Entrevista: As negociações no Nepal
6 de Novembro de 2006. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

A secção de Frankfurt do Movimento de Resistência Popular Mundial (MRPM) entrevistou Khimlal Devkota durante a visita dele à Europa. Devkota é membro da equipa do Partido Comunista do Nepal (Maoista) para as negociações com o actual governo do Nepal. O texto que se segue é uma transcrição não oficial editada dessa entrevista de 19 de Setembro.

Secção de Frankfurt do MRPM: Pode dar-nos, por favor, uma pequena introdução pessoal?

Khimlal Devkota: Sou Khimlal Devkota. Estou a trabalhar no movimento da guerra popular e sou actualmente membro do secretariado do Partido Comunista do Nepal (Maoista) para as negociações. Também sou membro do comité central do Conselho Popular Revolucionário Unificado e agora membro do comité de elaboração da constituição interina.

P: Agora que está na Europa, qual é o seu propósito principal e o significado da sua presença aqui? Que objectivos quer atingir com esta visita?

R: Nós gostaríamos de partilhar a nossa experiência em todo o mundo; esse é o nosso objectivo. Recentemente, uma organização com base em Hamburgo convidou-me como representante do PCN (Maoista). Eles queriam conhecer e partilhar as experiências relacionadas com o futuro do Nepal. Visitei Bruxelas e estou agora aqui na Alemanha.

P: Qual tem sido a sua experiência com os diferentes tipos de pessoas e organizações na Europa?

R: Tenho orgulho em dizer que estou realmente contente por conhecer amigos na Europa. Eles estão muito interessados na guerra popular no Nepal, no PCN (Maoista) e no processo de paz em curso no Nepal. Foi um grande prazer e uma oportunidade única para falar de algumas coisas com os amigos.

P: Fale-nos sobre os 19 dias do movimento popular de Abril deste ano.

R: O pano de fundo do movimento de 19 dias foram os dez anos da guerra popular. O principal objectivo do movimento popular foi estabelecer uma república no Nepal.

P: Em sua opinião, quais foram os aspectos positivos e negativos do movimento popular de 19 dias?

R: No movimento popular de 19 dias houve tanto aspectos positivos como negativos.

Direi primeiro os aspectos positivos, a maior parte das pessoas participou no movimento. A maior parte das pessoas elevou a sua voz contra a monarquia, contra o feudalismo, contra o sistema do estado unitário e estava completamente a favor de uma república, da democracia, da mudança e da paz com uma perspectiva de futuro. As pessoas pediam ao Exército Popular de Libertação que lhes dessem armas para afastarem a monarquia, o palácio e o feudalismo.

Agora olhemos para o lado negativo. Durante o movimento de 19 dias, os líderes da aliança dos sete partidos [os partidos parlamentares que chegaram ao governo em resultado desse movimento] deveriam ter liderado o movimento, mas isso não aconteceu. Só alguns líderes estiveram presentes no movimento. O movimento poderia ter resultado numa república mas, devido à falta de liderança, foi perdida uma importante oportunidade para o estabelecimento de uma república e de extinguir para sempre a monarquia no Nepal. Agora interrogamo-nos sobre se a aliança dos sete partidos tinha algum acordo secreto com o palácio. Esse também foi o aspecto mais negativo do movimento de 19 dias.

P: Neste momento, qual é a relação entre a aliança dos sete partidos e a monarquia?

R: Neste momento, alguns dos principais partidos da aliança dos sete partidos estão muito próximos do palácio. Indirectamente, estão a defender os interesses do palácio e são instrumentos ao serviço do palácio. Por isso, têm muito pouca confiança das massas e já não são bem vistos pelo movimento popular.

P: Quais acha que são as dificuldades e os obstáculos ao processo democrático no Nepal?

R: Há tantas dificuldades. Elas são: primeiro, o conservadorismo; segundo, o feudalismo; terceiro, a monarquia autocrática: e quarto, a falta de vontade da aliança dos sete partidos de aceitar uma mudança com uma perspectiva de futuro. Suspeitamos que a aliança dos sete partidos tem alguns acordos com o palácio. Estes são os principais obstáculos ao processo democrático no Nepal.

P: Qual é a actual situação da vida das diferentes classes no Nepal e quais são as suas perspectivas?

R: A situação da vida e do nível de consciência do povo do Nepal é muito diversa. Há os que tudo têm e os que nada têm. Um pequeno punhado de pessoas tem um padrão de vida europeu, mas a maioria está a viver em condições difíceis e miseráveis. Vive no limite, não tem medicamentos, nem educação, nem emprego. Isso tem um impacto ao nível da consciência das pessoas. Os que tudo têm seguem a cultura feudal. Querem preservar o actual estado das coisas e alguns querem o restabelecimento da regressão [a monarquia total]. A maior parte das pessoas é revolucionária e a maioria deseja uma mudança com uma perspectiva de futuro. Há um fosso enorme entre os que tudo têm e os que nada têm e entre os correspondentes pensamentos regressivo e revolucionário.

P: Quais são os diferentes objectivos das forças democráticas, progressistas e antimonárquicas, incluindo as forças maoistas?

R: Em primeiro lugar, acho que o objectivo não só dessas forças mas o objectivo da nação é desmantelar o estado unitário, o feudalismo e a monarquia autocrática e estabelecer um federalismo republicano. Em segundo lugar, no Nepal há muitas nacionalidades oprimidas, há desigualdade de género e desigualdade cultural e linguística. Por isso, a todas essas classes oprimidas, géneros oprimidos e nacionalidades oprimidas deveria ser dado o poder e o direito à autodeterminação. Estes são os objectivos fundamentais que podem democratizar a nação e dar o poder às classes oprimidas, aos géneros e outros grupos oprimidos. Em concreto, os objectivos vão contra a monarquia, contra o sistema feudal unitário e pelo estabelecimento de um sistema democrático completo, um sistema republicano e federal.

P: Que forças estão contra a democracia e a revolução e também contra o processo de paz?

R: Há forças internas e externas. Dentro do país, o palácio e o exército estão contra a democracia, contra a revolução, contra a mudança e contra o estado e o povo. Externamente, a maior parte das forças imperialistas está contra a mudança, contra o Nepal e contra o povo nepalês. Também são fortemente contra a democracia e a mudança com uma perspectiva de futuro e sobretudo contra o actual processo de paz.

P: Pode dizer-nos brevemente qual o papel que elas representam?

R: Elas estão sempre a criar obstáculos ao processo de paz. Diga-se que a aliança dos sete partidos e os maoistas já concordaram e assinaram um acordo em 12 pontos, um acordo em oito pontos e também um acordo em cinco pontos. Mas eles estão todos a criar obstáculos à sua execução, implementação e ao levar desses acordos à prática. Quando os maoistas e a aliança de sete partidos assinaram o acordo em oito pontos, no próprio dia seguinte as forças imperialistas, o palácio real e o Exército Real estavam a preparar um nó conspirativo contra a implementação do acordo em oito pontos. Não só isso, eles também quiseram perturbar o processo de paz ao fornecerem armas mesmo durante a fase do processo de paz.

P: No próximo ano, o que é que acha que vai acontecer no Nepal?

R: Acho que o processo de paz prosseguirá num sentido positivo depois de a constituição interina ser proclamada, de a legislatura interina ser estabelecida e de o parlamento ser dissolvido. O governo interino irá decidir as eleições para uma assembleia constituinte. Esperemos que dentro de um ano uma nova constituição seja elaborada pela assembleia constituinte e que o processo de paz e a democracia sejam consolidados.

P: Se as coisas não seguirem no sentido positivo que você descreve, quais são as opções alternativas?

R: Se esse sentido positivo for adiado, dentro de um ano a maior parte das pessoas certamente sairá à rua uma vez mais para protestar e resistir não só durante 19 dias mas, se necessário, 29, 39 ou mesmo 49 dias. Nessa altura, o movimento popular levantar-se-á. O movimento popular pelo poder para o povo obrigará as forças regressivas e conservadores a regressarem à mesa das negociação e a realizarem eleições para uma assembleia constituinte, a reiniciarem o processo de paz e a reestruturarem o estado.

