México: Crise política governamental persiste

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 5 de Janeiro de 2015, aworldtowinns.co.uk

Na sua primeira visita de estado ao Estado de Oaxaca e na sua primeira aparição pública no novo ano, o Presidente mexicano Enrique Peña Nieto recebeu umas inesperadas “boas-vindas” dos professores locais que pediram que ele fosse afastado do cargo. O que era suposto ser um reinício da autoridade de Peña, acabou por ser mais um desastre.

A visita de Peña não foi anunciada, para evitar protestos, mas era para ser altamente publicitada depois. O discurso dele era para promover um plano estratégico para transformar a economia do país através de uma maior abertura da sua indústria do petróleo e do gás e outros sectores ao capital estrangeiro, juntamente com uma “reforma” da educação cujo conteúdo é simbolicamente representado pelo ataque e desaparecimento de 43 estudantes da faculdade de treino de professores, jovens rurais que as autoridades acham que devem ser espancados, e não ensinados.

Os professores de Oaxaca saltaram as barreiras que cercavam as instalações industriais onde ele ia falar e enfrentaram a polícia, num esforço para impedir a entrada dele, o que só aconteceu no meio de gás lacrimogéneo e pedras.

Cerca de 150 familiares e estudantes colegas dos jovens desaparecidos de Ayotzinapa viajaram do estado meridional de Guerrero até à capital federal a 24 de Dezembro, véspera de Natal, declarando que não iriam festejar o feriado nem permitir que Peña o fizesse com a família dele até que o governo apresentasse os seus filhos vivos. Uma longa linha de polícias de choque e barricadas impediu-os de entrar na residência presidencial, Los Pinos. De pé sob uma chuva pesada e fria, eles avisaram que os feriados e o ano novo não iriam fazê-los parar a luta pela justiça. Regressaram a Los Pinos a 26 de Dezembro e depois novamente a 31 de Dezembro.

Estes protestos seguiram-se a uma crescente onda desde que os estudantes desapareceram a 26 de Setembro, a qual incluiu a 8 de Novembro manifestações de dezenas de milhares de pessoas na capital e em várias cidades de Guerrero. Uma porta cerimonial do palácio presidencial, originalmente construída para o conquistador espanhol Hernán Cortés, foi incendiada. A 14 de Dezembro houve um furioso ataque massivo a edifícios do governo local na capital do Estado de Guerrero, Chilpancingo.

Em Dezembro emergiram mais provas que ligavam a detenção policial e o subsequente desaparecimento dos estudantes aos mais altos níveis do governo federal. Estes factos vão contra a narrativa oficial, repetida por muita da comunicação social mundial, de que o presidente da câmara da cidade de Iquala teria mandado a polícia dele atacar uma caravana de estudantes que regressavam a Ayotzinapa depois de um protesto, porque teve medo que eles fossem estragar um evento acolhido pela esposa dele, Maria de los Angeles Pineda. Os dois foram presos há alguns meses e ela foi agora acusada de ser o “cérebro” por trás do desaparecimento, com a ajuda dos irmãos dela, alegadamente líderes do cartel de droga Guerreros Unidos, a quem se diz que a polícia entregou os estudantes para serem executados.

Uma fuga de informação de documentos governamentais de uma investigação inicial (depois abandonada) e uma investigação científica revelaram três pontos-chave:

1)  A polícia federal e as autoridades estavam a seguir em tempo real os movimentos dos estudantes nesse dia através de um posto de comando local e coordenaram-se com a polícia na operação contra eles. Dezasseis polícias federais estiveram no local. Segundo a notícia publicada na revista Proceso, as autoridades federais “orquestraram” o ataque.

2)  Os estudantes, que se estavam a preparar para uma viagem à capital para um protesto nacional, chegaram a Iquala mais de uma hora depois de ter terminado o evento municipal. Também foi divulgado que os estudantes não estavam a entrar mas sim a sair da cidade quando os autocarros deles foram parados. Por isso, a fábula oficial sobre os motivos por trás do ataque não têm qualquer sustentabilidade.

3)  Uma equipa de cientistas que analisou o caso contestou a alegação do procurador-geral federal de que era impossível identificar os corpos que se diz serem dos estudantes, nem sequer através do ADN, devido a um incêndio de grandes dimensões. O relatório deles concluiu que, na lixeira onde eles supostamente foram despejados, não há nenhuma prova de um incêndio capaz de uma tal destruição. Isto significa que a questão do que aconteceu aos estudantes ainda está em aberto e que as autoridades estão a esconder a verdade. (Ver “Iguala: la historia no oficial” na Proceso n.os 1989 e 1990, com excertos publicados online a 13 de Dezembro de 2014 e, em inglês, o resumo do jornal britânico The Guardian dos documentos divulgados e do relatório científico, 16 de Dezembro.)

Estes e outros factos não eram totalmente desconhecidos antes; a questão é que se está a desenvolver uma situação política em que um largo sector da sociedade mexicana está a tomar conhecimento de informação que anteriormente pensava ser quase inacreditável devido às implicações radicais de que toda a estrutura do estado e as suas instituições do topo à base têm sangue nas suas mãos.

Aurora Roja (aurora-roja.blogspot.com), a publicação e sítio internet da Organização Comunista Revolucionária (OCR), México, tem situado este acontecimento no contexto de anteriores ataques federalmente conduzidos ou federalmente encobertos contra os estudantes de Ayotzinapa; do encobrimento concertado da responsabilidade pelo ataque por parte dos três principais partidos políticos e das instituições do estado, entre as quais o ministério da justiça e o exército, bem como a presidência; e acima de tudo, da “guerra contra o povo” que está a ser levada a cabo pelo governo, pelas suas forças armadas e forças de segurança e pelos vários cartéis da droga associados às diferentes entidades estatais. Este esforço para impedir a rebelião desencadeou agora a mais poderosa rebelião que o México vê em décadas e uma oportunidade dourada para construir um movimento para fazer uma revolução.

Tal como o Aurora Roja tem demonstrado, a partir das muitas investigações de jornalistas, investigadores de direitos humanos e estudos de organizações da oposição, que esta “guerra contra o povo” tem sido levada a cabo em coordenação com o governo norte-americano e as suas forças armadas. O governo norte-americano tem ameaçado impor sanções ao México devido ao seu fracasso em proteger as tartarugas marítimas em vias de extinção, mas continua a ajudar, a armar e a coordenar com o governo mexicano depois de cerca de 100 mil pessoas terem sido massacradas desde que o anterior presidente desencadeou uma “guerra às drogas” em 2007.

A Casa Branca negou as notícias de que o Presidente norte-americano Barack Obama planeava discutir estes massacres na reunião marcada entre eles em Washington a 6 de Janeiro. Embora um porta-voz tenha reconhecido ter recebido uma carta do Human Rights Watch [Observatório dos Direitos Humanos] sobre a “tortura generalizada” e as extensas “execuções extrajudiciais pelas forças de segurança” sob o governo de Peña, documentando 149 casos de desaparecimentos forçados, disse que qualquer discussão sobre “direitos humanos” entre os dois presidentes seria no contexto da cooperação de segurança, segundo a Proceso (5 de Janeiro). Os EUA forneceram mais de dois mil milhões de dólares para a “guerra às drogas” do México.

O Grupo Internacional de Crise (crisisgroup.org), um think-tank criado para aconselhar os governos norte-americano e europeus, avisa que “o México está a enfrentar uma crise de legitimidade”. Cita sondagens que mostram que a maioria das pessoas tem agora pouco respeito pelo exército, pela polícia, pelos partidos governamentais e pelo ministério da justiça (em ordem decrescente de desrespeito) – e pela “democracia no México”. Este é um sistema, diz o Aurora Roja, em que as eleições são um adorno de “um estado criminoso e ilegítimo” que acontece ser tanto um vassalo como um elo fraco dos governantes dos EUA.