Dois relatos da 2ª Brigada Internacional para a Construção de uma Estrada no Nepal
17 de Julho de 2006. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

Recebemos os dois relatos seguintes de membros da 2ª Brigada Internacional para a Construção de uma Estrada no Nepal, que aí estiveram em Abril durante os dias tumultuosos das manifestações de massas contra a monarquia. O Governo Autónomo Magarat, um governo revolucionário dirigido pelos maoistas numa zona ocidental do Nepal, tinha apelado a voluntários de todo o mundo para ajudarem a construir uma estrada de 90 quilómetros, ao lado das muitas dezenas de milhares de camponeses da região. Mantida há muito tempo numa situação de atraso pelos governantes do Nepal em Katmandu, a região Magarat tem sido um bastião da guerra popular que há uma década é dirigida pelo Partido Comunista do Nepal (Maoista). O objectivo da estrada é ligar a região ao resto do país e ao mundo e ajudar a edificar uma nova economia nepalesa auto-suficiente e livre do domínio feudal e estrangeiro. (Ver o material de referência e um relato da 1ª Brigada, no Serviço Noticioso UMAG de 23 de Janeiro de 2006). Estas brigadas de trabalho incluem pessoas com diferentes perspectivas políticas e diferentes experiências que têm em comum o entusiasmo por uma nova sociedade que luta por ver a luz do dia no Nepal e a vontade de divulgar a sua experiência no seu regresso.

Os relatos reflectem as diferentes experiências de dois grupos de voluntários que acabaram por ficar separados a maior parte do tempo. O primeiro grupo era constituído por voluntários originários do Irão e do Afeganistão. O segundo por voluntários da Grã-Bretanha e da Irlanda. Os relatos foram ligeiramente editados para publicação. (Para mais informações: http://www.indymedia.ie/article/76924)

Contacto dos organizadores da Brigada: aroadtothefuture@yahoo.com


“Uma luta para mudar o mundo”

À chegada a Katmandu, eu e outro voluntário da Brigada descobrimos que tinha sido convocada uma greve geral pelo Partido Comunista do Nepal (Maoista) e pela Aliança dos Sete Partidos (a ASP, um grupo de partidos legais que se opuseram à dissolução do parlamento pelo Rei). Em Katmandu, todos os transportes, lojas e agências governamentais estavam fechados, numa expressão do ressentimento do povo contra o regime reaccionário do Rei Gyanendra. Depois de termos encontrado lugar num hotel, saímos para as ruas da cidade para dar um passeio.

O ambiente da cidade e as caras das pessoas radiavam um espírito revolucionário. O regime reaccionário do Rei Gyanendra estava na outra ponta da fúria revolucionária do povo. O dia acabou sem ter havido nenhuma grande manifestação de rua, embora muitas pequenas acções tenham ocorrido por toda a cidade.

O apavorado governo de Gyanendra tinha decretado um recolher obrigatório entre as 10 da manhã e as 9 da noite para impedir a disseminação das manifestações populares e arrefecer a temperatura revolucionária. A princípio, a greve geral era só para durar três dias. Mas a repressão fez ricochete sobre o governo e amplificou a paixão revolucionária do povo e o seu espírito de resistência. O povo estava irritado com os governantes e indignado com a presença nas ruas do exército e das forças armadas. Os veículos militares estavam em movimento constante e ocupados a posicionarem as suas forças. A repressão governamental estava em todo o lado e a movimentação de pessoas pela cidade estava estritamente proibido. Já tinham sido presas várias pessoas. O governo tinha dado às suas forças armadas ordens para disparar. Estavam a chegar dias que abalariam o mundo e a calma desse dia trazia a mensagem do assomar de uma grande tempestade política

Estávamos a tentar chegar às zonas libertadas o mais cedo possível. Alguns membros da equipa, vindos da Grã-Bretanha e da Irlanda, esperavam-nos numa das cidades do Nepal Ocidental, para que pudéssemos ir juntos rumo a Rolpa para participarmos no projecto de construção de uma estrada. A falta de transportes devido à bandh (greve) nacional tornou-nos a tarefa extremamente difícil. As inusitadas circunstâncias desorganizaram todos os nossos planos. Dia após dia, apesar da enorme repressão governamental, Katmandu foi palco de gigantescas manifestações de massas. Inicialmente, o nosso esforço para partir para o Nepal Ocidental não teve êxito. Mas finalmente conseguimos. Quando nos juntámos todos, discutimos imediatamente como chegar ao local de construção da Estrada dos Mártires em Rolpa. A situação política na cidade era muito parecida à de Katmandu: todo o comércio, transportes e escritórios estavam fechados. Só circulavam veículos das Nações Unidas, de vez em quando, sob uma grande segurança. A situação política na cidade era tensa. As massas populares da cidade e das aldeias manifestavam-se todos os dias no centro da cidade e lutavam pela sua justa causa. A principal e mais imediata reivindicação das massas era o afastamento de Gyanendra do poder político.

Alguns dias depois, alguns de nós decidiram caminhar cerca de 16 quilómetros até à estrada, para ver se fora das cidades haveria veículos em circulação que nos pudessem levar às zonas libertadas. À tarde, regressaram exaustos depois de terem andado 32 km sob um calor de 38° C. Nos seus olhos brilhava uma grande convicção na sua causa de chegarem às zonas libertadas. Mas não havia mesmo nenhum veículo em circulação. Pensámos em tomar uma medida drástica: ir de bicicleta até às zonas libertadas. Mas seria possível andar 150 km de bicicleta nos contrafortes dos Himalaias?

Todos os dias, enquanto estávamos sentados no nosso hotel a discutir, a televisão divulgava notícias sobre as manifestações populares e informava que as massas tinham sido atingidas e que muita gente tinha sido presa.

Nos dias seguintes, testemunhámos muitas pequenas e grandes manifestações. Discutimos com alguns habitantes locais a possibilidade de queda de Gyanendra. Alguns deles falavam de duas diferentes frentes envolvidas em batalha: uma frente encabeçada por Gynanadra, pelo Exército Real do Nepal (ERN) e pelas classes burguesas e feudais; e uma outra frente composta pelo PCN(M), pelo Exército Popular de Libertação e pelas massas populares das cidades e do campo. Algumas pessoas davam pouca importância à Aliança dos Sete Partidos; achavam que as verdadeiras forças são o Rei de um lado e os maoistas do outro. O regime dominante está a tentar criar uma divisão entre a ASP e os maoistas, diziam elas. O governo promete “democracia” e o restabelecimento do parlamento e ao mesmo tempo mostra os seus dentes aos maoistas que lideraram dez anos de uma guerra popular libertadora pelo poder popular.

O tempo estava a passar depressa e o momento de deixar o Nepal aproximava-se rapidamente. Alguns de nós que iam ficar mais tempo antes de partir decidiram viajar de bicicleta até às zonas libertadas. Os outros que tinham de ficar para trás assumiram a responsabilidade de actuar como comité de apoio: no caso de alguma coisa acontecer aos primeiros, deveríamos agir depressa para os apoiar.

Na manhã seguinte, era altura de dizer “adeus” aos nossos amigos. Eles compraram bicicletas com o objectivo de viajar 200 km para manifestarem o seu apoio e solidariedade. Para dizer a verdade, não houve muitos outros acontecimentos na minha vida de que tenha saudades como este, de estar com pessoas determinadas e cheias de esperança e espírito revolucionários. Separámo-nos uns dos outros e começou a nossa espera por sinais da sua chegada às zonas libertadas.

Na cidade onde estávamos, a dimensão das manifestações aumentava cada vez mais e as reivindicações e slogans populares radicalizavam-se cada vez mais. No dia seguinte, sentimos uma atmosfera invulgar na cidade. Estava prevista uma gigantesca manifestação. Um enorme número de pessoas chegara das aldeias à volta da cidade. Cada momento estava cheio de esperança pela vitória da luta popular. Mesmo assim, tinha a seguinte questão no meu pensamento: quando é que o povo oprimido do Nepal vai obter uma vitória completa e derrotar os lacaios do imperialismo? Apesar disso, saudámos a sua coragem revolucionária; a sua luta revolucionária ceifou 13 000 vidas e 1400 pessoas estão “desaparecidas”. O tempo passa rapidamente; a revolução e a contra-revolução estão em guerra entre si para definir o futuro. Devo referir que, nas cidades, entre as pessoas que se manifestavam, o número de mulheres parecia não ser elevado, enquanto no interior os revolucionários foram capazes de dar uma consciência política revolucionária a um grande número de mulheres das massas e de permiti-las representar um imenso papel nesta luta para mudar o mundo. Um desenvolvimento significativo que observámos nas manifestações nas cidades foi a impotência das forças armadas para controlarem as massas. O exército, que durante tanto tempo assassinou pessoas inocentes, enfraquecia e parecia estar a perder esperança no governo de Gyanendra, o que me fazia recordar a revolução iraniana de 1979.

Os dias imediatamente a seguir passaram muito rapidamente. Delegações oficiais da Índia e da China estavam a chegar a Katmandu. Todos os diplomatas estrangeiros descreviam a situação como sendo na ponta da navalha, havendo a possibilidade de uma verdadeira revolução no horizonte. As pessoas sentiam claramente o mesmo. Gyanendra também estava ocupado com manobras de bastidores, apenas com a ASP, tentando de alguma forma salvar a face.

Os nossos amigos telefonaram-nos com a boa notícia de que tinham chegado. Com isso, partimos para Katmandu. O recolher obrigatório tinha sido declarado em Katmandu do meio-dia às 8h da noite. As massas protestaram contra isso e saíram imediatamente às ruas; parece que houve cerca de 100 000 pessoas. A situação parecia muito má para o regime. O governo reaccionário estava, por um lado, empenhado em jogos políticos com a ASP e, por outro, respondia com balas às justas reivindicações das massas populares. Nessa noite, os maoistas atacaram um posto policial perto de Katmandu. Essas notícias foram publicadas com grandes manchetes nos jornais.

O governo decretou de novo o recolher obrigatório na capital, das 11h às 18h. Dado que estávamos no centro da cidade, uma zona fortemente patrulhada, ficámos sobretudo no nosso quarto de hotel. À noite, falámos com amigos que tínhamos conhecido em Katmandu e discutimos o que se estava a passar e, pelo nosso lado, falámos-lhes da história e da luta no Afeganistão e no Irão.

Passava da meia-noite quando ouvimos as massas festejar alegremente, dançando e cantando junto à nossa janela. Não sabíamos o que estava a acontecer, mas na manhã seguinte soubemos que Gyanendra tinha aceitado a derrota e ia reabrir o parlamento para a ASP. Infelizmente para nós, era quase tempo de deixar Katmandu.


De bicicleta até às zonas libertadas

O momento em que a luta do povo nepalês contra a monarquia feudal e autocrática e pela instauração de uma república democrática atingia um ponto alto, durante o mês de Abril, coincidiu com a chegada da 2ª Brigada Internacional para a Construção de uma Estrada no Nepal. Enquanto o velho mundo feudal opressor e explorador começava a ser atacado e desmantelado nas cidades e vilas do país, o desafio da edificação da nova república popular continuava nas zonas libertadas dirigidas pelo Partido Comunista do Nepal (Maoista). Um elemento recente importante nesta edificação tem sido a construção dos 91 quilómetros daquela que é conhecida como Estrada dos Mártires. Organizadas pelo Governo Republicano Popular Autónomo Magarat, um governo eleito pelo povo na principal zona libertada, as organizações de massas têm estado empenhadas na construção de uma estrada para veículos motorizados, e o apoio moral e material das massas ajuda a criar as infra-estruturas da nova sociedade do povo. A 2ª Brigada Internacional para a Construção de uma Estrada no Nepal incluía pessoas vindas do Afeganistão, do Irão, da Grã-Bretanha e da Irlanda e foi constituída com o objectivo de viajar até Rolpa para trabalhar nessa estrada durante o mês de Abril.

Quando o grupo se reuniu numa cidade do Nepal Ocidental, o país estava paralisado por protestos e por uma bandh (greve geral) de âmbito nacional contra a monarquia, que não só fizeram fechar todas as lojas e estabelecimentos comerciais, como também afastaram das estradas todos os veículos motorizados. Ficámos limitados, mas também situados no local ideal para testemunhar um dos muitos protestos contra a monarquia fora de Katmandu. Um dos principais focos da fúria das massas era um monumento dedicado ao rei. Esse monumento estava sob protecção policial paramilitar 24 horas por dia, mas continuava a ser um ponto fulcral para os manifestantes. Durante o nosso segundo dia na cidade, vimos fumo a ondular nos céus acima do monumento. Um homem passou por nós e sugeriu que tirássemos fotografias, outro gritou “olá, namaste, nós queremos uma democracia, ok!” À medida que nos aproximávamos do monumento, tinha-se juntado uma massa de cerca de 100 pessoas e mais polícias tinham chegado ao local. Tinha sido ateado fogo a quatro pilhas de pneus à volta do monumento, fazendo com que todo o monumento ao rei estivesse cercado pelo fumo. Estávamos todos espantados pela audácia da acção, face à guarda paramilitar, sobretudo porque o Movimento de Abril ainda só tinha alguns dias. Na realidade, muito mais estava para acontecer ao monumento ao Rei Gyanendra!

Além de numerosos fogos, havia inúmeras manifestações ao longo do dia, todos os dias. Esses protestos, que incluíam um grande número de mulheres, atraíam muitos membros das comunidades hindus, muçulmanas e cristãs. Também os operários, camponeses e estudantes, funcionários públicos, incluindo médicos, advogados, professores e bancários, marcharam pelas ruas. Na maior parte dos cruzamentos, os restos de pneus a arder eram uma característica constante e novos fogos apareciam a intervalos regulares. Os slogans gritados pelos manifestantes deixavam pouco espaço à reconciliação. À medida que uma dessas manifestações se aproximava de uma estátua do profundamente impopular avô de Gyanendra, Tribhuvan, um homem com um altifalante gritava “O que é que quer o Arayghat?” e a multidão respondia “O Arayghat quer Gyanendra”. O Arayghat é o cemitério real para onde parecia que muitos manifestantes queriam que fosse o Rei Gyanendra, de preferência já e não mais tarde! Também se tornou popular o apelo a “Enforcar o Paras numa árvore”. O filho de Gyanendra, o Príncipe Paras, também é muito odiado por ser o autor tanto de violações como de assassinatos e por ter ficado imune às acções legais. Previa-se que estes protestos secundários, com as massas a ficarem cada vez mais na oposição, aumentassem em número e em combatividade à medida que a campanha se intensificasse e dezenas de milhares de manifestantes se dirigissem para as cidades do interior. Porém, nos seus primeiros dias ainda não era suficientemente forte para neutralizar a polícia armada e fomos testemunhas desse impasse quando os manifestantes quiseram destruir o monumento ao Rei mas não foram suficientemente fortes para romper as barreiras policiais.

Este movimento popular era claramente contra a monarquia e mantinha uma linha geral contra o Partido do Congresso do Nepal, por este partido ser conhecido tanto por estar perto da monarquia como pela sua corrupção e ineficiência nos governos anteriores. A grande maioria dos manifestantes parecia ser a favor de uma república, que é reconhecida como a forma mais moderna de governo em contraste com a actual autocracia feudal. Muitas das pessoas com quem conversávamos falavam em se chegar a uma monarquia constitucional ao estilo britânico, mas a ideia da instauração de uma assembleia constituinte e de uma república eram infinitamente mais populares. Tentámos discutir com alguns nepaleses a natureza da sociedade na Grã-Bretanha – que descreviam como “a mãe da democracia” – tentando fazer-lhes perceber o papel da Grã-Bretanha no sistema capitalista mundial de exploração e a verdadeira falta de “democracia” e de “liberdade” no nosso país!

“Se a ASP não caminhar para uma assembleia constituinte, as massas voltarão a protestar”

Contudo, também havia alguma preocupação entre os manifestantes de a direcção da Aliança dos Sete Partidos chegar a um compromisso com a monarquia e abandonar a reivindicação popular de uma república democrática. Um homem disse-nos: “Se a ASP não caminhar para uma assembleia constituinte, as massas voltarão a protestar”. Era reconhecido que, dentro destas multidões de protesto, os maoistas constituíam uma parte importante da luta popular e portanto do campo democrático. Testemunhámos um fluxo constante de pessoas que vinham das zonas libertadas controladas pelos maoistas e vimos os tractores e reboques que esperavam à saída da cidade para os levar de regresso a casa, o que fortalecia o movimento popular nas cidades. Deste modo, os protestos nas cidades e aldeias tendiam a aumentar em dezenas de milhares de pessoas à medida que a campanha se intensificava.

O movimento popular cresceu rapidamente. As notícias indicavam que o principal protesto na cidade onde a nossa equipa se agrupou era constituído por 60 a 100 mil pessoas – nada mal para uma cidade com uma população de cerca de 60 mil habitantes! Uma vez mais, as massas nessa grande manifestação centraram a sua fúria contra o monumento ao Rei Gyanendra. A polícia defendeu a sua barreira, disparando gás lacrimogéneo e balas reais. Um activista dos direitos humanos disse-nos que uma criança tinha sido morta e que uma mulher tinha morrido depois de ter sido espancada e de terem feito explodir junto a ela uma caixa de embalagens de gás lacrimogéneo. Essa brutalidade policial evidentemente que incitou os manifestantes a tomar uma linha mais radical. Com as suas fileiras engrossadas pelas gentes do campo, os manifestantes ficaram mais que à altura da polícia armada e destruíram a estátua do Rei Tribhuvan antes de regressarem ao monumento a Gyanendra, que destruíram com tijolos e martelos, reduzindo-o a uma pilha de pedras, afixando uma faixa comemorando os mártires do movimento e içando uma bandeira vermelha sobre a estrutura demolida.

Embora entusiasmados por estarmos a testemunhar a bandh e o histórico movimento popular nas cidades pela democracia e a república e pela expulsão do Rei para fora do país, começámos a centrar os nossos pensamentos em saber como poderíamos sair da cidade e chegar às zonas libertadas, o objectivo inicial da nossa viagem. Porém, por causa da bandh, não havia trânsito nenhum nas estradas, à excepção de jipes da ONU e de organizações de direitos humanos e de camiões da polícia. Depois de perguntar, descobrimos que seria impossível viajar de transporte motorizado e, assim, embora calculássemos que a nossa jornada fosse de pelo menos duzentos quilómetros para lá e outros duzentos para cá, acabámos por assentar na ideia de ir de bicicleta! Embora parecesse arriscado, e foi certamente um último recurso, decidimos que tínhamos de confiar nos nossos próprios esforços se queríamos conhecer mais do país.

Não era fácil arranjar bicicletas, mas conseguimos. Pedalando até à Estrada de Mahendra, estávamos excitados com um novo capítulo da nossa jornada, mas imediatamente ficámos preocupados com as considerações práticas sobre onde iríamos passar a noite e se conseguiríamos obter água e comida. As temperaturas aproximavam-se dos 35°C. Quando a noite se aproximou, a nossa primeira paragem foi perto de uma aldeia a 55 km de onde tínhamos partido. Era um bastião do Partido Comunista do Nepal (União Marxista-Leninista) – o qual, apesar do nome, é um partido parlamentar e membro da ASP – e as pessoas pareciam estar a preparar-se para ir à cidade no dia seguinte para aí se juntarem aos protestos. Felizmente conseguimos encontrar alojamento e comida em casa de um camponês. Quando a escuridão chegou, as crianças da aldeia, que estavam sentadas em anel a entoar canções, decidiram de repente brincar a um papel diferente, o de manifestantes. Influenciado pelos acontecimentos que ocorriam à sua volta, um grupo de crianças marchou à volta das casas, cantando: “Gyanendra é um ladrão, tem que deixar o país!” Sentíamo-nos aliviados por estarmos num ambiente onde toda a gente parecia ser inspirada pela política.

“A polícia vinha da cidade para nos oprimir, agora nós vamos à cidade para os cercar!”

Depois de dois dias a andar 150 quilómetros de bicicleta, acabámos por chegar à última cidade importante antes de Rolpa com guarnições do Exército Real. Aí, o nosso grupo observou grandes protestos. Também aqui, os camponeses chegavam das zonas maoistas para aumentar o número de manifestantes, representando um papel decisivo nas vitórias do movimento popular. Um camponês explicou-nos: “A polícia vinha da cidade para nos oprimir, agora nós vamos à cidade para os cercar!” A partir daí era impossível continuar de bicicleta devido às íngremes estradas de montanha e fomos obrigados a subir as montanhas a pé. Pelo caminho, encontrámos grupos de pessoas que se dirigiam à cidade de onde tínhamos partido, alguns deles fazendo paragens nas bermas da estrada de modo a que as mulheres com crianças pudessem amamentar. Os habitantes locais fizeram-nos sentir muito bem-vindos e alguns deles caminharam connosco durante a nossa jornada. Quando parávamos em pequenas aldeias, invariavelmente aparecia alguém para nos oferecer água. Parecia logo um mundo diferente.

A caminhada foi uma jornada de cerca de 60 quilómetros e caminhámos com a expectativa de chegar ao último posto policial antes das zonas libertadas. No caminho, porém, o nosso grupo encontrou uma aldeia decorada com bandeiras vermelhas e slogans nas paredes. Não havia nenhum último posto policial! De facto, a influência do governo do rei não chegava a 1 km fora da cidade. Sendo um antigo posto policial, esta aldeia havia sido considerada muito perigosa à noite, com a polícia a ocupar as instalações fortificadas durante o dia. Porém, o EPL rompeu com a sua táctica mais comum de atacar à noite e atacou de manhã, destruindo o posto e matando os polícias que ainda não tinham fugido. Vimos os restos do posto, transformado agora numa pilha de pedras nos arredores da aldeia. Agora, as paredes da aldeia estavam decoradas com as frases, os cartazes e as bandeiras vermelhas com que o PCN(M) assinala o seu território.

Chegámos finalmente a Tilla Baazar, nove dias depois da data marcada para o encontro, após cerca de 60 km a caminhar pelos contrafortes dos Himalaias! O Secretário Distrital de Rolpa, Camarada Kamal, ao ouvir falar da nossa chegada, caminhou durante duas horas pelas estradas de montanha (em chinelas) para se encontrar connosco. Fez-nos sentir muito bem-vindos às zonas libertadas e fomos muito afortunados por poder passar algum tempo na sua companhia. Kamal era um homem caloroso e generoso, ligando-se a todos os camponeses com que nos cruzávamos, sem se distinguir da população local, nem mesmo nas suas chinelas! Ele apresentou-nos o Camarada Surya, coordenador do projecto de construção da estrada. Já na própria Estrada dos Mártires, na cerimónia de boas-vindas ao grupo, cada membro do nosso grupo recebeu uma marca, ou tika, colocada nas nossas testas, simbolizando o sangue dos mártires.

Quando o PCN(M) tomou o controlo do Distrito de Rolpa ao regime monárquico, afastou os tiranos locais e levou a cabo uma profunda reforma da terra. Mais recentemente, foram criadas cooperativas e comunas experimentais e novos bancos cooperativos substituíram os agiotas. A certa altura, fomos apresentados ao Camarada Birat, dirigente do Banco Cooperativo Popular da Zona de Rapti, que orgulhosamente nos mostrou os documentos do banco e nos falou da opressão do povo durante a velha era anterior à libertação, quando o povo era estrangulado pelos empréstimos dos bancos do regime feudal e pelos agiotas locais, cujas taxas de juro eram impossíveis de reembolsar e forçavam muita gente a uma virtual escravidão. Quando os camponeses não conseguiam reembolsar os empréstimos, passavam fome. Alguns foram forçados a vender os seus filhos, sobretudo as raparigas, muitas das quais acabavam a trabalhar como prostitutas. De facto, alguma da opressão mais óbvia que testemunhámos era a das mulheres. Um rapaz com quem caminhámos disse-nos que casara quando tinha 17 anos, com uma rapariga de 15, num casamento arranjado. Também nos disse que essa era a regra na sua zona. A sua mulher era analfabeta e passava o tempo apenas a criar as crianças. Um outro homem que havíamos encontrado disse-nos que era casado com duas mulheres, na realidade duas irmãs. As mulheres no Nepal sofrem uma tripla opressão, do feudalismo e do imperialismo, mas também do chauvinismo masculino. Porém, sabíamos que as mulheres nas zonas libertadas estavam a ter as suas primeiras oportunidades de integrarem a liderança das zonas locais, a hierarquia do partido e do exército, e que muitas estavam a ocupar posições elevadas. Ver mulheres a trabalhar na estrada lado a lado com os homens também foi uma poderosa imagem de como as mulheres precisam de tomar nas suas próprias mãos os meios de produção para romper as cadeias de opressão e trabalhar pela libertação.

Em zonas como Rolpa, as distâncias por estrada tendem a ser medidas não em quilómetros mas no número de horas de caminhada necessárias. A Estrada dos Mártires foi projectada para ligar a cidade de Nuwagaon a Thawang e Chunwang e também para ligar muitas das aldeias do interior de Rolpa à principal capital distrital de Dang, Gorahi. Uma vez terminada, a estrada melhorará grandemente as viagens dentro do distrito, tornando mais fácil o acesso dos jovens ao ensino superior e facilitando um melhor acesso a carências como o tratamento médico. Ficámos impressionados com o entusiasmo geral da maioria dos trabalhadores da estrada e falámos com dois voluntários que nos disseram que tinham vindo de uma aldeia muito distante, que nem sequer iria beneficiar directamente da estrada, porque queriam trabalhar “para o desenvolvimento da região e do país”. O Camarada Surya salientou que também contribuía para o desenvolvimento do mundo e que era um exemplo de desenvolvimento sem paralelo para todos os povos do mundo!

É amplamente reconhecido, mesmo entre os não maoistas, que a estrada é um passo importante nesse desenvolvimento. Inteiramente realizado pelo povo sem qualquer ajuda exterior, usando picaretas, pás e dinamite, o projecto de construção da estrada evita a maior parte dos principais problemas de desenvolvimento, incluindo um uso excessivo de técnicas de capital intensivo e a forma de pensar que se a tecnologia moderna não está disponível o trabalho não pode ser feito. Vivendo num país com uma grande dependência na “ajuda externa”, os nepaleses estão bem colocados para reconhecer os problemas inerentes a essas soluções. Dado que, com esses esquemas, normalmente o trabalho de construção da estrada seria pago, esses projectos tendem a estar sujeitos à corrupção em larga escala que, em última análise, asseguraria a drenagem do financiamento. No projecto maoista, porém, não há nenhum espaço para a corrupção e as pessoas vêem imediatamente os resultados do seu trabalho. Quanto às acusações frequentemente feitas na comunicação social ocidental de que o projecto de construção da estrada se baseia em trabalho forçado, pede-se aos voluntários que não trabalhem nele mais de 15 a 20 dias por ano. Tendo lugar durante as épocas de estagnação do trabalho agrícola, os voluntários trabalham 8 horas por dia, um facto confirmado pelas pessoas com quem falámos e que trabalhavam na própria estrada. Os dirigentes e quadros do partido e os membros do EPL também fazem trabalho voluntário na estrada ao longo do ano, lado a lado com o povo. Também há frequentes interrupções, com os dias de trabalho interrompidos por actividades culturais ocasionais com canções e danças do Nepal e da minoria local. Foi interessante ver o papel da cultura nas zonas libertadas. Numa região tão pobre, a cultura era normalmente uma actividade dos proprietários e dos capitalistas que tinham tempo para desfrutar do seu lazer enquanto outros asseguravam os seus lucros. Na Estrada dos Mártires, porém, os sorrisos nas jovens faces dos dançarinos, rapazes e raparigas, para não falar nas dos trabalhadores na audiência, mostravam-nos para quem está orientada esta nova sociedade.

“O Nosso Desenvolvimento e o Nosso Esforço”

O PCN(M) tenta desenvolver o país sem depender do imperialismo, e isso deve-se a que essas forças internacionais têm os seus próprios objectivos, que não coincidem com os interesses dos nepaleses. Os interesses do povo nepalês baseiam-se no desenvolvimento do país para todos, enquanto os objectivos dos imperialistas se baseiam em, aos países que eles dizem “em desenvolvimento”, mantê-los subdesenvolvidos e dependentes da ajuda, dos empréstimos, da tecnologia e do saber externos. Usando as suas próprias forças e desenvolvendo os seus próprios métodos, bem como adoptando alguns dos usados na China de Mao, o PCN(M) tem utilizado o projecto de construção da estrada para elevar a consciência das massas. Trabalhando sob o slogan “O Nosso Desenvolvimento e o Nosso Esforço”, este processo envolve mostrar o que pode ser conseguido colectivamente, aumentando a autoconfiança das massas, enquanto desenvolve as suas próprias técnicas para superar os problemas à medida que eles emergem.

Caminhando de regresso à cidade e saindo das zonas libertadas, viríamos a conhecer no caminho muitos grupos de pessoas, de novo pouco agregados, que nos davam a lal salaam (saudação vermelha) no seu regresso a casa depois dos protestos na cidade dos dias anteriores. Saudavam Kamal e Surya, que viajaram connosco durante a primeira parte do caminho, de uma forma calorosa e entusiástica, trocando notícias. Alguns destes grupos traziam rádios de transístores, ouvindo os noticiários à medida que caminhavam. De facto, nessa mesma noite, o Rei Gyanendra anunciou que reinstalaria o parlamento com efeito imediato e a liderança da ASP aceitou prontamente essa concessão. Nós tínhamos visto claramente como as massas das zonas rurais haviam participado decisivamente no movimento popular. Porém, será interessante verificar quanto a ASP irá representar a vontade popular nos próximos meses e se o regresso do parlamento irá ser vista no futuro como um passo fundamental para a transformação do Nepal numa república democrática.

Numa análise final, tínhamos sentimentos mistos sobre a nossa viagem ao Nepal. Embora estivéssemos entusiasmados por termos sido apanhados pelo movimento popular nas cidades, o que foi uma experiência inestimável para nós, também teríamos gostado de ter passado mais tempo nas zonas libertadas. De qualquer modo, mostrou certamente ser muito educativo para quem nela esteve envolvido. Ao aprofundar a nossa compreensão do processo revolucionário em desenvolvimento no Nepal, estamos agora mais bem equipados para ajudar a construir nos nossos países um movimento de solidariedade que se oponha à interferência estrangeira e às mentiras da comunicação social sobre a Revolução. Na altura em que o nosso grupo se despedia, o Camarada Surya proferiu um discurso durante a nossa cerimónia de despedida. Dizendo a todos os que ali estavam reunidos que nós nos iríamos opor às mentiras e à desinformação que os jornalistas têm estado a propagar no Ocidente, explicou que a Estrada dos Mártires não era apenas uma estrada para Dang, mas para todo o mundo. Quando partimos, colunas de nepaleses juntaram-se a bater palmas e nós levámos connosco a mensagem de Kamal: “Nós, no nosso partido, pedimos cordialmente às massas e aos democratas de países estrangeiros que cá venham e vejam a realidade aqui no terreno com os seus próprios olhos, que a descrevem materialmente e que exponham essas ilusões e propaganda, essas falsas afirmações. Oferecemos a nossa solidariedade às pessoas e pedimos a sua solidariedade com o nosso movimento aqui. Estamos agora a lutar por estabelecer aqui uma democracia e pedimos-lhes a todos que levem as nossas saudações vermelhas a todo o povo, ao nosso querido povo, aos democratas e aos apoiantes do MRPM [Movimento de Resistência Popular Mundial]. Lal Salaam!

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese