Morreu Rui d'Espiney, um dos primeiros revolucionários influenciados por Mao em Portugal

Rui d'Espiney (Moçambique 1964 - Setúbal 2016) morreu na madrugada de ontem, devido a um enfisema pulmonar que o afetou durante um prolongado período. Foi militante do PCP, que abandonou em 1962 juntamente com outros militantes, entre os quais Francisco Martins Rodrigues e João Pulido Valente. Dos três, era o último ainda vivo. O funeral teve lugar hoje de manhã em Setúbal.

Em 1964, juntamente com aqueles dois camaradas, viria a fundar o Comité Marxista-Leninista Português (CMLP) e a Frente de Ação Popular (FAP), o seu braço armado na luta contra o fascismo e por uma sociedade socialista. Os três camaradas, que estavam então exilados em França e na Argélia, regressaram a Portugal em junho de 1965 para dirigir a ação política e armada. Foram presos pela PIDE poucos meses depois e barbaramente torturados e só voltariam novamente à liberdade a seguir ao 25 de abril de 1974, após uma dura luta pela sua libertação do Forte de Peniche contra o novo poder que se recusava a libertá-los.

Depois do 25 de Abril, viria a participar em várias das organizações marxistas-leninistas que viria a dar origem ao PCP(R) e à UDP, mas posteriormente manteve-se politicamente mais discreto, passando a colaborar com várias associações, nomeadamente em questões de ensino.

Francisco Martins Rodrigues, João Pulido Valente e Rui d'Espiney lideraram uma importante cisão com a visão reformista do PCP em 1962, em particular quanto à posição face à luta de libertação nas colónias, que então se iniciava, e à estratégia de luta contra o fascismo, defendendo uma luta mais ativa e mesmo a luta armada. Viraram-se então para a China, em vésperas de iniciar a Grande Revolução Cultural Proletária, e alinharam ao lado de Mao na luta contra o revisionismo soviético, de que o PCP era um seguidor.

Fundado o CMLP/FAP, decidem regressar a Portugal e iniciam uma intensa atividade de desencadeamento da luta armada. Mas pouco depois Pulido Valente é denunciado por Mário Mateus, um infiltrado da PIDE e também ex-militante do PCP. Descoberto o infiltrado, este é julgado pelos seus camaradas e executado em Belas a 26 de novembro de 1965. Esta morte de um infiltrado da PIDE, uma raridade na resistência ao fascismo, desencadeou uma intensa perseguição aos restantes camaradas. Martins Rodrigues viria a ser preso em janeiro seguinte e d'Espiney em fevereiro. A vingança da PIDE também se revelou na brutalidade da tortura a que foram sujeitos. Apesar da longa prisão e isolamento dos 3 dirigentes comunistas, o passo que tinham dado viria a marcar o início de uma nova época na luta contra o fascismo, com uma nova atitude de luta e a recusa da conciliação e do reformismo que até aí a tinham marcado, e de somos herdeiros.

Uma série de entrevistas a Rui d'Espiney, com depoimentos sobre a sua atividade política, a prisão e a tortura na prisão, estão disponíveis na página Extrema Esquerda.

Enviamos à família e amigos próximos de Rui d'Espiney as nossas condolências.

A Redação da Página Vermelha

29 de abril de 2016