México: Crescentes protestos após o sequestro de 43 estudantes

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 6 de Outubro de 2014, aworldtowinns.co.uk

Estão a aumentar os protestos na cidade de Aytozinapa no estado de Guerrero, no sudoeste do México, após um ataque policial a estudantes de uma escola para professores que deixou seis mortos confirmados e 43 desaparecidos. Foram convocadas greves a nível nacional para 8 de Outubro para exigir que o governo apresente os desaparecidos. Apesar do facto de o Presidente mexicano Enrique Peña Nieto ter enviado as forças de segurança nacionais, um membro de um recém-formado grupo de pais de Aytozinapa declarou: “Não há nenhuma razão para confiar no governo se foi o próprio governo que os sequestrou”.

A escola de Aytozinapa, com 500 estudantes, tal como outras instituições de ensino de professores rurais, é conhecida há décadas como viveiro de oposição ao governo e ao actual estado das coisas no México. A 26 de Setembro, cerca 150 jovens dessa cidade de montanha de 130 mil habitantes dirigiram-se à vizinha cidade industrial de Iguala para fazerem agitação pelas reivindicações estudantis e recolher fundos para viajarem até à Cidade do México para uma participarem numa manifestação de evocação do infame massacre da Praça Tlatelolco em 1968, em que as forças governamentais de segurança assassinaram centenas de estudantes e outros manifestantes na cidade capital do país.

Os estudantes saíram de Iguala para regressarem a Ayotzinapa nessa noite. Os três autocarros em que viajavam foram recebidos com fogo de artilharia policial assim que saíram do terminal. Alguns quilómetros à frente, a polícia e outros homens atacaram novamente os autocarros, cortando a estrada e disparando com espingardas de ataque, forçando os estudantes a descer. Aparentemente, três estudantes foram mortos nesse mesmo local, embora os relatos sejam contraditórios. Outros 43 não mais foram vistos desde então. Testemunhas disseram que os seus colegas foram agarrados, forçados a entrar em camiões e levados na escuridão.

Muitos jovens conseguiram fugir. Quando alguns deles regressaram ao local algumas horas depois com jornalistas locais, foram novamente atacados por homens que dispararam de carrinhas à paisana.

Num outro incidente nessa noite, homens mascarados dispararam sobre um autocarro que levava uma jovem equipa de futebol local, aparentemente pensando que os estudantes estavam a bordo, matando duas pessoas e uma mulher num táxi que estava a passar.

As autoridades locais tentaram alegar que os estudantes tinham “sequestrado” os autocarros e que a polícia estava simplesmente a tentar parar os veículos roubados. (Um sobrevivente disse mais tarde que os motoristas dos autocarros tinham concordado em levá-los a casa.) Eles alegaram que os estudantes desaparecidos andavam escondidos para evitar a prisão. Tiveram de ser os estudantes e as suas famílias a compilar uma lista de desaparecidos.

A “investigação” oficial do incidente foi tão negligente que os familiares dos desaparecidos começaram à procura de possíveis testemunhas. Eles tomaram uma rádio local para difundirem um apelo a qualquer pessoa que tivesse informações.

A 3 de Outubro, estudantes e familiares organizaram uma marcha nocturna à luz de tochas em Chilpancingo, a capital do estado, para exigirem que os seus camaradas fossem devolvidos vivos. A eles juntaram-se estudantes de outras escolas do magistério da região. No dia seguinte, centenas de pessoas protestaram frente à residência do governador e enfrentaram a polícia quando lhes foi dito que não seriam autorizados a visitar os locais suspeitos de inumação para identificarem os corpos. A 5 de Outubro, quando as autoridades confirmaram que tinham encontrado valas comuns, cerca de 2000 estudantes e familiares bloquearam uma estrada principal de Chilpancingo com uma enorme faixa que dizia: “Vivos os levaram, vivos os queremos”. Também foram bloqueadas ruas em Acapulco, a maior cidade da região.

As autoridades estaduais anunciaram a descoberta de pelo menos 28 corpos queimados enterrados nas colinas dos arredores de Iguala. A um jornalista disseram que os mortos foram aparentemente levados para o final de uma estrada de terra batida, obrigados a caminhar por uma ladeira acima e abatidos, e os corpos deles foram queimados e enterrados em várias valas. Mas a outras pessoas da comunicação social disseram que as seis valas comuns podiam ter sido o resultado de um ou mais incidentes antigos e sem relação, envolvendo cartéis da droga. Responsáveis têm dito que pode demorar semanas ou meses a identificar os cadáveres. Uma equipa forense veio da Argentina, especialista em identificar cadáveres de milhares de desaparecidos aí durante a repressão política dos anos 1970 e 1980, embora pelo menos até agora as forças armadas mexicanas tenham mantido as valas comuns sob seu controlo exclusivo.

Até agora, 37 familiares já forneceram amostras de ADN, o que teve o efeito de minar as tentativas oficiais de insinuar que as identidades dos mortos e outros factos podem nunca vir a ser conhecidos. Num país atormentado por assassinatos em massa não resolvidos, com 13 mil pessoas actualmente na lista oficial de desaparecidos, as autoridades parecem não ter tido dificuldade em semear a confusão.

As autoridades estaduais começaram por culpar o governo local e disseram que muitos polícias estão na folha de pagamento do cartel da droga Guerreros Unidos, pelo que “eles não eram verdadeiros polícias”. Cerca de trinta polícias e alegados membros do cartel foram presos. Os estudantes têm dito à comunicação social que, pelo contrário, foram os responsáveis locais e a polícia que recorreram à ajuda de “sicários” (assassinos contratados) para acabarem com um desafio político.

A polícia federal e outras forças de segurança e o exército foram enviados para tomarem Iguala, cujos presidente da câmara e chefe da polícia convenientemente desapareceram de vista quando foi emitido um mandado para a sua prisão. Em vez de esta presença federal ter sido tomada como sinal tranquilizador, muitas pessoas lembraram-se do massacre de 21 jovens pelo exército em Junho passado em Tlatlayo, no estado do México. Nessa altura, o Secretário da Defesa nacional, responsável pelas forças armadas, alegou que os soldados se tinham defendido de um ataque de um cartel da droga, mas provas posteriores indicaram que os jovens, de uma zona muito pobre, se tinham rendido ao exército e que depois tinham sido sumariamente executados.

Uma coluna de opinião no diário nacional La Jornada chamou ao assassinato e desaparecimento dos estudantes de Atozoyinapa um “crime de estado” – “uma repressão levada a cabo por um governo que colocou a violência do crime organizado ao seu serviço”.

Apesar de todas as arengas dos governos estadual e federal mexicano para tentarem limitar a culpa aos responsáveis locais e à polícia corrupta, há muita coisa que contradiz esta alegação, incluindo a história de um outro ataque aos estudantes de Aytozinapa em Dezembro de 2011. Um artigo de então no Aurora Roja, a publicação e página internet da Organização Comunista Revolucionária do México (OCR), explicava a responsabilidade do governador do estado, um representante do partido PRD que continua a governar o estado de Guerrero, e do próprio governo federal.

Nesse incidente, centenas de estudantes tinham-se juntado a uma organização camponesa e a um grupo mixteca (uma etnia nativa) para bloquear uma estrada, exigindo que o governador Angel Aguirre satisfizesse as reivindicações dos estudantes, incluindo requisitos de entrada mais simples, melhores instalações alimentares, melhor comida e empregos após a licenciatura. Dois deles foram mortos, atingidos na cabeça, e outros ficaram feridos. As forças de segurança sequestraram um estudante e forçaram-no a disparar uma AK-47 para forjar provas de que estudantes armados tinham atacado a polícia. O governador denunciou os manifestantes como “pseudo-estudantes” com reivindicações irrazoáveis. Muitas pessoas pressentiram que Aguirre esteve por trás do ataque de 2011. Ainda no governo, ele está agora a acusar a polícia de Iguala e o presidente da câmara por este crime mais recente.

A artigo do Aurora Roja refuta o argumento do governador de que não há necessidade de ensino de professores porque não há necessidade de mais professores. “Há falta de professores em muitas comunidades rurais, sobretudo em comunidades indígenas. (...) O governo culpa a demografia quando fecha escolas, mas se a população está a diminuir é porque o grande capital está a afastar as pessoas das zonas rurais, apropriando-se da água, dos bosques, do ouro e das terras aráveis, saqueando os camponeses e deixando-os com a escolha entre imigrarem ou passarem fome, ou simplesmente enviando a polícia e os paramilitares para dispararem sobre eles.”

“’Nem mais um professor’ é a posição assumida a todos os níveis de governo, não porque não haja crianças que precisem deles, mas porque mais professores não são uma prioridade nos novos esquemas de ensino cozinhados por instituições imperialistas como a OCDE e o Banco Mundial, (...) resultando num ataque geral ao ensino público, criando mais desigualdade. (...)”

“O governo quer eliminar [as escolas rurais para professores instaladas no México após décadas de luta] por várias razões: Porque essas instituições não servem os interesses do sistema deles e por causa do activismo social nessas escolas que eles rotulam de ‘criadouros de guerrilhas’.” Vários proeminentes líderes guerrilheiros dos anos 1970 saíram de Aytozinapa e de instituições rurais de ensino semelhantes e o governo actual tem frequentemente enfrentado grupos organizados de professores.

Em suma, agora e desde há anos, os estudantes de Aytozinapa e escolas semelhantes têm sido um grande espinho político para o governador de Guerrero e o governo federal.

A OCR juntou-se a outros grupos para lançar uma “Rede Nacional de Resistência – Parar a Guerra Contra o Povo” e organizar uma “Semana de Resistência” de 20 a 26 de Outubro. A Convocatória para os eventos dessa semana denuncia “os massacres cometidos pelos guardas armados deste sistema capitalista cujos chefes políticos e militares estão conluiados com os chefes dos cartéis de narcóticos numa guerra que é simultaneamente entre diferentes sectores do estado e dos capitalistas e os seus respectivos aliados senhores da droga e acima de tudo contra o povo. Uma guerra ao serviço de um sistema explorador e ilegítimo, armado e às ordens dos governantes dos EUA, cujo governo e forcas armadas estão profundamente envolvidos nestas criminosas estruturas estatais e não-estatais. (Ver aurora-roja.blogspot.com, em espanhol)