, Khadka “evitou as balas, de alguma forma” e uma das notícias descrevia uma “longa troca de tiros que durou 15 minutos” entre os dois lados. Um “fonte governamental” disse ao Kathmandu Post que “a polícia disparou mais de 80 tiros quando os militantes maoistas dispararam indiscriminadamente contra elas”.

Dang situa-se no sudoeste do Nepal, um histórico local de atrito durante os anos da guerra popular. É a cidade mais próxima das históricas zonas libertadas de Rolpa e Rukum. As emoções tornaram-se particularmente elevadas durante a campanha eleitoral, porque, em 2003, a zona foi cenário de intensos e repetidos confrontos entre a guerrilha maoista e o Exército Real do Nepal. A própria cidade era o último posto avançado do velho estado antes de se chegar às zonas libertadas e era um ponto de concentração das forças especiais militares, da polícia secreta e dos serviços secretos estrangeiros.

Os relatos noticiosos dessas mortes ocorreram no meio de uma tempestade de acusações aos maoistas pela violência, embora os maoistas tenham sido de longe o partido que mais mortes sofreu durante a campanha eleitoral (antes do massacre de Dang, tinham sido mortos sete maoistas e um membro do UML), sobretudo às mãos da polícia. Os jornais do Nepal levaram a cabo uma persistente campanha para associarem os maoistas à violência contra pacíficos candidatos democráticos e retratarem-nos como pouco mais que arruaceiros e gângsteres – criando uma opinião pública favorável às acções policiais contra eles. Apenas quatro dias antes das eleições, o Kathmandu Post tinha na sua primeira página as seguintes manchetes: “Implacável agitação da Liga Comunista da Juventude” e “Maoistas levam a cabo ataques contra partidos rivais”.

A comunicação social não falava nos gângsteres que guardavam os candidatos e protegiam o processo eleitoral em todo o país – as forças policial do Nepal que, sob a direcção dos governos liderados pelo Partido do Congresso e pelo UML, tinham acumulado ano após ano um dos piores registos de direitos humanos do mundo, segundo grupos internacionais de direitos humanos como a Amnistia Internacional. Mais, eles levaram a cabo os seus crimes sangrentos em defesa de um sistema social que tem condenado a grande maioria do povo do Nepal a uma vida de infinita labuta, pobreza e fome.

Nem disseram nada sobre o que representa a LCJ: jovens que têm sido activos combatentes ou apoiantes da guerra de libertação que durante dez anos sacudiu o Nepal; que foram pioneiros na luta pela libertação das mulheres – as fileiras dos maoistas eram praticamente o único lugar onde os jovens e as jovens podiam respirar livremente, sem a embrutecedora atmosfera dos casamentos arranjados e da autoridade patriarcal que os sufocava. Eles eram ferozes a lutar contra todo o tipo de discriminação. Por exemplo, quando os membros da LCJ se conhecem pela primeira vez, perguntam uns aos outros apenas os primeiros nomes. Em nepalês, o apelido é frequentemente indicativo da casta e eles não queriam ser influenciados por isso.

Mas as notícias da imprensa sobre as mortes em Dang não se ajustavam aos factos. Se tivesse havido uma troca de tiros de 15 minutos, porque é que os maoistas tinham sido os únicos a serem mortos e feridos, e nem um único polícia ou activista do Congresso do Nepal o foi? Também convenientemente ignorado por esses relatos foi o facto de que a polícia nunca alegou ter encontrado nenhuma arma nos mortos e feridos maoistas.

Depois de terem vindo a lume os relatórios da investigação, mesmo Jimmy Carter teve que chamar “assassinatos” às mortes dos jovens maoistas.

Os resultados da investigação revelaram que por volta das 8 h da noite, na estrada perto de Lamahi, um grupo de 40 ou 50 membros da LCJ interceptou um grupo de jovens do Congresso do Nepal vindo das cidades de Katmandu e Pokhara. Um relato dizia que eles estavam envolvidos numa das práticas há muito estabelecidas do Partido do Congresso (o principal partido dominante, próximo do Partido do Congresso da Índia): pagar às pessoas para votarem neles – só que desta vez eles tinham tentado comprar alguns apoiantes maoistas, que prontamente os denunciaram. Alguns dias antes, um candidato de outro partido de direita (o RJP) tinha sido apanhado pela LCJ de uma forma semelhante, quando distribuía subornos. Ele tinha consigo 40 000 rupias (6500 dólares) em dinheiro, uma enorme quantia no Nepal. Na noite de 7 de Abril, a LCJ apanhou 33 jovens do Congresso do Nepal e tentaram entregá-los à polícia, tal como o tinham feito em várias outras ocasiões. O candidato Khadka do Partido do Congresso parece ter vindo em seu socorro, acompanhado por um grande contingente de polícias à paisana, e a polícia decidiu libertar de novo os jovens do Congresso. Isso gerou protestos dos jovens maoistas e a polícia prontamente abriu fogo sobre eles. Nem um único polícia ou activista do Congresso foi tratado a qualquer ferimento. Uma testemunha ocular, Keshav Pandey, disse ao jornal Himalayan que não tinha havido nenhuma troca de tiros e que a polícia tinha “aberto fogo indiscriminadamente”.

Os camaradas cujas vidas foram sacrificadas nesse massacre a sangue frio foram Min Bahadur Pun, Labaru Chaudhary, Jiulal Chaudary, Purnajung Sen, Chet Bahadur Budhathoki, Sital Chaudary e Prakash GM.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese