Mortes em massa no Mediterrâneo: Um “não-acontecimento”

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 25 de abril de 2016, aworldtowinns.co.uk

Ninguém sabe exatamente quantos refugiados se afogaram num naufrágio algures entre a Líbia e Itália em finais de abril. Os 41 sobreviventes conhecidos, que vaguearam durante dias num pequeno barco antes de serem recolhidos por um avião de transporte disseram que tinham morrido entre 400 e 500 pessoas.

Quando se despenha um avião cheio de europeus ocidentais ou outras pessoas chamadas “brancas”, a comunicação social não fala noutra coisa durante vários dias. Mas estas centenas de mortes de somalis e outros habitantes da África Oriental mal chegaram a ser notícia. Isto acontece não só porque eles nasceram em países onde, segundo alguns olhos ocidentais, as pessoas comuns não têm nenhum direito a esperar ficar vivas, mas ainda mais porque estas mortes são parte de uma vergonhosa situação que todos as potências ocidentais se têm conluiado para provocar.

Em outubro de 2013, um naufrágio semelhante deixou centenas de corpos de adultos e crianças a flutuar nas costas da ilha italiana de Lampedusa. Nessa altura, só os pescadores e outros habitantes locais se preocuparam em tentar salvá-los. Com a sua legitimidade e o funcionamento “normal” da sociedade em jogo, o governo italiano lançou a Mare Nostrum, uma operação naval para salvar pessoas.

Embora muitas pessoas se tenham afogado, durante o ano seguinte cerca de 150 mil foram retiradas da água. Muitos governos europeus consideraram que isso era um problema: a probabilidade de morte tinha de ser aumentada drasticamente para manter os migrantes do lado de fora. O primeiro-ministro britânico David Cameron foi a voz que mais se elevou para pedir publicamente o cancelamento do programa. A Mare Nostrum foi substituída pela Operação Triton, com navios policiais que não estão equipados para salvar e transportar pessoas em segurança. A participação da Itália é chamada “Mare sicuro”, porque o objetivo é manter “segura” a linha costeira europeia em relação aos não-europeus.

Os principais políticos europeus e os seus comparsas da comunicação social fazem barulho sobre como os “traficantes” são responsáveis por estas mortes. Contudo, quando esses traficantes dizem que não têm instalações para salvar ninguém quando os barcos se viram acidentalmente e que de qualquer modo o negócio deles não é salvar pessoas – não é exatamente isso o que a NATO e a União Europeia estão a dizer? E esses traficantes, ao contrário das potências ocidentais, não são responsáveis pelas situações que fazem com que, para populações inteiras, arriscar a morte no mar seja a melhor opção.

As autoridades europeias tiveram de mudar várias vezes de posição em relação a isto e por vezes tentaram salientar os seus valores “humanitários”, para que a indiferença dos estados e do sistema deles pela vida humana não ficasse a nu. Quase exatamente um ano antes desta mais recente tragédia criminosa, depois de 800 pessoas se terem afogado em circunstâncias semelhantes, a Europa também lançou a Operação Sofia que salvou 12 600 pessoas. Quase quatro vezes esse número é o que se crê terem-se afogado desde então. A Amnistia Internacional disse que a Operação Sofia estava “destinada a falhar” porque salvar pessoas não era a missão para a qual foi concebida e está equipada.

Neste momento, não há um único navio governamental no Mediterrâneo especificamente para essa missão. O único navio que o tem feito tem sido o Aquarius, operado pelos Médicos do Mundo e pela SOS Méditerranée. Financiado sobretudo por doações na internet, este antigo navio alemão de patrulha costeira alugado por aquelas ONGs está adaptado para transportar até 500 pessoas, e equipado com uma clínica e pessoal médico. Sem tratamentos de emergência, muitas pessoas encontradas a flutuar no mar irão morrer. Depois dos mais recentes afogamentos, os Médicos Sem Fronteiras, cujos três navios interromperam o trabalho deles em janeiro, retomaram as operações, encontrando e salvando imediatamente centenas de pessoas.

O Aquarius tem estado posicionado imediatamente fora das águas territoriais líbias. É para esta parte do Mediterrâneo e, talvez, do litoral líbio, que a NATO e a UE estão agora a discutir enviar os navios de guerra deles – não para salvarem pessoas, mas as impedirem de passar.