P: Pensa que as pessoas estão prontas a sair à rua novamente se o processo de paz entrar num sentido negativo?

R: Sim, claramente. O povo do Nepal ama a paz e é muito favorável à mudança, à paz e à justiça em democracia e com uma perspectiva de futuro. Se as forças conservadoras não levarem isso à prática, a maioria das pessoas sairá à rua e chamará os maoistas a liderarem o movimento. Tenho muita confiança em que elas sairão à rua com certeza.

P: Deixe-nos mudar um pouco de assunto. Sabemos que o camarada Gaurav voltou a ser preso. Em sua opinião, o que é que isso significa?

R: Como é costume, isso são coisas feitas pelas forças imperialistas, pelas forças conservadoras e pelas forças que não querem o sucesso do processo de paz no Nepal, que não gostam da mudança com uma perspectiva de futuro e que estão a obedecer às ordens dos EUA. Hoje em dia, os EUA interferem não só no Nepal mas também na Índia e isso é uma posição muito mesquinha da parte da Índia, na minha opinião.

P: O MRPM lançou na Europa diferentes campanhas pela libertação urgente do camarada Gaurav, do camarada Kiran e dos outros maoistas nepaleses detidos na Índia, na China e noutros países. Ouviu falar dessas campanhas no Nepal? Se sim, o que é que pensa dessas campanhas?

R: Sim, claro. Ouvi dizer que o MRPM fez um trabalho muito bom e efectivo pela libertação do camarada Gaurav, do camarada Kiran e de outros camaradas detidos na Índia, mas neste momento eles estão presos na Índia. Acho que o MRPM e outras organizações, instituições e grupos têm que iniciar uma outra campanha mais efectiva que possa libertar todos os nossos camaradas.

P: Temos ouvido dizer que diferentes organizações de massas no Nepal, como as dos jovens, dos estudantes, dos operários e das mulheres, estão actualmente a organizar congressos um a um. Pode, por favor, dizer-nos quais são os seus objectivos e para que é que se estão a preparar?

R: Em primeiro lugar, eu diria que organizar convenções faz parte da sua rotina. Elas têm que realizar conferências, convenções e congressos nacionais. É uma obrigação regular de todas as organizações de massas. O segundo ponto é que elas estão muito indignadas com as forças regressivas e conservadoras que estão a dificultar o processo de paz e a realização de eleições para uma assembleia constituinte. O terceiro ponto é que se as forças regressivas não estiverem dispostas a realizar eleições para uma assembleia constituinte, as organizações de massas têm que reorganizar o movimento popular. É por isso que elas também se estão a preparar para isso. Além disso, se a realidade objectiva exigir outro tipo de revolta ou revolução, elas estão a preparar-se para também satisfazerem essa necessidade.

P: O que é que espera que as pessoas aqui na Europa façam pelo sucesso do processo de paz, da democracia, da revolução, da abolição da monarquia e sobretudo a favor do Nepal e da vitória do povo nepalês?

R: Em primeiro lugar, o sucesso do processo de paz no Nepal seria uma grande mensagem para as forças imperialistas do mundo inteiro. O sucesso do processo de paz no Nepal não é apenas para o povo do Nepal; seria um símbolo de vitória para as forças progressistas do mundo inteiro. Por isso, representar um papel vital no sucesso do processo de paz torna-se o principal dever dos povos da Europa. Em segundo lugar, as pessoas progressistas na Europa com ideias de mudança têm que lançar campanhas mais efectivas para esmagar todos os obstáculos criados pelas forças imperialistas para impedir o actual processo de paz no Nepal. Em terceiro lugar, gostaria de pedir às pessoas na Europa que levassem a cabo as suas melhores iniciativas de forma a assegurarem a vitória do actual processo de paz.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese