Nepal: O avanço da guerra popular cria o terreno para uma gigantesca greve geral
10 de Abril de 2006. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

No Nepal, a 6 de Abril comemora-se o início da revolta de 1980 contra a monarquia feudal e a luta de massas de 1990 que forçou a monarquia a aceitar uma democracia parlamentar que vigorou até o actual rei ter dissolvido o parlamento há 14 meses. Este ano, para essa data, a aliança dos sete partidos parlamentares que se opõem ao rei convocou uma bandh de quatro dias, uma greve nacional com paralisação do trabalho, apoiada pelo Partido Comunista do Nepal (Maoista), o qual, a seu pedido, suspendeu as suas operações armadas dentro e ao redor da capital. Foi a vigorosa expansão da guerra popular dirigida pelo PCN(M) que criou o terreno para os parlamentares saírem para as ruas.

Apesar da proibição das manifestações e do recolher obrigatório durante o dia em Katmandu e noutras cidades, milhares de manifestantes ergueram barricadas com pneus em chamas e atiraram pedras para afastar a polícia fortemente armada. As ruas das cidades continuaram a ser um campo de batalha mesmo depois de ter terminado o período dos quatro dias. Pelo menos quatro pessoas foram mortas pelas forças de segurança. Ao mesmo tempo, nos quatro cantos do país, o Exército Popular de Libertação dirigido pelos maoistas atacou bases militares e outras instalações governamentais. No decurso de uma dessas batalhas, as forças revolucionárias derrubaram um helicóptero do Exército Real do Nepal, a primeira vez que isso aconteceu nesta guerra.

Os helicópteros aterrorizam as lutas de libertação em todo o mundo. O ERN tem-nos usado para despejar bombas e como plataformas de tiro contra soldados do EPL e contra gente comum. Em Janeiro deste ano, um ataque aéreo matou o Camarada Sunil, membro do Comité Central do PCN(M), durante uma reunião do partido, em violação do acordo de cessar-fogo em vigor nessa altura. Recentemente, um outro ataque de helicóptero matou várias pessoas que assistiam a uma reunião de massas dirigida pelos maoistas em Thokarpa (distrito de Sindhupalchok), à frente de jornalistas nacionais e internacionais. A mesma aeronave MI-17 voou até Malwanga, sede do distrito de Saralahi, no leste do Nepal, na manhã de 6 de Abril, quando as forças do EPL atacavam uma base militar. Os tiros do EPL puseram-no em chamas, derrubando-o e matando dez oficiais do Exército Real. Num comunicado a enaltecer esse êxito, o Presidente Prachanda do PCN(M) disse que o helicóptero tinham sido derrubado usando “uma combinação de tecnologias modernas e de fabrico caseiro”.

O EPL tomou essa capital distrital na região do Terai oriental (planícies). Todas as instalações governamentais do velho estado foram destruídas e alguns dos funcionários, incluindo oficiais das forças de segurança, foram levados em custódia. Cerca de 125 presos foram libertados da prisão. A maior parte deles eram presos políticos.

Entretanto, o ritmo da luta acelerou em Katmandu e noutras cidades. No primeiro dia da bandh, apesar das rusgas preventivas às casas dos dirigentes da oposição e da prisão antecipada de activistas da oposição, os manifestantes tomaram algumas cidades mais pequenas à volta da capital, como Patan, Bhaktapur e Kirtipur. Cerca de mil pessoas foram presas nesse dia em todo o país. Os manifestantes gritaram que o rei deveria deixar imediatamente o país.

No segundo dia de manifestações, as massas conseguiram libertar alguns dos líderes dos partidos parlamentares mantidos sob custódia policial. A polícia prendeu um líder do Partido do Congresso, mas os manifestantes em Patan conseguiram afastá-lo para longe deles. Patan, Bhaktapur e Kirtipur continuaram sob controlo dos manifestantes. O regime efectuou ataques aéreos às multidões. Um manifestante foi morto e vários outros também foram atingidos na cidade de Pokhara.

Durante o terceiro dia da greve geral, o EPL atacou uma base do Exército Real no distrito de Kapilbastu, na região do Terai central. Cerca de uma dúzia de casernas do exército foram destruídas, bem como fortificações e veículos. Cerca de duas dúzias de elementos do Exército Real foram mortos, e uma grande quantidade de armas capturada. Um comunicado do comité regional do PCN(M) apelidou essa batalha de ensaio para a tomada da capital e do poder estatal central.

No quarto dia, milhares de manifestantes desafiaram o recolher obrigatório entre as 7 da manhã e as 8 da noite e continuaram a manifestar-se. A maior parte dos transportes esteve parada e as lojas mantiveram-se fechadas. A revolta continuou sem decréscimo a 10 de Abril, mesmo após o final dos quatro dias para os quais a bandh tinha sido inicialmente convocada.

O Presidente Prachanda do PCN(M) emitiu um comunicado de apoio a essa greve geral. Explicou que os sete partidos a tinham convocado ao abrigo do segundo memorando de entendimento entre o PCN(M) e a aliança dos sete partidos. Elogiou a grande participação das massas populares, sobretudo devido à opressão medieval que o regime autocrático feudal tem tentado impor. E continuou: “O povo nepalês de todas as classes, nacionalidades, regiões e géneros levantou-se hoje para se libertar da monarquia feudal autocrática. Todo o país veio exigir a implementação do seu desejo de paz e democracia através da eleição de uma assembleia constituinte contra a autocracia. Neste momento histórico decisivo e delicado, o nosso partido tem feito progressos e continuará a avançar, com os necessários ajustes e acordos com os partidos políticos e a sociedade civil, profundamente empenhado na necessidade histórica imediata de estabelecer uma república democrática através da eleição de uma assembleia constituinte. Tendo isto em conta, o nosso partido apoia fortemente a decisão dos sete partidos parlamentares de continuarem as greves políticas gerais até à queda da monarquia autocrática e também anuncia o seu próprio programa.”

Esse programa de luta adoptado pelo PCN(M), ajustado à greve política geral dos partidos parlamentares, inclui a organização de manifestações que desafiem o recolher obrigatório e as proibições; destruir ídolos, estátuas e outros símbolos dos reis e imperadores feudais; remover todas as tabuletas que digam “Governo de Sua Majestade”; promover e apoiar a campanha para o anúncio da república popular do Nepal que está agora a decorrer a nível local; mobilizar as massas para a recusa ao pagamento de impostos ao regime real e acções contra os correctores que ajudem os elementos feudais; e manter todas as estradas sob controlo do EPL.

Referindo-se às tentativas dos EUA e das outras potências para conseguirem que os partidos parlamentares rompam com os maoistas e cheguem a um compromisso com o rei, o Camarada Prachanda declarou: “O óbito da monarquia autocrática feudal e o estabelecimento da república democrática aproximam-se. Uma vez mais, o nosso partido apela fortemente a todas as forças a favor do povo e das largas massas populares, dentro e fora do país, para que conduzam a luta à vitória e permaneçam alerta contra todo o tipo de conspirações perniciosas e de compromissos contra o povo neste momento final.”

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese